O USO TERAPÊUTICO DO LASER DE BAIXA INTENSIDADE NO TRATAMENTO DA ACNE VULGARIS

The use of therapeutic low level laser in the Acne vulgaris treatment.

Marcia R. Ferro 1; Karina F. Vieira 2
Resumo

O intuito desse trabalho foi verificar, através de uma revisão bibliográfica, o efeito do laser de baixa intensidade (HeNe e AsGA) no tratamento da Acne vulgaris (AV). Utilizaram-se as bases de dados BIREME, CAPES, PUBMED e SCIELO no levantamento da literatura pertinente ao tema tratado em questão. Dentro desse escopo foram selecionados 36 artigos, de língua portuguesa e língua estrangeira, com conteúdo cientifico de ensaios clínicos, humanos e científicos; publicados nos últimos 15 anos. Ambos os lasers se mostraram efetivos no tratamento da AV. O laser HeNe foi mais promissor no clareamento das manchas em virtude de sua menor profundidade de luz emitida. Já o AsGa, com sua maior profundidade de ação, provocou uma melhora na cicatrização tecidual, oleosidade e diminuição do processo inflamatório.

Palavras chave: Laser de baixa intensidade, Acne vulgaris, AsGa, HeNe

Summary

The aim of this study was to verify, through a literature review, the
effects of low intensity laser (HeNe and GaAs) in the treatment of Acne
vulgaris (AV). We used the databases BIREME, CAPES, SCIELO and PUBMED
in the survey of literature pertaining to the subject dealt in the question. Within
this scope we selected 34 articles in portuguese and
foreign language, with scientific content of clinical trials and human
assay, published in the last 15 years. Both lasers have shown
effective in the treatment of AV. The HeNe laser was more promising in the bleaching of the blotches skins due to its shallower depth of light emitted. Already the GaAs, with its greater depth of action, caused an improvement in healing
tissue, oleaginous and decreased inflammation process.

Keywords: Low level laser, Acne vulgaris, GaAs, HeNe.
INTRODUÇÃO

A Acne Vulgaris (AV) é uma dermatose inflamatória que se desenvolve nos folículos pilossebáceos, devido à hiperqueratinização folicular, e um aumento da colonização por Propionibacterium acnes (P. acnes) nos ductos glandulares 1,2,3,4,5,6,7,8,9.
Existem vários fatores que influenciam o quadro e o surgimento da AV, como: genéticos, hormonais, sexuais e etários 1,2,3,4,5,7,14. A AV acomete todas as raças, ambos os sexos, sem distinção de classes sociais; e adultos entre 25 a 44 anos de idade, sendo mais grave em homens 1,2,3,4,15,16,17. A severidade das lesões encontradas são variáveis, desde comedões isolados até nódulos dolorosos e cicatrizes deformantes 9.
Essas lesões inflamatórias e seus episódios de exacerbação prejudicam o bem estar emocional, levando a perda da auto-estima e isolamento social 10,11. Esse agravamento, muitas vezes justifica a procura dos pacientes por especialistas com variadas formas de tratamento 9.
Estimativas norte-americanas afirmam que 45 milhões de pessoas sofram com AV, com faixa etária entre 12 a 25 anos 12. No inicio dos anos 80 a AV foi responsável pela comercialização anual de U$$ 200 milhões, em produtos de venda livre e sob prescrição médica 12.
Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia de 2006, a AV foi a causa mais freqüente de consulta ao dermatologista, correspondendo a 14% de todos os atendimentos prestados 13.
Dentre as diferentes técnicas utilizadas no tratamento contra a AV, vem ganhando destaque o emprego de Lasers, tais como o Helio-Néonio (HeNe) e Arsenato de Gálio (AsGa) e Arsênio-Gálio-Alumínio(ArGaAl). 5
O uso do laser no tratamento da acne tem como ação terapêutica promover efeitos analgésicos, antiinflamatórios, antiedematosos e cicatrizantes 5,24,25. Em estágio avançado de AV, o paciente que faz uso do laser terapêutico apresenta uma melhora substancial dos sintomas e das exacerbações inflamatórias decorrentes 18.
O objetivo deste trabalho é apresentar uma revisão bibliográfica na utilização do laser de baixa intensidade no tratamento da AV.

MATERIAS E MÉTODOS

Realizou-se uma revisão bibliográfica para o programa de Pós Graduação em Fisioterapia Dermato-Funcional da Universidade de Ribeirão Preto, no período de fevereiro a junho de 2010. Os artigos utilizados fazem parte da base de dados “Medline”, em língua inglesa e nacional. Utilizaram-se os termos-chave: “acne”, “laser low level”, “treatment”. Um levantamento concomitante foi realizado no Index de Revistas Médicas e Fisioterapêuticas brasileiras, retornando um total de 110 artigos referentes aos termos citados, sendo utilizados apenas os mais relevantes ao nosso escopo de trabalho, perfazendo um total de 36 trabalhos científicos de língua estrangeira e nacional. Além disso, foram utilizadas referências oriundas dos livros e dos periódicos especializados e atualizados para a confecção dessa revisão.

DISCUSSÃO

Do ponto de vista clínico, a acne classifica-se em não-inflamatória e inflamatória, de acordo com o tipo de lesão predominante. A acne grau I ou também chamada comedoniana não apresenta processo inflamatório, exibindo lesão plana ou ligeiramente elevada, podendo atingir 5 mm de diâmetro 3,19,20,21,22.
No entanto, os graus II, III, IV e V apresentam lesões inflamatórias, como pápulas, papulopústulas, nódulos, quistos e cicatrizes, provocando danos que vão de pequenas depressões faciais à cicatrizes hipertróficas e quelóides. A acne grau II, inflamatória ou pápulo-pustulosa, apresentam comedões associados a lesões de pápulas e pústulas, sendo estas lesões purulentas; acne grau III, inflamatória ou nódulo-abscedante, apresentam nódulos e cistos somados; e acne grau IV, inflamatória ou conglobata, quando há formação de abscessos e fístulas, com múltiplos nódulos inflamatórios 3,19,20,21,22. Acne grau V uma forma rara e grave, de instalação abrupta, acompanhada de manifestações sistêmicas como febre, leucocitose e artralgia, também chamada de acne fulminante. 21, 22
A palavra laser deriva de um acrônimo, na língua de origem “Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation”; significando amplificação da luz pela emissão estimulada da radiação 23,24,25.
Os efeitos do laser resultam na aceleração do processo cicatricial e tecidual a nível celular através da interação fotoquímica, promovendo aumento do metabolismo celular e induzindo a diferentes efeitos como: analgésico, antiinflamatório e reparador 5,23,25.
Outro benefício da radiação laser é o resultado da ação dos radicais livres, que induzem a ativação das células, promovendo um aumento da atividade bactericida, proliferação celular, produção de proteínas e citocinas. Esses eventos produzirão resultados, tais como: cicatrização de feridas, melhoria na micro-vascularização, regeneração e imuno-modulação 26.
Jimbo et al. (1998) e Walker (1983) verificaram importantes efeitos antiinflamatórios e analgésicos da terapia laser de baixa potência. A terapia produz modificações moleculares e estruturais celulares, levando a um aumento na capacidade de aderência celular, aumentando, assim, a reparação tecidual. Em relação aos efeitos antiinflamatórios, destaca-se a ativação de monócitos e macrófagos, o aumento da fagocitose, a proliferação acelerada de linfócitos na área da inflamação e a diminuição dos níveis de prostaglandina E2, além da proliferação de linfócitos e aumento na taxa de sobrevivência 27-34.
Utilizando-se do laser HeNe (comprimento de onde de 632,8 nm e potência de 1,56 mW), SAPERIA et al., (1986) 35 através da irradiação de feridas dos tecidos moles em ratos de laboratório, com doses de 0,596 J/cm2 três vezes por semana aplicadas durante um período de 28 dias resultou em uma melhor formação de colágeno e procolágeno I e III no local das feridas. Ao termino desse estudo foi observado pelos autores elevados níveis de RNA mensageiro nos dias 17 e 28, comprovando dessa maneira a efetiva ação cicatrizante no uso do laser HeNe.
Em outra abordagem OLIVEIRA et al., (1997) aplicaram o laser AsGa (904 nm e 2 mW) em feridas cutâneas de ratos no pós operatório imediato de maneira pulsada e em varredura por 2-4 minutos. Após 6 dias de aplicação observaram significativas atividades epiteliais,, formação acentuada de anexos cutâneos e avançada maturação dos tecidos cicatriciais 36.
De acordo com ASSUNÇÃO et al., (2003) a efetividade dos lasers AsGa e HeNe, com comprimentos de onda 904 nm de emissão pulsada e 632,8 nm de emissão contínua, respectivamente, provocaram uma melhora substancial no processo inflamatório , redução da oleosidade da pele, clareamento das manchas ocasionadas pela acne, cicatrização tecidual mais efetiva e diminuição no surgimento de novas lesões após o total de 15 aplicações, sendo cinco por semana.
Observou-se que durante a primeira semana o laser HeNe obteve um melhor resultado parcial, segundo o questionário respondido pelos pacientes. Ao término do tratamento e comparando-se os quesitos técnicos do laser HeNe e AsGa, foi verificado que ambos obtiveram ótimos resultados, sendo que o HeNe foi superior apenas no quesito clareamento das manchas faciais. O laser HeNe tem vantagem terapêutica sobre o AsGa por ser altamente colimado e assim ter mínimas perdas por reflexão, segundo BAXTER (1995) apud ASSUNÇÃO et al., (2003).
O laser HeNe 632,8 nm contínuo atinge a pele (1-2 mm), apresentou uma melhor efetividade após sua incidência, no clareamento das manchas, em decorrência de sua menor profundidade cutânea. 5.
O laser AsGa 904 nm pulsátil atinge a pele (1-3 mm), apresentou ótima efetividade na redução do processo inflamatório, diminuição da oleosidade da pele e progressiva cicatrização tecidual, devido a sua maior profundidade de luz emitida. 5.

CONCLUSÃO

O uso do laser HeNe e AsGa mostrou-se bastante efetivo no tratamento da AV minimizando assim o aparecimento de novas lesões.
Embora existam diferentes tratamentos e multiplicidade de equipamentos utilizados no combate a AV, pouca literatura brasileira foi encontrada com relação ao uso de lasers de baixa potência na melhoria e bem estar dos pacientes portadores dessa enfermidade, assim sugerem-se novos estudos que venham na melhoria destes tratamentos..

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. WINSTON, MH; SHALITA, AR. Acne vulgaris. Pathogenesis and treatment. Pediat Clin North Am. 1991. 38:889-903.

2. STEINER D. Acne na mulher. Rev Bras Med. 2002.59:135-9.

3. STEINER, D; BEDIN, V; MELO, JSJ. Acne vulgar. Rev Bras Med. 2003. 60: 489-95.

4. HASSUN, KM. Acne: etiopatogenia. An Bras Dermatol., 2000. 75:7-15.

5. ASSUNÇÃO, D; STALL, K R; CASTILHO, L V; AMORIM, M H P B; PALMA, M; FONSECA, P B DA; MENON, V B. Tratamento fisioterapêutico da acne por meio do laser. Fisioter. Mov .,2003; 16 (4): 11-16.

6. MIRSHAHPANAH P, MAIBACH HI. Models in acnegenesis. Cutan Ocul Toxicol. 2007; 26: 195–202.

7. GARCIA, E. Auriculoterapia. São Paulo – SP, Roca. 2003.

8. STRAUSS JS. GLÂNDULAS SEBÁCEAS. IN: FITZPATRICK TB; EISEN AZ; WOLFF K, et al. Dermatologia em medicina general. Buenos Aires: Panamericana. 1997 p. 745-62.

9. BRENNER, F M; ROSAS, F M B; GADENS, G A; SULZBACH, M L; CARVALHO, V G; TAMASHIRO, V. Acne: um tratamento para cada paciente. Rev ciênc. méd., 2006. 15 (3): 257-266.

10. CIBULA D; HILL M; VOHRADNIKOVA O. The role of androgens in determining acne severity in adult women. Br J Dermatol., 2000. 143: 399-404.

11. DARLEY CR; KIRIRBY JD; BESSER G M. Circulating testosterone, sex hormone binding globulin, and prolactin, in women with late onset or persistent acne vulgaris. Br J Dermatol., 1982. 106: 517-22.

12. SHALITA AR. Acne vulgaris: pathogenesis and treatment. Cosmet Toiletries., 1983. 98:57-60.

13. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DERMATOLOGIA. Nosologic profile of dermatologic visits in Brazil. An. Bras. Dermatol., 2006. vol. 81, n.6 p. 549-558 .

14. YAMAMURA Y. Acupuntura tradicional: a arte de inserir. 2ª ed. São Paulo: Ed. Roca. 2004.

15. DRENO B; POLI F. Epidemiology of acne. Dermatology, 2003. 206: 7-10.

16. SOBRAL FILHO JF; SILVA CNA; RODRIGUES JC; RODRIGUES JLTD; ABOUI-AZOUZ M. Avaliação da herdabilidade e concordância da acne vulgar em gêmeos. An. Bras. Dermatol., 1997. 72: 417-420.

17. SOBRAL FILHO JF; NUNES MAIA HGS; FONSECA ESVB; DAMIÃO RS. Aspectos epidemiológicos da acne vulgar em universitários de João Pessoa – PB. An Bras Dermatol., 1993. 68: 225-8.

18. BAXTER GD. Therapeutic lasers, theory and practice. New York: Churchill Livingstone; 1997.

19. FREEDBERG IM; EISEN AZ; WOLF K; AUSTEIN KF; GOLDSMITH LA; KATZ SL, FITZPATRICK’S. Dermatology in general medicine. 5th ed. New York: McGraw-Hill, 1999.

20. SAMPAIO SAP & RIVITTI EA. Dermatologia Básica. 3a. ed. São Paulo: Artes Médicas, 2007.

21. USATINE R; QUAN M; STRICK R. Acne Vulgar: Actualização terapêutica. Hosp Pract, 1999. 3(5): 13-23.

22. HABIF T. Clinical Dermatology. 3rd Ed. 1996. cap. 7 p. 148-79.

23. FERNANDO S, HILL CM, WALKER R. A randomised double blind comparative study of low level laser therapy following surgical extraction of lower third molar teeth. Br J Oral Maxillofac Surg 1993; 31:170-172.

24. RODRIGUES, E.M.; GUIMARÃES, C.S. Manual de recursos fisioterapêuticos. Rio de Janeiro. Revinter, 1998. cap. 3, p. 17-35.

25. GUIRRO ECO, GUIRRO RRJ. Fisioterapia dermato-funcional: fundamentos, recurso e patologias. São Paulo: Manole, 3ª Ed. 2010

26. VLADIMIROV YA, OSIPOV AN, KLEBANOV GI. Photobiological principles of therapeutic applications of laser radiation. Biochemistry (Mosc) 2004. 69: 81-90.

27. JIMBO K, NODA K, SUZUKI K, YODA K. Suppressive effects of low-power laser irradiation on bradykinin evoked action potentials in cultured murine dorsal root ganglion cells. Neuroscience Letters. 1998. 240(2): 93-6.

28. WALKER J. Relief from chronic pain by low power laser irradiation. Neuroscience Letters., 1983. 43(2-3): 339-44.

29. BOLOGNONI L, FANTIN AMB, FRANCHINI A, VOLPI N, VENTURELLI T, CONTI AMF. Effects of low-power 632 nm radiation (HeNe laser) on a human cell line: influence on adnylnucleotides and cytoskeletal structures. Journal of Photochemistry and Photobiology B: Biology. 1994. 26 (3): 257-64.

30. CARNEVALLI CMM; PACHECO-SOARES C; ZÂNGARO RA. Reparação cicatricial de Rattus albinus wistar irradiada com laser de hélio-neônio (He-Ne), In: ANAIS DO 17º CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA BIOMÉDICA. Florianópolis. 2000 p. 1464-6.

31. HAVLIK I. Use of low level laser therapy (LLLT) in gynaecology and obstetrics. Laser Partner Clinixperience. , 2000. [21 de maio de 2010]; 14:3. http://web.medicom.cz/Laserpartners/en/laserpartner14.htm

32. PROCHAZKA M. Some clinical observations after ten years of laser (LLLT) rehabilitation practice. Laser Partner Clinixperience., 2000. 11:3, disponível em: http://web.medicom.cz/laserpartners/en/laserpartner11.htm.

33. BATANOUNY ME; KORRAA S; FEKRY O. Mitogenic potential inducible by He: Ne laser in human lymphocytes in vitro. Journal of Photochemistry and Photobiology. B: Biology, 2002. 68(1):1-7.

34. TAM G. Low power laser therapy and analgesic action. J Clin Laser Med Surg 1999. 17: 29-33.

35. SAPERIA D, GLASSBERG E, LYONS RF, ABERGEL RP; BANEUX P; CASTEL JC; DWYER RM; UITTO J. Demonstration of elevated type I and type III procollagen mRNA levels in cutaneous wounds treated with helium-neon laser: proposed mechanism for enhanced wound healing. Biochem Biophys Res Commun. 1986 138: 1123–1128.

36. OLIVEIRA JAGP, LOYOLA AM, COSTA IM, GARCIA VG, ALVES GC. Ação da irradiação laser (arsênio-gálio) sobre a cronologia do processo de reparo em feridas cutâneas – estudo histológico em ratos. ROBRAC. 1997; 6(21):28-31.

Se desejar, use os botões abaixo para compartilhar.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.