Reflexões sobre o ganho financeiro do fisioterapeuta – 2a parte

Olá amigos. No texto inicial, abordei alguns tópicos inerentes aos ganhos do fisioterapeuta e os obstáculos encontrados para um retorno digno que permita ao profissional viver dignamente da carreira que escolheu. Em continuidade, trarei à reflexão temas  não menos relevantes e que necessitam da atenção de todos.

Começarei pelos concursos públicos. É um ponto bastante complexo, pois abrange diversos aspectos. É sabido que, quando falamos em concurso público para hospital, nos referimos a vagas desde o ambulatório até as unidades fechadas, passando pelas diversas unidades de internação. Na prática, o que observamos? Para tantos locais de abrangência, pouquíssimas vagas oferecidas.

É sabido, também, que a abordagem cinesioterapêutica ou fisioterapêutica mais amplamente falando de forma precoce, previne várias co-morbidades que podem se tornar potencialmente graves se não tratadas precocemente. A fisioterapia ajuda e diminuir vários tipos de gastos por parte do hospital e agiliza a rotatividade de leitos em função da alta hospitalar mais rápida.

Por que os gestores não dão importância a esses fatores, os quais por si só, justificariam a admissão de muito mais profissionais. Aqui temos um ponto muito importante a ponderar que não tenho certeza se ainda é assim, mas que funcionava da seguinte maneira: o hospital é público e conveniado com o sus. O sus paga o hospital na ocasião da alta hospitalar valores bastante baixos, já embutidos os procedimentos médicos e cirúrgicos, se for o caso. O atendimento pelo fisioterapeuta não é computado e quem paga o fisioterapeuta é o estado ou município ou o governo federal. Conclusão: o fisioterapeuta é considerado um gasto, não um investimento, mesmo com tudo que ele ajuda a economizar. Em função disso, não interessa aos hospitais públicos ter muitos fisioterapeutas, reduzindo de forma significativa a qualidade dos serviços prestados e, sob a ótica das outras categorias da equipe, o profissional não acrescenta muito, pois não há um trabalho de continuidade que reforce a necessidade fundamental do fisioterapeuta na unidade. Essa é uma realidade de muitos hospitais.

Se, entretanto, os procedimentos à beira do leito fossem pagos pelo sus, com certeza, o interesse em ter mais fisioterapeutas cresceria de forma significativa. É fundamental uma negociação permanente entre a categoria, os gestores e o sus para tornar isso realidade. Hoje temos poder de pressão para isso, mas há muita desinformação por parte dos fisioterapeutas e há prefeituras pagando um salário aviltante de pouco mais de 900,00 por 30 horas. É uma vergonha.

E os ambulatórios? Os postos de saúde? As unidades de saúde da família? de saúde da mulher? as upas?  etc. Nesses casos, os atendimentos são ambulatoriais e os procedimentos são pagos pelo sus; por que não temos fisioterapeutas em quantidade suficiente? Porque o fisioterapeuta não se mostra, não diz ao que veio. Em todos os municípios ocorrem reuniões dos Conselhos de Saúde e é nessas reuniões que se debatem as vagas a serem abertas para essa ou aquela unidade de acordo com a necessidade; como o fisioterapeuta não comparece nem se faz representar, outras categorias decidem e solicitam uma ou duas vagas. Onde está o profissional para requerer e justificar a presença em maior número nas diversas unidades. Faz muita falta, mas ninguém se apresenta.

Por exemplo, quando fui chefe de setor de um hospital público, fiz um levantamento junto aos serviços clínicos e cirúrgicos da unidade quanto à necessidade de fisioterapeutas. Recebi 52 pedidos diretor e a estimativa de mais 30. Nessa é poca o total de fisioterapeutas era de, aproximadamente, 20. A chefia do setor de recursos humanos levou um susto com a quantidade de vagas solicitada. Isso ocorreu por volta de 1996. A chefia posterior manteve o empenho e hoje esse quantitativo foi ultrapassado.

Nesse intervalo, muitos fisioterapeutas foram contratados, o que não nos interessa, pois esses profissionais realizam o mesmo trabalho com ganho menor. Também combatemos isso, e hoje só temos concursados. É possível, mas temos que nos empenhar.

Imaginem as unidades que atendem pré-natal se tivessem fisioterapeutas suficientes para realizar um trabalho de fisioterapia gestacional, quantos casos de lesão cerebral poderíamos evitar? É uma pretensão totalmente viável.

Com a quantidade de doentes crônicos que dependem de fisioterapia e não possuem plano de saúde, a grande maioria, seria maravilhoso se as unidades de saúde fôssem próximas às suas residências, evitando viagens longas, desgastantes e que não contribuem em nada para a melhora e qualidade de vida dessas pessoas. Mas, não é o que acontece.

Será que as autoridades de saúde não têm essa percepção, essa sensibilidade, esse sentido humanitário?

E nós, não podemos nos unir para mudar essa realidade perversa? Deu para perceber o quanto podemos fazer desde a ação primária até a ação terciária de saúde com uma atuação que é só nossa? Temos muito a oferecer; o fisioterapeuta tem uma responsabilidade social enorme. Pensem nisso.

Ao longo dos meus 41 anos dedicados integralmente e amorosamente à fisioterapia, poderia escrever vários posts só com relatos desse tipo, pois a situação é muito grave.

No próximo post, abordarei mais três tópicos que ficaram faltando e que também fazem parte  da situação atual do fisioterapeuta e proporei ideias para colaborar nas soluções. Quem tiver outras propostas, pode enviar e discutiremos todos juntos, pois isso interessa ao Brasil como um todo.

Abraço a todos

 

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