O TREINAMENTO DA MUSCULATURA RESPIRATÓRIA

INTRODUÇÃO

O treinamento da musculatura respiratória é indicado quando necessita-se aumentar a força e/ou endurace dessa musculatura, e obedece aos mesmos princípios do treinamento dos músculos esqueléticos. Sendo assim baseado na fisiologia peculiar da musculatura respiratória, desenvolveu-se formas de treiná-las. Sabemos porém que as patologias que levam a necessidade de um treinamento muscular respiratório acometem uma ampla faixa etária, surgindo a dúvida a respeito da eficácia da treinamento em um tempo pré determinado de 4 semanas, em idosos sadios sedentários com idade entre 60 – 75 anos.
Este trabalho realizou treinamento da músculos inspiratórios de três indivíduos sedentários e sadios, utilizando válvula inspiratória Threshold, que é uma forma de treinamento com carga linear pressórica, visando o aumento da força da musculatura inspiratória.

O ENVELHECIMENTO PULMONAR
Fisiologicamente todo nosso sofre modificações com o avançar da idade e todas essas alterações são deterioradas, em maior ou menor grau da funcionalidade dos órgãos e sistemas.
Entretanto deve se lembrar que a alteração da função fisiológica não é determinada somente pelo processo de envelhecimento e sim pelo modo de vida individual, como a diferença entre um idoso que sempre praticou atividade física, daquele que sempre foi um sedentário.
As alterações no sistema respiratório podem ser divididas em morfológicas e funcionais.
As alterações morfológicas resultam principalmente de:
• Perda da elasticidade dos tecidos que circunscrevem alvéolos e ductos alveolares, provocando uma dilatação das vias aéreas terminais;
• Aumento do diâmetro ant-post do tórax decorrente da descalcificação dos arcos costais e vértebras;
• Enfraquecimento dos músculos respiratórios;
• Cifose dorsal acentuada devido à diminuição dos espaços intervertebrais;
• Redução do colágeno e do tecido elástico das artérias e veias pulmonares.

As alterações funcionais são aquelas observadas aos diversos testes de avaliação de função pulmonar. São alterações que ocorre nos volumes e capacidades pulmonares:
• Capacidade vital: a capacidade inspiratória e expiratória diminuem;
• O volume residual e a capacidade funcional estão aumentados, traduzindo uma hiperinsuflação pulmonar, associado ao fato de que coexiste também uma reduçaõ da força de recolhimento elástico dos pulmões;
• Os VEF1 e VEF diminuem;
• Ocorre um fechamento das vias aéreas a um volume pulmonar mais alto;
• O idoso reage menos intensamente a hipercapnia e a hipoxemia, verificando-se uma menor sensibilidade dos quimiorreceptores carotídios e aórticos a uma menor PaO2 ;
• Relação ventilação/perfusão capilar: a ventilação e a perfusão diminuem proporcionalmente, não chegando a alterar significativamente relação ventilação perfusão capilar;

OBJETIVO
Verificar a eficácia do treinamento da musculatura respiratória em indivíduos idosos entre 60 – 75 anos de idade, sadios, sedentários em tempo pré-determinado de 4 semanas, verificando-se o ganho de força muscular.

MATERIAIS E MÉTODOS
1. Critérios de inclusão:
– Não Ter pneumopatias prévias;
– Sem sintomas respiratórios;
– Sedentários;
– Sem comprometimento neurológico ou cognitivo;
– Sexo masculino.
2. Critério de exclusão:
– Indivíduos que tiveram febre ou infecção durante o período de treinamento muscular;
– Indivíduos com comprometimento cardíaco ou pulmonar;
– Indivíduos fazendo uso de corticóides;
– Internação a menos de 3 meses, por qualquer motivo;
– Sexo feminino.
PROTOCOLO
1. Aparelhos utilizados:
• Manovacuômetro da marca MV –120
• Threshold® IMT que é uma válvula inspiratória, que promove um treinamento com carga linear pressórica e permite e permite a regulagem de pressão por uma mola, fornecendo uma resistência constante ao músculo quando se inspira.
2. Mensuração de força:
• A mensuração é oral, onde o indivíduo coloca a boca no bucal do manovacuômetro, o nariz é ocluído por um clipe nasal;
• O voluntário é orientado a colocar-se em posição sentada com apoio de tronco e pés;
• Foram realizadas três medidas sempre no período da manhã, semdo considerado apenas o maior valor para ambas as variáveis;
• Os valores de Pimáx e Pemáx foram coletados a partir da CRF e CPT, respectivamente.

TREINAMENTO
A resistência utilizada pare treinamento foi calculada em 50% do valor da Pimáx . O indivíduo realizou o treinamento sozinho em seu domicílio com carga prescrita pelo pesquisador que ajustou o Threshold® IMT girando o controle da parte de trás do aparelho alinhando o limite vermelho do indicador de pressão para ajustá-lo. Cada indivíduo recebeu uma tabela onde estava descrito o dia e a quantidade de exercícios a realizar, no qual anotava após cada série de treinamento afim de orientá-los.
Este treinamento foi realizado três vezes ao dia, sendo um no período da manhã, outro a tarde e o último a noite, com três séries de 20 repetições em cada um dos períodos, durante quatro semanas seguidas. A reavaliação era feita a cada semana, verificando as alterações das pressões. A resposta ao treinamento era avaliada pelo aumento da Pimáx.

RESULTADOS.
Quatro indivíduos normais com idade entre 60-75 anos foram voluntários desta pesquisa e foram submetidos ao programa de treinamento que seguem os moldes descritos no protocolo.
Devido ao número reduzido de nossa amostra não foi possível fazer análise estatística, utilizando assim para descrever os resultados a análise gráfica. (Os valores do gráfico refere-se a Pimáx. que é um valor negativo).

Gráfico 1. Valores absolutos de pressão inspiratória máxima colhidas em três idosos submetidos a treinamento da musculatura respiratória durante quatro semanas.

Pela análise do gráfico acima observou-se que, após a primeira semana de treinamento houve aumento da Pimáx. nos casos 3 e 2 sendo mais evidente no caso 3, e o caso 1 manteve o mesmo valor da medida inicial. Após a segunda semana de treinamento caso 2 apresentou um aumento significante seguido pelo caso 3 e 2.
Depois da terceira semana observou-se um constante aumento da Pimáx. nos três casos, só que desta vez quem obteve o maior valor foi o caso 3, seguido pelo caso 2 e caso 1.
Na última semana de treinamento os valores do caso 3 e 2 igualaram-se, mostrando um grande aumento da Pimáx. e o caso 1 também obteve melhora, porém menos acentuada.
Convém lembrar que estes valores correspondem ao maior valor obtido de três medidas realizadas, que estão relacionadas no anexoII.
Observou-se as medias dos valores absolutos de cada caso submetidos ao estudo com consta no anexo II, pela análise gráfica a seguir.

Gráfico 2. Valores comparativos de Pimáx.(valor negativo)entre as medidas iniciais e finais, demostrando a evolução durante quatro semanas de treinamento.

Observou-se através do gráfico 2, que comparando as medidas iniciais com aquelas obtidas após quatro semanas de treinamento, podemos observar que, o caso 2 apresentou um aumento da Pimáx. considerável, onde em sua primeira avaliação foi registrado uma Pimáx. de -60 cmH2O e após a 4 semana de treinamento alcançou a marca de -120 cmH2O, o caso 3 obteve na medida inicial -80 cmH2O e na reavaliação final -120 cmH2O, o caso 1 foi o que obteve um menor aumento de sua Pimáx. , teve como medida inicial -80 cmH2O e após quatro semanas de treinamento obteve -92 cmH2O.

Gráfico 3. Valores da média de pressão inspiratória máxima colhidas de três indivíduos idosos após quatro semanas de treinamento da musculatura respiratória.

Observa-se através deste gráfico, que ao analisarmos as médias dos valores de Pimáx. constatamos que o aumento da Pimáx. ocorreu gradativamente a partir da primeira semana sendo mais pronunciado na segunda e quarta semana, em relação a pressão inicial.
Os resultados demostraram aumento da força muscular inspiratória em todos os casos a partir da primeira semana mantendo este aumento até a quarta semana onde foi interrompido o treinamento.

CONCLUSÃO

Após o término desta pesquisa concluímos que:
• Treinar músculos respiratórios em indivíduos idosos normais sedentários entre 60-75 anos de idade tem eficácia;
• Uma semana é suficiente para observarmos aumento da pressão inspiratória máxima em indivíduos idosos normais sedentários;
• Quatro semanas de treinamento foram insuficiente para observarmos a estabilidade de valores de pressão inspiratória máxima.

DISCUSSÃO
Em nosso estudo, o treinamento dos músculos inspiratórios foi realizado utilizando carga linear pressórica, buscando aplicar os princípios de treinamento para músculos esqueléticos visando mensurar o tempo de treinamento e o ganho de força muscular em indivíduos idosos normais sedentários entre 60-75 anos de idade. Estudos anteriormente realizados sobre treinamento de músculos inspiratórios em indivíduos normais, como LEITH, D. E. et al. em 1976 e COHEN, M. E. et al. em 1994, entre outros demostraram que a força da musculatura respiratória aumentou durante o treinamento. BELMAN, M. J. et al. em 1988, treinaram a musculatura respiratória em idosos através do método de hiperventilação voluntária isocápnica (citada anteriormente) para avaliar a capacidade ao exercício e concluíram que esta não esta limitada pela sua mecânica debilitada. Este trabalho visa a demonstração do tempo de treinamento necessário para o ganho de força muscular respiratória em indivíduos idosos normais sedentário entre 60-75 anos de idade, criando assim parâmetros de comparação entre indivíduos adultos jovens, idosos doentes e adequar o tempo de treinamento.
A proposta de treinamento foi apresentada a cada indivíduo separadamente em seu domicílio, em que receberam explicações sobre as alterações pulmonares decorrentes da idade, sobre os aparelhos utilizados no treinamento e sobre o treinamento propriamente dito.
As medidas iniciais foram retiradas a partir do momento em que o pesquisador notou o aprendizado da técnica, sendo utilizado o manovacuômetro, como descrito no protocolo. A seguir foi apresentado a válvula Threshold, a explicação da técnica seguido de um treino sem carga para o aprendizado.
Foram elaboradas tabelas para auxílio e orientação do treinamento, onde houve a necessidade de reelaboração da tabela devido a dificuldade de compreensão por parte dos voluntários, a tabela utilizada localiza-se no anexo III. Nesta tabela foi anotado o dia e a quantidade treinamento, onde o voluntário apenas marcava com um x após cada treinamento.
Como demonstra o gráfico 1, após a primeira semana de treinamento, na primeira reavaliação, os casos 2 e 3 apresentaram aumento de força muscular em relação a medida inicial (avaliação), e o caso 1 manteve o mesmo valor, isso talvez deve-se ao fato que durante a primeira semana de treinamento o caso 1 apresentou um leve resfriado, mas este fato não foi encontrado nas bibliografias pesquisadas.
Na segunda semana o caso 2 surpreendeu-nos, pois apesar da dificuldade apresentada no aprendizado obteve aumento de -64 cmH2O para -96cmH2O disparando na frente do caso 1 e 3.
O caso 3 obteve a maior marca após a terceira semana de treinamento, seguido pelo caso 2 e 1. Foi nesta reavaliação em que o caso 3 relatou melhora da performance respiratória durante suas caminhadas e a diminuição do ronco, não foi encontrado na literatura nenhum dado que justificasse tais ocorrências. Após a quarta semana de treinamento o caso 2 e 3 igualaram seus valores na marca de -120 cmH2O seguidos pelo caso1 em -92 cmH2O.
O tempo protocolado não foi suficiente para ver estabilização da Pimáx..

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Autora NOME: ROBERTA RUIZ PINHA
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