O salário do Fisioterapeuta – parte III

 

Volto ao tema do salário do fisioterapeuta em sua terceira e última parte. Como foi visto nas edições anteriores, o tema é complexo e vasto e não pode ser analisado por uma ótica isolada. Vivemos um momento de luta e mobilização da categoria no sentido de valorizar o relevante trabalho do profissional nas três frentes de ação da saúde; infelizmente, por não termos uma saúde pública de qualidade que garanta o acesso a todas as abordagens da fisioterapia de forma plena e digna e, principalmente, gratuita, não podemos pensar em salário digno sem tocar no aspecto crucial que são os planos e seguros-saúde.

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No Brasil, aproximadamente 42 milhões de pessoas pagam planos de saúde de vários níveis, gerando coberturas diferenciadas para os inúmeros procedimentos. Em relação à fisioterapia a situação é ainda mais delicada. Em média, os tratamentos são de médio e longo prazos, necessitando de atendimentos diários, duas vezes, três vezes e a extremos de seis vezes por dia como aconteceu com um paciente meu e no pós-operatório de uma neoplasia de fígado era fundamental evitar que ocorresse derrame pleural como intercorrência esperada devido à retirada de grande parte da víscera, ocasionando insuficiência hepática e passagem do líquido excessivo para a pleura direita.

Como uma família pode arcar com um tratamento diário de fisioterapia, além dos outros gastos necessários ao tratamento e à subsistência? Torna-se impossível e, quase sempre, a fisioterapia, mesmo sendo imperiosa, passa para plano secundário, retardando ainda mais a recuperação e o profissional de melhor padrão é substituído por outro menos competente, mas que cobra um valor bem menor pelo atendimento.

Estou me reportando ao paciente domiciliar privado, constatando que a fisioterapia é muito elitista, daí a impossibilidade de manutenção de um salário digno, pois o nosso tratamento é realizado por nós, diferentemente do médico que vai à casa do paciente, cobra R$1.000,00 pela visita e a família paga, pois a cultura é a de que o médico vale o que cobra e a consulta não é tão constante.
Novamente a fisioterapia torna-se um fator menor, pois a sociedade, de modo geral, desconhece o real valor dos procedimentos, assim como a classe médica também desconhece ou está acostumada a presenciar tratamentos distorcidos e de baixa qualidade, contribuindo para a citação de frases como esta: “estou fazendo fisioterapia porque o médico mandou, mas não adianta nada.”

Quantas distorções e desinformação em uma pequena frase; mas isso é o que as pessoas estão presenciando. Isso é constatado nos tratamentos ambulatoriais, onde o paciente é mal atendido, assim como nos pacientes acamados, críticos ou não.

Finalmente entramos no aspecto relativo aos planos de saúde. Uma coisa não justifica a outra, mas como o valor do atendimento pago pelo plano é muito baixo, há a necessidade de quantidade para proporcionar algum retorno para o profissional. Logicamente, se a quantidade é priorizada pensa-se sob duas óticas; ou o tratamento mantém a qualidade com mais profissionais atendendo e, com menor fatia do bolo para cada um, ou mantém-se a quantidade de profissionais com maior ganho e a qualidade é preterida. Nenhuma das duas opções é boa, mas observamos uma terceira situação ainda mais cruel. Como a maioria dos hospitais privados terceiriza a fisioterapia, empresários organizam uma firma e contratam fisioterapeutas para realizar os atendimentos (em sua maioria com poucos profissionais e muitos atendimentos – ambulatório, enfermaria e quartos e cti) pagando, em muitos lugares, R$60,00 por plantão de doze horas. Os “empresários” ganham no bolo e o colega paga para trabalhar. Isso é aviltante, é a prostituição elegante da fisioterapia; a outra é o profissional que se presta a cobrar R$5,00 para “ganhar” o paciente.

E nas clínicas? Aquelas que atendem mais de 500 pacientes por dia? Aquelas em que o fisioterapeuta recebe R$600,00 por mês e o dono da clínica, pelo menos R$40.000,00 por mês em cima da fisioterapia? Aquelas em que o próprio paciente aplica o ultrasom “para adiantar”? Aquelas em que os estagiários de terceiro, quarto período já atendem e quando chega à fiscalização do crefito deitam nas macas e passam a ser “pacientes”? Aquelas em que o aparelho está com defeito, mas a orientação é aplicar assim mesmo porque o convênio paga?

Como fica isso? Os fins justificam os meios? Esses pacientes estão sendo tratados? E os criminosos que compartilham dessa desonestidade?
Se o fisioterapeuta, em sua maioria esmagadora, fosse comprometido com a categoria, fosse ético e competente, saberia que o quantitativo que dispomos hoje é suficiente para dialogar e impor determinadas medidas em prol dos pacientes e da sociedade.

Se ninguém se sujeitar a essas explorações que citei acima, várias situações criminosas e vexatórias deixariam de ocorrer. Se ninguém aceitar um plantão de sessenta reais, a situação muda; se ninguém aceitar trabalhar junto aos planos de saúde por valores ofensivos, a situação muda. Para isso é necessário competência, estudo, conhecimento. Mas como investir se falta salário? Como se atualizar sem dinheiro para investir?

E a ciranda volta ao seu início. O tema é delicado e, como citei anteriormente, não pode ser abordado de formas isoladas.

É emergencial a criação de uma frente de negociação permanente com os planos de saúde para alterar a remuneração e dignificar o trabalho do fisioterapeuta. Esses planos ganham muito dinheiro, repassam tudo o que podem e o que não podem; é possível, sim, pagar decentemente pela fisioterapia de ambulatório, de leito e de terapia intensiva. É necessário e imperioso que o fisioterapeuta saia do marasmo em que se encontre, se mobilize, junte-se aos grupos de trabalho que estão se formando por todo o país, para que a situação mude. A hora é mais do que agora.
Um ponto tem que ficar absolutamente claro. Se a sua profissão não dá a você sustentabilidade, realização financeira, pessoal, afetiva e social ela não é atraente. Se a sua profissão é influenciada por outros profissionais erroneamente, não tem autonomia plena e é sub-valorizada que estímulo você terá?

Juntamos tudo isso e verificamos o esvaziamento progressivo da categoria e a corrida para outros cursos da saúde ou não. Os mais otimistas afirmam que a fisioterapia está passando por uma acomodação de equilíbrio e só vão ficar os bons. Eu penso exatamente o contrário; a fisioterapia está passando por um esvaziamento em função de tudo o que joga contra o gosto pelo trabalho com independência, reconhecimento e realização. Daqui a um tempo, a escória da incompetência vai optar pela fisioterapia, pois vão sobrar vagas no ensino privado e público devido à baixa autoestima a que o fisioterapeuta se permitiu.

Sou fisioterapeuta há 34 anos, eternamente apaixonado pelo que faço, vivendo única e exclusivamente da fisioterapia ao longo de todo esse tempo, É possível para mim, é possível para você, é possível para todos nós.

Não desista, se orgulhe e lute pelos seus ideais, a recompensa vale o sacrifício.

No presente texto só me voltei para a ação secundária e terciária. No próximo número vamos refletir sobre a ação primária, magistério, titulação e a cegueira do governo em relação à saúde e educação.

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8 comentários em “O salário do Fisioterapeuta – parte III”

  1. professor , sou estudante de fisioterapia e meu trabalho de pesquisa fala sobre a remuneração salarial da fisioterapia. O senhor teria acesso a história dessa evolução salarial em números quanto era o primeiro salário até os dias atuais? Onde posso encontrar registros sobre o assunto?

  2. Rayssa Chagas

    Totalmente a favor de tudo que foi dito acima. Concordo que a nossa classe deve ter coragem e negar os salários mediocres que nos são oferecidos em troca do nosso trabalho. Recentemente vi concursos em que pagava R$ 500,00 por mês ao fisioterapeuta. E me revolta saber que tem colegas inscritos num processo seletivo desse tipo, humilhando a nossa categoria, pois se não houvesse inscritos, poderiamos lutar por salários mais dignos.

  3. Excelente texto..com certeza este assunto é muito complexo,os profissionais da fisioterapia precisam valorizar-se mais, estudar mais e amar muito mais a profissão que escolheram!!
    Essa situação me entristece muito, vejo aqui no Rio de Janeiro, colegas sendo demitidos por conta do reajuste salarial que ocorreu em abril deste , onde o piso do fisioterapeuta passou para R$1.630,99( Lei 5.950/2011). Mesmo sendo lei,empregadores estão coagindo os fisioterapeutas a fazerem acordos, caso não aceitem estão sendo demitidos!

  4. Sinceramente, revoltante, fiz um concurso onde ofereciam apenas 1 vaga consegui a vaga mas infelizmente o menor salario de toda categoria de nivel superior foi o do fisioterapeuta e ainda para sujeitar se a ficar 40 horas. Autoridades? ajude nos!

  5. envia este site para o facebook no grupo de: fisioterapeutas: união e protestos
    Com certeza temos que investir nesta luta contra baixos salários, isto é, a nivel nacional!!!!

  6. José Jorgiano

    É realmente complicada a situação da remuneração do Fisioterapeuta! Aliada a isso,a idéia da sociedade de que Fisioterapia não resolve piora a situação, muitas vezes por vermos sempre 4-5 pacientes por atendimento para 1 único fisioterapeuta. Enquanto isso,faculdades e mais faculdades abrem o curso de Fisioterapia tranquilamente e com a cara de pau de copiar e colar a velha justificativa da escassez profissional em capitais pequenas com 6-7 faculdades com o curso…Nosso conselho apoia a abertura de novos cursos a qualquer custo,pois significa mais anuidades para os cofres… Desculpem amigos, totalmente desmotivado aqui.

  7. estava fazendo faculdade de fisioterapia e desisti na metade, estou totalmente desmotivada com essa profissão apesar de gostar tanto e de ter me dedicado tanto também. só amor a profissão não coloca comida na mesa. é triste mas é a realidade.

  8. Elias Rodrigues Da Silva Neto

    A principio gostaria de parabeniza-lo pelo tema abordado de forma tão rica e dizer de minha felicidade por saber que ainda existe pessoas que realmente querem fazer uma fisioterapia a altura das demais áreas de saúde, tive o privilegio de relatar sobre o mesmo assunto não de forma tão rica, mas fui de pronto atendido por seu editor chefe. E o mesmo com sua sabedoria e com uma simplicidade,editor em cartas esse pequeno relato sobre o mesmo assunto na revista número 98 edição jul/ago 2014 intitulado piso salarial e referencial de remuneração dos procedimentos fisioterapêutico, na sua ultima edição revista impressa,hoje uma revista online de altíssimo nível e que me orgulha muito.Parabéns.

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