TRATAMENTO FISIOTERAPÊUTICO DA INCONTINÊNCIA URINÁRIA POR INSTABILIDADE VESICAL: REVISÃO DE LITERATURA

PHYSIOTHERAPY IN THE TREATMENT OF THE URINARY INCONTINENCE FOR DETRUSOR INSTABILITY : LITERATURE REVISION

Lívia Paraguai Cunha1, Cristiane Serradourada2

1 -Graduação em Fisioterapia pela Universidade Católica do Salvador – BA
2 -Graduação em Fisioterapia pelo Centro Universitário do Triângulo – MG
-Pós-graduação em Fisioterapia Respiratória pela UNB – DF
-Formação em técnicas de reeducação Perineal e disfunções anoretais
-Professora, supervisora do estágio de Fisioterapia Aplicada à Uroginecologia da Universidade Católica do Salvador – BA
-Professora da disciplina de Fisioterapia aplicada a Uroginecologia – obstetricia da Faculdade de Ciência e tecnologia – BA
-Professora da disciplina de Fisioterapia aplicada a Neonatologia e Pediatria da Faculdade de Ciência e tecnologia – BA
-Fisioterapeuta do Hospital Geral Roberto Santos – BA

Correspondência para:
Lívia Paraguai Cunha
Rua das Avencas, 53/102 – Caminho das Árvores
CEP: 41 810-410, Salvador, Bahia, Brasil
Tel.: (71) 3451-3895
E-mail: cunhalli@ibest.com.br

Fisioterapia na Instabilidade Vesical
TRATAMENTO FISIOTERAPÊUTICO DA INCONTINÊNCIA URINÁRIA POR INSTABILIDADE VESICAL: REVISÃO DE LITERATURA

Resumo: Através do presente estudo, objetiva-se uma revisão dos recursos fisioterapêuticos utilizados no tratamento da instabilidade vesical e análise dos parâmetros utilizados através destes. Foram incluídos 14 artigos relacionados à utilização do Biofeedback, Eletroestimulação Perineal e Exercícios Perineais como recursos para o tratamento desta sintomatologia, selecionados nas bases de dados Lilacs, Medline e Medscape. Observou-se a utilização da eletroestimulação perineal, com freqüências ideais de até 20 Hz, produzindo cura entre 21,9% e 40% dos pacientes, melhora demonstrada através da urodinâmica entre 40% e 71% dos grupos amostrais e melhora subjetiva entre 59,4% e 75,9%. Em um dos trabalhos verificou-se redução nos episódios de perda urinária de 9,5 para 5,2. Já com os exercícios perineais com contrações mantidas do períneo, houve cura de 30,3% dos pacientes, melhora de pelo menos 50% dos sintomas em 6,1% dos indivíduos. Além de um ganho de força perineal em torno de 80% e redução nos episódios de perda urinária de 3,5 para 2,3. Nos pacientes que utilizaram o biofeedback, foi observada cura de 38,2%, melhora de 11,8%, além de um ganho na força perineal de 105%. Quando a eletroestimulação foi utilizada em associação com o biofeedback foi obtida cura de 19% dos pacientes e melhora dos sintomas em 24% da amostra. E, quando utilizada juntamente com os exercícios perineais, houve aumento do intervalo entre as micções e conseqüente redução da freqüência urinária. Os recursos Fisioterapêuticos têm se mostrado úteis no manejo da instabilidade vesical com bons resultados e sem efeitos colaterais.

Descritores: Instabilidade Vesical, Eletroestimulação Perineal, Biofeedback, Exercícios Perineais.

PHYSIOTHERAPY IN THE TREATMENT OF THE URINARY INCONTINENCE FOR DETRUSOR INSTABILITY : LITERATURE REVISION

Abstract: Through the present study objective a revision of the phisioterapy in the treatment of the overactive bladder and analysis of the parameters used through these treatment. Had been enclosed 14 articles captured in the databases Lilacs, Medline and Medscape, related the use of the Biofeedback, pelvic floor electrical stimulation and pelvic floor exercises as resources for the treatment of this sintomatology. Had been enclosed 14 articles related to the use of the Biofeedback, pelvic floor electrical stimulation and pelvic floor exercises as resources for the treatment of this sintomatology, selected in the databases Lilacs, Medline and Medscape. It was observed use of the pelvic floor electrical stimulation with ideal frequencies of up to 20 Hz, producing cure between 21,9% and 40% of the patients, improvement demonstrated through the urodynamic between 40% and 71% of the sample, improves subjective between 59,4% and 75,9%. In one of the works reduction in the episodes of urinary loss of 9,5 for 5,2 was verified. Already with the pelvic floor exercises with kept contractions, it had cure of 30,3% of the patients, improves of at least 50% of the symptoms in 6,1% of the individuals. Beyond a gain of pelvic floor force around 80% and reduction in the episodes of urinary loss of 3,5 for 2,3. In the patients who had used biofeedback, 38,2% cure was observed, improves of 11,8%, beyond a gain in the pelvic floor force of 105%. When the pelvic floor electrical stimulation was used in association with biofeedback was gotten cure of 19% of the patients and improves of the symptoms in 24% of the sample. When used together with the pelvic exercises, it had reduction of the urinary frequency. The phisioterapy if have shown useful in the handling of the vesical instability with good results and without collateral effect.

Key Words: Detrusor instability, Pelvic floor electrical stimulation, Biofeedback, Pelvic floor exercises.

INTRODUÇÃO

A Incontinência Urinária é caracterizada por uma perda involuntária de urina que pode levar a problemas sociais, depressão e perda de auto – estima1, 2. A incidência desta sintomatologia pode chegar a 50% em indivíduos acima dos 65 anos, o que traz a tona reflexões devido ao alto custo com o tratamento no orçamento público, além do comprometimento na qualidade de vida1, 3. Os tipos mais comuns de incontinência urinária são: Incontinência Urinária de esforço, Incontinência urinária por instabilidade vesical e Incontinência Urinária mista1. Na incontinência Urinária por instabilidade vesical, também chamada urge incontinência, ocorrem contrações não inibidas do detrusor durante a fase de enchimento, podendo haver somente aumento da freqüência urinária e urgência ou até perdas urinárias em jato forte e incontrolável4.

Através de uma investigação realizada por Stewart et al (2003), nos EUA pôde ser observada uma prevalência de hiperatividade vesical (instabilidade vesical) maior nas mulheres (16,9%) que nos homens (16%). E ainda foi relatado neste estudo, que nas mulheres a urge incontinência aumentou com o índice de massa corporal e com a idade. Sendo que aos 65 anos 8,2% das pacientes apresentavam a sintomatologia e aos 75 anos o índice subiu para 10,2 % 5.

Através da terapia conservadora, que consta de educação do paciente sobre o trato urinário baixo, terapia medicamentosa, retreinamento vesical e técnicas Fisioterapêuticas, como o biofeedback, a cinesioterapia e a eletroestimulação, pode-se ter melhora dos sintomas ou até a cura dos pacientes6. Os métodos fisioterapêuticos como forma de tratamento da Incontinência Urinária por Instabilidade Vesical vêm sendo paulatinamente utilizados e têm melhorado a qualidade de vida dos pacientes tratados3,6, além de ser um tratamento de baixo custo e sem efeitos colaterais6. Faz–se necessário, então, a realização de estudos acerca dos métodos fisioterapêuticos e a forma como são utilizados no tratamento da Incontinência Urinária por Instabilidade Vesical.

Através do presente estudo objetiva – se uma revisão dos recursos fisioterapêuticos utilizados no tratamento da incontinência urinária por instabilidade vesical e uma analise dos parâmetros utilizados através destes.

MATERIAIS E MÉTODOS

Este estudo consiste em uma revisão de literatura, cujos artigos utilizados foram coletados nas bases de dados Lilacs, Medline, Medscape, usando as palavras-chave: Incontinência Urinária, Fisioterapia, Eletroestimulação Perineal, Exercícios Perineais e Biofeedback, nos idiomas inglês e português. Para o estudo foram incluídos 14 artigos originais, dos últimos 10 anos, relacionados à utilização do Biofeedback, Eletroestimulação Perineal e Exercícios Perineais como forma de tratamento da Incontinência Urinária por Instabilidade Vesical, nos idiomas inglês e português. Foram excluídos 8 artigos; 6 por não separarem o resultado por tipo de incontinência e 2 por utilizarem a eletroestimulação concomitantemente com os medicamentos anticolinérgicos para um mesmo grupo amostral. Foi feita a análise de dados com o objetivo de revisar os recursos fisioterapêuticos utilizados no tratamento desta sintomatologia e analisar os parâmetros utilizados através destes.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Sabe-se que o tratamento de escolha para a incontinência urinária é o conservador, que consta da terapia medicamentosa e Fisioterapia. Até pouco tempo atrás, os medicamentos eram vistos como primeira linha de tratamento, mas por provocarem efeitos colaterais, foram dando lugar ao tratamento fisioterapêutico. Os recursos fisioterapêuticos como o biofeedback, a eletroestimulação e os exercícios perineais são bastante utilizados na atualidade.

ELETROESTIMULAÇÃO

A eletroestimulação tem sido usada com sucesso no tratamento da incontinência urinária7. Pois, trata-se de um recurso essencial na recuperação de um comando voluntário ausente ou deficiente. Para a inibição detrusoriana são utilizadas freqüências baixas8. Barroso (2002) relatou que, fisiologicamente, o reflexo central inibitório dos neurônios parassimpáticos motores opera em baixas frequências9. Em estudos mais recentes, existem relatos de que a freqüência ideal é a de 10 Hz e que em seres humanos pode-se atingir freqüências de até 20 – 25 Hz8,9 . De acordo com Grosse & Singler (2002), as larguras de pulso devem estar situadas entre 0,2 e 0,5 ms 8. E, na tese de Barroso (2002), há relatos acerca da utilização da largura de pulso em torno de 0,2 a 0,8 ms sem ocorrência de danos teciduais9.

Em trabalhos prospectivos de intervenção, Smith 10 e Siegel et al 11 demonstraram a efetividade da eletroestimulação na instabilidade vesical com freqüências de 12,5 Hz. Smith10 incluiu na amostra 38 mulheres com a sintomatologia, com idade de 24 a 82 anos, que foram tratadas por 4 meses. Um grupo de 18 pacientes foi submetido a eletroestimulação (Tempo de estímulo (Ton) = 5’’, Largura de pulso (T) = 1 a 2 ms, Intensidade (I) = 5 a 25 mA e tempo total de terapia de 15 a 60’ ) e um outro grupo com 20 pacientes foi tratado com medicação. Houve redução de pelo menos 50% nos episódios de perda urinária e no uso de protetores em 72% das pacientes eletroestimuladas e em 50% das que fizeram uso da medicação10 (Tabela 1). Já no estudo de Siegel et al 11, as mulheres foram selecionadas para o tratamento diário ou em dias alternados, sendo que 36 mulheres com instabilidade vesical utilizaram eletroestimulação com Ton de 5’’, Tempo de repouso (Toff) de 10’’, T de 0,3 ms, I de 0 a 100 mA e tempo total de tratamento de 15’, por 20 semanas. Sendo obtida redução nos episódios de perda de 9,5 para 5,2 e, na freqüência noturna, de 3,2 para 2,5 episódios, sem diferença quanto ao tratamento realizado diariamente ou em dias alternados11 (Tabela 1). Os trabalhos apresentaram melhora da população estudada com a eletroestimulação, apesar da largura de pulso de 0,3 ms , utilizada apenas no trabalho de Siegel, ser considerada ideal conforme citação anterior.

Em outro estudo de Elgamasy et al12, também foi relatada redução nas freqüências urinárias diurna e noturna de 10,4 para 3,9 episódios e de 4,2 para 1,4, respectivamente. O trabalho consistiu em um ensaio clínico não randomizado, com 15 mulheres de idade variando de 22 a 96 anos. Foi usada a eletroestimulação com F de 10 Hz, T = 3 ms, Ton= 2’’ e Toff = 4’’ num tempo total de terapia de 15’por 6 semanas, 2 vezes ao dia12 (Tabela 1). No trabalho de Elgamasy, no qual foi utilizada freqüência de 10 Hz, relatada por Grosse anteriormente como ideal, a redução na freqüência noturna foi maior que no estudo de Siegel. Apesar disto, a terapia se mostrou efetiva nos dois trabalhos.

A eletroestimulação com freqüência de 10 Hz e larguras de pulso abaixo de 0,8 também foi utilizada por Berghamns et al (2002)13 e por Wang et al14 ( 2003). Berghmans et al, em um ensaio clínico randomizado, observaram 3 grupos de tratamento por 2 semanas comparados a um grupo controle. Um dos grupos, constituído por 17 pacientes, foi eletroestimulado (largura de pulso de 0,2 ms e Intensidade até 100mA). A terapia mostrou –se efetiva com redução da atividade do detrusor ( 0,85 para 0,57), com diferença estatisticamente significativa quando comparado ao grupo controle, que não foi submetido a tratamento13 (Tabela 1). Já no trabalho de Wang et al, um estudo prospectivo randomizado de intervenção, foram incluídas 103 mulheres com idade de 16 a 75 anos, divididas em 3 grupos para a intervenção por 12 semanas. Um grupo de 35 mulheres foi eletroestimulado, com largura de pulso de 0,4 ms, tempo de estímulo de 10’’, tempo de repouso de 5’’ e intensidade de 20 a 72 mA por 20’, 2 vezes por semana. Foi observada cura de 40% da população do estudo e melhora de, pelo menos, 50% dos sintomas em 11,5% dos pacientes14 (Tabela 1). No trabalho de Berghamns et al, não foi fornecido o tempo de estímulo e nem o tempo de repouso e, no trabalho de Wang et al, a relação tempo de estímulo e tempo de repouso foi de 2 para 1, em discordância com a relação apresentada em outros estudos. Porém, pôde ser demonstrada a efetividade da técnica, com a freqüência de 10Hz nos dois estudos.

Primus &Kramer15 (1996) e Arruda16 (2000) utilizaram em seus estudos uma Freqüência(F) de 20 Hz, Intensidade (I) de até 100 mA, Tempo de repouso (Toff) de 2 vezes o Tempo de estímulo (Ton), Largura de pulso (T) de 1ms e tempo de terapia de 20’, com melhora da instabilidade vesical demonstrada através da urodinâmica. Primus & Kramer15, em um estudo prospectivo de intervenção, utilizaram a eletroestimulação por 15 sessões em 75 pacientes, 45 com instabilidade vesical de causa idiopática e 30 com instabilidade vesical de causa neurológica. Houve melhora demonstrada através da urodinâmica em 71% dos pacientes idiopáticos e em 40% dos pacientes neurológicos15 (Tabela 1). Já Arruda16, no seu estudo prospectivo de intervenção, cuja população amostral era constituída de 29 indivíduos do sexo feminino com instabilidade vesical idiopática e idade variando de 17 a 79 anos, também utilizou a eletroestimulação num período de 3 meses,com freqüência de 2 vezes por semana. Sendo observada cura de 34,5% e melhora subjetiva de 75,9% da população amostral. E, em 27,6% das pacientes, as perdas passaram a ocorrer com um volume 50% maior que o inicial16(Tabela 1). Nos dois estudos foi demonstrada a efetividade da eletroestimulação com freqüência de 20 Hz. Os resultados foram mais efetivos nos pacientes com instabilidade de causa idiopática existentes em toda a população amostral do trabalho de Arruda e em parte dos pacientes do trabalho de Primus & Kramer. O fator tempo de tratamento também pareceu influenciar na efetividade da terapia, com demonstração no trabalho de Arruda, que apresentou um maior tempo de tratamento, com cura de 34,5% dos indivíduos.

Yamanishi et al (2000)17,18 realizaram 2 trabalhos randomizados de intervenção. Um dos estudos teve uma amostra constituída de 60 pacientes, do sexo feminino e masculino, e idade variando de 35 a 87 anos. 32 pacientes foram eletroestimulados com freqüência de 10 Hz, Largura de pulso (T) de 1 ms, tempo total de terapia de 15’, 2 vezes ao dia por 4 semanas e Intensidade de acordo com a tolerância do paciente. Os 28 pacientes restantes foram submetidos ao tratamento placebo. Foi obtida cura de 21,9% do grupo eletroestimulado e de 3,6% do grupo placebo. A melhora de, pelo menos, 50% na freqüência de perdas urinárias foi vista em 81,3% dos pacientes eletroestimulados e em 32,1% do grupo controle.Uma melhora subjetiva foi relatada em 59,4% da população eletroestimulada e em 39,3% dos controles17(Tabela 1). Utilizando-se da mesma freqüência para a eletroestimulação, foi desenvolvido outro trabalho com 32 pacientes, do sexo masculino e feminino, com idade média de 62,3 anos. Foi feita uma comparação entre a eletroestimulação funcional,com amostra de 17 pacientes, F de 10 Hz, largura de pulso (T) de 1 ms e I de até 60 mA e a eletroestimulação magnética, com grupo de 15 pacientes, F de 10 Hz, na qual foi observada a cura em 20% deles. Houve aumento na capacidade cistométrica máxima nos dois grupos18(Tabela 1). A eletroestimulação funcional tem a vantagem de apresentar aparelhagem mais compacta que a magnética. E talvez por isso tenha sido melhor difundida. Apesar da utilização de uma mesma freqüência e largura de pulso nos 2 trabalhos para a eletroestimulação funcional, no 2º estudo não houve relatos de cura e redução da freqüência urinária dos pacientes tratados com o recurso . Isso pode ser explicado pelo reduzido grupo amostral (17 pacientes) se comparado com o 1º estudo que teve amostra de 32 indivíduos. Porém, a efetividade do estudo foi comprovada com o aumento da capacidade cistométrica máxima.

Em um outro estudo de intervenção realizado por Geirson & Fall (1997)19 em 84 pacientes de 25 a 84 anos, com uma amostra de 53 homens e 31 mulheres, no qual foi utilizada eletroestimulação com freqüência de 5 Hz, largura de pulso (T) de 0,75 ms e intensidade máxima tolerada durante 4 sessões por 20’. Foi observada também uma melhora em 63% dos 51 pacientes que apresentavam perdas urinárias e em 51,5 % das 33 pacientes que apresentavam somente urgência19 (Tabela 1). Apesar de não terem sido fornecidos dados objetivos que quantificassem a melhora nem parâmetros do tempo de estímulo e tempo de repouso. Houve uma comprovação da efetividade da técnica utilizada nos dois grupos estudados, principalmente no grupo incontinente.

Ainda existem discordâncias quanto aos parâmetros utilizados na eletroestimulação. Mas, apesar disso, a freqüência mais utilizada nos estudos analisados foi de valores inferiores ou iguais a 20 Hz, como preconiza a literatura. Os demais parâmetros como a largura de pulso, a intensidade, o tempo de estímulo e o de repouso foram muito variados. Pôde ser observado nos estudos que a intensidade foi utilizada de acordo com a tolerância do paciente, a largura de pulso tida como ideal foi relatada em 4 estudos e que o tempo de repouso era o dobro do tempo de estímulo, salvo uma exceção, no estudo de Wang et al, no qual esta relação foi invertida. É importante ressaltar ainda que, nos estudos que utilizaram larguras de pulso acima de 0,8 ms, não houve relatos de lesão tecidual e eles se mostraram tão efetivos quanto os que utilizaram as larguras de pulso consideradas até então ideais. Apesar desta dificuldade de padronização, os estudos que abordam a eletroestimulação se mostraram efetivos no tratamento da incontinência urinária por instabilidade vesical.

EXERCÍCIOS PERINEAIS

A utilização dos exercícios perineais, com contrações mantidas, aumenta a pressão de fechamento uretral e reduz reflexamente a pressão vesical. Existem relatos em estudos de que os exercícios perineais têm sido utilizados como forma de tratamento da Instabilidade Vesical, de forma exclusiva ou em associação com outros recursos fisioterapêuticos, com bons resultados na inibição reflexa do detrusor 8,20.

Os exercícios perineais foram utilizados de forma isolada em estudos prospectivos randomizados de intervenção por Nygaard et al21 (1996) e Shafik22 (2003), com relatos de melhora da força perineal dos pacientes. Nygaard et al21 estudaram o uso de exercícios perineais por 3 meses, com contrações mantidas de 4’’ a 8’’, por um tempo total de 5’, 2 vezes ao dia, em 17 pacientes com instabilidade vesical e idade variando de 25 a 81 anos. Elas foram randomizadas quanto ao uso ou não de vídeos explicativos acerca dos exercícios perineais. Sendo observada uma redução nos episódios de perda urinária de 3,5 para 2,3 em conseqüência do aumento da força muscular perineal, que foi de 2,8 para 3,5 em 14 dos 17 pacientes que completaram o estudo. O autor não observou diferenças significativas entre o uso ou não de vídeos explicativos acerca dos exercícios perineais21 (Tabela 1). Já Shafik et al22, em seu estudo com um grupo de 28 pacientes, 18 homens e 10 mulheres, com instabilidade vesical e idade variando de 26 a 64 anos, comparou a pressão detrusora e uretral antes e após a realização de contrações perineais mantidas a um outro grupo com 17 pacientes, 12 homens e 5 mulheres, saudáveis e com idade variando de 28 a 60 anos. Foi relatado que, nos indivíduos sadios, a pressão do detrusor no 1º desejo miccional foi de 30,6 cmH2O e da uretra, 18,7 cmH2O. Após a contração perineal por 10’’ (contração mantida), as pressões se modificaram para 11,6 cmH2O e 139,8 cmH2O, respectivamente. Nos indivíduos com sintomatologia, a pressão detrusoriana inicial era de 28,2 cmH2O e a uretral de 17,3 cmH2O; após a contração mantida do períneo, a pressão uretral aumentou para 86,6 cmH2O e a detrusora reduziu para 10,6 cmH2O22(Tabela 1). Sendo demonstrada, desta forma, a efetividade dos exercícios perineais no aumento da pressão uretral e redução da pressão detrusora. Os 2 estudos comprovaram que os exercícios perineais são eficazes na inibição reflexa do detrusor. Nygaard et al acompanharam os pacientes por mais tempo e, por conta disso, puderam observar melhoras a longo prazo na população amostral, como a redução nos episódios de perda urinária e aumento da força perineal.Enquanto que, no estudo de Shafik, foram relatadas mudanças nas pressões uretral e detrusora apenas no momento do exame, demonstrando que os exercícios perineais podem inibir reflexamente o detrusor. Porém, para que as respostas fossem similares às do estudo de Nygaard, seria necessária uma observação por um período de tempo mais longo.

No trabalho de Wang et al14 (2003), cuja metodologia foi descrita anteriormente, a utilização dos exercícios perineais foi relatada como forma de tratamento para a instabilidade vesical por um dos grupos de intervenção. Os exercícios foram realizados por 34 mulheres, 3 vezes ao dia, com contrações submáximas do períneo, por 6’’, num período de 12 semanas. Foi obtida cura de 30,3% dos pacientes e melhora de, pelo menos, 50% dos sintomas em 6,1% dos indivíduos. Além de um ganho de 79% na força perineal14(Tabela 1). Demonstrando, assim, a efetividade da técnica. Em discordância com estes achados, Berghmans et al13, em seu estudo, também relatado anteriormente, fez a utilização dos exercícios perineais com contrações mantidas por 20’’em um grupo de 18 pacientes e de exercícios perineais associados à eletroestimulação com freqüência de 10 Hz, largura de pulso de 0,2 ms e intensidade de até 100 mA em um outro grupo de 19 pacientes por 2 semanas. Não sendo observada diferença significativa na atividade detrusora em nenhum dos grupos, após a intervenção, ao serem comparados com o grupo controle, que não foi submetido à intervenção13 (Tabela 1). A discordância de achados entre os dois trabalhos pode ser devido à diferença no tamanho das populações amostrais e também no tempo de tratamento.

Já AL Mulhim et al23 (2002), em um ensaio clínico prospectivo não randomizado com 20 pacientes de 55 a 75 anos, utilizou a eletroestimulação associada a exercícios perineais por 8 semanas com tratamento realizado 2 vezes ao dia, por 15’. Neste estudo, as duas técnicas utilizadas concomitantemente produziram aumento da capacidade vesical máxima, do intervalo entre as micções e do volume vesical no 1º desejo miccional, além da redução na freqüência miccional e no volume residual23(Tabela 1). Porém, não foram fornecidos os parâmetros utilizados através destes recursos fisioterapêuticos. Apesar disso, o estudo demonstrou que a técnica é efetiva no tratamento da sintomatologia, o que não ocorreu no estudo de Berghmans e isso pode ser explicado pelo tempo de terapia, que foi maior no estudo de AL Mulhim.

BIOFEEDBACK

O biofeedback é uma forma de aprendizado, ou reaprendizado, da contração perineal, através da informação por meio de sinais, sonoros ou visuais, sobre a efetividade dessa contração24,25. E, como já foi mencionado, a contração perineal inibe as contrações detrusorianas favorecendo a continência. O biofeedback foi utilizado por Wang A. et al14 (2003), em um estudo prospectivo randomizado de intervenção apresentado anteriormente, em 1 dos grupos, composto por 34 pacientes, por 12 semanas. Foi obtida cura de 38,2% dos pacientes e melhora de, pelo menos, 50% dos sintomas em 11,8% do grupo amostral. Além de um aumento de 105% na força dos músculos perineais14. A utilização do Biofeedback também se mostrou efetiva no tratamento da Incontinência Urinária por Instabilidade Vesical, no estudo realizado por Stein M. et al26 (1995). Neste, o recurso foi utilizado associado à eletroestimulação com freqüência de 20Hz, num tempo de terapia de 15’ por 6 sessões, em um grupo amostral de 14 pacientes com idade de 33 a 84 anos e outro grupo foi submetido ao tratamento medicamentoso. Ao final da intervenção, 19% do grupo eletroestimulado estava curado, sem utilizar protetores e com menos de 1 acidente por mês e 24% apresentava-se melhor , com menos de 1 acidente por semana e uso ocasional de protetores 26(Tabela 1). No estudo, foi comprovada a eficácia da terapia, apesar de não ter sido apresentado resultado para a terapia medicamentosa. Os estudos de Wang e Stein demonstraram que o biofeedback, tanto quando utilizado de forma isolada ou em associação com a eletroestimulação, pode levar à melhora ou até à cura dos pacientes.

Uma revisão literária relacionada ao tratamento fisioterapêutico na incontinência por instabilidade vesical é de grande valia, pois amplia os conhecimentos dos profissionais dessa área e, por ser mais uma forma de tratamento, beneficia os pacientes portadores da sintomatologia que sofrem com os problemas sociais e psíquicos que ela causa. Como não existe uma padronização quanto às modulações das técnicas utilizadas no tratamento fisioterapêutico, no momento da análise foram detectadas controvérsias expostas pelos autores.

CONCLUSÃO

A Incontinência Urinária por Instabilidade Vesical tem sido tratada através dos recursos fisioterapêuticos com bons resultados e sem efeitos colaterais. Porém, existem muitas discordâncias acerca dos parâmetros ideais, principalmente na eletroestimulação. Faz-se, então, necessária a realização de novos estudos de intervenção e ensaios clínicos, para que se possa esclarecer dúvidas em relação a estes parâmetros. E, assim, padronizar o tratamento fisioterapêutico para a Instabilidade Vesical.

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