PREVALÊNCIA DE DESORDENS MUSCULOESQUELÉTICAS EM FISIOTERAPEUTAS QUE ATUAM NO CAMPO HOSPITALAR

PREVALENCE OF MUSCULOESKELETAL DISORDERS IN PHYSIOTHERAPISTS WHO WORK IN HOSPITAL SETTING

MACEDO, Iana Conceição;2 PEREZ, Rafaela Martins;2 MENDEZ, Sandra Porciúncula;1

1- Fisioterapeuta Especialista no Tratamento da Postura e da dor.
2- Acadêmica do 5º ano do curso de Fisioterapia da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.
* Trabalho de Conclusão de Curso de Fisioterapia da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

RESUMO
Introdução: O exercício da fisioterapia, como área de atuação profissional, promove exposição a diversos fatores de risco, inclusive à sobrecarga mecânica. Esta, podendo ser visualizada na execução inadequada de um movimento ou durante o atendimento a um paciente dependente, expondo o profissional a índices elevados de desordens musculoesqueléticas relacionadas ao trabalho DMRT. O objetivo deste estudo foi estimar a prevalência de desordens musculoesqueléticas em fisioterapeutas que atuam no campo hospitalar na cidade de Salvador relacionando aos possíveis fatores de risco. Materiais e Métodos: Estudo de corte transversal realizado com 129 fisioterapeutas que atuam no campo hospitalar na cidade de Salvador-BA. Como instrumento de pesquisa foi utilizado um questionário elaborado, auto-aplicável e o Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares. Resultados: Do total dos entrevistados 80,5% apresentaram desordens musculoesqueléticas. Considerando os últimos 12 meses, 61,7% relataram sentir dor na região lombar. A área de atuação mais citada pelos profissionais com queixa de dor foi a cardiorrespiratória 42,0%. Conclusão: A alta prevalência de desordens musculoesqueléticas em fisioterapeutas foi confirmada neste estudo, mostrando a vulnerabilidade a que estes profissionais estão expostos, portanto, estratégias devem ser elaboradas para evitar ou reduzir essas condições.
Palavras-chave: Desordem Musculoesquelética; Ambiente Laboral; Fisioterapia.

ABSTRACT
Introduction: The physiotherapy, like an area of professional performance, promotes exposure to various risk factors, including mechanical overload. This, can be viewed in inadequate implementation of a movement or during an attendance to a dependent patient, exposing this professional to high indices of musculoskeletal disorders work-related (MDWR). The purpose of the study was to estimate prevalence of musculoskeletal disorders in physiotherapists who work in hospital setting in the city of Salvador, trying to identify the risk factors related. Materials and Methods: Cross-sectional study was performed with 129 (one hundred twenty nine) physiotherapists who work in hospital setting in the city of Salvador, Bahia. The Nordic Questionnaire for Musculoskeletal symptoms and a prepared and self-applicable questionnaire were used as an instrument of research. Results: Musculoskeletal disorders have been identified in 80,5 % ( eighty point five percent) of the total number of interviewees. Considering the last 12 months, 61,7 % ( sixty one point seven percent) of interviewees reported to feel back pain. One of the most cited area of activity which professionals complain about pain related to work is cardio respiratory (42%). Conclusion: The high prevalence of musculoskeletal disorders in physiotherapists was confirmed in this study, showing evidences of vulnerability which this professionals are exposed, therefore, strategies must be compiled to avoid or to reduce these conditions.
Keyword: Musculoeskeletal desorders; Physioterapy; Working environment.

INTRODUÇÃO

O ambiente de trabalho não deve ser o local para o desenvolvimento de patologias e

sofrimento.1 No entanto, é responsável pela ocorrência de uma série de riscos à saúde de seus trabalhadores.

A situação de alta exigência no trabalho promove grande desgaste no profissional, ocasionando elevados níveis de exaustão física, emocional, sofrimento psíquico, depressão, ansiedade e insatisfação com sua ocupação. Essas exigências que são representadas sob a forma de agentes físicos, psíquicos e mecânicos são denominadas cargas de trabalho.2

O fisioterapeuta é um membro da saúde que atua desenvolvendo ações de prevenção, avaliação, tratamento e reabilitação, abordando os níveis de prevenção primária, secundária e terciária, com uma ampla área de atuação.3

Dentre os profissionais da área de saúde, os fisioterapeutas estão inseridos nos altos índices de desordens musculoesqueléticas relacionadas ao trabalho (DMRT).4 Estes fazem parte da equipe multidisciplinar que visa assistir a saúde da população em geral,5 utilizando na sua prática clínica o amplo conhecimento a respeito do movimento normal e da funcionalidade, porém durante o seu tempo de exercício profissional também se encontram em situação de risco.6

O fisioterapeuta utiliza seu próprio corpo como principal instrumento de trabalho ficando exposto muitas vezes a situações de sobrecarga. Observando a prática da fisioterapia, pode-se dizer que essa sobrecarga é de ordem mecânica, podendo ser visualizada na execução inadequada de um movimento ou durante o atendimento a um paciente dependente, expondo o profissional a índices elevados de DMRT.7

De acordo com o Ministério da Saúde, as DMRT constituem o grupo de maior agravo à saúde do trabalhador, acometendo todas as faixas etárias e as categorias profissionais expostas aos fatores de risco.6

A maioria dos estudos relaciona as DMRT às queixas de dor de origem musculoesquelética referida pelos profissionais decorrentes das suas atividades de trabalho.7 Porém não há na literatura consenso quanto à sua definição. A região corporal freqüentemente mais acometida por essas desordens é a coluna vertebral, embora possa ocorrer em qualquer local do aparelho locomotor.2

A literatura aponta que no Brasil o número de estudos em relação à saúde ocupacional dos profissionais de fisioterapia ainda é limitado. Um estudo americano constatou uma grande associação de dor lombar nos fisioterapeutas em relação à realização das suas atividades, como sustentação do paciente durante as transferências e movimentos de rotação e inclinação do tronco.7,8

Estudos comprovam que as atividades de levantamento e transferência de pacientes dependentes, promoção de resistência manual, movimentos de flexão, inclinação e torção da coluna e posição ortostática por tempo prolongado contribuem para a ocorrência da sintomatologia.6,7,8

O aparecimento das DMRT pode ser de origem multifatorial, podendo variar de acordo com as condições físicas ou de treinamento do profissional, já que outros que atuam nessa mesma área e trabalham nas mesmas condições de estresse físico podem não desenvolve-las.4
Estudos mostram que os profissionais que atuam em hospitais referem alto índice de sintomas musculoesqueléticos, motivo pelo qual foi o público escolhido para este estudo.6

O objetivo deste estudo é estimar a prevalência de desordens musculoesqueléticas em fisioterapeutas que atuam no campo hospitalar na cidade de Salvador relacionando aos possíveis fatores de risco.

MATERIAIS E MÉTODOS

Este é um estudo epidemiológico descritivo, de corte transversal, que verificou a presença de desordens musculoesqueléticas em fisioterapeutas que atuam no campo hospitalar na cidade de Salvador-BA. A amostra foi composta por 257 fisioterapeutas de ambos os sexos que atuam por no mínimo um ano em hospitais. O tempo mínimo descrito respeita os critérios abordados no questionário. Através do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional do estado da Bahia (CREFITO-7) realizou-se um levantamento dos hospitais da cidade de Salvador que possuem fisioterapeutas em seu quadro de funcionários.

Os hospitais de Salvador registrados no CREFITO-7, de acordo com os dados do Departamento de Fiscalização (DEFIS) são o Hospital Couto Maia, Hospital Espanhol, Hospital Geral do Estado, Hospital Geral Manoel Vitorino, Hospital Jaar Andrade, Hospital Jorge Valente, Hospital Português, Hospital Santo Antônio, Hospital Sarah e Hospital Universitário Professor Edgar Santos. Dos hospitais citados três recusaram-se a participar do estudo por motivos internos.
Como instrumento de pesquisa foi utilizado um questionário elaborado, auto-aplicável contendo dados pessoais (idade, sexo, peso, estatura, estado civil), informações profissionais (setor e área de atuação, tempo de atuação em hospitais, tempo de formação profissional, carga horária semanal, hospital(s) em que trabalha, quantidade de empregos, faixa salarial, grau de dependência dos pacientes, turno, especialidade na área em que atua, número de atendimentos/dia, posturas adotadas durante a rotina de trabalho), hábitos de vida (prática de atividade física, lazer), aspectos psicossociais (competitividade do mercado de trabalho, cobrança de produtividade, estabilidade no emprego, nível de satisfação com o emprego), informações relacionadas às medidas de prevenção (presença de dor musculoesquelética, medida ou prática de cuidado pessoal, atendimento médico ou fisioterapêutico).

As informações relacionadas à sintomatologia foram abordadas no Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares, versão traduzida e validada do Nordic Questionaire9 que contém questões referentes à presença de dor, desconforto ou dormência, as regiões corporais acometidas, se há necessidade de evitar as atividades normais (trabalho, serviço doméstico ou passatempos), frequência da dor e questões relacionando os sintomas ao trabalho que realiza. A escolha deste deve-se ao fato de ser recomendado na literatura como medida de morbidade osteomuscular.9

A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Professor Edgar Santos e do Hospital Espanhol.

Os questionários foram entregues ao coordenador dos setores de fisioterapia de cada hospital sendo então distribuídos aos fisioterapeutas, que leram e assinaram o Termo de Consentimento livre e esclarecido, de acordo com a Resolução 196/96 sobre Ética em Pesquisa com Seres Humanos, com descrição do objetivo e esclarecimento sobre os principais pontos abordados no estudo. O prazo máximo para o preenchimento dos questionários foi de duas semanas, e após a realização deste os profissionais depositavam-no em uma urna identificada com o título do projeto localizada na sala de apoio dos fisioterapeutas.

As variáveis independentes foram tempo de atuação em hospitais, área e setor de atuação, grau de dependência dos pacientes, número de atendimentos/dia, posturas adotadas durante os atendimentos, atividade física, nível de satisfação com o emprego, medidas ou prática de cuidado pessoal, sexo, inserção profissional, tempo de formação. As variáveis dependentes foram a presença de desordens musculoesqueléticas e região corporal.

Os dados foram analisados no pacote estatístico Statistical Package for Social Sciences (SPSS) versão 15.0. Foi realizada uma análise descritiva inicial (frequência e prevalência) e uma análise bivariada comparando as variáveis citadas com a razão de prevalência. O nível de significância estabelecido foi p ≤ 0,05.

RESULTADOS

Para compor a amostra foram entrevistados 98 fisioterapeutas que atuam no campo hospitalar na cidade de Salvador. Do total da amostra 15 profissionais não participaram, pois não estavam presentes no período da coleta devido à licença saúde/maternidade, mudança de turno, por que se recusaram a responder ou não devolveram os questionários. Houve ainda uma perda de 113 profissionais dos hospitais que se recusaram a participar da pesquisa.

Observou-se que a maioria dos entrevistados era do sexo feminino, representando 72,1% da amostra, sendo a média de idade de 32 anos (DP ± 9). Avaliando-se o tempo de formação observou-se maior percentual entre 02 a 05 anos, representando 36,4% dos fisioterapeutas. A média da quantidade de empregos atuais dos profissionais entrevistados correspondeu a 2,11 (DP ± 0,76). Com relação à inserção profissional verificou-se que a maior parte dos fisioterapeutas, ou seja, 50,4% relataram trabalhar apenas em hospital, sendo que 35,7% trabalhavam apenas em hospital privado.

De acordo com os resultados obtidos nos questionários aplicados verificou-se uma prevalência de desordens musculoesqueléticas de 80,5% nos fisioterapeutas, 58,6% no sexo feminino, 48,8% nos indivíduos com idade entre 20 a 30 anos, 28,3% em quem tem de 02 a 05 anos de formação, 48% nos indivíduos que tem 2 empregos e 28,9% em quem trabalha apenas em hospital privado (Tabela 1). Considerando os últimos 12 meses 61,7% dos profissionais relataram sentir dor na região lombar, seguido de 53,9% no pescoço, 44,5% na dorsal e 41,4% no ombro (Figura 1).


Durante os últimos 12 meses 22,7% dos entrevistados tiveram que evitar suas atividades normais, como o trabalho, serviço doméstico ou passatempos, por problemas na região lombar, 19,5% por problemas na região do pescoço, 16,4% na região dorsal e 13,3% no ombro.

A área de atuação que concentrou maior número de profissionais com queixa de dor de origem musculoesquelética foi a cardiorrespiratória (42,0%), seguida por fisioterapia geral (25,0%) e neurologia (13,4%) (Figura 2). Não foi encontrada associação estatisticamente significante entre a presença de desordens musculoesqueléticas e as áreas de atuação.


As informações profissionais e os aspectos psicossociais que tiveram maior prevalência de desordens musculoesqueléticas foram trabalhar no setor de enfermaria (49,2%), atender pacientes dependentes (59,4%), tempo de atuação de 02 a 05 anos (29,7%), atender de 11 a 15 pacientes por dia (34,6%) e a satisfação com o emprego (41,7%). Dos entrevistados que possuíam dor 37,5% praticavam atividade física e 55,5% não realizavam alguma medida ou prática de cuidado pessoal. O tempo de atuação em hospitais, número de atendimentos/dia, nível de satisfação com o emprego e a ausência de medida ou prática de cuidado pessoal mostraram associação com a presença de desordens musculoesqueléticas, portanto podem ser considerados como fatores de risco (Tabela 2).


Entre as ocorrências de eventos associadas à presença de desordens musculoesqueléticas durante a rotina de trabalho as mais citadas foram flexão parcial ou total do tronco em pé (75,0%), postura dinâmica por tempo prolongado em pé (72,7%), flexão parcial ou total da região cervical (61,7%) e rotação do

tronco em pé (60,9%), além dessas posturas outras são citadas na tabela 3.


Quando analisada a relação entre a região corporal afetada e a ocorrência de eventos durante a rotina de trabalho, foi encontrada maior associação de dor lombar relacionada à rotação do tronco em pé (RP=1,24), transferência de pacientes (leito, maca, cadeira de rodas, etc) (RP=1,16) e flexão parcial ou total do tronco em pé (RP=1,13), enquanto a ocorrência de dor no pescoço possui associação estatisticamente significante com a flexão parcial ou total da região cervical (RP=1,37).

DISCUSSÃO/CONCLUSÃO

Os resultados deste estudo revelaram a alta prevalência de desordens musculoesqueléticas nos fisioterapeutas que atuam em hospitais, concordando com a literatura nacional e internacional sobre o tema.4,6,7,10 Neste ambiente há um maior risco de desenvolvimento de lesões devido ao grau de dependência física dos pacientes que são mais propensos a ter comprometimentos maiores do que os pacientes de ambulatório, portanto estes profissionais estão expostos a maiores cargas de trabalho.11

A amostra foi composta predominantemente por mulheres, assim como nas demais literaturas, justificando a elevada prevalência de desordens neste sexo. O elevado número de indivíduos do sexo feminino está associado ao processo de socialização atribuído à natureza do gênero, portanto observa-se um aumento da predominância das mulheres entre os trabalhadores de nível superior da área de saúde.8
O tempo de formação profissional mais citado pelos entrevistados que possui alguma desordem coincide com o descrito pela literatura, assim como a idade, onde foi observada maior prevalência de dor nos indivíduos mais jovens. Estudos que relacionaram a presença de sintomas com a idade dos profissionais relataram que há um aumento da prevalência entre os mais jovens, associando a diversos fatores como a relutância em pedir auxílio, a realização de tarefas com grande exigência física e a inexperiência.8,12 Um estudo constatou que mais de 50% dos fisioterapeutas participantes tiveram seu primeiro episódio de dor nos primeiros 5 anos de prática,11 enquanto outro relata uma prevalência de 56% na mesma época referida.10,12 A baixa prevalência entre os mais experientes deve-se ao desenvolvimento de estratégias para lidar com as exigências físicas impostas pelo trabalho, como modificação das técnicas utilizadas, realização de tarefas menos árduas e aumento da solicitação de auxílio a outros profissionais.11

Foi evidenciada neste estudo uma maior prevalência de desordens nos profissionais que possuem 2 empregos, porém não houve na literatura uma relação entre estas variáveis. Os fisioterapeutas são pressionados a assumir mais de um emprego sacrificando seus momentos de lazer, descanso e vida familiar devido aos baixos salários e a ideologia de ascensão social gerando situações de estresse e consequentemente ao desgaste físico.8

Este estudo constatou que a região lombar foi a mais referida quanto à presença de desordens musculoesqueléticas nos últimos 12 meses precedentes à aplicação do questionário, reafirmando as informações contidas nos diversos estudos pesquisados. A flexão parcial ou total de tronco, rotação do tronco em pé e transferência de pacientes (leito, maca, cadeira de rodas, etc) foram os eventos com maior associação à dor lombar. Em um estudo realizado nos EUA com 928 fisioterapeutas observou-se uma prevalência de 45% de dor lombar nos entrevistados, nos últimos 12 meses, sendo o principal motivo de faltas no trabalho ou de procura por uma assistência à saúde.11 Na Austrália, dos 62,5% fisioterapeutas que relataram ter dor na
lombar, 12,5% foram impedidos de trabalhar e 41,5% foram impedidos de realizar suas AVDs e atividades de lazer.12

Os pacientes internados em hospitais são mais dependentes fisicamente, o que impõem aos fisioterapeutas atividades que exigem maior esforço físico realizando elevação e transferência de pacientes (leito, maca, cadeira de rodas, etc) e trabalhando em uma mesma posição muito tempo e em posições com flexão4,7,11,12 acarretando alteração na biomecânica corporal, desencadeando fadiga muscular e prováveis lesões osteomusculares.4 Além destas observou-se, no presente estudo, elevadas prevalências de desordens musculoesqueléticas nas seguintes atividades assistência à deambulação do paciente, utilização de técnicas manuais, rotação do tronco em pé, flexão parcial ou total da região cervical e movimentos repetidos com os membros superiores.

A presença de dor no pescoço foi relacionada à flexão parcial ou total da região cervical, discordando de outros estudos onde a dor cervical associa-se à repetição da mesma tarefa, realização da terapia manual e pausar poucas vezes durante o dia.7,12 A postura inadequada da cabeça durante as atividades de trabalho impõem sobrecarga nos músculos provocando uma diminuição do fluxo sanguíneo devido à compressão das arteríolas da região ocasionando dor e até mesmo espasmo muscular.4

A área de atuação onde houve maior prevalência de desordens foi a cardiorrespiratória.11 Em uma revisão de literatura foi encontrada uma elevada prevalência de dor musculoesquelética nas áreas de neurologia, ortopedia, reumatologia, cardiorrespiratória e geriatria.6 Nos EUA, os fisioterapeutas que trabalham na área de pediatria apresentaram maior probabilidade de desenvolver desordens do que os que trabalham com adultos. Na área de cardiorrespiratória os profissionais lidam frequentemente com a dependência e o risco de morte dos pacientes, tendo que tomar decisões em situações de fragilidade, tornando-os mais propensos ao desgaste físico e psicológico.8

Os profissionais que não realizavam medidas de prevenção como exercícios de alongamento, sessões de Reeducação Postural Global, Pilates e não adotavam posturas adequadas durante os atendimentos apresentaram maior probabilidade de ocorrência de desordens. Na literatura internacional foram citadas medidas que incluíam alteração da freqüência ou da técnica de terapia manual, evitar posições estressantes,11 regular a altura da cama do paciente, a fim de evitar sobrecarga na coluna vertebral, seleção de técnicas e modalidades de tratamento para sua auto-preservação e realização de alongamentos antes dos atendimentos.12 Muitos dos fisioterapeutas lesados modificaram suas funções ou locais de trabalho, reduziram o tempo de contato com o paciente ou modificaram o tipo de doente tratado.10

Observou-se uma maior prevalência de desordens nos profissionais satisfeitos com o emprego, porém os indivíduos insatisfeitos e pouco satisfeitos apresentaram maior probabilidade de adquirir as desordens. O estresse e o nível de satisfação com o trabalho foram os fatores psicossociais mais associados ao desenvolvimento de desordens na lombar dos fisioterapeutas que atuam nos hospitais em Belo Horizonte.7

A freqüência de atendimentos por dia relatada foi menor que a descrita na literatura, porém foi encontrada associação entre esta variável e a presença de dor. Foi observado na literatura que a realização de mais de 15 atendimentos por dia promove um desgaste físico que produz alteração musculoesquelética e alteração postural.4

Não houve associação entre os setores de atuação e o desenvolvimento de desordens, porém observou-se maior prevalência de dor nos indivíduos que atuam nas enfermarias. Observou-se na Austrália um afastamento das enfermarias pelos fisioterapeutas no momento em que são lesados.12

O tempo de atuação nos hospitais não foi relatado na literatura, porém houve no presente estudo associação entre a presença de desordens e o período de 06 a 10 anos de atuação, que pode ser justificada pela maior exposição aos fatores de risco para o desencadeamento de desordens.

A prática de atividade física não apresentou associação com a dor de origem musculoesquelética discordando dos achados na literatura, que mostrou estar relacionada à diminuição dos casos de desordens. Autores sugerem que exercícios físicos otimizam a força muscular e o nível de condicionamento para melhor desempenho das atividades ocupacionais.7

Uma das limitações deste estudo foi a redução no tamanho da amostra devido a recusa de três hospitais de grande porte em participar da pesquisa, subestimando as medidas de associação. Outro problema foi a indisponibilidade dos profissionais em responder os questionários ocasionando em perdas destes ou omissão de alguns dados devido a falta de tempo para o preenchimento. O estudo teve que admitir a participação dos profissionais que não trabalhavam apenas em hospitais para que não houvesse uma redução significativa da amostra, porém este viés não comprometeu os resultados encontrados.

A alta prevalência de desordens musculoesqueléticas em fisioterapeutas foi confirmada neste estudo, mostrando a vulnerabilidade a que estes profissionais estão expostos. Apesar de serem responsáveis e detentores de grande conhecimento a respeito da biomecânica e funcionalidade, estes não estão isentos de sofrerem lesões, portanto, estratégias devem ser elaboradas para evitar ou reduzir essas condições.
Pesquisas são necessárias para dar continuidade à discussão na área aprofundando o conhecimento a respeito dos fatores de risco e medidas preventivas propondo alternativas para minimizar o problema.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos ao CREFITO-7, à Maria das Graças Moreira Lisboa, Cora Maria Bender de Santana e Marlene Silva pela colaboração para realização deste trabalho.

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Tipo de publicação: Artigo original

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Breve currículo dos autores Instituição e Local de trabalho
Iana Conceição Macedo
Rafaela Martins Perez
Acadêmicas do 5º ano do curso de Bacharel em Fisioterapia da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública da Fundação Bahiana para Desenvolvimento das Ciências

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