QUAIS AS RECOMENDAÇÕES DE REABILITAÇÃO PÓS COVID?!

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Por: Dr. Deivison C. Aquino.
Membro da:
– American College of Sports Medicine ID820805
– British Association of Sport & Exercise Medicine ID190166
– European Society of Cardiology ID1076262
– Sociedade Brasileira de Cardiologia/socerj ID31409
– Sociedade Brasileira do Estudo da Dor D151
– Associação de Medicina Intensiva Brasileira – AMIB

Esta foi uma pergunta feita por um paciente durante uma consulta de reavaliação no consultório. Depois desta ocasião percebi que muitas pessoas ainda tem dúvida em como “recomeçar” suas vidas após a infecção do coronavírus da forma mais intensa.

Após passar alguns meses fazendo longos plantões em CTI especializado em pacientes acometidos pela COVID-19 da forma mais acentuada e após os primeiros pacientes receberem alta hospitalar ocorreu a necessidade de um plano/programa de reabilitação fisioterapêutica com recomendações que ajudassem estes pacientes a recomeçar suas vidas de forma mais adequada em relação a sua funcionalidade e qualidade de vida.

A consequência dessa necessidade é este post com as orientações necessárias para aqueles pacientes que estão neste processo de readaptação pós alta-hospitalar.

A Covid-19 é uma doença respiratória e por muitas vezes multissistêmica altamente infecciosa que impactou profundamente o mundo e o nosso dia-a-dia. Esta doença zoonótica era desconhecida em humanos e grande parte das pesquisas eram focadas na fase aguda com a missão de reduzir a mortalidade em animais.

Atualmente, sabe-se que a covid-19 resulta em morbidades significativas por cerca de 3 a 6 meses na fase intermediária e 12 meses ou mais na fase crônica. Isso é preocupante devido a realidade dos serviços de reabilitação no Brasil sobrecarregando ainda mais os poucos serviços de rotina e de reabilitação existentes em nosso país.

O padrão de gravidade da doença observado até agora são:
– Pacientes infectados assintomáticos.
– Pacientes sintomáticos isolados em casa.
– Pacientes sintomáticos admitidos no hospital e;
– Pacientes sintomáticos que requerem suporte ventilatório em cuidados intensivos.

Sempre que possível, quando necessário, a reabilitação deve começar no ambiente de cuidados intensivos e a recomendação é que os programas de reabilitação sejam iniciados progressivamente nos primeiros 30 dias da fase pós-aguda objetivando maior impacto na recuperação.

É sabido que as sequelas daqueles que sobrevivem a esta doença será um desafio devido ao que pouco se sabe sobre elas. Estas recomendações foram baseadas no consenso de reabilitação pós alta hospitalar produzido por pesquisadores da Stanford University e as mais recentes evidências de reabilitação dos sobreviventes da COVID-19 e as lições aprendidas de epidemias anteriores.

Recomendações gerais para pacientes com COVID-19.
De acordo com o histórico dos pacientes hospitalizados, uma parcela destes indivíduos , podem requerer cuidados contínuos com o objetivo de melhorar os resultados em longo prazo e este pode ser o maior desafio. A telereabilitação pode ser um caminho, porém existe a barreira tecnológica e de acesso a esta ferramenta. Uma outra possibilidade é a iniciativa das sociedades de saúde e até mesmo o Ministério da Saúde disponibilizar e encaminhar estes pacientes para centros de atendimento de reabilitação e redes coordenadas que serão necessárias após a pandemia de COVID-19 e será preciso identificar as necessidades potenciais de reabilitação em nível individual e organizacional após esta pandemia.

Também será necessário identificar necessidades, expandir e oferecer serviços de reabilitação em nível individual e específico como reabilitação cardiopulmonar, musculoesquelética, neurorreabilitação, acompanhamento médico geral e psicológico baseando-se nas evidências disponíveis até o momento.

Infecções graves que levam a dificuldade respiratória com doenças semelhantes, incluindo SARS e MERS, mostram problemas persistentes por pelo menos um ano após a recuperação. Isto nos leva a necessidade criar ou reformular os programas de reabilitação a nível local, regional e nacional, dependendo do nível de deficiência.

A reabilitação deve ser centrada no paciente e adaptada às suas necessidades individuais e qualquer programa de reabilitação deve levar em consideração as comorbidades que podem afetar o progresso do paciente ou a capacidade de participar destes programas. A educação desempenha um papel fundamental em qualquer programa de reabilitação bem-sucedido. Como a COVID-19 é uma doença nova, a educação em torno das implicações da doença e das suas potenciais consequências precisará ser discutida com os pacientes.

Sabemos que há uma escassez de diretrizes baseadas em evidências sobre a reabilitação de indivíduos com COVID-19 e neste sentido há uma necessidade de mais pesquisas sobre suas sequelas e seu impacto de médio a longo prazo nestes indivíduos.

A COVID-19 tem um impacto variável em diferentes indivíduos, variando de sintomas que vão de muito leve a muito grave que requerem internação em uma UTI. E um número significativo destes pacientes necessitarão de reabilitação por terem passado algum tempo em uma UTI. Muitos deles terão alguns sintomas comuns como dispneia, ansiedade, depressão, dor prolongada, função física prejudicada e baixa qualidade de vida. Essa combinação de problemas físicos, cognitivos e psicológicos é conhecida como síndrome do cuidado pós-intensivo (PICS).

Contudo, uma abordagem holística para gerenciar esses problemas deve ser considerada fortemente. Pois sabemos que a COVID-19 é uma doença infecciosa com complicações potencialmente graves cujo impacto total ainda não foi compreendido e portanto seria prudente monitorar de perto estes pacientes durante qualquer processo de reabilitação sugerido.

De acordo com as diretrizes existentes, a reabilitação deve ser realizada ao longo de toda a jornada do paciente, desde sua admissão até o atendimento na enfermaria e, em seguida, após sua alta hospitalar até o destino mais adequado. A mobilização precoce tem se mostrado prática e segura em ambiente hospitalar de UTI. A natureza altamente infecciosa da COVID-19 constituirá uma barreira adicional, e será importante que medidas de controle de prevenção de infecção sejam cumpridas. O equipamento de proteção individual deverá ser usado de acordo com a política local e todas as tentativas para reduzir ou evitar o risco de geração de aerossol durante qualquer atividade devem ser tomadas.


Recomendações gerais de reabilitação

Os profissionais de saúde devem seguir medidas preventivas, usar equipamentos de proteção individual adequados de acordo com a política local e devem ser tomadas medidas para evitar ou reduzir o risco de geração de aerossol durante as intervenções e atividades. Nível de evidência: Nível 5.Nível de concordância: pontuação média 9,23 (IC 95% 8,66 a 9,91).
Os planos de tratamento de reabilitação devem ser individualizados de acordo com as necessidades do paciente, levando em consideração suas comorbidades. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 9,70 (IC 95% 9,46 a 9,97).
Para pacientes com COVID-19, a reabilitação deve ter como objetivo aliviar os sintomas de dispneia, sofrimento psicológico e melhorar a participação na reabilitação, função física e qualidade de vida. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 9,48 (IC 95% 9,11 a 9,85).
Os pacientes devem ser revisados ​​durante o processo de reabilitação. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 8,90 (IC 95% 8,23 a 9,58).
Os pacientes devem receber educação sobre sua condição e estratégias para administrar a recuperação. Nível de evidência: Nível 5.Nível de concordância: pontuação média 9,23 (IC 95% 8,73 a 9,85).


Sequelas pulmonares e recomendações de reabilitação.
Embora a COVID-19 seja algo recente; já houve surtos anteriores de SARSCov.

O teste de função pulmonar entre 6 a 8 semanas após a alta hospitalar de SARS mostrou um padrão restritivo leve ou moderado consistente com fraqueza muscular de 6% a 20%. Um outro estudo de coorte prospectivo com 94 sobreviventes de SARS relatou prejuízo persistente da função pulmonar em cerca de um terço dos pacientes em 1 ano de acompanhamento. O estado de saúde desses sobreviventes de SARS também foi significativamente pior em comparação com a população saudável. Um estudo de coorte prospectivo com 97 sobreviventes de SARS demonstrou que 27,8% tinham achados anormais na radiografia de tórax, bem como reduções persistentes na capacidade de exercício (teste de caminhada de 6 minutos (TC6)) em 12 meses.

Além da função respiratória, um estudo de coorte prospectivo de 171 sobreviventes de SARS demonstrou déficits no desempenho cardiorrespiratório (6MWT) e musculoesquelético (dinamometria manual para os principais grupos musculares), bem como baixa qualidade de vida em comparação com as normas da mesma idade. Um quadro semelhante foi relatado após a epidemia de influenza H1N1 de 2009.

A reabilitação pulmonar é defendida há várias décadas como uma forma de prestar assistência integral e melhorar o estado funcional de pacientes com doenças respiratórias. Ela é direcionada para os problemas e necessidades exclusivos de cada paciente e é fornecido por um programa de reabilitação multiprofissional com profissionais de saúde. Por isso, ela pode ser definida como “uma intervenção multidisciplinar baseada em avaliação e tratamento personalizados que inclui, mas não se limita a, treinamento físico, educação e modificação comportamental destinada a melhorar a condição física e psicológica de pessoas com doenças respiratórias ”.

A reabilitação pulmonar tem a missão de reduzir os sintomas, aumentar a capacidade funcional e melhora a qualidade de vida dos indivíduos com doenças respiratórias, mesmo naqueles com anormalidades irreversíveis da arquitetura pulmonar. Estes benefícios advêm do tratamento das morbidades secundárias que causam a deficiência e melhoram a função, em vez do distúrbio respiratório em si.

Após a COVID-19, especialmente naqueles que precisaram de cuidados intensivos, é provável que sejam acometidos por disfunção muscular periférica (devido ao descondicionamento e diminuição da massa magra, neuropatia da UTI, fadiga e os efeitos da hipoxemia), disfunção muscular respiratória (padrão respiratório disfuncional, PAD e obstrução laríngea induzida por exercício), comprometimento cardíaco, descondicionamento e fatores psicossociais (ansiedade, depressão, culpa, distúrbios do sono e dependência).

A maioria da literatura sobre reabilitação pulmonar é relatada em populações mais velhas com doença pulmonar obstrutiva crônica ou grupos mais jovens com asma. No entanto, há evidências disponíveis para apoiar seu uso em pneumonia, doença pulmonar intersticial (DPI) e SARS, bem como de acordo com alguns estudos emergentes sendo usados nos estágios iniciais do COVID-19.

Os programas de reabilitação pulmonar podem ser ministrados em um ambiente hospitalar, ambulatorial, domiciliar ou mesmo supervisionado remotamente. A duração dos programas internacionais para pacientes internados varia de 6 semanas a 9 semanas, alguns fornecendo programas de manutenção contínua além da fase inicial. Estes programas envolvem a otimização do gerenciamento médico, prescrição de exercícios, educação do paciente, suporte e intervenção psicossocial, estratégias de modificação comportamental e suporte vocacional específico. O objetivo é aumentar a capacidade de exercício funcional, melhorar a qualidade de vida , diminuir as sensações de dispneia e retornar à atividade vocacional.

O treinamento físico é considerado a base da reabilitação pulmonar e incluído entre 76% a 100% dos programas internacionais. Ele é baseado nos princípios gerais da fisiologia do exercício: duração, intensidade, frequência, especificidade e reversibilidade. Implícito na recomendação está o requisito de teste de exercício para prescrever limites e cargas de trabalho individuais.

Um método Delphi tem sido usado para desenvolver um algoritmo de gerenciamento clínico para mobilização de pacientes em terapia intensiva e recomenda-se o monitoramento da frequência cardíaca, oximetria de pulso e pressão arterial durante a atividade. As atividades iniciais listadas neste algoritmo podem ser descritas no nível de 1 a 3 equivalente metabólico de tarefas (METs) ou equivalente pela classificação de esforço percebido.


Recomendações de reabilitação pulmonar

As complicações respiratórias devem ser consideradas em pacientes pós-COVID-19, pois podem apresentar algum grau de comprometimento e limitação funcional, incluindo, mas não exclusivamente, devido à diminuição da função respiratória. Nível de evidência: Nível 2b. Nível de concordância: pontuação média de 9,38 (IC 95% 8,92 a 9,85).
A avaliação inicial é recomendada em tempo hábil quando for seguro fazê-lo, dependendo do grau de disfunção, insuficiência respiratória normocápnica e estado físico e mental do paciente. Nível de evidência: Nível 2b. Nível de concordância: pontuação média 9,00 (IC 95% 8,48 a 9,52).
O exercício de baixa intensidade (≤3 METs ou equivalente) deve ser considerado inicialmente, especialmente para pacientes que necessitem de oxigenoterapia, enquanto simultaneamente monitoram os sinais vitais (frequência cardíaca, oximetria de pulso e pressão arterial). O aumento gradual do exercício deve ser baseado em seus sintomas. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 8,90 (IC 95% 8,23 a 9,57).


Sequelas cardíacas e recomendações de reabilitação.
Atualmente sabe-se que a COVID-19 está associada a complicações cardíacas, em particular as arritmias e lesão miocárdica. As complicações cardíacas são provavelmente multifatoriais e podem resultar de lesão viral do miocárdio, hipóxia, regulação negativa do receptor ECA2, hipotensão, carga inflamatória sistêmica elevada ou toxicidade medicamentosa. Sugere-se que os mediadores pró-inflamatórios característicos na COVID-19 desempenham um papel importante, resultando em inflamação vascular, miocardite e complicações arrítmicas. A lesão cardíaca aguda, determinada por biomarcadores cardíacos elevados, foi descrita como maior naqueles com mortalidade aumentada, doença grave e naqueles que requerem suporte ventilatório. O risco de mortalidade foi mais alto em pessoas do sexo masculino, idade avançada e outras comorbidades, incluindo hipertensão, diabetes mellitus, doenças cardiovasculares e doenças cerebrovasculares.

Na maioria das outras complicações da COVID-19, existem diretrizes de manejo baseadas em evidências esparsas para sequelas cardíacas relacionadas a COVID-19. Qualquer paciente com infecção por COVID-19 exigiria uma avaliação de seus sintomas, recuperação, função e deficiências potenciais e dependendo da avaliação inicial do paciente e dos sintomas, as investigações adicionais podem incluir exames bioquímicos com biomarcadores específicos de sangue, eletrocardiograma de repouso (ECG), ECG de 24 horas, ecocardiograma, teste de esforço cardiopulmonar e imagem por ressonância magnética cardiovascular além do acompanhamento de um cardiologista.

Um período de 3 a 6 meses de descanso completo dos programas de treinamento foi proposto para qualquer atleta que sofre de miocardite. O período de repouso depende da gravidade clínica e da duração da doença, da função ventricular esquerda no início e da extensão da inflamação na ressonância magnética. Os atletas são submetidos a reavaliações periódicas devido ao aumento do risco de progressão clínica silenciosa, em particular durante os dois primeiros anos. O treinamento e competição podem ser retomados se a função sistólica do ventrículo esquerdo estiver normal, os biomarcadores séricos de lesão miocárdica forem normais e se as arritmias relevantes forem descartadas no monitoramento de ECG de 24 horas e teste de esforço. A orientação acima é apropriada para seguir na população jovem e ativa que sofre de lesão cardíaca relacionada a COVID-19 resultantes de miocardites.

A reabilitação cardíaca é priorizada para indivíduos com diagnóstico de doença cardíaca, como síndrome coronariana aguda, revascularização coronariana e insuficiência cardíaca. Existem seis componentes principais em programa de reabilitação cardíaca: mudança de comportamento em educação e saúde, gerenciamento de fatores de risco de estilo de vida, saúde psicossocial, gerenciamento de risco médico, estratégias de longo prazo, avaliação e reavaliações periódicas.

Muitas diretrizes internacionais apontam crescentes evidências de que a reabilitação cardíaca pode melhorar a capacidade de exercício, a qualidade de vida, o bem-estar psicológico, bem como reduzir a mortalidade, a morbidade e as internações hospitalares não planejadas.

Os programas formais de reabilitação cardíaca geralmente começam várias semanas ou meses após o evento cardíaco. O processo começa muito mais cedo com educação, proteção, mobilização e garantia.

O objetivo final é que os sujeitos voltem ao trabalho em estado de boa forma física e psicológica, com melhora da quantidade de vida. É provável que alguns pacientes de COVID-19 após sua alta hospitalar necessitem de programas de reabilitação cardíaca devido à exacerbação das doenças cardiovasculares comuns mencionadas acima. No entanto, também pode haver aqueles que requerem reabilitação devido a sequelas cardíacas na ausência de doença cardiovascular preexistente significativa.

A reabilitação cardíaca tradicional deve ser adaptada quando preciso para se adequar a estes novos grupos de pacientes que podem surgir durante a pandemia.


Recomendações de reabilitação cardíaca

As sequelas cardíacas devem ser consideradas em todos os pacientes pós-COVID-19, independentemente da gravidade, e todos os pacientes devem ter uma avaliação de seus sintomas cardíacos, recuperação, função e potenciais comprometimentos. Dependendo da avaliação inicial do paciente e dos sintomas, o conselho de um especialista deve ser procurado e as investigações adicionais podem incluir um exame de sangue completo e especializado, ECG, ECG de 24 horas, ecocardiograma, teste de esforço cardiopulmonar e / ou ressonância magnética cardíaca. Nível de evidência: Nível 5.Nível de concordância: pontuação média 8,52 (IC 95% 7,77 a 9,28).
Um período de repouso pós-infecção, dependendo dos sintomas e complicações, reduzirá o risco de insuficiência cardíaca pós-infecção secundária à miocardite. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 9,19 (IC 95% 8,70 a 9,68).
Se houver patologia cardíaca, programas específicos de reabilitação cardíaca devem ser fornecidos sob medida para o indivíduo, com base em suas complicações cardíacas, deficiências e avaliação das necessidades de reabilitação. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média de 9,43 (IC 95% 9,03 a 9,82).
Os pacientes que retornam ao esporte de alto nível ou a ocupações fisicamente exigentes após a confirmação da miocardite requerem um período de repouso completo de 3 a 6 meses. O período de repouso depende da gravidade clínica e da duração da doença, da função ventricular esquerda no início e da extensão da inflamação na RMC. Nível de evidência: Nível 2b. Nível de concordância: pontuação média 9,19 (IC 95% 8,64 a 9,74).
O treinamento e o esporte de alto nível podem ser retomados após a miocardite, se a função sistólica do ventrículo esquerdo estiver normal, os biomarcadores séricos de lesão miocárdica estiverem normais e se arritmias relevantes forem descartadas no monitoramento de ECG de 24 horas e teste de esforço. Nível de evidência: Nível 2a. Nível de concordância: pontuação média de 9,00 (IC 95% 8,44 a 9,56).
Se retornar ao esporte de alto nível ou ocupação fisicamente exigente após miocardite, os pacientes são submetidos a reavaliações periódicas, em particular durante os primeiros 2 anos. Nível de evidência: Nível 2a. Nível de concordância: pontuação média 9,05 (IC 95% 8,65 a 9,44).


Conselhos sobre exercícios e recomendações de reabilitação.

As preocupações com as populações fisicamente ativas incluirão até que ponto a COVID-19 pode impactar no desenvolvimento atlético e como se exercitar com segurança.

Os dados da SARS em crianças indicaram uma recuperação clínica completa, sem redução perceptível na tolerância ao exercício. Até 34% dos casos demonstraram alterações na tomografia computadorizada de alta resolução (TCAR) e até 10% das alterações nos testes de função pulmonar (TFP) entre 5 a 6 meses de acompanhamento.

A necessidade de oxigênio e linfopenia durante a fase aguda da doença foram preditivas de anormalidades na tomografia computadorizada e alterações nos testes de função pulmonar foram demonstradas em alguns pacientes que necessitaram de oxigênio durante o tratamento agudo.

As anormalidades mais freqüentemente encontradas na TCAR foram opacificação em vidro fosco. Uma série de casos iniciais de 138 pacientes com COVID-19 com idade média de 56 descreve opacidades em vidro fosco ou sombras irregulares bilaterais na TCAR que ocorrem em todos os casos. A importância de tais achados para o desempenho humano ideal é incerta neste estágio e justifica investigação longitudinal adicional.

Em relação ao retorno ao exercício pós-COVID-19, alguns cuidados gerais parecem prudentes. Um artigo de revisão sugere monitorar a temperatura antes do treino, lavar as roupas esportivas diariamente e começar com um programa de fortalecimento muscular antes do trabalho cardiovascular e pode ser necessário estender os períodos de descanso e isolamento em certos esportes.

Outra consideração importante é a dosagem de exercício. Um estudo de caso-controle encontrou níveis reduzidos de secreção de fator de necrose tumoral-α e interleucina-6 em resposta à estimulação de não antígenos em um grupo que praticava badminton regularmente em comparação com controles sedentários. Níveis aumentados de células T auxiliares (Th) 1 e Th2 após estimulação com antígeno de superfície da hepatite B e Streptococcus pyogenes também foram encontrados no grupo de exercício regular em comparação com o grupo sedentário.

A conclusão foi que a atividade moderada promove uma resposta imunológica saudável à infecção e, possivelmente, suprime a atividade auto-imune na ausência de infecção, enquanto a atividade reduzida prejudica a resposta imunológica à infecção.

Uma proporção significativamente maior de participantes randomizados para exercícios cardiovasculares supervisionados em comparação com o treinamento supervisionado de equilíbrio e flexibilidade exibiu respostas seroprotetoras em 24 semanas de acompanhamento. O artigo destaca que, embora a atividade moderada em camundongos infectados com influenza resulte em redução da mortalidade, a atividade prolongada resultou em aumento dos sintomas.

Outra revisão afirma que a inatividade física leva ao aumento da resistência à insulina que, por sua vez, prejudica a resposta imunológica contra agentes microbianos, incluindo a ativação de macrófagos e citocinas pró-inflamatórias. Isso baseia-se em uma série de casos de idosos submetidos a um período de redução da atividade física demonstrando um aumento da resistência à insulina e atividade pró-inflamatória de macrófagos. O exercício pode desempenhar um papel fundamental na influência da resposta imune, o que pode ser de particular relevância, pois parece que a deterioração do COVID-19 após o sétimo dia está relacionada a uma fase hiperimune semelhante à SARS. Entretanto, deve-se esclarecer que a atividade física não é recomendada como um tratamento isolado para COVID-19.

Sintomas graves têm maior probabilidade de indicar o envolvimento significativo do sistema cardiopulmonar e as recomendações para tais são mencionadas acima para o retorno seguro e cauteloso ao treinamento destes grupos de indivíduos.

Há recomendações de contra-indicações absolutas ao exercício, em pacientes com sintomas significativos de COVID-19.

A recomendação de um período de 2 a 3 semanas é postulada para o retorno à atividade física com base no tempo normalmente gasto para montar uma resposta adequada de células T citotóxicas e uma abordagem estratificada que promova o envolvimento seguro na atividade física.


Recomendações de reabilitação de exercícios

Pacientes com COVID-19 que necessitaram de oxigenoterapia ou apresentaram linfopenia aguda devem ser identificados e testados para alterações radiológicas pulmonares e anormalidades nos testes de função pulmonar. Nível de evidência: Nível 4. Nível de concordância: pontuação média de 8,95 (IC 95% 8,49 a 9,42).
Pacientes com COVID-19 que apresentam os seguintes sintomas: dor de garganta severa, dores no corpo, falta de ar, fadiga geral, dor no peito, tosse ou febre devem evitar exercícios (> 3 METs ou equivalente) entre 2 e 3 semanas após o cessação desses sintomas. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 9,19 (IC 95% 8,77 a 9,61).
Com sintomas muito leves que podem ou não ser devido a COVID-19, considere limitar a atividade à atividade leve (≤3 METs ou equivalente), mas limitar os períodos sedentários. Aumente os períodos de descanso se os sintomas piorarem. Deve-se evitar o treinamento prolongado exaustivo ou de alta intensidade. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média de 8,62 (IC 95% 7,86 a 9,37).
Contatos assintomáticos de casos de COVID-19 positivos devem continuar a se exercitar como fariam normalmente dentro das restrições governamentais atuais. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 9,19 (IC 95% 8,74 a 9,64).
No retorno da doença de COVID-19 leve / moderada para o exercício, 1 semana de alongamento de baixo nível e atividade leve de fortalecimento muscular deve ser testada antes das sessões cardiovasculares direcionadas. Os pacientes na categoria grave devem ser identificados de acordo com a recomendação 15 acima, com progressão do exercício após uma abordagem de reabilitação pulmonar. Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 8,52 (IC 95% 7,85 a 9,19).


Sequelas psicológicas e recomendações de reabilitação.
Historicamente baseado em algumas revisões de epidemias anteriores notou-se importante impacto na saúde mental com altos níveis de angústia emocional em alguns indivíduos característicos como: ansiedade, depressão, medo e estigmatização. Esses problemas ocorreram em pacientes, profissionais de saúde e em seus familiares.

Na forma mais agravante da ansiedade e depressão ocorreram sintomas de estresse pós-traumático e transtorno de estresse pós-traumático (PTSD).

O tratamento com corticosteroides implicou no desenvolvimento de sintomas psicóticos, mas isso deve ser reduzido após a COVID-19, de acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde para reavaliar seu uso.

Houve alguma resolução dos problemas de saúde mental nos meses imediatamente após a infecção; no entanto, os sintomas permaneceram em uma proporção significativa da população na fase crônica.

Após a SARS, 5% a 44% dos indivíduos sofreram uma diminuição na saúde mental em 1 ano, incluindo ansiedade, depressão, psicose e altas taxas de transtorno de estresse pós traumático. As razões para tal foram muitas, incluindo a sua natureza potencialmente fatal, a preocupação com os familiares e a preocupação em se tornar um vetor de infecção para outras pessoas.

Após MERS, no período de 12 e 18 meses, 17% a 27% dos sobreviventes tiveram depressão e 27% a 42% tiveram sintomas de estresse pós-traumático e transtorno de estresse pós-traumático.

Com base em epidemias anteriores, é possível que até 30% dos sobreviventes de COVID-19 precisem de mais informações, ou seja, não processem naturalmente suas experiências traumáticas, alguns dos quais serão relacionados ao COVID-19 e outros dos quais estarão relacionados a outros tipos de impacto psicológico.

Haverá também um fardo para os profissionais de saúde, pois eles provavelmente também sofrerão sequelas de saúde mental. Após a SARS, profissionais de saúde atuantes na linha de frente tiveram uma qualidade de vida significativamente mais baixa, atribuída à ansiedade antecipatória de retornar a um local de trabalho que foi palco de “uma experiência traumática”. Esse achado também foi observado após a MERS. No geral, apesar da existência de alguns elementos psicologicamente protetores nos profissionais de saúde, a evidência sugere que estes profissionais levem os piores resultados.

Em voga, a recomendação para estes grupos de indivíduos é fazer uma avaliação de todos que sofreram trauma, usando o monitoramento ativo para acompanhamento dos sintomas subliminares e ofertar programas de terapia cognitivo-comportamental, terapia de processamento cognitivo para aqueles que são sintomáticos nas fases pós-aguda e intermediária.


Recomendações de reabilitação psicológica

Na fase aguda, comunicação eficaz, contato social (embora remotamente) e uma ficha de informações para pessoas internadas no atendimento agudo do Serviço Nacional de Saúde sobre as sequelas psicológicas de COVID-19 podem ajudar. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média de 8,86 (IC 95% 8,33 a 9,38).
Os indivíduos devem ser revisados ​​na fase de recuperação para identificar aqueles que podem ter resultados psicológicos adversos como resultado de suas experiências com COVID-19. Os profissionais de saúde contaminados por COVID-19 devem ser considerados um grupo de alto risco. Essa revisão deve enfocar o humor e o bem-estar. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 9,14 (IC 95% 8,64 a 9,65).
O monitoramento ativo (revisão contínua) deve ser realizado para aqueles com sintomas psicológicos subliminares. Nível de evidência: Nível 1a. Nível de concordância: pontuação média de 8,81 (IC95% 8,11 a 9,51).
O encaminhamento para serviços psicológicos e a consideração de terapia cognitivo-comportamental focada no trauma, terapia de processamento cognitivo ou dessensibilização e reprocessamento do movimento ocular é apropriado para aqueles com sintomas moderados a graves de transtorno de estresse agudo. Nível de evidência: Nível 1a. Nível de concordância: pontuação média 8,76 (IC 95% 8,17 a 9,35).


Sequelas musculoesqueléticas e recomendações de reabilitação.

As consequências musculoesqueléticas em pacientes com COVID-19 ainda não foram muito bem estabelecidas. Pacientes que foram admitidos em UTI durante epidemias anteriores sofreram complicações musculoesqueléticas que exigiram reabilitação.

É bem conhecido que pacientes ventilados em UTIs são propensos a fraqueza e deficiências físicas não diretamente atribuíveis ao processo primário da doença.

A ventilação mecânica prolongada e imobilização associadas a admissões em UTI resultam em alterações musculoesqueléticas. A fraqueza adquirida na UTI abrange polineuropatia, miopatia e neuromiopatia associadas a doenças críticas. A atrofia muscular e a perda de massa muscular começam na primeira semana de internação na UTI e pioram em pacientes com insuficiência de múltiplos órgãos, sepse ou permanência prolongada na UTI.

Outras complicações musculoesqueléticas que resultam em descondicionamento físico incluem ossificação heterotópica, perda muscular, dor prolongada, fraqueza e dispnéia. Observou-se que sobreviventes de SARS e SDRA não-SARS tiveram perda de peso de 9% a 18% durante sua permanência na UTI. Os pacientes que sobrevivem à SDRA e requererm cuidados ventilatórios na UTI apresentam prejuízos que afetam a força muscular, a capacidade de caminhar e a atividade física.

Após o surto de SARS em 2003, foi relatado em Hong Kong que os pacientes que se recuperaram tiveram um desempenho significativamente menor no teste de caminhada (TC6) e abaixo da média nos testes de senta-levanta, 2 semanas após a alta hospitalar.

Uma complicação musculoesquelética notável da SARS foi a osteonecrose decorrente da terapia com esteróides de uma forma dependente da dose. Como a OMS recomendou uma abordagem equilibrada para o uso de esteroides para COVID-19, o risco de osteonecrose deve se tornar menos provável.

É reconhecido que os pacientes com SDRA internados nas UTI geralmente sofrem de síndrome de cuidado pós-intensivo (PICS) que inclui problemas psicológicos e cognitivos em combinação com deficiências físicas, conforme descrito acima.

Após a admissão na UTI, há evidências que sugerem aumento da dor nociceptiva, neuropática e nociplástica. Isso destaca a necessidade de uma avaliação para o manejo holístico da reabilitação destes pacientes, incluindo a dor, em vez de focar isoladamente somente nos comprometimentos musculoesqueléticos.

O estabelecimento de metas com foco ocupacional oferece esperança de bons resultados de qualidade de vida ao abordar a motivação psicológica destes pacientes. Demonstrou-se que a reabilitação intensiva de pacientes internados com enfoque vocacional resulta em maiores melhorias funcionais em comparação aos modelos tradicionais de reabilitação.

A reabilitação holística de pacientes com deficiências complexas exigirá métodos personalizados de reabilitação para abordá-los de forma eficaz em todos os três domínios da síndrome de cuidado pós-intensivo (PICS).

A estratégia de fisioterapia para os pacientes com fraqueza pós-UTI inclui intervenções baseadas em exercícios, como alongamento muscular, exercícios dosados para ganho de força e amplitude de movimento articular para evitar contraturas e úlceras de pressão. O manejo da dor deve ser centrado no paciente e envolver educação e intervenções não farmacológicas e farmacológicas. Os programas ambulatoriais de reabilitação física variam, mas geralmente duram de 6 a 12 semanas após a alta e podem incluir exercícios direcionados ao paciente, sessões online, fornecimento de terapia por telessaúde e podem ser incluídos na reabilitação cognitiva.


Recomendações de reabilitação musculoesquelética

Todos os pacientes que necessitam de reabilitação após COVID-19 devem ter uma avaliação funcional para determinar deficiências musculoesqueléticas residuais a fim de determinar a reabilitação apropriada. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média de 9,43 (IC 95% 9,03 a 9,82).
Pacientes que tiveram admissão em UTI devem ser submetidos a abordagem de equipe multidisciplinar para reabilitação. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 9,48 (IC 95% 9,11 a 9,85).
Os pacientes que apresentam síndrome de cuidado pós-intensivo devem incluir esforços de reabilitação com foco em todos os três domínios de deficiências: psicológica, física e cognitiva. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 9,76 (IC 95% 9,25 a 10,00).
A reabilitação física após COVID-19 pode ser realizada em uma série de configurações, incluindo internação, ambulatório, telessaúde domiciliar ou exercícios direcionados ao paciente, determinados de acordo com as necessidades do paciente. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 9,76 (IC 95% 9,52 a 10,00).


Sequelas neurológicas e recomendações de reabilitação.

O SARS-CoV-2 entra no corpo humano através dos receptores ECA2 na superfície das células humanas, expressos na superfície da medula espinhal, bem como no trato respiratório, sugerindo que o sistema nervoso central (SNC) pode ser vulnerável ao SARS- CoV-2.

As teorias de modelos animais também sugerem que o SARS-Cov-2 pode entrar no SNC diretamente através do bulbo olfatório e esta pode ser a causa da hiposmia descrita no COVID-19.

Em um estudo observacional retrospectivo da China, 78/214 (36,4%) pacientes com COVID-19 comprovado em laboratório tiveram manifestações neurológicas mais pronunciadas em casos graves em comparação com não graves (45% vs 30,2%). No geral, os sintomas neurológicos se enquadram em três categorias:

1- Sintomas ou doença do SNC: (cefaleia (13,1%), tontura (16,8%), comprometimento da consciência (7,5%), doença cerebrovascular aguda (2,8%) e epilepsia (0,5%);
2- Sintomas do sistema nervoso periférico: hipogeusia (perda do paladar) (5,6%), hiposmia (perda do olfato) (5,1%) e neuralgia (2,3%) e;
3- Sintomas musculoesqueléticos (10,7%).

A cefaléia também foi relatada em 13,6% de 1099 pacientes com COVID-19 em um estudo na China.
Além disso, relatos de casos descreveram complicações do covid19 por sintomas neurológicos, incluindo encefalite; encefalopatia, encefalopatia necrosante aguda; e mielite pós-infecciosa levando à paralisia flácida aguda de ambos os membros inferiores.

Complicações neurológicas também foram observadas em epidemias de CoV anteriores como em 2003, quando foi relatado o primeiro caso de um paciente com SARS confirmado laboratorialmente e detecção de RNA de SARS no líquido cefalorraquidiano (LCR), com o paciente apresentando inicialmente sintomas respiratórios, em seguida, desenvolvendo confusão seguida de estado de mal epiléptico .

Em 2004, no D22 de SARS, uma mulher grávida de 32 anos desenvolveu convulsões clônicas-tônicas e testou positivo para SARS-CoV em seu LCR. Entre 2002 e 2003, houve relatos de casos em 664 prováveis ​​pacientes com SARS em Taiwan, com polineuropatia e miopatia que se desenvolveram entre a 3 e 4 semana após o início da SARS, com melhora óbvia no acompanhamento.

AVC isquêmico de grandes artérias também foram descritos em cinco pacientes com SARS em um surto em Cingapura, com prognóstico ruim. Após um surto de MERS na Coreia, 4 de 23 pacientes foram relatados com complicações neurológicas que apareceram entre a 2 e a 3 semanas após os sintomas respiratórios. Estes incluíram encefalite de Bickerstaff sobreposta à síndrome de Guillain-Barré (ptose e oftalmoplegia mais fraqueza dos membros); neuropatia de doença crítica com fraqueza dos membros e neuropatias sensoriais periféricas.

Na Arábia Saudita, três pacientes com MERS que precisaram de suporte ventilatório invasivo desenvolveram complicações neurológicas graves, incluindo confusão, coma, ataxia e déficit motor focal. A imagem por ressonância magnética (MRI) revelou alterações hiperintensas bilaterais generalizadas da substância branca em áreas subcorticais ao longo dos lobos frontal, temporal e parietal, gânglios da base e corpo caloso.

Finalmente, o comprometimento cognitivo pode ocorrer em pacientes internados em UTI e após sua alta hospitalar com síndrome de cuidado pós-intensivo (PICS). Os principais fatores de risco incluem sepse, aumento da idade, déficit cognitivo prévio, SDRA e delirium. Essa deficiência pode permanecer por até 1 ano.


Recomendações de reabilitação neurológica

Todos os pacientes com COVID-19 devem ser revisados ​​para quaisquer sintomas neurológicos, pois os sintomas podem ser imediatos (no momento da infecção ativa) ou tardios (nas semanas após COVID-19). Considere uma triagem cognitiva para aqueles em risco (cuidado pós-crítico ou com comprometimento cognitivo residual). Nível de evidência: Nível 2b. Nível de concordância: pontuação média 8,48 (IC95% 7,68 a 9,27).
A garantia deve ser dada de que os sintomas neurológicos mais leves, como dor de cabeça, tontura, perda do olfato ou paladar e alterações sensoriais, podem melhorar com intervenção mínima. Nível de evidência: Nível 4.Nível de concordância: pontuação média 8,71 (IC 95% 8,02 a 9,41).
Deve-se informar que os sintomas neurológicos leves a moderados podem ter uma recuperação completa. Nível de evidência: Nível 3b.
Nível de concordância: pontuação média de 8,86 (IC 95% 8,37 a 9,34).
Sintomas graves podem resultar em comprometimento significativo ou capaz de mudar a vida, portanto, a reabilitação multidisciplinar em internação é recomendada para pacientes com sintomas neurológicos moderados a graves para maximizar a recuperação. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média de 9,43 (IC 95% 9,06 a 9,80).
Avaliações físicas, cognitivas e funcionais devem ser consideradas para apoiar o retorno ao trabalho de acordo com o ambiente ocupacional. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 8,71 (IC 95% 7,98 a 9,45).


Sequelas médicas e recomendações de reabilitação.
Na fase aguda do COVID-19, há uma alta incidência de complicações médicas, incluindo as hepáticas, renais, hematológicas e gastrointestinais. Porém, não está claro quantas dessas complicações permanecerão prevalentes nas fases intermediária e crônica destes indivíduos. Essas complicações, como resultado direto da COVID-19 ou como resultado de intervenções médicas e tratamentos indiretos, têm sido associadas a altas taxas de morbimortalidade. Portanto, é importante avaliar quaisquer anormalidades na fase pós-aguda e considerar as implicações de quaisquer intervenções futuras em um histórico de disfunção orgânica.

Consequências Gastrointestinais do COVID-19.
Algumas características do COVID-19 incluíram diarreia e vômitos (2% –10%), dispneia precedente, fadiga e febre, com RNA do SARS-CoV-2 encontrado em amostras de fezes. Dez por cento dos pacientes com MERS também tiveram diarreia como sintoma manifesto. Nenhuma sequela gastrointestinal crônica óbvia foi identificada. Aqueles com problemas gastrointestinais pré-existentes correm maior risco, com a recomendação subsequente da redução de terapia com esteroides, e incluindo outras estratégias imunossupressão. Apetite diminuído e perda de peso foram observados secundários à febre, perda de paladar e / ou olfato e baixa energia / fadiga. Problemas nutricionais relacionados a COVID-19 agravam outras áreas, incluindo a qualidade da pele,a saúde óssea e a função endócrina. Além disso, a amilase elevada aumenta significativamente o risco de desenvolvimento de diabetes no futuro.

Na fase pós-aguda, um histórico completo como avaliação é necessário com o objetivo de otimizar o programa de reabilitação garantindo que quaisquer problemas crônicos sejam identificados. Como a diarreia pode ser uma queixa inicial de COVID-19, é necessário garantir que qualquer diarreia ou vômito sejam prontamente isolados e considerar imediatamente um teste de Covid deste paciente. A opinião do nutricionista é valiosa para implementar desde o início adequada suplementação nutricional, quando indicada, incluindo exame de sangue de micronutrientes, se houver preocupação com a entrada de nutrientes durante a fase aguda da doença.

Consequências hepáticas de COVID-19.
Dos pacientes com COVID-19, 14% a 54% apresentam testes de função hepática desordenados (LFTs) (transaminases, gama GT, bilirrubina) durante a fase aguda. A causa disso não está clara; as possibilidades incluem resposta séptica, congestão hepática devido à ventilação mecânica, hepatite viral induzida por COVID-19 ou toxicidade por drogas. Verificou-se que a disfunção hepática é mais pronunciada no COVID-19 grave. A lesão aguda é considerada auto resolutiva (embora algum tratamento tenha sido indicado para lesão aguda grave), sem sequelas crônicas ainda encontradas.

Pacientes com insuficiência hepática crônica apresentam maior gravidade e risco de COVID-19. É importante verificar os testes da função hepática, incluindo amilase, durante a recuperação, para que as anormalidades persistentes possam ser identificadas e tratadas ou encaminhadas para o tratamento adequado.

Consequências renais de COVID-19.
A lesão renal aguda (LRA) ocorreu em uma proporção de 22% dos pacientes, mas alguns artigos afirmam que a infecção por SARS-CoV 2 em si não causa lesão renal aguda óbvia. As possíveis causas para LRA foram sugeridas como nefrite por COVID, hipóxia, choque, micro-hemorragias e causas iatrogênicas (por exemplo, saldos hídricos negativos, toxicidade por drogas). Alguns pacientes com LRA e lesão renal crônica precisam de terapia de substituição renal. Pacientes com transplante renal têm maior risco de contrair COVID-19 e ter uma infecção grave.

É importante verificar a função renal durante a fase de recuperação para identificar anormalidades persistentes e necessidade de investigação adicional. Pacientes com anormalidades podem precisar de alterações nos regimes de exercícios, hidratação ou encaminhamento para serviços especializados.

Consequências dermatológicas do COVID-19.
A COVID-19 não é dermatotrófico, mas os principais problemas relacionados à pele são devidos ao agravamento de condições pré-existentes, condições iatrogênicas relacionadas aos EPIs (em até 97% dos profissionais de saúde) e aquelas relacionadas ao aumento da lavagem das mãos.

Há um risco aumentado de úlceras de pressão com o tratamento na UTI e o posicionamento prono recorrente.

É importante promover o uso de creme emoliente / barreira para lavagem frequente das mãos, monitorar as condições relacionadas aos EPIs (para funcionários e pacientes) e aumentar o monitoramento das áreas de pressão, especialmente na população internada na UTI.

Consequências reumatológicas de COVID-19.
Após a SARS em 2003, uma síndrome pós-SARS foi descrita, com o mesmo fenótipo da síndrome da fadiga crônica pós-viral, semelhante à fibromialgia, com sono insatisfatório, fadiga, mialgia e depressão, com alguns indivíduos incapazes de retornar ao trabalho. Miopatia induzida por corticosteróides, perda e fraqueza muscular também foram relatados em sobreviventes de SDRA em 1 ano de acompanhamento.

Uma boa avaliação musculoesquelética é de grande importância para um programa de reabilitação mais específico e individualizado para cada paciente.

Consequências hematológicas de COVID-19.
Uma série de casos retrospectivos de 199 pacientes hospitalizados com SARS em Cingapura demonstrou que 11 indivíduos tiveram trombose venosa profunda; sete sofreram de embolia pulmonar (quatro dos quais sofreram ambos) e outros quatro pacientes desenvolveram um acidente vascular cerebral isquêmico, sugerindo que os pacientes com SARS aumentam a suscetibilidade e prevalência de tromboembolismo venoso como resultado de um estado de hipercoagulabilidade.

A COVID-19 também tem um efeito direto e proeminente no sistema hematopoiético, levando a mudanças significativas nas linhas celulares e hipercoagulabilidade. Em mais de 1000 casos na China, a linfocitopenia foi o achado mais comum em 83,2% dos casos, seguida de trombocitopenia (36,2%) e leucopenia (33,7%).Essas alterações foram mais proeminentes na doença grave.

Como resultado, a anemia tem sido um problema comum e pode permanecer na fase intermediária. Os distúrbios de coagulação são freqüentemente encontrados nesses pacientes com risco aumentado de vasculopatia e trombose venosa profunda. Não se sabe o tempo de duração desse estado de hipercoagulabilidade e, portanto, avaliações de profilaxia pós TEV pós-aguda devem ser realizadas e sempre considerar a possibilidade de embolia pulmonar em qualquer nova falta de ar súbita.

Consequências endócrinas de COVID-19.
Perfis endócrinos acometidos e outros perfis sanguíneos foram observados após crises na UTI. E é importante excluí-los como causas da síndrome de cuidado pós-intensivo (PICS).

A hiperglicemia crônica como resultado de diabetes mellitus prejudica a função imunológica, e 42,3% das mortes em Wuhan tinham diabetes como comorbidade. O mecanismo subjacente a isso não está muito claro, mas provavelmente está relacionado ao papel da ECA2, aos déficits na função imune inata, à propensão à gravidade da doença e à relação entre diabetes, saúde cardiovascular e idade. Potencialmente, a expressão de ECA2 nas células β pancreáticas pode levar a danos, deficiência de insulina e diabetogênese.

As recomendações para os pacientes com Covid19 envolvem um maior monitoramento de açúcar e cetonas no sangue, controle da alimentação e hidratação, gestão adequada da insulina conforme necessário e modificação de outros medicamentos para diabetes por indicação de um especialista. As investigações na fase pós-aguda devem incluir um rastreio endócrino incluindo a monitorização do aparecimento de diabetes, quando indicado.

A redução significativa da densidade mineral óssea foi descrita em pacientes de UTI no ano seguinte à admissão. A imobilização prolongada é um fator de risco para diminuição da densidade mineral óssea e a absortometria de raio-X de dupla energia deve ser considerada.


Recomendações de reabilitação médica

As sequelas médicas pós-COVID-19 devem ser consideradas em todos os pacientes. A avaliação pós-aguda deve incluir um histórico médico completo e, se indicado, um exame e um painel de marcadores sanguíneos. A absortometria de raios-X de dupla energia deve ser considerada em casos de imobilização prolongada. Nível de evidência: Nível 3b. Nível de concordância: pontuação média 8,57 (IC 95% 7,59 a 9,55).
Na presença de múltiplas patologias ou problemas especializados, uma avaliação de um fisioterapeuta é recomendada com uma abordagem multidisciplinar para a reabilitação, para gerenciar a ampla gama de sequelas potenciais, incluindo um nutricionista (com suplementos e exame de sangue de micronutrientes, se necessário). Nível de evidência: Nível 1a. Nível de concordância: pontuação média de 9,57 (IC 95% 9,20 a 9,94).
Se problemas médicos contínuos forem identificados, os pacientes devem ser encaminhados à especialidade médica apropriada para tratamento posterior. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 9,76 (IC 95% 9,52 a 10,00).
Em pacientes pós-COVID-19 com início recente de falta de ar ou dor no peito, complicações médicas com risco de vida devem ser consideradas. Nível de evidência: Nível 5. Nível de concordância: pontuação média 9,62 (IC 95% 9,25 a 9,99).


A COVID-19 é uma doença nova em circulação no mundo. Como resultado, alguns dos artigos citados estão em pré-impressão e estes relatam apenas séries de casos observacionais, muitos periódicos aceleraram sua publicação de pesquisas relacionadas ao COVID-19 e isso afetou a qualidade das evidências disponíveis.

Embora as presentes recomendações não sigam uma metodologia de revisão sistemática, níveis de evidência foram aplicados a cada recomendação para atenuar essa questão. Essas recomendações têm a finalidade inicial de orientar os profissionais de saúde na fase inicial da reabilitação baseada na literatura atual.

Espera-se que com o passar do tempo e com estudos de melhor qualidade ele cresça principalmente em relação a qualidade de suas evidências. À medida que novos estudos atinjam melhor qualidade científica, a confiança nos dados das condições relacionadas diminuirá.

Sabemos que a COVID-19 é uma pandemia global que afeta indivíduos em vários graus, variando de alguns dias de sintomas leves a grande dificuldade respiratória que requer tratamento em uma UTI, podendo incluir suporte ventilatório e caso não tratado a tempo pode levar a morte.
Prevê-se que 45% dos pacientes com alta hospitalar necessitarão de apoio de saúde e assistência social e 4% desses pacientes necessitarão de algum tipo de reabilitação. Portanto, há uma necessidade clara de planejar a reabilitação pós-aguda e crônica destes pacientes em recuperação da COVID-19.

Infelizmente, há poucas evidências e orientações disponíveis sobre a melhor forma de reabilitar esses pacientes. Uma quantidade significativa das recomendações de reabilitação estabelecidas baseia-se na extrapolação da gestão e reabilitação de complicações de epidemias de CoV anteriores.

Como a COVID-19 é predominantemente uma infecção respiratória com casos graves que requerem suporte ventilatório, a reabilitação após o tratamento na UTI também é uma área da qual as orientações e evidências foram extrapoladas para produzir essas recomendações. Porém, isso facilitará a prestação coordenada de cuidados de saúde inicial de reabilitação de pacientes internados em ambiente hospitalar, ambulatorial e pós alta hospitalar.

Este documento apóia a necessidade clara de mais pesquisas e orientações relacionadas à reabilitação específica para COVID-19.

Referencia:

Barker-Davies RM, O’Sullivan O, Senaratne KPP, et alThe Stanford Hall consensus statement for post-COVID-19 rehabilitationBritish Journal of Sports Medicine 2020;54:949-959.90

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