Um novo teste capaz de detectar síndromes cromossômicas bem no início da gestação reacende a discussão sobre o direito à interrupção da gravidez.

Fonte: http://estilo.br.msn.com

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A aprovação do uso no Brasil de um moderno exame de sangue capaz de detectar síndromes cromossômicas na gestação, como as síndromes de Down, Edwards, Patau, Turner, Klinefelter e triplo X, reacende uma velha discussão que permeia totalmente a maternidade: o aborto.  Ao descobrir a anomalia cromossômica, a grávida teria ou não o direito de interromper a gestação? A lei brasileira permite o aborto somente nos casos de anencefalia, violência sexual ou risco de vida para a gestante. Mas há casos de pais que questionam o direito judicial à interrupção da gravidez em síndromes que são praticamente incompatíveis com a vida, como o caso da Edwards e a de Patau. O novo exame será um aliado do pré-natal ou o vilão da história?

Com esse tipo de teste de sangue, já aplicado na Europa e nos EUA, agestante teria condições de detectar problemas cromossômicos no feto já a partir da nona semana de gravidez – hoje isso normalmente é feito no quarto mês da gestação pela coleta do líquido amniótico ou biópsia do cordão umbilical (vilo corial), ambos exames invasivos e que trazem um risco de 1% de abortamento, de acordo com dados da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana. Ou seja, do ponto de vista científico, o novo exame de sangue, que será comercializado no país a partir do próximo mês, é um avanço. Principalmente porque dispensaria a realização de biópsias de risco: somente as gestantes que tivessem positivo para o exame de sangue seriam submetidas à coleta do líquido e placenta, para confirmação do diagnóstico.

Contudo, nos países onde já existe esse teste de sangue que detecta síndromes cromossômicas houve uma grande preocupação inicial da sociedade civil a respeito do aumento no número de abortamentos. No Brasil, onde o aborto é proibido por lei, mas estima-se que 1 milhão de mulheres o pratiquem por ano, a questão é semelhante. Já tem muita gente se posicionando contra o exame, exatamente por acreditar que ele estimule o abortamento. Para trazer a questão mais pra perto, pense em uma mulher de 40 anos que não completou dois meses de gravidez, com risco de anomalia genética e uma possibilidade clínica pouco invasiva de detectar uma anomalia genética – esse é o quadro. Com esse exame, essa grávida tem a chance de fazer o teste sem que seja preciso furar sua barriga nem fazer uma biópsia desnecessária. O próximo passo é o que leva para a polêmica que nunca foi democraticamente discutida no país: o direito ao aborto.

O assunto é sério, delicado, e merece muita reflexão. Na minha opinião, reflexão que até agora vem sendo empurrando com a barriga, exatamente porque infere em aspectos não só clínicos, mas políticos e religiosos. Discutir o aborto na sociedade eminentemente cristã é um contrasenso, pra dizer o mínimo. Contudo, ele é uma realidade social e que tira a vida de centenas de mulheres por ano no Brasil. Nós não estamos nem engatinhando nesse debate, que é fundamental para a saúde pública do país – prova disso é que a chegada de um exame como esse levanta a polêmica.

A princípio, a comunidade médica tende a olhar com bons olhos para o novo teste de sangue, principalmente para a agenda dopré-natal de alto risco, entre grávidas acima de 38 anos. O fato de ser realizado até a nona semana de gestação e não ser invasivo também contribui, pois diminui riscos de complicações na gravidez.  São fatos concretos do ponto de vista clínico que justificam a existência do teste. Contudo, sua oferta também liga-se a questões morais bem mais amplas – essas questões, sim, que exigem a mobilização do Congresso para adiscussão com a sociedade, apoiada por um conselho de bioética ativo que esclareça à população todos os pontos de vista envolvidos: políticos, médicos e religiosos. Sem esse debate, a realidade para a maternidade no Brasil continuará confinada em clínicas clandestinas, onde não há valor ético, moral ou cristão, apenas morte.

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