Reflexões sobre o retorno financeiro da fisioterapia

Olá amigos. Quando escolhemos uma profissão, a nossa expectativa é exercê-la com plena dedicação, alcançar estabilidade profissional, pessoal e financeira; enfim, poder viver dignamente da escolha feita. Sabemos que, atualmente essa não é uma tarefa fácil, mas plenamente possível se percebermos alguns pontos e obstáculos muito importantes. A grande maioria dos fisioterapeutas passa por uma fase, ou se mantém nela, que é o atendimento domiciliar. Temos aí o primeiro grande desafio. Se analisarmos de forma racional, concluímos que a fisioterapia é uma especialidade de muita relevância, mas elitista. Por que?

 

A grande parte das famílias que possui um parente que necessite de tratamento fisioterápico de médio e longo prazo, não tem condições de arcar com os gastos por muito tempo. Tomemos como exemplo um paciente com sequela de AVC que necessita atendimento diário e você o trata cobrando o aviltante valor de R$30,00. No final do mês, essa família dispende R$900,00. Para você é muito pouco, mas para essa família é muito. Se acrescentarmos fonoaudiologia, cuidadora, higiene, medicamentos, o tratamento se torna inviável. Começa, então, a disputa pelo paciente. Quem a família vai procurar? O profissional de excelência? Não, o profissional que cobre menos, porque é tudo a mesma coisa na visão equivocada de uma sociedade que não consegue enxergar a individualidade, qualidade e dignidade desse profissional. Se os próprios profissionais da saúde muitas vezes não o fazem, o que esperar dos leigos de modo geral? E, pasmem, esse paciente vai ser atendido por R$15,00. Com que qualidade? Com que dignidade? Com que respeito à categoria e à profissão que ele(a) escolheu?

 

Vamos considerar que esse paciente tenha plano de saúde e o mesmo cubra o atendimento domiciliar. O valor que a seguradora paga é humilhante, assim como também o faz com as demais especialidades. É uma vergonha a lucratividade crescente dessas empresas em detrimento do que retorna ao profissional. E quanto mais idoso for o paciente, potencialmente necessitará de mais tratamento e paga valores exorbitantes, tornando  a assistência inviável. Como o mercado é competitivo, o fisioterapeuta aceita e passa o dia correndo de um lado para o outro para cumprir uma agenda de atendimentos impossível, estressante, cansativa, com baixo retorno e quase nenhuma satisfação pessoal. Onde fica a atualização? Onde fica a pesquisa? Onde fica a seleção de material para possível publicação de um artigo científico? Tudo se perde no tempo e o profissional se desencanta e, muitas vezes, migra para outra profissão. Até quando vamos continuar aceitando essas condições impostas pelas seguradoras. Na minha época de formação éramos menos de 1.000 no Brasil todo; hoje somos mais de 200.000. Está na hora de mostrar nosso poder de pressão. Se nenhum profissional se submeter, esse perfil obrigatoriamente mudará a nosso favor e a favor do paciente. Entretanto, se um ceder tudo volta à situação anterior.

 

Para terem uma ideia, conheço profissionais de excelência que investiram em equipamentos, salas em três bairros do Rio de Janeiro e ficaram 10 anos (dez anos!!!!) sem reajuste pelo plano. Quebraram e ficaram reduzidos a um cantinho de uma sala cedida por colega; é muito vergonhoso.

 

Um outro aspecto preocupante a ressaltar é do chamado home care. Atendimento domiciliar não é sinônimo de home care; as condições impostas pela home care apresentam um grau de complexidade totalmente diferente e não pode ser colocado dentro de um mesmo contexto. Com isso, foram criadas cooperativas que atendem a todos como se fosse uma coisa única e, mais uma vez, os profissionais que se submetem recebem parcos valores, mas, com certeza, alguém está lucrando com isso.

 

Antes de propor soluções, gostaria de abordar outras situações relevantes como os concursos públicos, terceirização com firmas prestadoras e atendimentos pelos postos de saúde nas suas diversas frentes. Esses são os temas do próximo post e espero que você comece a refletir sobre o que escrevi acima, pois a mudança precisa ser feita em todos os aspectos simultaneamente. Participe, envie seus comentários, críticas e sugestões. Divulgue e convide mais e mais colegas a utilizar o aplicativo; ele é uma ferramenta de imprescindível relevância para a conscientização da nossa categoria.

Abraço a todos.

6 comentários em “Reflexões sobre o retorno financeiro da fisioterapia”

  1. Ana Carolina

    Excelente texto! Infelizmente, essa é uma realidade brasileira, e que nós, fisioterapeutas, temos que nos unirmos para valorizar a nossa profissão!

  2. Seria bem interessante se todos os fisioterapeutas parassem de atender convênios! Provavelmente a pressão dos conveniados seria grande pelo serviço, pois atualmente a fisioterapia é imprescindível no tratamento de diversos problemas. O poder de barganha trocaria de “mãos” e teríamos condições de exigir valores mais justos. Seria possível??? O que acham colegas??

    1. Acredito Luciano que sua idéia, embora interessante seja impraticável, pois a grande maioria das empresas prestadoras de serviços possuem seu faturamento comprometido em mais de 40% com as OPS. Existem ainda cláusulas que podem dificultar essa atividade.
      Eu sugeriria a substituição progressiva do “tipo de cliente”….

  3. Laurita Ferla Castegnaro

    Parabéns pelo texto! Entendo que precisaria haver um boicote maciço (porém organizado) aos atendimentos pelas OPS. Além disso, é necessária a reeducação da postura profissional, a começar ainda na formação, para que novos profissionais assumam uma postura de maior auto-valorização no mercado. Uma mudança cultural se faz necessária e urgente. Os conselhos de todas as regiões, apoiados pelo Coffito precisariam realizar um planejamento e entrar com medidas muito incisivas apoiando os profissionais através de fortes campanhas para tal. Individualmente cabe a cada profissional fazer uma reflexão sobre o significado da profissão para si e para a sociedade e agir com postura ética para a valorização da classe. Sabemos que essa teoria não é nada fácil de ser posta em prática quando a maioria dos profissionais se desdobra pela sobrevivência. Mas como obtermos essas profundas mudanças, se não fizermos a nossa parte? Precisamos olhar com mais amor para essa profissão tão linda e importante, descobrirmos o nosso diferencial (muitas vezes ainda não descoberto) e aprendermos a nos divulgar de forma ética, profissional e com a devida valorização. Comecemos pelas pequenas ações do dia a dia, com cada paciente e a cada palavra dita cada vez que mencionamos a nossa profissão. Sucesso a todos!

  4. O problema é que a Fisioterapia se prostituiu, como vc mesmo disse na sua época eram mil fisioterapeutas hoje são mais de 200mil, abriu muitas faculdades de fisioterapia sem nenhum controle, e o mercado é assim, quanto maior a oferta de profissional o povo tende a pagar pelo preço menor….Acho que abriram muitas faculdades com o curso de fisioterapia país a fora, sem controle algum e o resultado é esse, o mercado cheio de profissionais insatisfeitos.

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