Uma fisioterapeuta cria um centro de reabilitação após tragédia em Angra

Fonte: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2014/05/uma-fisioterapeuta-cria-um-bcentro-de-reabilitacaob-apos-tragedia-em-angra.html

No Réveillon de 2009, a  fisioterapeuta paulista Joyce de Mello Yamato, então com 26 anos, estava animada com a perspectiva de, no ano seguinte, concretizar um antigo sonho: criar um centro de reabilitação para quem teve problemas no cérebro e ficou com limitações de movimento, fala e raciocínio. Os planos foram interrompidos pelos deslizamentos de terra causados pela chuva, que mataram 53 pessoas em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. A tragédia tirou a vida de Joyce, mas não soterrou seu sonho.  Seis meses depois de sua morte, uma de suas melhores amigas, a também fisioterapeuta Carmen Leme, de 50 anos, criou o Centro de Reabilitação Neurológica Joyce de Mello Yamato. Ele fica na cidade de Mogi das Cruzes, a 50 quilômetros de São Paulo. “Nosso atendimento é global: estamos preocupados com a saúde física e psicológica dos pacientes”, diz Carmen. “Queremos que eles aprendam a executar as tarefas diárias, mesmo com suas limitações, e tenham a vida mais normal possível.”

Nos três anos e meio de funcionamento, o centro já atendeu cerca de 700 pacientes. Ele oferece gratuitamente sessões de fisioterapia, fonoaudiologia e psicologia, além de massagens terapêuticas, pilates e acupuntura. O atendimento é fundamental para pacientes que não têm condições financeiras de arcar com o tratamento e que teriam de esperar por vagas no sistema público de saúde. A demora pode causar deformidades no corpo e tornar a rea­bilitação mais difícil.

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“É comum demorar – ou nem conseguir – atendimento em grandes instituições para deficientes”, diz a dona de casa Maria Eugênia Fraissat. Ela conhece de perto a dificuldade de conseguir tratamento gratuito. É mãe de Henri Fraissat Sobrinho, de 8 anos. Ele nasceu com uma doença que causa alterações na estrutura do cérebro e acarreta dificuldades de fala, movimentação e raciocínio, a lisencefalia. Há quase dois anos, Henri começou a ser atendido no centro, e os resultados são visíveis. “Por causa dos exercícios de fisioterapia, a musculatura de Henri está mais flexível”, diz Maria Eugênia. “É inacreditável a diferença que o tratamento pode fazer na vida de um paciente. As meninas que trabalham na instituição são guerreiras.”

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O centro de reabilitação luta contra a falta de dinheiro para manter os atendimentos gratuitos. Por isso, há triagem dos pacientes. Quem tem condições de pagar um tratamento não é escolhido. A equipe é enxuta. São oito funcionários, entre três fisioterapeutas, duas psicólogas, uma fonoaudióloga, uma auxiliar administrativa e uma recepcionista. Só Carmen e uma das fisioterapeutas são voluntárias. Os demais profissionais recebem pagamento. Atual­mente, o centro tem três fontes de renda. A primeira é uma verba da prefeitura de Mogi das Cruzes, repassada anualmente a associações. A segunda são eventos para arrecadar dinheiro. São três ao longo do ano: o dia do yakisoba, o almoço de massas e a feijoada. Em alguns desses eventos, empresas doam os ingredientes das refeições, depois vendidas. A terceira fonte de renda do centro são recursos distribuídos por empresas para associações beneficentes. “A maior dificuldade real­mente é a falta de dinheiro”, afirma Carmen. “A burocracia para legalizar a instituição e montar o estatuto também atrapalha.”

As dificuldades não impedem Carmen de sonhar com planos ainda mais ambiciosos. Ela planeja ter um imóvel próprio para abrigar o centro e não ter mais de pagar aluguel. Na futura sede, Carmen quer uma piscina, recurso importante para que os pacientes possam fazer exercícios dentro da água. “Não vai ser fácil, teremos de correr muito atrás de verbas”, diz Carmen. “Todo o esforço vale a pena quando vemos o progresso dos pacientes e penso que o sonho da Joyce saiu do papel.”