TÉCNICA DO TÔNUS RECEPTOR


Autor: Dr. Daniel Erlich.
Fisioterapeuta.
Especializado em Reeducação Postural.
Pós-graduado em Acupuntura & Eletroacupuntura.
Formação avançada em Cinesiologia Aplicada.
Website: www.danielerlich.med.br.
E-mail: cinesio@danielerlich.med.br.

A Técnica do Tônus Receptor foi desenvolvida por um quiroprático americano chamado Raymond Nimmo, sendo uma forma direta de trabalho corporal que não tenta impor forçosamente correções envolvendo estruturas miofasciais. O presente artigo examina resumidamente os mecanismos teóricos e práticos existentes por trás das técnicas de tecido mole praticadas nos Estados Unidos desde o surgimento da quiroprática até os dias atuais. Muitos pesquisadores das terapias manipulativas afirmam que a maioria das modalidades terapêuticas de tecido mole (miofascial) que são aplicadas atualmente no Ocidente foi influenciada, mesmo que indiretamente, pelos trabalhos de Nimmo. Ele começou divergindo da quiropraxia quando se convenceu de que os ajustes vertebrais não eram suficientes para restabelecer a funcionalidade das estruturas do corpo humano e com isso não havia como garantir a saúde integral de seus pacientes seguindo a mesma linha de pensamento que originou todo o desenvolvimento da quiropraxia.
Nimmo foi um dos primeiros quiropráticos a disseminar informações sobre a palpação de músculos e tendões (e não apenas de estruturas ósseas) e sempre buscou adquirir conhecimentos sobre o papel dos tecidos moles durante os processos álgicos e de disfunção. Em sua prática clínica, não se conformava quando não conseguia melhorar por completo as condições de saúde de seus pacientes, que depositavam suas esperanças em suas habilidades manuais. O que estimulava bastante a curiosidade de Nimmo era quando encontrava por meio da palpação determinados pontos ou “pequenas estruturas ovais” dentro dos músculos que, ao serem pressionados ou massageados (bombeados), referiam dor, desconforto ou hipersensibilidade em diversas áreas do corpo (longe do ponto e/ou na própria região do ponto). Posteriormente, ele estabeleceu as bases de sua forma de terapia, criando o conceito dos “pontos generativos nocivos” e começou a ensiná-la com o maior entusiasmo e segurança. O interessante é que essa técnica foi desenvolvida paralelamente aos trabalhos da dra. Travell sobre os pontos-gatilhos. Durante a década de 50, esses dois importantes personagens não se conheciam, mas chegaram a conclusões muito parecidas. As teorias de Travell, que era uma médica convencional, foram bem aceitas por Nimmo, mas é válido enfatizar que ele já tinha os seus fundamentos bem elaborados naquela época e a influência dos trabalhos de Travell ocorreu bem mais tarde e com menos intensidade do que se pode crer. O que é descrito logo abaixo é o fruto dessa visão pioneira de Nimmo e o impacto que ele causou nas terapias miofasciais principalmente nos Estados Unidos.
Raymond Nimmo graduou-se em quiropraxia na Palmer School, por volta da década de 30, e estabeleceu a sua prática clínica em Fort Worth, Texas. Ele logo se tornou um ávido pesquisador, buscando novas técnicas e conhecimentos e procurou primeiramente a Logan Basic Technique (que já tinha um grande prestígio naqueles tempos). Ele estudou essa poderosa técnica quiroprática e posteriormente começou a ensiná-la também, assim como outras técnicas desenvolvidas por experientes quiropráticos daquela época. À medida que foi acumulando todo esse conhecimento, Nimmo percebeu que o que era ensinado nas faculdades de quiroprática não tinha um tom científico e metodológico. Ele observou que a teoria do “osso pinçando o nervo” e outros conceitos parecidos não podiam ser totalmente comprovados pelos fatos neurofisiológicos, pois muitos pacientes estavam melhorando suas condições de saúde e qualidade de vida, mesmo sendo tratados por médicos, fisioterapeutas e outros profissionais de terapia manual que não manipulavam diretamente ossos e articulações. Os pacientes que se submetiam a uma abordagem mais sutil e integrativa também estavam ficando livres de diversos distúrbios e desequilíbrios e por isso, Nimmo iniciou toda uma mudança em sua conduta terapêutica. O próprio dr. Nimmo sofria de dores crônicas no ombro e foi tratado com sucesso por um quiroprático que, segundo suas palavras: “não gostava de tocar em vértebras e nem em ossos proeminentes”. Esse quiroprático que o tratou corrigia inúmeras síndromes dolorosas e disfunções através de procedimentos manuais que visavam eliminar a hipertonia muscular específica e pontos sensíveis presentes no sistema muscular de seus pacientes.
Como Raymond Nimmo gostava de questionar tudo que lia e aprendia, suas primeiras teorias foram sendo elaboradas à medida que foi aprofundando suas pesquisas em livros e artigos raros e inovadores. O que o intrigava muito era que a maioria dos pacientes que o procurava apresentava grupos musculares hipertônicos. Considerando que os quiropráticos, principalmente daquela época, tratavam desde problemas viscerais a dores de cabeça e tendões inflamados, era notável o fato de que diversos pacientes com inúmeras enfermidades tivessem músculos hipertônicos num certo padrão que pudesse ser catalogado e comparado em futuras situações (para fins de pesquisa). Esse conceito de relacionamento existente entre desequilíbrios viscerais e a estrutura neuromuscular superficial e profunda já era conhecido e aplicado por renomados osteopatas. No entanto, a questão da obtenção de resultados que poderiam ser comprovados, reproduzidos e analisados, representava obstáculos para o crescimento e difusão desse tipo de conceito tanto por osteopatas quanto por outros terapeutas naturais. Atualmente, grande parte dessa questão já está resolvida, mas ainda causa muita polêmica e discussão. Por isso, naquela época, Nimmo preferiu concentrar a sua atuação nos problemas de hipertonicidade muscular (área ortopédica) e deixou um pouco de lado os conceitos de relacionamento órgão-músculo, órgão-fixação e outros componentes víscero-somáticos (que são cada vez mais valorizados por terapeutas de “mente curiosa” e “despretenciosa”).
No decorrer das décadas de 50, 60 e 70, poucos quiropráticos se aventuraram por esse âmbito dos reflexos víscero-somáticos, víscero-cutâneos, parieto-parietais e ousaram pesquisar a fundo as teorias da relação órgão-músculo e órgão-fixação. Curiosamente, a maioria desses obstinados profissionais acabou incorporando o modelo terapêutico da acupuntura em sua prática clínica para tentar explicar ou potencializar os fabulosos resultados que obtinham ou ainda por causa da total afinidade (similaridade) de métodos e concepções. Atualmente, pode-se observar no cenário internacional que tanto a quiroprática quanto a osteopatia estão (mesmo de forma indireta) se assimilando com os fundamentos e aplicações da acupuntura. Esse é um processo natural que tem como objetivo a busca da verdadeira abordagem integral do homem e a unificação da tecnologia ocidental com a sabedoria oriental tradicional. Dentro dessa linha terapêutica inovadora, os principais responsáveis pelo desenvolvimento e disseminação dessa unificação foram: George Goodheart (D.C.), Randolph Stone (D.C., D.O.), Bertrand DeJarnette (D.C., D.O.), Arthur Lincoln Pauls (D.O), Alan Beardall (D.C.), Sheldon Deal (D.C.), David Leaf (D.C.), posteriormente, também se destacaram em âmbito internacional nomes como Leon Chaitow (D.O.), Fritz Smith (D.O., M.D.), Warren Hammer (D.C.), Marc Heller (D.C.), Robert Cooperstein (D.C.) e no campo das desativações de asmas, alergias e hiper-sensibilidades alimentares, os trabalhos de Devi Nambudripad (D.C.), Ellen Cutler (D.C.) e Dietrich Klinghardt (M.D.) foram excepcionais e ainda estão em constante crescimento.
Com relação ao nosso objeto de estudo, que é a abordagem muscular a partir dos receptores nervosos que são estimulados através de manobras sutis de pressão, sustentação e posicionamento, Raymond Nimmo conseguiu difundir na quiropraxia a importância também dos tecidos moles (músculos, tendões, ligamentos). Certamente, ele não foi o primeiro a fazer isso, mas foi um dos principais personagens dessa “história”. Devido aos trabalhos de Nimmo e outros profissionais pioneiros, muitos quiropráticos começaram a dar mais atenção a outras estruturas corporais além de ossos e articulações, inclusive no que se refere às vísceras e energias sutis que circundam e nutrem o corpo humano. Uma vez que se entende a regência das estruturas miofasciais, torna-se fácil constatar que uma adesão fascial numa região do corpo que requer muita mobilidade é tão grave quanto uma adesão da fáscia pleural (que pode ser a causa de muitas pleurites e outras doenças do aparelho respiratório). Em inúmeras situações, Nimmo mostrou os padrões que os músculos esqueléticos seguem quando se deparam com articulações fixadas, desalinhadas ou com hiper-mobilidade. Baseado nesses padrões, ele tentava encontrar soluções biomecânicas para inibir o tônus excessivo dos músculos da região comprometida (com dor, restrição de movimento e desconforto), utilizando procedimentos manuais com o mínimo de força, sem agredir estruturas subjacentes e com o máximo de eficácia e segurança. Raymond Nimmo denominou a sua forma de tratamento, recém-desenvolvida (na época), de Técnica do Tônus Receptor.
É importante enfatizar que o termo “fáscia” tal como utilizamos hoje em dia foi estabelecido e definido originalmente pelos osteopatas, que costumavam defender a idéia de que “essa seria uma entidade integrativa que conecta todas as estruturas do corpo e também permite o bom funcionamento de músculos, vísceras e tem uma íntima ligação com os fatores emocionais e bioquímicos”. Outro fato notável é que a osteopatia, ou seja, o seu fundador, Andrew Taylor Still é reconhecidamente a maior fonte provedora de técnicas de tecido mole, tendo criado e disseminado obstinadamente a maior diversidade de recursos manuais para a reorganização miofascial da história médica do mundo ocidental. Então, essa sendo uma verdade absoluta, por que a Técnica do Tônus Receptor é o nosso objeto de estudo ? O que diferencia essa técnica quiroprática das outras técnicas e concepções osteopáticas de tecido mole ? Por que devemos destacar tanto os trabalhos de Nimmo ? Essas questões são respondidas ao longo do presente artigo para uma melhor compreensão e para facilitar a assimilação de importantes conceitos.
Há meses atrás, participei de um curso no exterior e o professor era ninguém menos do que o dr. Guy Voyer, de Marseilles, França. Ele simplesmente foi aluno e depois eventual colega de I.A. Kapandji (que é o consagrado autor de vários livros que estudamos até hoje em dia nas faculdades de fisioterapia, medicina e enfermagem de todo o mundo). Voyer é um médico anatomista e osteopata, que tem estudado o sistema miofascial tão intensamente que chegou a ser convidado para ajudar os cirurgiões franceses, ensinando-os como evitar as adesões fasciais pós-operatórias e outros distúrbios funcionais. A seguir venho a compartilhar um pouco mais do meu conhecimento adquirido durante esse curso:

• A fáscia é uma faixa ou sítio fibro-elástico que envolve o corpo sob a pele (fáscia superficial), formando também uma cobertura para os músculos e outros órgãos, separa os músculos em feixes e seções e chega a ser parte constituinte de estruturas conhecidas como nervos e vasos sangüíneos e linfáticos.
• Existem fáscias especializadas como a plantar, íliotibial, glútea, tóraco-lombar, cervical e cranial que estabilizam e mantêm a postura ereta. Isso revela a capacidade fibrosa dessas fáscias que o dr. Voyer costuma chamar de “fáscias posturais”. Elas apresentam funções específicas e são as primeiras a mostrarem mudanças de forma e textura quando começam a aparecer os primeiros desequilíbrios posturais. Recentes experiências sugerem que a liberação de adesões nessas fáscias, se for realizada no plano e eixo correto, permite uma melhora considerável nos desequilíbrios posturais crônicos.
• Mudanças na tensão das fáscias devido aos desvios posturais e articulares, a força da gravidade, traumatismos, lesões repetitivas e inflamações, são fatores básicos que estão envolvidos em alterações fisiológicas e estão relacionados às causas originais que devem ser consideradas na etiologia de qualquer enfermidade. Esse conceito é fundamental, pois justifica uma avaliação criteriosa de grupos musculares específicos que podem estar envolvidos na presença de qualquer doença. Nesse contexto, os terapeutas manuais já são os especialistas a serem procurados caso o quadro clínico de um paciente não evolua como o esperado.

Logicamente, na década de 40, quando a Técnica do Tônus Receptor foi desenvolvida, não havia tanta informação sobre fáscias, fisiologia muscular, neurologia e outras disciplinas importantes, por isso, estou citando os trabalhos recentes do dr. Voyer (principalmente para os “pretensiosos” não acharem que tudo isso é uma “velharia” e deveria estar num museu ao invés de estar nas páginas de uma revista). No entanto, a maioria dos ensinamentos dos verdadeiros professores universitários sobre recursos manuais terapêuticos, já eram aplicados e conhecidos por quiropráticos e osteopatas antigos que poderiam ser erroneamente referidos como “conhecedores limitados do corpo humano”. Infelizmente, a verdade é que houve pouca evolução nesse âmbito de terapia manual (a nível prático, por exemplo). Para confirmar essa realidade, basta abrirmos um bom livro antigo de osteopatia e lá encontraremos a fonte de muitos fundamentos que estudamos e aplicamos atualmente.
Há algum tempo atrás, adquiri um excelente livro intitulado “Princípios da Osteopatia (Principles of Osteopathy)” que foi publicado em 1916 por um renomado osteopata chamado Dain Tasker. Ao ler esse livro, fiquei surpreso ao constatar o que já se sabia sobre as estruturas e funções internas do corpo humano naquela época. Esse livro ensina até procedimentos cirúrgicos de baixo risco que os osteopatas podiam realizar em casos de fratura óssea e outros tipos de traumatismos. Essa é uma herança do dr. Still (que antes de ter fundado a osteopatia, era um cirurgião que praticava a medicina convencional) que está sendo progressivamente esquecida, pois a maioria das escolas osteopáticas não ensina nada sobre cirurgia geral. Em suma, se quisermos encontrar as fontes de praticamente todas as técnicas e métodos terapêuticos que estão sendo ensinados e disseminados nos nossos dias, temos que olhar para trás, para podermos saber se as fontes são confiáveis, quais são as raízes desses conhecimentos e se as informações estão sendo passadas da forma mais pura, neutra e fiel possível (assim como fizeram os “patriarcas e antepassados” das medicinas manipulativas).
Voltando às questões das fáscias, eis uma breve lista de funções desempenhadas por essas amigáveis estruturas condensadas:

• Limitam um músculo ou grupo muscular dentro de uma determinada região.
•Preservam a estrutura muscular, pois não deixa que ela se rompa ou se degenere facilmente.
•Previnem a ocorrência de hérnias de disco na coluna e de herniações viscerais.
•Potencializam a ação muscular. Pesquisas comprovaram que as fáscias aumentam a capacidade de contração e resistência dos músculos esqueléticos. As fáscias refletem as condições de seus músculos relacionados e vice-versa.
•As propriedades elásticas das fáscias ajudam a manter as aberturas venosas depois que elas são “esmagadas” e “torcidas” pela contração dos feixes musculares. Pesquisas comprovaram que uma lesão na fáscia de um músculo é capaz de inibir o retorno venoso local, o que pode levar a uma congestão e a um eventual desequilíbrio químico, causando diversos tipos de patologia.
•As fáscias devem facilitar os movimentos articulares. As adesões fasciais restringem as atividades musculares, reduzindo o fluxo sangüíneo local, o que pode gerar um ambiente favorável para a proliferação de bactérias e outros tipos de micro-organismos nocivos, pois a osteopatia nos ensinou que “a lei da artéria é absoluta” e que o sangue é “o maior agente bactericida que existe”.
•Elas devem responder às forças de tensão mecânica impostas pelos músculos e articulações, servindo de trilho para a execução dos movimentos funcionais. As fáscias são capazes de dissipar essas forças de tensão de tal modo que elas conseguem recrutar músculos sinergistas e até mesmo antagonistas para suprir da forma mais econômica possível as demandas diárias ou desportivas do sistema músculo-esquelético. A fáscia é considerada parte do tecido conectivo, portanto, é o maior e mais forte elemento de inter-ligação, representando um dos principais fatores que ajuda a regular a homeostasia do organismo.
•A fáscia, de um modo geral, está incluída no ambiente interno de cada célula viva do corpo e por causa disso, podemos entender como ela influencia direta ou indiretamente o metabolismo celular. O desenvolvimento de uma tensão excessiva na fáscia ou uma pressão anormal pode afetar a difusão de elementos nutritivos no organismo, o que vai por sua vez alterar o funcionamento das células. O tecido de colágeno fibrótico que compõe a fáscia contém substâncias básicas que são como um gel semi-líquido amorfo. Essa espécie de gel coloidal é provavelmente o ambiente interno universal, o qual toda célula viva está em contato direto e mantém trocas saudáveis. A aplicação de uma pressão moderada externa em alguma região específica de um tecido mole adiciona de fato mais energia ao tecido colóide (ou coloidal). A física moderna já reconhece que uma adição de energia moderada pode transformar o gel coloidal em uma “solução coloidal” e isso pode explicar as importantes mudanças estruturais que freqüentemente ocorrem durante um tratamento em que são utilizadas mobilizações (manipulações) miofascias.

Os quiropráticos nos ensinam que o sistema esquelético promove o equilíbrio das formas do corpo, esculpe as proporções de nossas estruturas, constituindo as nossas articulações, além de proteger nossos órgãos vitais e ainda serve como ponto de fixação para os tendões musculares. Por isso, esse sistema sempre foi o principal foco da abordagem quiroprática. Então, se o sistema muscular já não recebia a atenção que merecia, imagine as fáscias. Raymond Nimmo, dentre outros, criaram o que ficou conhecido como os três pilares da avaliação do sistema miofascial:

1. Inspeção.
2. Palpação.
3. Mensuração.

Assim como em todos os sistemas do corpo, um conhecimento detalhado de anatomia e fisiopatologia envolvida é fundamental para realizar um exame significante. Diversas anormalidades relacionadas à fratura óssea, deslocamentos, herniações e subluxações (as grandes “vilãs” segundo a quiropraxia) oferecem sinais diagnósticos importantes. Por exemplo, qualquer fratura óssea pode gerar quadros de embolismo após 36 ou 48 horas de ocorrido o traumatismo inicial, levando à manifestação de sudorese excessiva, febre baixa, dificuldade de respirar, sintomas graves de desconforto em todas as regiões do corpo e por final, uma parada cárdio-respiratória, resultando no eventual falecimento do indivíduo.
O dr. Richard Schafer, um prestigiado quiroprático e autor de vários livros, conceitua que “devido a posição relativa de diversos ossos e músculos que permeiam as articulações, cada complexo articular apresenta uma determinada posição, na qual a cavidade sinovial adquire uma maior dimensão”. Quando a tensão aumenta na cavidade sinovial por causa da efusão, o paciente adota a posição que concede o maior alívio dentro do contexto estabelecido. Quando isso ocorre, podemos observar as principais posições que as maiores articulações adotam para tentar “driblar” as fixações e o desconforto:

1. Quadris: ficam em leve flexão, rotação externa e abdução.
2. Joelhos: ficam em leve flexão e a patela se posiciona um pouco mais elevada na tentativa de proteger toda a região.
3. Cotovelos: ficam em leve flexão e rotação interna.
4. Punhos: ficam em leve flexão e o túnel do carpo tende a ficar mais restringido.
5. Tornozelos: ficam em leve flexão plantar e em eversão.

Provavelmente, essas modificações são o resultado da redução da micro-circulação causada por mecanismos reflexos e de proteção (preservação). Por isso, todo esse quadro leva a inflamações como tendinites, tenosinovites e peritendinites, à medida que essas posições articulares alteradas aumentam a tensão e o atrito entre diversas estruturas. Os sintomas subseqüentes são o surgimento gradual de dores e edemas e síndromes inflamatórias que irradiam ao longo de tendões e nervos envolvidos na contração ativa ou no alongamento passivo de regiões específicas.
A qualidade da estrutura articular se refere principalmente aos constituintes bioquímicos do osso e de tecidos associados que conseguem equilibrar a ação de forças de origem externa e interna. Um dos princípios da quiroprática tradicional é aliviar a pressão interna através da aplicação de uma força externa, que é a manipulação propriamente dita. No entanto, se essa pressão externa manipulativa for muito forte, se o eixo da aplicação de força não for alinhado ou se a pressão interna não estiver de acordo com a capacidade adaptativa do próprio complexo articular, as conseqüências poderão ser desastrosas. Uma força aplicada numa maior escala do que a capacidade de resistência de qualquer estrutura articular pode resultar em fissura ou fratura óssea ou deslocamentos graves. Essa é uma das principais preocupações referentes às manipulações de alta velocidade tanto da quiroprática quanto da osteopatia. No entanto, esse também é um assunto polêmico que não é o foco do presente artigo.
Esse quadro todo foi apenas exposto para mostrar o contexto no qual a Técnica do Tônus Receptor foi desenvolvida e para enfatizar que os não-adeptos das manipulações (que não gostam de “ouvir ossos estalando”) não precisam difamar e nem negligenciar a quiroprática, pois existem ramificações pouco conhecidas que trabalham com abordagens miofasciais. Dentre elas, também merecem especial destaque a Terapia da Polaridade, a Cinesiologia Aplicada, a Técnica de McTimoney e a D.N.F.T. (Directional Non-Force Technique; que é considerado o método sutil original da quiropraxia e foi desenvolvido por Richard Van Rumpt, D.C. [1904 – 1987]). É muito enriquecedor pesquisar sobre esses métodos e procedimentos revolucionários e inovadores até para os dias atuais. Considerando que há um crescente número de profissionais que está “revivendo” métodos antigos, formulando teorias mistas e híbridas, dando um novo formato e uma nova linguagem, todo o cuidado é pouco. Assim, dizem que criaram um novo tipo de procedimento, montam grandes cursos e conseguem confundir colegas, estudantes e pacientes ao mesmo tempo. Mas se o estudante é familiarizado com a história e filosofia das terapias manipulativas, pode conseguir pelo menos suspeitar que há algo de estranho ou “mal contando”.
Raymond Nimmo, que faleceu em 1986, foi o quiroprático pioneiro das abordagens miofasciais. Em meados dos anos 80, Nimmo escreveu que “os pontos-gatilhos (T.P. – Trigger Points) têm se tornado a ‘garota glamurosa’ que está recebendo todas as atenções, enquanto a hipermiotonia, que os ‘dispara’ está sendo completamente ignorado”. Ele ainda continua explicando que “muitos quiropráticos estão sendo vítimas da ilusão de que a inibição dos pontos-gatilhos é tudo o que precisa ser feito, mas se a hipermiotonia não for corrigida, que é a principal causa do surgimento dos pontos-gatilhos, de nada será adiantado, pois esses pontos-gatilhos irão se desenvolver novamente”. Nesse trecho podemos observar a preocupação do dr. Nimmo em combater as causas reais dos desequilíbrios musculares e não apenas seus efeitos. Ele estava buscando corrigir a raiz dos problemas e por isso pesquisou tanto outras formas de abordar o sistema muscular, estudando também outros métodos e técnicas sem o menor preconceito ou segundas intenções. Esse fato histórico deve sempre ser lembrado quando estivermos tratando um paciente com quadros crônicos e de difícil solução.
Nimmo nos ensina que a fáscia é uma entidade constritiva que pode sabotar as melhores tentativas para aliviar dores e desconfortos ligados aos pontos-gatilhos, músculos hipertônicos ou qualquer outro tipo de desequilíbrio. Por exemplo, visualize um filme típico de Steven Spielberg sobre o corpo humano. Imagine ele mostrando as diversas camadas e estruturas do nosso corpo. Seletivamente, ele rebate a pele, músculo por músculo, nervos, ossos, órgãos e vísceras, até não sobrar nada além da fáscia propriamente dita. A forma que se teria lembraria uma verdadeira múmia, envolvida em tiras esbranquiçadas e com uma aparência mais assustadora do que qualquer fantasma. As substâncias que compõem a fáscia são um tanto translucentes e transparentes quando os raios luminosos de qualquer fonte são direcionados a estas seguindo angulações específicas. A maioria dessas substâncias é uniformemente densa, mas a fáscia geralmente é mais fina e opaca nos locais que sofreram traumatismos ou estresse excessivo (mesmo de forma indireta).
Essas regiões opacas das fáscias tendem a aumentar a sua densidade como uma forma de reação de defesa a essas “agressões”, incluindo a imobilidade e a toxicidade causada por fármacos ou outros elementos bioquímicos. O curioso é que é exatamente nesses locais que se desenvolvem os pontos-gatilhos e também propiciam condições favoráveis para o surgimento de vários desequilíbrios e enfermidades. Os osteopatas afirmam que uma lesão fascial clássica (inflamada e traumatizada), quando se reorganiza por conta própria através dos princípios auto-regulativos inerentes do organismo, ocorre uma regeneração irregular do colágeno. Onde a fáscia sofreu estresse intermitente, por exemplo, quando os músculos eretores das vértebras torácicas tentam contra-balancear a tensão das vértebras cervicais fixadas numa posição que anterioriza a cabeça de uma pessoa, os fibroblastos tendem a aumentar a produção de colágeno linearmente para reforçar a região acometida. Como conseqüência, o tecido fascial vai se tornando mais rugoso, denso e inelástico.
O modo sedentário de vida agrava mais ainda todo esse quadro, pois a limitação dos movimentos corporais deixa a fáscia cronicamente encurtada e aderida a outras estruturas adjacentes. Essa falta de mobilidade geral permite que as células de colágeno das fáscias formem bandas e feixes cruzados e cada vez mais aderidos. Essas bandas e faixas cruzadas são o principal foco terapêutico de métodos como o G.D.S. e as Cadeias Cruzadas de Busquet. Seguindo essa linha de pensamento, não está evidentemente claro que todas as técnicas e métodos estão ligados de alguma forma, pois o corpo humano é um só ? Isso tudo reflete o principal pensamento tradicional do Oriente: “Tudo é Tudo e Nada é Nada”. Então, não devemos perder tempo com detalhes medíocres e orgulhos excessivos. Vamos aproveitar o nosso curto tempo para estudar e aprender o que realmente é significante, sem medos e preconceitos.
Diversos pesquisadores já constataram que as fáscias, assim como os tendões, ligamentos e cápsulas, podem perder as suas características de flexibilidade e elasticidade após três semanas de imobilização ou movimentos restringidos. As fáscias se aderem entre si facilmente e suas fibras de colágeno se encurtam e solidificam com o passar do tempo. Esse quadro leva ao surgimento da hiperfasciotonia, que está sempre presente e também pode ser o fator causal das hipermiotonias. Os feixes fasciais hipertônicos cruzam e comprimem receptores nervosos que se localizam ao longo dos vasos sangüíneos e linfáticos. Como resultado direto dessa cadeia de desequilíbrios, surgem e são ativados os pontos-gatilhos. A técnica de Nimmo atua profundamente sobre esses receptores nervosos através de pontos-chaves que agem como interruptores de um sistema elétrico, filtrando e modulando os impulsos nervosos em áreas do corpo que apresentam diversas formas de desequilíbrio. A premissa dessa técnica é agir no sistema nervoso e vascular por meio de intervenções biomecânicas e o que o sistema muscular não conseguir regular como resposta direta, pode-se aplicar manobras de tecido mole de até média intensidade.
Nesse instante, o “mistério” acaba de ser revelado. Em poucas palavras, foi explicado todo o mecanismo que culmina no aparecimento dos pontos-gatilhos e os fundamentos nos quais a técnica de Nimmo é baseada para se realizar um tratamento eficaz e seguro. Com isso, fica claro que se a causa não for devidamente tratada, o ponto-gatilho vai continuar voltando após o tratamento. Para dar um “fim” nesse ciclo vicioso podemos aplicar a Técnica do Tônus Receptor e observar os resultados, que podem e devem ser mensurados (lembra dos 3 pilares da avaliação miofascial mencionados anteriormente ?) várias vezes ao longo de uma sessão, sempre que for aplicado um procedimento corretivo.
O músculo e sua fáscia correspondente devem receber a mesma atenção e não podem ser considerados como duas entidades separadas. Onde existe um músculo encurtado e enrijecido, há também uma fáscia encurtada e enrijecida. Como foi explicado, a fáscia pode se tornar hipertônica e produzir os mesmos fenômenos fisiopatológicos do que os músculos hipertônicos. As técnicas de liberação miofascial visam o alívio de quadros álgicos, mas também são aplicadas com o objetivo de reorganizar os feixes miofasciais, mesmo se o alívio não puder ser sentido de imediato, para que as correções realizadas sejam duradouras. Aí reside o grande segredo das terapias manipulativas. É nesse ponto que todas elas acabam convergindo. A “perfeição terapêutica” deve ser buscada nas correções sustentáveis e não nos efeitos rápidos (imediatos) e passageiros. Por isso, a Técnica do Tônus Receptor é, em âmbito mundial, considerada uma das pérolas da quiropraxia e também uma das melhores terapias miofasciais, em nome, teoria e prática.

 

 


REFERÊNCIAS

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DE JARNETTE, Bertrand. Subluxation Patterns: A research project of the Sacro Occipital Research Society. Self Published, 1st edition, 1963.

DELANY, Judith; CHAITOW, Leon. Clinical Application of Neuromuscular Techniques. 1st edition, Churchill Livingston, 2005.

ERLICH, Daniel. Cinesiologia Aplicada à Quiropraxia, Osteopatia e Acupuntura – O Poder da Energia Intuitiva na Ciência do Teste Muscular. 1ª edição, Erlich Publicações, 2006.

HAMMER, Warren. Dr. Voyer on the Fascial System. Dynamic Chiropractic, Volume 18, Issue 18, 2000.

LOWE, John C. Hypertonic Fascia. Dynamic Chiropractic, Volume 08, Issue 04, 1990.

MYERS, Thomas W. Trilhos Anatômicos – Meridianos Miofasciais. 1ª edição, Editora Manole, 2003.

NIMMO, Raymond. The Collected Writings of Nimmo & Vannerson: Pioneers of Chiropractic Trigger Point Therapy. American Manual Therapy Edition, 2001.

SCHAFER, Richard C. Chiropractic Physical and Spinal Diagnosis. American Chiropractic Association, 1st edition, 1980.

STONE, Randolph. Polarity Therapy: The Complete Collected Works – Volume 1. Book Publishing Company, 2nd edition, 1999.

WALDMAN, Steven. Physical Diagnosis of Pain: An Atlas of Signs and Symptoms with CD-ROM. Saunders & Har/DVD Edition, 2005.

WALTHER, David S. Applied Kinesiology Synopsis. Systems D.C., 2nd edition, 2000.

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1 comentário em “TÉCNICA DO TÔNUS RECEPTOR”

  1. Há já muito tempo que tinha conhecimento do termo ” Cinesiologia” e que estava inserido na Quiropatia, porém,
    não foi isso que me mostrou a insistencia. Ou a maioria dos
    quiropráticos não tiveram a chance de monetaria ou profissionalmente em encontrar a ” verdadeira autoestrada”
    da Cinesiologia. A existir um só que seja em Portugal já era
    óptimo.
    Um bom técnico em Cinesiologia não é inferior ao melhor
    neuropata.

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