Reflexões sobre o retorno financeiro do fisioterapeuta – 3a parte

Olá amigos. Dando continuidade aos dois posts anteriores, vou complementar essas análises colocando mais dois tópicos que considero, também, de bastante relevância.

Primeiramente, vamos levar em conta o fisioterapeuta sub-empregado, embora aparentemente não pareça assim. Sob esse aspecto existem várias situações, mas vou trazer como exemplo as clínicas de traumato-ortopedia, pois existem em maior quantidade do que as outras especialidades e um grande número de fisioterapeutas que militam nessa área. Observem que, em todos os letreiros publicitários esses pontos são frequentes: urgências, fraturas, raios-x, fisioterapia. A mina de ouro está na fisioterapia, mas infelizmente o fisioterapeuta não percebe assim. Lhe é oferecido um salário (normalmente baixo) e uma participação porcentual (o que nem sempre acontece). Alguns lugares assinam carteira de trabalho, outros trabalham com o profissional autônomo.

Vamos analisar em termos de ganhos. O proprietário da clínica realiza um investimento inicial em infraestrutura que esteja de acordo com os convênios efetuados (e quase sempre são muitos, mas o fisioterapeuta sozinho não consegue da mesma forma) e divide o espaço em boxes de acordo com a disponibilidade. Conta com um ou dois fisioterapeutas, trabalhando 6 horas diárias cinco dias da semana, tudo como determina a legislação. Vamos dizer que sejam realizados 100 atendimentos por dia a 10,00, perfazendo um total de 1.000,00 por dia, 5.000,00 por semana, 20.000,00 por mês; só com a fisioterapia. Que sejam gastos 5.000,00 com os profissionais e material, sobram 15.000,00 limpos que vão para o profissional responsável pela clínica. Como é uma alternativa altamente rentável, três filiais são abertas em bairros populosos e de alta demanda. Os 20.000,00 saltam para 80.000,00 e os fisioterapeutas continuam subestimados e subempregados. Perceberam a crueldade da coisa?

Acrescento aí um agravante importante. Observem que não estou me referindo às honrosas exceções, mas, sim, à regra. Quase sempre, os tratamentos já vêm indicados e a qualidade bastante questionável. Sobre isso já ouvi profissionais falarem sobre a tríade maldita (tens, ultra-som e gelo) e uma ex aluna que estagiava num desses lugares colocou: “lá é ótimo, o tratamento já vem pronto, a gente nem precisa pensar muito.” Pasmem, em 2007, não foi em 1976. Aí a pergunta: se os tratamentos duram , em média, 20 a 30 minutos, como realizar a tríade adequadamente? Cinesioterapia, raramente. E a avaliação, evolução e alta fisioterápica, prerrogativas do fisioterapeuta? Não fazem parte da realidade; dez sessões e retorno ao ortopedista. Quem estabeleceu isso? Baseado em que? Os planos de saúde com interesse unicamente comercial.

O fisioterapeuta que tem um mínimo de comprometimento, ética e consciência não aceita essa situação por muito tempo (como conheci muitos) e sai. Para o proprietário da clínica isso não é problema, abre a gaveta e pega o próximo curriculum e tudo recomeça. Para ele, o que interessa é que esteja em condições legais junto ao Crefito. Não importa se o profissional possui inúmeros cursos de especialização e aprimoramento, pois não vai utilizar nada disso. É muito frustrante, injusto e indigno com a categoria. Enquanto houver quem aceite essas condições, ainda que por um tempo, a situação não vai mudar e os pacientes vão continuar a ser tratados de forma totalmente inadequada e sem melhora. Aí ouvimos a pior frase; …eu já fiz 30 sessões de fisioterapia e não melhorei, fisioterapia não serve para nada. É doloroso ouvir isso, quando sabemos que fisioterapia é maravilhosa.

Sob esse aspecto, ainda, o profissional precisa refletir: se eu não avalio, não prescrevo o tratamento fisioterápico, não evoluo, não realizo cinesioterapia e não dou alta fisioterápica, que fisioterapeuta sou eu?

Felizmente há lugares que não funcionam assim, principalmente se a clínica é do fisioterapeuta, mas, lamentavelmente, ainda está longe de ser a regra. Mas pode vir a ser, depende da nossa postura e atitude. Só tem postura e atitude quem tem conhecimento e quem tem conhecimento não tem medo e não se sujeita a situações degradantes e humilhantes. Pensem bastante sobre isso.

O último tópico que gostaria de abordar também é muito importante, grave e complexo, pois envolve muitas prerrogativas por parte dos órgãos representativos da nossa classe.

Nos anos 1970, a fisioterapia começou lentamente a se mostrar (a regulamentação da profissão ocorreu em 1969 juntamente com a Terapia Ocupacional), mas ainda muito restrita à ação terciária da saúde. Em meados da década começamos a nos apresentar em algumas unidades hospitalares, sendo contratados por elas ou atendendo os pacientes a partir da solicitação do médico assistente que nos indicava. Home care não existia, mas atendimento domiciliar, sim. Os pacientes internados eram acompanhados por seus próprios médicos. No final dessa década os planos de saúde começaram a despontar, pois os gastos com uma internação eram exorbitantes, muito embora a saúde pública fosse muito melhor do que constatamos atualmente. Com a entrada em cena dessa nova realidade, muitas coisas mudaram. Nessa fase, foi criada uma deformação que persiste, lamentavelmente, até hoje. Muitos médicos prolongavam a internação de pacientes que necessitavam de tratamento fisioterápico mais longo, para diminuir os gastos. Isso foi percebido pelas seguradoras que resolveram a questão da seguinte forma: os pacientes que eram submetidos a tratamento respiratório seriam cobertos e aqueles com problemas de extremidades, não. Criou-se, assim, a chamada fisioterapia respiratória separada da fisioterapia motora. Isso é um tremendo engano, não existe essa diferenciação, tudo é um ato motor. Infelizmente, o fisioterapeuta gostou e adota isso até hoje. Essa divisão deveria ser banida definitivamente.

Como citei acima, os hospitais privados começaram a contratar fisioterapeutas, alguns concursos públicos realizados, ainda que com poucas vagas. Com o crescimento da demanda e a ampliação das áreas de atuação pelo fisioterapeuta, os custos trabalhistas aumentaram muito e, com honrosas exceções, os nosocômios optaram por terceirizar algumas especialidades, incluindo a fisioterapia. Os profissionais passaram a criar firmas pessoa jurídica para prestar serviços aos hospitais, abrangendo ambulatório, unidades de internação e unidades fechadas. O valor pago pelos planos de saúde em relação aos procedimentos fisioterápicos é muito baixo; além disso, os auditores fazem de tudo para glosar atendimentos que não estejam muito bem justificados. O que fazer?

Os gerentes das firmas terceirizadas contratam fisioterapeutas com valor fixo de plantão que chega a 50,00 por 12 horas para atender o máximo de pacientes por dia, pois a firma ganha por quantidade, seja no ambulatório, leito ou cti. Nem todas possuem um fisioterapeuta para cada unidade, tornando inviável atendimentos com um mínimo de qualidade. Mais uma vez, entram em cena distorções graves que continuam sendo praticadas. Todos devem conhecer o famoso dr Respiron, vendido até nas lojas de conveniência dos hospitais. Pois é, muitas vezes o atendimento é substituído por esse recurso (que possui indicações específicas) e o paciente é orientado a elevar loucamente as esferas, utilizando vários músculos respiratórios acessórios de forma inadequada e o atendimento é computado como tendo sido realizado. Desonesto com o paciente, lamentável. Nos anos 1970, todo paciente hemiplégico tinha uma bolinha de borracha para amassar, hoje é o respiron. O que pensam os profissionais que agem dessa maneira?

Aí temos outro procedimento igualmente sério e grave. Como o gerente necessita do lucro, contrata poucos fisioterapeutas – a situação mais terrível, o fisioterapeuta explorando outro. O fisioterapeuta contratado, por sua vez, precisa do quantitativo para garantir o retorno e quem sabe? uma participação porcentual. O que ele faz? Abre vagas para estágio “supervisionado”. Isso é uma tragédia para o futuro profissional e que precisa ser combatido com rigor. Esse estagiário não acompanha o fisioterapeuta nem é supervisionado por ele, recebe instruções e passa a atender os pacientes sozinho, visando aumentar o quantitativo e o retorno da firma. O estagiário atende, evolui e o “supervisor” carimba. Isso é criminoso.

Muitos erros são cometidos a partir daí, muitas iatrogenias poderiam ser evitadas por conta dese estado de coisas. Nos finais de semana o problema se agrava e a situação dos estagiários torna-se mais delicada. Uma ex aluna veio me procurar no final de uma aula e comentou: eu sou estagiária de uma equipe de um hospital e no final de semana eu atendo sozinha pacientes em pós-operatório de cirurgia cardíaca, o que eu devo fazer? Saia amanhã desse estágio, respondi. Muitos estagiários recebem a promessa de participar da equipe no final do curso se continuarem colaborando. Mentira, enganação, maldade, mas pura realidade.

Desejo ressaltar que, existem honrosas exceções e grupos de extrema competência e excelência que dignificam a profissão, mas, novamente, não é a regra. É necessário, urgentemente, que invertamos esse quadro. Depende basicamente de nós.

Infelizmente, as recentes modificações das leis trabalhistas dificultam ainda mais a nossa realidade de mercado, mas os sindicatos estão se mobilizando para reverter esse quadro. Precisamos nos unir e dar todo o apoio aos colegas que estão lutando em prol da profissão, mas a postura individual também conta muito para as mudanças que se fazem necessárias urgentemente.

Gostaria que as reflexões sobre o retorno  financeiro do fisioterapeuta fossem mais positivas, mas é possível mudar essa realidade.

No próximo post vou propor soluções, ideias e sugestões. Quem quiser participar contribuindo com propostas e vivências será muito bem vindo. Os fisioterapeutas não sabem, mas têm muito mais poder do que imaginam. Nossa legislação é avançada e permite muitas opções. O poder de pressão está a nosso favor, por que não usá-lo de forma consciente e consistente?

Só para não passar em branco, é necessário ressaltar que hoje temos uma quantidade crescente de “terapeutas” de todos os tipos com formação questionável, salas abertas, realizando cinesioterapia abertamente. Não há subclasse na medicina, odontologia, veterinária, psicologia, por que na fisioterapia pode? Já não bastam os auxiliares e massagistas atuando como fisioterapeutas? Há muita coisa para mudar, por isso a necessidade da participação maciça da categoria em todo o Brasil. A sociedade precisa, o povo merece.

Abraço a todos.

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