TÉCNICA DE WATSU: APLICAÇÃO NA HÉRNIA DE DISCO

WATSU TECHNIQUE: APPLIED IN LUMBAR HERNIATED DISC
eduardo neves

RESUMO

A técnica de Watsu consiste em uma forma de relaxamento feita na água, onde o terapeuta executa alongamentos adaptados do Shiatsu (técnica corporal japonesa). Nosso estudo teve como objetivo avaliar a eficácia da técnica de Watsu em portadores de hérnia discal sob tratamento em uma clínica privada de Fortaleza. Fizeram parte deste estudo 24 pacientes, que foram divididos em dois grupos de 12 pacientes cada, e que preencheram os critérios de inclusão e exclusão no estudo. A análise foi feita por meio do preenchimento de uma ficha de avaliação inicial, seguida de um questionário contendo dados referentes à patologia e sua evolução, aplicados, respectivamente, no décimo e no vigésimo atendimentos fisioterápicos para ambos os grupos. Os dados obtidos foram analisados através de programa estatístico. Identificar os principais sinais e sintomas, avaliar o nível de incapacitação do paciente frente às suas atividades, promover melhoria no processo de reabilitação dos indivíduos portadores de lesão medular, visando ao retorno precoce às suas atividades diárias, e orientar quanto às posturas ideais a serem tomadas diante de suas limitações físicas, também são objetivos deste estudo.

Palavras-chave: Hérnia Discal, Hidroterapia, Técnica de Watsu

ABSTRACT

The Watsu techinique is a way of relaxing praticed on the water, where the therapists make stretchings, adapted from Shiatsu (japanese corporal technique). Our study has as objective estimate the Watsu technique efficiency in herniated disc patients under therapy in a private clinic in Fortaleza. Twenty-four pacients took part of this study and they were divided in two groups of twelve, who attended the criteria of inclusion and exclusion in the study. The instrument used was to fill out an initial assessment form followed by a questionnaire that contained data about the pathology and its evolution, applied respectively on the tenth and the twentieth physiotherapy treatment for both groups. The obtained data were analyzed based upon statistical program. The study has the objective of estimating the Watsu technique efficiency in lumbar herniated disc treatment, as well as to identify the main synptoms and signals, assess the level of disability of the patient in front of their daily activities, promote improvement in the reabilitation process of the patient with spinal cord injury in order to early return to their daily activities and provide guidance regarding the optimal positions to be taken before their physical limitations.

Keyword: hernia disc, hydrotherapy, Watsu techinique.

INTRODUÇÃO

A lombalgia é a causa mais comum de doença que limita o trabalho, especialmente em adultos com menos de 45 anos. A incidência de dor lombar é alta, e o sintoma apresentado em “60 a 90% dos indivíduos em algum período de sua vida” (FISHER, 1991). Grande parte dos pacientes portadores de lombalgia está na fase produtiva da vida e, muitas vezes, o quadro é incapacitante, afastando-o do trabalho.
Segundo Ozguler (2000), a lombalgia é uma das causas mais frequentes de consulta e hospitalização. Geralmente envolve alterações em estruturas músculo-
-esqueléticas e, embora muitas sejam as suas causas, os mecanismos são semelhantes. (SAKATA, 2002). Entre as principais causas, temos: fatores individuais, como os alimentares, levando a um ganho excessivo de peso e à falta de condicionamento físico; má postura e fraqueza dos músculos abdominais e espinhais; e fatores ocupacionais, como sobrecarga da coluna lombar, gerada pelo levantamento e deslocamento de peso; pela permanência na posição sentada por períodos prolongados e pelo sedentarismo.

Disco Intervertebral

O disco intervertebral está disposto em quatro camadas concêntricas: a mais externa, composta por uma densa lâmina de colágeno; a intermediária, formada por uma camada fibrocartilaginosa; a zona de transição e o núcleo pulposo. As lâminas são mais finas e menos numerosas atrás do que na frente (CORDEIRO, 2002).
Por ser avascular, o disco conta com determinados mecanismos para a manutenção de sua nutrição. Alterações intermitentes na postura e na posição do corpo alteram a pressão interna do disco, causando uma ação de bombeamento de água que transporta nutrientes para dentro e remove produtos metabólicos. A manutenção do corpo em uma posição estática por certo período de tempo diminui esta ação de bombeamento e afeta a integridade do disco intervertebral (CORDEIRO, 2002).
Ao se aplicar uma carga constante em um disco vertebral, ocorre a diminuição da sua espessura, sugerindo um processo de desidratação proporcional ao volume do núcleo. Ao se retirar a carga, o disco recupera a espessura inicial com um certo tempo. Quando ocorrem cargas e descargas num curto período de tempo, o disco não tem tempo de recuperação. Se se repetirem por tempo muito prolongado, o disco não recupera a espessura inicial. Esse é o fenômeno de envelhecimento. Nos esforços de compressão axial, o núcleo suporta 75% da carga (KAPANDJI, 2000).

Biomecânica

A acentuação da curvatura da coluna lombar é conhecida como hiperlordose lombar. Ela resulta tipicamente de um desequilíbrio entre o fortalecimento dos músculos lombares e o enfraquecimento dos abdominais. A inclinação anterior da pelve frequentemente acompanha a lordose e contribui ainda mais para o estiramento dos músculos abdominais. Esta condição é a causa mais comum de lombalgia postural. (CORDEIRO, 2002).
Segundo Kapandji (2000), o grau de curvatura da coluna lombar depende também dos músculos dos membros inferiores ligados à pelve. O músculo Psoas, flexor da coluna lombar sobre a pelve, acentua a lordose lombar quando contraído. A correção da anteversão pélvica é obtida pela ação dos extensores do quadril, os ísquios tibiais e o glúteo máximo, responsáveis pelo levantamento da báscula da pelve para trás e pelo restabelecimento da verticalidade sacral, diminuindo, assim, a lordose lombar.
A ação dos músculos da parede abdominal é efetuada por intermédio de dois braços de alavanca: o inferior, constituído pela distância promonto-púbica, e o superior, constituído pela distância dorso-xifoide. Daí vem o papel mais importante na correção da hiperlordose lombar, sendo suficiente à contração e ao fortalecimento do glúteo máximo e abdominais.
Na hiperlordose, há sobrecarga na parte posterior do disco vertebral, justamente onde há maior fragilidade em relação às fibras do anel, por serem menos resistentes, favorecendo a ruptura e a herniação do material nuclear. (CORDEIRO, 2002).

Hérnia de Disco Lombar

A hérnia discal é um extravasamento do núcleo pulposo dentro da cápsula do anel fibroso, onde normalmente um nervo é comprimido. O núcleo pulposo é uma substância gelatinosa que contém 88% de água, e o anel fibroso é constituído de uma sucessão de camadas concêntricas (fibras verticais na periferia e oblíquas quanto mais próximas do centro) (CAILLIET, 1979).
Com o passar do tempo, o disco intervertebral tem tendência a se degenerar e pode ser lesado por forças excessivas, quedas ou esforços repetidos. O anel fibroso pode estar defeituoso, não mais protegendo o núcleo pulposo. A coluna lombar é a mais acometida, por suportar o peso do corpo e as pressões exercidas sobre ele, além de ser a região da coluna de maior mobilidade articular (L4-L5, L5-S1). Porém, não se deve descartar a possibilidade de hérnia a qualquer nível da coluna vertebral (CAILLIET, 1979).
Segundo Kapandji (2000), a partir dos 25 anos, as fibras do anel fibroso começam a se degenerar. As difusões anteriores são raras, devido ao reforço feito pelo ligamento longitudinal anterior. Já na porção póstero-lateral, há uma maior facilidade de protusão, devido à maior fragilidade das fibras do anel fibroso.
O aparecimento da hérnia discal sucede-se, em geral, a um esforço de levantamento de uma carga, estando o tronco inclinado para frente. Na flexão de tronco para frente, a substância nuclear é empurrada para trás, pois a altura dos discos na porção anterior fica diminuída e faz entreabrir atrás o espaço intervertebral. No início do esforço de levantamento, “o aumento da pressão axial esmaga o disco e empurra para trás a substância do núcleo, que atinge o ligamento vertebral comum posterior. Ao final da retificação do tronco, o trajeto pelo qual passou a hérnia volta a se fechar e a massa herniária é bloqueada sob o ligamento vertebral comum posterior” (KAPANDJI, 2000).
A sintomatologia clássica da hérnia de disco é a dor ciática, que se inicia na região lombar ou nas nádegas, repentinamente, e segue por todo o trajeto do nervo comprimido. O paciente é incapaz de curvar-se, qualquer movimento do tronco causa espasmo e dor.
O diagnóstico da hérnia é muito simples. Inicia-se com o diagnóstico clínico, onde é realizado o teste de Laségue. Após o referido teste, para se obter o diagnóstico diferencial, são realizados exames complementares, como o raio-X (para detecção de artrose, fraturas, subluxações ou deformidades ósseas), e exames mais detalhados, como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética, para detectar a hérnia, o seu local exato e o tamanho do núcleo extravasado.
O tratamento clínico da hérnia de disco consiste em medicamentos anti-
-inflamatórios e repouso. Segundo Henneman (1994), 80 a 90% dos pacientes com tratamento conservador apresentam melhora, sendo descartada a intervenção invasiva. A fisioterapia atua em medidas analgésicas e exercícios. Segundo Skinner (1985), dentre os exercícios realizados, um dos mais indicados é a hidroterapia, pois, ao entrar na água, a carga do corpo sobre as vértebras diminui em 50%, estando a água ao nível da cicatriz umbilical, devido ao empuxo.

Hidroterapia

A hidroterapia é um recurso fisioterápico que tem demonstrado resultados positivos no tratamento e na prevenção de várias patologias. A terapia em piscina combina os efeitos produzidos pela água aos exercícios e movimentos realizados, porém a eficácia destes efeitos dependerá de condições como a temperatura, da água, a duração do tratamento, o tipo e a intensidade do exercício e a necessidade específica de cada indivíduo.
Entre os efeitos da hidroterapia, temos o alívio da dor e a diminuição do espasmo muscular, relaxamento, manutenção ou aumento da amplitude de movimento, reeducação e fortalecimento muscular, desenvolvimento de sua força e resistência, melhora das atividades funcionais da marcha, aumento da circulação, e assim, da condição da pele, reforço da autoestima do paciente, proporcionando-lhe confiança para alcançar a máxima independência funcional (BATES, 1998).
Os pacientes que apresentam quadro de hérnia de disco lombar têm indicação para o tratamento na água, porém existem algumas contraindicações gerais, tais como: pacientes diabéticos, hipertensos e cardíacos descompensados, pacientes com feridas ou cortes cirúrgicos abertos ou com algum tipo de infecção (SKINNER, 1985).

Watsu

O Watsu ou Water Shiatsu (Aquashiatsu, hidroshiatsu) foi criado em 1980 por Harold Dull, professor americano de educação física, quando este começou a fazer com que as pessoas flutuassem em uma piscina morna, aplicando alongamentos e movimentos do Shiatsu Zen que ele havia estudado, em terra, no Japão e viera ensinar em Harbin Hot Springs, EUA. No Brasil, a terapia chegou em meados de 90. Foi apresentada primeiramente à comunidade fisioterápica que, na época, desenvolvia o trabalho de hidroterapia no país.
É uma forma de relaxamento feita na água, com esta na altura do peito, onde são executados alongamentos adaptados do Shiatsu (técnica corporal japonesa) enquanto o paciente, apoiado sobre os braços do terapeuta, fica em total relaxamento e flutuação. Através de movimentos e toques, desbloqueiam-se pontos de tensões físicas e mentais, podendo também ser liberadas emoções, uma vez que há um aumento da sensibilidade dos tecidos e o favorecimento do fluxo sanguíneo.
As sessões são amplamente indicadas em casos de depressão, estresse, insônia e problemas musculares. Alguns pacientes relatam que o relaxamento é tão intenso que a impressão é de se estar de volta ao útero materno.
Não há um protocolo específico para a aplicação do Watsu. Existem certas posturas que o terapeuta deverá adaptar às limitações do paciente. Porém, esta adaptação deve estar baseada nos princípios básicos, que são: alongamentos passivos, mobilização articular, pressão sobre os pontos de acupuntura e equilíbrio dos fluxos de energias (meridianos).

METODOLOGIA

A pesquisa foi feita através de um estudo do tipo quantitativo e intervencional, realizado no período de 20 de outubro de 2002 a 10 de abril de 2003 no Núcleo de Especialidades em Fisioterapia – Acuafísio. A metodologia foi fundamentada em levantamento bibliográfico e de campo.

Foi utilizado para a obtenção dos dados um questionário, no qual foram investigadas variáveis relacionadas aos dados de identificação do paciente, bem como perguntas referentes ao quadro sintomatológico e ao comprometimento do grau de força muscular antes e depois das terapêuticas aplicadas nos pacientes portadores de hérnia de disco envolvidos no estudo.

Critérios de Inclusão

A participação do paciente no estudo exigiu que fossem obedecidos os seguintes critérios:

1. Portadores de hérnia de disco lombar com os respectivos exames complementares;
2. Pertencentes a ambos os sexos;
3. Faixa etária entre 18 – 60 anos;
4. Tempo de lesão variando de 6 meses a 2 anos;
5. Pacientes submetidos a processo de reabilitação;
6. Pacientes que concordaram em participar do estudo assinando o termo de consentimento;
7. Pacientes que não estejam realizando outro tipo de tratamento, como fisioterapia convencional, acupuntura, medicamentos.

Critérios de Exclusão

Não participaram do estudo:
1. Pacientes que discordaram em participar por quaisquer motivos;
2. Pacientes que estejam realizando qualquer tipo de tratamento;
3. Inclusos em qualquer contraindicação à hidroterapia.

Protocolos

Depois de preenchidos os critérios de inclusão e exclusão no estudo, os pacientes foram divididos em dois grupos: Grupo I – formado por pacientes submetidos à hidroterapia convencional; e Grupo II – formado por pacientes submetidos à hidroterapia convencional associada à técnica de Watsu, de acordo com os procedimentos descritos a seguir.
Inicialmente, os pacientes pertencentes aos dois grupos foram submetidos a uma avaliação com o objetivo de quantificar o grau de compressão nervosa através do teste de Laségue, anteriormente descrito, associado à goniometria da articulação do quadril, e, em seguida, foram também submetidos a uma avaliação pélvica com o objetivo de detectar a presença ou não de hiperlordose lombar através da inspeção da musculatura extensora da coluna lombar, bem como a presença ou não de flacidez da musculatura abdominal. A análise e a interpretação dos exames complementares também foram consideradas. Após a décima e a vigésima sessões, os pacientes foram reavaliados para detectar eventuais alterações, mediante realização das técnicas.
Os pacientes pertencentes ao Grupo I foram submetidos à hidroterapia convencional de acordo com os protocolos I, II e III descritos a seguir.

Protocolo I

Inicialmente o paciente entrou na piscina e fez caminhadas na parte rasa, perfazendo um total de quatro voltas (4 idas e 4 voltas) de frente, de costas e de lado, com o intuito de aquecimento.
Em seguida, o paciente fez um exercício chamado “bicicleta”, no qual usou um “espaguete” entre as pernas, dirigindo-se para a parte funda da piscina, onde simulou um movimento de bicicleta durante aproximadamente 10 minutos.
Após a bicicleta, foram iniciados os exercícios na barra lateral, onde o paciente começou com a extensão de quadril em bipedestação, tendo o cuidado de manter a coluna ereta para não desenvolver uma hiperlordose lombar; de frente para a barra, o paciente realizou flexão de quadril e joelho a 90º; em seguida, uma série de exercícios de abdução do quadril com o joelho estendido e o tornozelo em posição neutra. O paciente foi orientado a realizar apenas 45º de abdução, pois o restante do movimento é associado à elevação da pélvis do mesmo lado.
Adiante, fez-se um alongamento lateral, no qual o paciente posicionou-se lateralmente à barra, segurando-a, e fez uma lateralização de tronco para o lado oposto dela, fazendo com que a convexidade da curvatura da coluna ficasse para o lado de dentro da barra. Os pés deviam estar juntos, joelhos e quadris em extensão. Atentou-se também para o cuidado com o posicionamento do ombro do paciente, pois o correto é ele não sentir incômodos.
De costas para a barra, o paciente segurou-a, fazendo uma hiperextensão de ombro e, depois, uma flexão de quadril com os joelhos em extensão, sem movimentar o tronco para frente, apenas o quadril.
Para finalizar o primeiro protocolo, o paciente ficou de costas para a parede da piscina, no lado que não possui barras, com uma perna toda encostada na parede e a outra com um espaguete no tornozelo, sem dobrar o joelho, para alongar os ísquios tibiais, fazendo um movimento de abdução horizontal.
Todos esses exercícios, com exceção da bicicleta, foram realizados com 10 repetições na primeira sessão, 15 na segunda e 20 na terceira. O aumento no número de repetições em cada sessão depende do quadro sintomatológico e se o paciente é ou não atleta. Os movimentos são sempre alternados. Normalmente, usa–se esse protocolo por cinco a seis sessões, dependendo do estado clínico do paciente. Se este relatar melhoras durante o tratamento, então se passa para o protocolo seguinte. Para o paciente atleta, a carga inicial é maior, pois já está condicionado fisicamente para o exercício (SKINNER, 1985).

Protocolo II

O paciente repetiu tudo o que foi feito anteriormente, porém, antes do último exercício de alongamento, iniciou-se outra série de exercícios, onde ele ficou deitado sobre a superfície da água, sob a ação de flutuadores lombar, cervical e de tornozelo. O paciente ficou solto na piscina, com o terapeuta intervindo na estabilização cervical e do tronco, possibilitando apenas a mobilização dos membros inferiores.
Inicialmente o paciente fez abdução com rotação externa de quadril bilateralmente. O joelho ficou em extensão e o tornozelo, em posição neutra.
Depois, o paciente realizou movimento de adução de quadril apenas com o joelho em extensão e o tornozelo em posição neutra.
Hiperextensão de quadril com o joelho em extensão e o tornozelo em posição neutra. O terapeuta orientou o paciente quanto ao movimento, que não deve ser brusco e de pouca amplitude.
Foi realizado o movimento de bater pernas, como na natação (nado de costas), porém com os joelhos em extensão e o tornozelo em posição neutra.
Realizado o movimento chamado “tesoura”, no qual o paciente cruza uma perna sobre a outra, alternando-as, o paciente realizou flexão de joelho e quadril simultaneamente. Após o movimento alternado dos dois membros inferiores, realizou-se a situação anterior, porém com os dois membros realizando o movimento simultâneo.
O paciente fez um movimento de rotação de tronco alternando os lados, onde o quadril e o joelho ficaram em flexão e o tornozelo ficou em posição neutra.
O terceiro protocolo visou fortalecer o abdômen usando os membros superiores, por meio da utilização de halteres aquáticos. Vale lembrar que os protocolos anteriores foram mantidos. Nesse protocolo, o paciente ficou em pé realizando movimentos de ombro, onde o limite da água era a articulação gleno-umeral. Os movimentos são descritos a seguir:

Protocolo III

Partindo de uma adução horizontal com cotovelo estendido e punho em posição neutra, foi realizada abdução horizontal de ombro, flexão de cotovelo até o limite articular. O movimento é realizado alternadamente.
Partindo de uma adução horizontal, o paciente realizou uma abdução horizontal com os punhos em posição neutra, cotovelo estendido e coluna ereta. O movimento se dá em apenas 90o de abdução e é bilateral.
Partindo de uma abdução de ombro a 90o, o paciente realizou adução de ombro com o cotovelo estendido e punho em posição neutra. O movimento é bilateral.
O movimento parte de uma adução de ombro com cotovelo estendido, antebraço e punho em uma posição neutra. Realizou-se hiperextensão de ombro, flexão de cotovelo, desvio ulnar de punho e antebraço na posição neutra. O movimento é alternado.
Partindo de uma flexão de ombro com o cotovelo estendido e punho na posição neutra, foi realizado o movimento de extensão de ombro com o cotovelo e punho imóveis. Realizou-se o movimento bilateralmente. Nesse exercício, atentou-se para o cuidado quanto à postura do paciente, pois a tendência é, por deficiência dos abdominais, provocar uma desestabilização do tronco e o paciente tende a não se posicionar em pé.
O trabalho abdominal está na estabilização do tronco durante os exercícios. Em cada exercício, faz-se uma série de 20 repetições.

Técnica de Watsu

Os pacientes pertencentes ao Grupo II foram submetidos à hidroterapia convencional associada à técnica de Watsu, conforme protocolo a seguir:
Iniciou-se a técnica com movimentos leves, onde o terapeuta ficou ao lado do paciente, segurando-o como um bebê. Com um dos braços do terapeuta no ombro oposto, apoiando a coluna cervical, descansando a cabeça do paciente em seu antebraço, impedindo-o de afundar, e o outro braço nas pernas, nas fossas poplíteas, o paciente permaneceu totalmente relaxado e toda a mobilização foi realizada passivamente. Observou-se o grau de relaxamento do paciente, pois a aplicação de uma técnica de Watsu sem que o paciente esteja devidamente relaxado pode provocar dores lombares ou cervicais devido à tensão.

• Dança respiratória na água

Mantiveram-se os antebraços em posição de pronação relaxada, com o braço esquerdo sob a cabeça do paciente e o antebraço direito sob o cóccix, e não sob a coluna lombar, cuja pressão causaria aumento da extensão da coluna. Em posição estática, promoveu-se um leve afundamento do paciente na expiração, erguendo-o na inspiração com o mesmo ritmo respiratório do paciente. Ao se trabalhar com pacientes mais leves, cujo corpo tenha maior dificuldade de afundar, pode-se colocar o antebraço sobre o abdômen para permitir que ele afunde a cada expiração. Caso as pernas estejam rígidas, coloca-se o braço sob os joelhos, encorajando-o a fletir e relaxar, e o suporte do braço pode retornar para a posição sob o cóccix. Caso o paciente seja muito pesado, antes que o terapeuta entre em fadiga, o próximo movimento básico, a sanfona (do inglês: accordion), poderá ser iniciado.

• A Sanfona

Esse movimento básico permite manuseio mais fácil, dependendo se o peso do paciente é suficientemente baixo. Após completar a dança respiratória (ou quando o braço direito estiver cansado), o terapeuta lentamente abre os braços do paciente, enquanto ambos participam da inspiração. Com o antebraço esquerdo no occipital, o paciente é puxado para longe do antebraço direito, o qual é colocado sob os joelhos. Durante a expiração, o tronco do paciente afunda um pouco. Repete-se o processo com a abertura dos braços na inspiração e fechamento na expiração. Os joelhos e o tórax se aproximam gradualmente sem esforço. Entretanto, se a resistência nos joelhos e quadril restringir a flexão, o joelho pode ser ressaltado gentilmente e o tronco manuseado para um alinhamento mais vertical a cada expiração, encorajando o paciente a ter os quadris fletidos por favorecer a mudança do peso. Enquanto os joelhos são trazidos mais próximos do tórax com a expiração, deve-se aumentar o tempo em que os braços estão juntos, permanecendo mais longe do ápice da respiração. Similarmente, os braços abrem-se mais a cada inspiração.

• Sanfona em rotação

Uma vez que os joelhos do paciente tenham se aproximado o máximo possível do tórax, a abertura e fechamento da Sanfona se fizeram continuamente com a respiração. Após cada abertura dos braços, o terapeuta permanece mais alto e apoiado na frente, estende o braço direito por sob lado esquerdo do paciente, enquanto ambos expiram, permitindo ao quadril girar através do seu corpo. Após cada aproximação, abrem-se os braços na inspiração, balançando as costas, promovendo um balanço para o quadril do paciente.

• Rotação da perna próxima

Enquanto inicia-se o balanço das costas para abrir os braços, permite-se que a perna mais distante do paciente escorregue dos braços. Sem quebrar o ritmo, inclina-se para rodar a perna próxima através do ombro esquerdo, concomitante com a expiração. Os movimentos de balanço tornam-se progressivamente mais amplos, afundando as costas para dentro da água na inspiração. Enquanto roda-se a perna direita, apoiada pelo cotovelo direito, aplica-se um alongamento na perna mais distante (esquerda) através da resistência da água, enquanto movimenta-se o paciente em torno do sentido horário. Se o joelho do paciente não se aproximar o suficiente do tórax para realizar o próximo “berço”, continue com o fluxo único ao invés do completo.

• Tração Lombar

O movimento consiste em um alongamento e uma tração lombar. O terapeuta iniciou com o paciente na posição neutra e colocou a perna oposta dele em seu pescoço (do terapeuta), tomando muito cuidado para não deixar o paciente afundar a cabeça, pois ele estava relaxado e não devia se sentir inseguro. A outra perna do paciente fez uma semiflexão de joelho, onde a mão do terapeuta foi posicionada sobre essa perna, na região do joelho, fazendo um alongamento de quadríceps por aproximadamente 10 segundos. Em seguida, foi feita uma flexão de quadril e joelho na perna em alongamento e posicionada na barriga do terapeuta. Uma das mãos permaneceu no ombro oposto e a outra se posicionou no sacro do paciente, realizando um movimento de tração e alongamento da região lombar. Depois, a perna do paciente que, anteriormente, estava na barriga do terapeuta posicionou-se no tronco deste, de forma que sua coxa ficou na barriga. A mesma tração no sacro foi feita. Em seguida, realizou-se uma volta de 180º sobre a água, fazendo com que o terapeuta ficasse posicionado do outro lado do paciente em que ficou anteriormente, possibilitando iniciar todo esse processo do lado oposto.

Material

O material usado foi o mesmo nos dois grupos: flutuadores cervicais, lombar, de tornozelo, espaguetes e halteres. Todo esse equipamento foi confeccionado com material flutuador, à base de esponjas, isopor e borracha. Nos dois grupos, as condições ambientais foram as mesmas: piscina no formato retangular, com 12m de comprimento por 6m de largura; 1,30m de profundidade na parte rasa e 2,20m na parte funda; escada com degraus baixos e com barras paralelas; barras em toda a extensão lateral; e aquecida a aproximadamente 34º, ideal para relaxamento.

Resultados

A principal causa de lesão, conforme a tabela 1, é o levantamento de peso de forma errada, sendo afirmado como causa por 50% dos pacientes. O movimento brusco foi relatado por 41% dos pacientes e 4,16% disseram que a lesão ocorreu em um momento em que estavam andando.

Segundo Kapandji (2000), a maior incidência de hérnia lombar é a nível L5-S1, o que foi confirmado nesta pesquisa com 83,33% dos pacientes. A nível L4-L5, foram encontrados em 45,8% dos pacientes, o que mostra que a maioria deles apresentou herniação em mais de um nível topográfico. Podemos notar também, através da tabela 1, que, quanto mais baixo o nível da lesão, maiores são as incidências apresentadas por esses pacientes.

Gráfico 1 – Representação Esquemática do Ganho de Amplitude de Movimento no Teste de Laségue após a Décima e a Vigésima Sessões

Na avaliação inicial, a média de amplitude de movimento para flexão de quadril foi 48º. Após a décima sessão, como mostra o gráfico 1, os pacientes submetidos à técnica de Watsu tiveram uma média de 71º, enquanto que, na hidroterapia, a média ficou em aproximadamente 62º. Após a vigésima sessão, já com boa parte dos pacientes alongados e sem dor, a média de amplitude naqueles submetidos ao Watsu foi de 88º, enquanto que, na hidroterapia, esse número ficou em aproximadamente 79º.

Tabela 3 – Representação Esquemática do Quadro Sintomatológico Após 10 Sessões de Hidroterapia X Técnica de Watsu

Após 10 sessões, podemos constatar uma melhora no quadro sintomatológico dos pacientes, entretanto a melhora desse quadro foi mais acentuada nos pacientes que realizaram a técnica de Watsu. A tabela 3 mostra que o número de pacientes que apresentou melhora da dor, formigamento, falta de força e dormência é maior entre aqueles que realizaram o Watsu. Dessa amostra, 66,7% dos que realizaram essa técnica deixaram de manifestar qualquer tipo de sintomatologia dolorosa, contra 50% dos que realizaram hidroterapia convencional.

Tabela 4 – Representação Esquemática do Quadro Sintomatológico Após 10 Sessões de Hidroterapia X Técnica de Watsu

Após a vigésima sessão, como mostra a tabela 4, os pacientes relataram uma melhora do quadro sintomatológico, em relação à avaliação anterior. A técnica de Watsu se manteve mais eficaz, com 91,6% dos pacientes relatando uma melhora total de seu achado clínico, em comparação com a hidroterapia, que apresentou uma melhora em 66,7% dos pacientes.

Tabela 5 – Representação Esquemática do Quadro Sintomatológico Após 10 Sessões de Hidroterapia X Técnica de Watsu

Um dos maiores objetivos da técnica de Watsu é promover relaxamento, alívio da dor e alongamento muscular, o que foi constatado respectivamente por 11, 11 e 10 pacientes. Porém, 2 pacientes afirmaram se sentir tensos durante a sessão, e desses, um sentiu dor cervical.

DISCUSSÃO

A lombalgia é a causa mais comum de doença que limita o trabalho, segundo Fisher (1991), que, em sua pesquisa, constatou uma alta incidência de dor lombar. Em nosso estudo, pudemos observar que, de 10 pacientes, 6 apresentavam um quadro de lombalgia.
O estudo teve como objetivo avaliar o quadro clínico apresentado pelos pacientes e identificar os principais sinais e sintomas da doença, sendo realizado um protocolo específico para a hidroterapia e outro para a técnica de Watsu, baseado na literatura existente, para o tratamento de hérnia de disco lombar, com o intuito de reabilitar e reintegrar esses pacientes à sua rotina diária e propocionar uma melhor qualidade de vida frente às suas limitações.
Dentre as lombociatalgias, tomamos como estudo, especificamente, a hérnia discal, por ser a mais diagnosticada nas clínicas e consultórios médicos. Ocorre quando há um extravasamento do núcleo pulposo dentro da cápsula do anel fibroso, onde normalmente um nervo é comprimido (CAILLET, 1979).
O nosso estudo relatou que o aparecimento da hérnia discal sucedeu-se, em geral, a um esforço de levantamento de uma carga (50%) ou em algum movimento brusco (42%). Sakata (2001), em seu estudo sobre lombalgias, assinala como principais causas da doença fatores individuais, como os de natureza alimentar, falta de condicionamento físico, má postura e fraqueza dos músculos abdominais e espinhais; e fatores ocupacionais, como sobrecarga excessiva na coluna lombar, permanência na posição sentada por períodos prolongados e sedentarismo.
A sintomatologia clássica da hérnia de disco é a dor ciática, que se inicia na região lombar ou nas nádegas, repentinamente, e segue por todo o trajeto do nervo comprimido, o que foi mostrado em 100% dos pacientes. Outros sintomas relatados foram: sensação de formigamento (33,6%), dormência (44%) e falta de força (44%). Segundo trabalhos realizados por Cordeiro (2002), a dor ciática constitui o principal quadro sintomatológico, seguido, principalmente, pela fraqueza da musculatura dos membros inferiores.
A hérnia discal é um fator limitante ao trabalho, segundo estudos realizados por Fisher (1991). Podemos confirmar tal afirmação através dos resultados obtidos pela nossa pesquisa, onde se pôde constatar que a maioria dos pacientes que trabalham sentados relatou sentir desconforto (44%), e a maioria dos que trabalham em pé (39%) afirmou ser a postura o fator que causava mais dor. Cerca de 13% dos pacientes disseram sentir dor independentemente de qual postura seja adotada.
A avaliação dos pacientes com hérnia iniciou-se com o teste de Laségue, no qual a média inicial de amplitude foi de 48º; na hidroterapia convencional, as médias na décima e na vigésima sessões foram de 62º e 71º, respectivamente, enquanto que, na técnica de Watsu, as médias foram de 74° e 88º.
A hidroterapia foi o recurso que mostrou resultados positivos no tratamento específico de hérnia de disco lombar, pois, após 10 sessões, a melhora da sintomatologia dolorosa foi de 50%. Após a vigésima sessão, aproximadamente 66% dos pacientes submetidos ao tratamento afirmaram ter diminuído totalmente o quadro álgico inicial.
A técnica de Watsu foi aplicada em 12 pacientes, e destes, após 10 sessões, 66,7% disseram não mais sentir dor. Após 20 sessões, cerca de 91% destes pacientes relataram não sentir qualquer tipo de sintoma.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os principais sinais e sintomas relatados pelos pacientes foram dor, dormência, sensação de formigamento e falta de força.
A associação da técnica de Watsu e da hidroterapia proporcionou um retorno precoce da maioria dos pacientes a suas atividades diárias, já que muitos deles haviam realizado outras terapias, mas sem o êxito esperado.
O uso da técnica de Watsu e da hidroterapia mostrou-se eficaz no tratamento do principal sintoma – a dor – pois a ingestão de medicamentos anti-inflamatórios e analgésicos foi diminuída consideravelmente após o tratamento.
A técnica de Watsu foi bastante eficaz no tratamento, pois reduziu o quadro sintomatológico, tendo como efeitos adversos a dor cervical em um número reduzido de pacientes e o aumento da tensão, apresentada nas primeiras sessões, ocorridas provavelmente devido à falta de confiança na terapia.
Segundo os pacientes, a hidroterapia é uma forma de reabilitação de fácil adaptação, ao contrário da fisioterapia convencional, que vem tendo o número de praticantes reduzido de forma significativa;

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 comentário em “TÉCNICA DE WATSU: APLICAÇÃO NA HÉRNIA DE DISCO”

  1. Boa tarde Eduardo Neves
    Acabei de encontrar sua pesquisa. Fico muito contente de saber que o Watsu estas sendo valorizado para diferentes situações em que a dor possa ser reduzida.
    Só gostaria de salientar uma observação, quando se refere ao Watsu nas suas considerações:
    Sei por experiência,como instrutor de Watsu e praticante, que as dores cervicais e aumento da tensão podem vir a existir por falta de cuidado na execução das manobras da técnica.
    Se bem aplicado, o Watsu, não tem efeitos adversos, nem em pessoas que apresentem dor muito aguda ou ainda tenham medo a água.
    Fico a sua disposição para qualquer outro esclarecimento.
    Antonio Maria Cardozo Acosta

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