Um concerto para pianista, orquestra e fisioterapeuta

Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura

RIO — O pedido veio há um ano do pianista Jean Louis Steuerman, diretor da Sala Cecília Meireles. Ele queria que a colega Linda Bustani fizesse naquele local a estreia carioca do concerto para piano nº 4, do russo Sergei Prokofiev, composto em 1931 para o austríaco Paul Wittgenstein, que perdera o braço direito na Primeira Guerra Mundial. Linda tinha a partitura em casa e aceitou a missão. No entanto, logo no início dos estudos, começou a sentir fortes dores lombares. Descobriu que eram causadas pelos movimentos do concerto. Não as quatro partes nas quais ele se divide, mas os movimentos anatômicos mesmo.

— O concerto vai da nota mais grave à mais aguda do piano. E, para alcançar as agudas, eu preciso jogar meu corpo com frequência para o lado direito do instrumento, pois uso apenas a mão esquerda. Assisti a um vídeo de um pianista russo que agarrava o piano com a mão direita toda vez que tocava notas muito agudas. Ora, isso é trambique! — comenta, aos risos, Linda, que estreia a obra nesta sexta e a repete no sábado, sempre às 20h, junto com a Orquestra Petrobras Sinfônica. — O intérprete precisa agir como se não tivesse o braço direito. Eu contratei um fisioterapeuta, que me passou exercícios para a lombar. Além disso, desenvolvi estratégias como usar o pé esquerdo nos pedais e o direito para dar sustentação. É difícil, porque não tenho a mesma habilidade com o pé esquerdo. Em alguns momentos, eu prendo esse pé atrás do banco para ter equilíbrio e me inclinar bastante. É um treinamento digno de Paralimpíada da música.

Além do desafio anatômico, agravado pelo virtuosismo do concerto, há a questão da interação com a orquestra. Linda conta que pediu ao regente Carlos Prazeres que reduzisse o volumoso som do conjunto até o ponto em que pudesse ouvi-la com clareza.

— É uma orquestra inteira contra uma mão! — resume ela. — Estou com 65 anos e toco há 60. Esse concerto foi a coisa mais difícil que já estudei. O próprio Wittgenstein, a quem a obra foi dedicada, reclamou com o compositor que não conseguia tocá-lo! Recentemente, perguntei ao Jean Louis (Steuerman) se ele já o tocou. Ele respondeu, com humor: “claro que não! Eu não tenho técnica para isso!”.

Linda, que concilia sua carreira solo com o recém-criado quarteto de cordas e piano Lindarte, fala da idade com orgulho:

— Quando um pianista passa dos 60, muitos maestros acham que ele está com o pé na cova. Além do mais, costumam pedir a pianistas mulheres que toquem principalmente Mozart ou Chopin. Eu sempre tive um repertório pesado, como o concerto de Schumann, o 1º de Brahms e o 3º de Prokofiev. Ainda consigo dar conta de novos desafios, como foi o 4º de Prokofiev. Muitos jovens não encarariam um concerto como esse, que exige mais do que técnica de dedos. Exige uma vivência. Estou com 65 anos e aí nas paradas!

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