Vitória de fisioterapeuta vira livro em três idiomas.

Vitória de fisioterapeuta de Nova Odessa contra câncer raro descoberto na gestação vira livro em três idiomas. Casal também passou a ministrar palestras sobre a história; lançamento de “Na Alegria e Na Dor” ocorreu na quinta-feira, em Santa Bárbara d’Oeste

Link para comprar o livro:
http://www.eviseu.com/pt/livros/1105/na-alegria-e-na-dor-pre-venda

Quando descobriram que estavam grávidos da filha Amanda, o instrutor de Automação Carlos David Franciscon, de 36 anos, e a fisioterapeuta Andrea Ferreira de Araújo Franciscon, de 33, de Nova Odessa (SP), experimentaram uma mistura de sensações. A irmã do pequeno Lucas havia sido concebida sem a necessidade de um tratamento de fertilização, como foi necessário para que o primeiro filho nascesse.

No entanto, durante um exame ultrassom para verificar as condições da bebê, o susto: o médico detectou que havia algo mais ali, além dela. Era como um nódulo, um sisto desconhecido. Depois de exames, ficou constatado: Andrea tinha um Sarcoma de Ewing, tipo raro de câncer que apenas venceu após cerca de um ano e meio de tratamento, iniciado depois do nascimento da filha, que veio ao mundo saudável.

Realizado por profissionais da região, o tratamento teve auxílio de médicos do maior instituto de combate a esse tipo de doença do mundo, o M.D. Anderson Cancer Center, localizado no Texas, nos Estados Unidos.

A história de superação se tornou um livro que ganhou versões em três idiomas e tem um nome emblemático: “Na Alegria e Na Dor”. A obra foi lançada na última quinta-feira (14), na Livraria Nobel, no Tivoli Shopping, em Santa Bárbara d’Oeste. Além disso, o casal passou a ministrar palestras em igrejas, escolas e outros locais para falar do assunto.

“Eu decidi que ‘na alegria e na dor’ não seria apenas um voto clichê de casamento, mas sim o meu lema de vida, o qual levaria muito mais a sério a partir de então”, conta Carlos em trecho da publicação.

Ele, que jamais tinha escrito um livro, viu a ideia nascer ao criar um diário no bloco de notas no celular, no qual escrevia sobre a rotina do tratamento, durante viagens entre um país e outro a serviço.

Andrea e Amanda, durante o tratamento da fisioterapeuta: postura serena surpreendeu oncologista — Foto: Arquivo Pessoal

Andrea e Amanda, durante o tratamento da fisioterapeuta: postura serena surpreendeu oncologista — Foto: Arquivo Pessoal

E por que falar de um momento tão doloroso ao invés de deixá-lo esquecido no passado? “Quando ele falou que escreveu o livro, fiquei meio assustada, porque eu achei que ia acabar mexendo numa ferida que tinha cicatrizado há pouquíssimo tempo. Mas, quando eu li o livro fui a primeira leitora dele, ajudei em vários pontos -, eu fiquei muito emocionada. Me senti mais feliz de saber que eu consegui passar por aquilo e que estava bem para poder ver meus filhos crescerem, sendo que a perspectiva inicial era muito baixa disso acontecer”, conta Andrea.

Carlos, que também é bacharel em Teologia, diz que dois dos principais motivos de decidir lançar o livro são mostrar que o sofrimento faz parte da vida e é preciso aceitá-lo e também o desejo de levar consolo a outras pessoas que estão passando por momentos parecidos.

Ele defende que não existe religião ou quaisquer tipos de “palavras mágicas” que deixem alguém imune da dor. E cita um dos mais famosos Salmos, o 23, para complementar a ideia:

“Ele [Davi] diz: ‘Ainda que eu passe pelo vale da sombra da morte…’. E, nesse primeiro ponto, eu comento: o interessante é que o salmista não está pedindo para que seja evitado o vale da sombra da morte, mas comentando que, ainda que ele passe pelo vale, ele não temerá porque Deus está com ele”, analisa.

Sobre tal aceitação, uma conversa com o oncologista Rodrigo Moraes, que tratou Andrea, ficou bem gravado na memória de Carlos:

“Ele [oncologista] nos perguntou: ‘vocês aceitam essa doença?’ Eu fiquei meio confuso, mas ele falou: ‘Desculpa, eu faço essa pergunta porque, infelizmente, tem pacientes que não aceitam que tem a doença e abandonam o tratamento’. E eu comecei a pegar uma certa amizade com o Dr. Rodrigo e para mim fez muito sentido aquelas palavras”, recorda.

Atualmente, os filhos do casal, Lucas e Amanda, têm 7 e 2 anos, respectivamente — Foto: Arquivo Pessoal

Atualmente, os filhos do casal, Lucas e Amanda, têm 7 e 2 anos, respectivamente — Foto: Arquivo Pessoal

Moraes elogia a postura com a qual o casal tratou toda a situação e lembra-se do primeiro atendimento a Andrea. “Examinei ela, conversei a respeito do que estava acontecendo e como seria o tratamento e conversei à parte com o marido, o Carlos Franciscon, e me chamou a atenção a serenidade, objetividade com que estavam lidando com toda aquela situação, mesmo entendendo toda a gravidade. Acho que tudo isso facilitou bastante o enfrentar de todo esse problema grave”, avalia.

Ele explica que, por ser um câncer raro, que acometeu uma mulher jovem e que tinha acabado de ter uma filha, buscou e recebeu auxílio de sete profissionais do M.D. Anderson Cancer Center, referência em oncologia no mundo. Eles deram orientações sobre protocolos e como proceder com a quimioterapia.

Passar adiante

Superado o problema pessoal e sendo destacada a forma madura com a qual enfrentaram todo o tratamento, veio a decisão de levar consolo e mais detalhes sobre o tema a outras pessoas, por meio do livro e das palestras.

“Às vezes, a própria forma como pedimos a consolação é egoísta. Mas, na verdade, quando você amadurece essa questão do sofrimento, você entende que, poxa, eu tenho recebido a consolação, apesar do sofrimento, e que coisa gratificante é fazer com que essa consolação possa ajudar outras pessoas”, diz Carlos.

Carlos durante palestra: encontros junto à mulher são realizados em diferentes locais da região  — Foto: Arquivo Pessoal

Carlos durante palestra: encontros junto à mulher são realizados em diferentes locais da região — Foto: Arquivo Pessoal

Outro ponto que recebe destaque no livro é a desmistificação do tratamento do câncer. Há momentos em que o autor conta como se assustou com a primeira vez que Andrea recebeu uma dose de morfina, um medicamento que até então ele associava a filmes de guerra e o atendimento a soldados feridos. Ou quando cita que, no cinema, a quimioterapia é tratada como algo que só faz a pessoa vomitar e sofrer muito, e que não é “tão horrível quanto se pinta por aí”.

Por outro lado, Carlos busca transparência sobre os obstáculos enfrentados durante e após o tratamento. “A Andrea tem muita dificuldade hoje ainda, por conta da cirurgia e de tudo que afetou o câncer, ela se tornou uma paciente renal e tem que fazer sessões constantes de hemodiálise, uso de bolsas de colostomia e urostomia. Então, a gente relata isso no livro. Muita gente acaba escondendo doença, mas a gente acha que há uma missão especial de você passar esperança para as pessoas, que dá para viver com essa limitações”, explica.

As versões

Inicialmente, Carlos lançou o livro de forma independente na Amazon, em formato de e-book. No entanto, enviou a obra para editoras que pudessem se interessar em publicá-la. Logo, duas se interessaram e ele optou pela Editora Viseu. A compra pode ser realizada online ou na Livraria Nobel do Tivoli Shopping.

Por ter muitos amigos no exterior, devido às viagens que realiza, Carlos buscou ajuda de duas amigas para traduções em línguas inglesa e espanhola, o que resultou nas versões “In Joy And Sorrow” e “En La Alegria e El Dolor”, disponíveis em formato virtual na Amazon.

Uma das maiores alegrias após a cura é poder ver os filhos crescerem, celebra Andrea — Foto: Arquivo Pessoal

Uma das maiores alegrias após a cura é poder ver os filhos crescerem, celebra Andrea — Foto: Arquivo Pessoal

O médico de Andrea já sentiu boa repercussão do livro entre pacientes, acompanhantes e funcionários dos lugares onde trabalha. “Eu comprei um lote de livros e deixei nas recepções e os livros desapareceram. O pessoal leva pra casa, lê, e depois tem dado um feedback muito bom. Todo mundo tem gostado bastante e achado a história incrível”, conta Moraes.

Palestras

Outra forma de “passar adiante” foi a decisão de Carlos e Andrea de realizar palestras pela região falando sobre o tema. Os eventos têm ocorrido em diferentes locais, como igreja, escola, setor de oncologia e biblioteca.

“Quanto mais a gente fala sobre o assunto, parece que mais fácil ele fica. E quando você passa por ele, você sabe o quanto é difícil o que você passou, mas ao mesmo tempo você sabe que você vai conseguir motivar e dar força às pessoas que estão passando por aquele momento difícil. E quando a gente fala e percebe que a outra pessoa está se sentindo melhor, a gente automaticamente se sente melhor e aprende com aquilo também”, reflete Andrea.

Para ela, também foi uma forma de renovar a forma como enxerga a vida e o amor que tem por sua família.

“Me ajudou a ter uma clareza maior das coisas. Saber o significado de coisas que às vezes não tinham valor e passaram a ter um valor maior, apreciar mais tudo que está à minha volta, principalmente poder acordar, respirar e saber que vou ter um dia bom, porque vai ser mais um dia que pude acordar, respirar e ver meus filhos crescerem”, celebra.

Fonte: https://g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2019/11/17/vitoria-de-fisioterapeuta-de-nova-odessa-contra-cancer-raro-descoberto-na-gestacao-vira-livro-em-tres-idiomas.ghtml

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