Vertigens tonteiras desequilíbrio

O corpo humano dispõe de inúmeros captadores sensoriais.
O cérebro é capaz de receber milhares de informações, analisá-las e efetuá-las e, em tempo real, dar respostas motoras adaptadas.
Daí a importância da fisiologia do equilíbrio, que tem por base a regulação global e inconsciente da postura, uma atividade que depende de referenciais de espaço multissensoriais, formados pelos sistemas egocêntrico (somestesia), alocêntrico (visão), geocêntrico (vestibular) e cognitivo.

O equilíbrio possui como fonte de referência o modelo interno (representação do corpo no espaço), sendo 50% nato e o restante adquirido por meio da aprendizagem (cognotivista).
Essa função é controlada pelo Sistema Nervoso Central – SNC, a partir da integração central, por mecanismo de retroação (feedback) e de proação (feedforward) e é dotada de mecanismos de compensação.

A manutenção postural implica duas condições imperativas:
– A estabilização da imagem na retina (reflexo vestíbulo ocular);
– A estabilização do centro de massa no polígono de sustentação (reflexo vestíbulo espinhal).

Mas o cérebro pode ser enganado por uma interpretação errônea das informações provenientes dos órgãos sensoriais, tomando como verdade uma ilusão. A vertigem rotatória é uma perfeita ilustração de um conflito sensorial que leva à ilusão de movimento. Outras patologias ligadas a essa interpretação equivocada do cérebro são o desequilíbrio, a tonteira, a instabilidade, a cinetose e a queda, todas decorrentes também de uma alteração cognitiva responsável pela desorientação espacial.

O caráter multissensorial do equilíbrio é que faz a riqueza semiológica dos sinais e sintomas induzidos pelo disfuncionamento da orelha interna. Trata-se de uma alteração aguda ou progressiva, profunda ou superficial, uni ou bilateral, atingindo ou não o canal lateral, de acordo com a sensibilidade individual e, em especial, o vestíbulo vegetativo.

Como avaliar

A posturografia clínica estática e dinâmica é o estudo de uma função neural e da manutenção postural ativa. Por meio desse exame, é possível medir o índice de capacidade pósturo-cinética (ICPC) da pessoa e, a partir daí, compreender as estratégias selecionadas por seu cérebro. É possível medir, também, o estado dos receptores periféricos, dos processos integradores centrais (piramidal, extrapiramidal e medular) e dos mecanismos de compensação pós lesão.

No ramo dinâmico da vestibulometria, o que interessa é a relação entre os movimentos da cabeça e dos olhos.

O exame sempre começa por um estudo dos movimentos oculares voluntários (sacadas e perseguição, nistágmos laterais-gaze e espontâneos).
Os canais semicirculares (laterais) são os mais beneficiados nos testes baseados nas respostas oculomotoras. Já o sistema otolítico é pesquisado na eletrofisiologia e não no estudo dos movimentos oculares.

A evolução dos equipamentos é constante, estando disponível hoje, no mercado, os seguintes exames:

• VNS – Videonistagmoscopia
• VNG – Videonistagmosgrafia
• V-HIT – Video Head Impulse Test (alta frequência)
• NIV – Estimulador para identificação do déficit unilateral (alta frequência)
• HST – Head Shaking Test – Avalia o integrador central, nistágmo latente (alta frequência)
• VVS – Vertical Visual Subjective Dinamic – Objetiva as síndromes de dependência, exclui déficits otolíticos
visuais unilaterais
• VEMPs – Estimulação acústica de alto nível para distinguir o sáculo-cervical e o utrículo-ocular (eletrofisiologia)

O SNC é dotado de compensação, se existe alguma falha em um dos sistemas logo ocorre o processo de substituição (vicariância). Nesse caso, um sistema terá um peso maior de utilização, tornando o outro negligente, hipofuncionante e conflitante. A REABILITAÇÃO VESTIBULAR tem como objetivo inicial avaliar as alterações das três entradas sensoriais (visual, vestibular, proprioceptiva) e assim poder tratar cada uma delas separadamente.

Essas anomalias (sintomas) ocasionam um viés e podem ser corrigidas pela reeducação vestibular (neuro sensorial), como no caso de assimetria entre os dois labirintos. Nesse caso, utiliza-se a cadeira giratória, um meio terapêutico capaz de reduzir a constante de tempo do lado sadio. A estimulação rotatória é fisiológica e coloca em ação os fenômenos que o cérebro gostaria de realizar, mas não consegue fazê-lo sem essa ajuda. A simetrização é primordial para a estabilização do olho (RVO).

A técnica de Alain Semont é baseada em adaptações dos reflexos (aleatórios e subcorticais) e não em exercícios premeditados do comando cortical. Para engajar um reflexo por estímulos externos são necessários materiais adaptados, ferramentas indispensáveis à reaprendizagem cortical.

Importância do ambiente

Após a simetrização, que permite a estabilização do RVO, é hora de agir na relação do paciente com o ambiente. A organização sensorial do paciente pode estar perturbada pelo movimento da cena visual. Nesse momento utiliza-se de um planetário gerador de estimulação optocinética, que dispõe de pontos luminosos em um campo visual total. A repetição da estimulação reduz o desvio postural e normaliza a velocidade de fase lenta do nistágmo optocinético. Essa técnica reduz a utilização da entrada visual, beneficiando dependentes visuais, portadores de cinetose e pacientes com tonteiras, pois aumenta a utilização das outras entradas – vestibular e propioceptiva.

O movimento de uma plataforma e do ambiente visual, animados por movimentos aleatórios em velocidade e amplitude, possibilita a utilização da velocidade de deslocamento do centro de massa, reproduzindo a situação do andar em superfícies de diferentes densidades e dificuldades. Com essa repetição, o cérebro cria novas estratégias posturais, possibilitando mais segurança e equilíbrio (neuromotora) para evitar as tão temidas quedas.

A rapidez com que se começa a REABILITAÇÃO VESTIBULAR é importante para a qualidade da recuperação. Vale ressaltar que não existe auto-reeducação e que a sessão é adaptada a cada paciente. Além disso, é de pouca importância trabalhar propriocepção, se o RVO não for estabilizado, pois o equilíbrio é descendente.
A manobra liberatória de Alain Semont é um ato terapêutico e não uma reabilitação vestibular.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.