O ganho financeiro do fisioterapeuta 4a parte – propostas de soluções

Olá amigos. Realizei três postagens a respeito do ganho financeiro do fisioterapeuta. Certamente, para a maioria dos profissionais não foi novidade o que escrevi, mas coube como reflexão. Para os acadêmicos e recém formados acredito ter contribuído de forma mais enfática a respeito de uma mudança de posição frente à realidade que enfrenta nossa categoria.

Antes de sugerir ideias, polêmicas ou não, viáveis ou não, quero colocar algumas questões que não devem ser desconsideradas. Primeiro ponto; na vida, é fundamental entendermos que os nossos problemas são criados por nós e cabe a nós resolvê-los. A culpa pelo estado em que se encontra a fisioterapia é nossa, é da própria categoria. Por mais que discordem, vários erros vêm se acumulando ao longo dos anos e não ocorreu a percepção necessária para interromper essa sucessão, desembocando no quadro que todos presenciamos.

No final dos anos 1990, a fisioterapia sofreu um “inchaço” muito maior do que o crescimento esperado. Várias instituições de ensino superior viram na especialidade uma forma de aumentar lucros. Faculdades que nem cursos na área da saúde tinham, passaram a oferecer a graduação. O resultado mais grave disso foi a entrada de uma quantidade enorme de profissionais a cada semestre no mercado, sendo que, a grande maioria, não possuía embasamento para exercer a profissão. Por vários motivos: baixa qualidade docente, currículos distorcidos e inadequados, falta de estrutura de laboratórios necessários a uma boa formação, consistência débil de estágios supervisionados e por aí vai. Enfim, uma catástrofe.

Fui coordenador de cursos de pós-graduação e pude constatar essa realidade de forma clara. Como todos sabem, a pós lato sensu, em sua quase totalidade, não avalia o profissional que está pleiteando uma vaga; é um curso aberto. Algumas instituições à época permitiam que o aluno do último período  da graduação ingressasse na pós. Para que o profissional pudesse ingressar na carreira docente, era exigido um curso de pós graduação na área pretendida, ainda que não tivesse experiência clínica comprovada ou publicação de trabalhos ou artigos científicos. Logicamente, uma parte considerável buscava a pós para ter o certificado que garantisse o ingresso no magistério. Só que, esse certificado não o classificava como especialista profissional, mas como especialista acadêmico.

Outro ponto consequente a essa facilidade de acesso era o desequilíbrio das turmas. Havia profissionais de bom padrão e com experiência, havia aqueles em uma situação intermediária e havia os alunos que não tinham o menor conhecimento, buscando na pós graduação o que não aprenderam na graduação. Devemos pensar sempre na pós como um degrau acima da graduação e não na manutenção da mesma aprendizagem, senão não haveria necessidade dela. Resultado: os alunos de maior experiência achavam o curso aquém das expectativas, os que não tinham conhecimento achavam os professores fracos porque não conseguiam acompanhar o conteúdo. Em uma determinada fase cheguei a ventilar aulas de nivelamento, mas não deu certo, pois aumentaria gastos e nem todos tinham disponibilidade. Infelizmente, essa situação não mudou muito nos últimos anos.

O que fazer? O que mudar?

Vou colocar algumas sugestões para nossa reflexão e debate.

A categoria necessita urgentemente melhorar o nível de conhecimento; isso só será possível com o nível de exigência das instituições de ensino. Não podemos mais aceitar que o lucro esteja acima da competência profissional. Se não apresenta condições, mude de curso. A cada profissional incompetente que chega ao mercado, mais um degrau a fisioterapia desce.

Maior qualificação docente com avaliações periódicas de qualidade e competência. É inadmissível que um profissional que está formando o próximo, não saiba o que está fazendo dentro de sala de aula.

É mandatório que todo docente ou candidato a tal faça um curso de metodologia e didática do ensino superior. Não disciplinas da pós, mas um curso específico para dar condições mínimas de qualidade.

Nas disciplinas aplicadas, exigência de, pelo menos 5 anos comprovados de experiência clínica naquela área. EXPERIÊNCIA CLÍNICA.

Passagem do acadêmico pelo máximo possível de áreas específicas da fisioterapia nos estágios supervisionados; estágios realmente supervisionados, não utilização do aluno como mão de obra. Isso é criminoso. Temos legislação que nos dá embasamento. O profissional que utiliza esse expediente, e, infelizmente não são poucos, não pode exercer a profissão.

Unificação dos currículos em âmbito nacional, guardadas as especificidades regionais que se fazem necessárias, mas permitindo que um profissional do rio grande do sul concorra a uma vaga em pernambuco consciente de que a sua matriz curricular é a mesma. Esse é um ponto difícil, pois em um  mesmo município os currículos não são iguais.

Todos os pontos acima colocados são conhecidos, mas não mudam. Para termos uma categoria forte em todos os sentidos, é necessário uma academia forte. Se não criarmos o que chamo de cultura fisioterapêutica, nunca vamos ter um profissional realmente comprometido com a profissão. Ao contrário do que muitos consideram, o profissional não é forjado quando se forma, ele é forjado quando entra na graduação. É um curso de formação profissional; esse aluno tem que tomar conhecimento da realidade profissional a partir do primeiro período; ele tem que tomar conhecimento das instituições  que regem a profissão desde o início do curso. História da fisioterapia não é contar ao aluno o que acontecia no império romano, é explicar os caminhos e descaminhos da profissão no Brasil desde que foi regulamentada para que esse aluno valorize  o que já foi conquistado e colabore para que outras conquistas sejam possíveis.

Estamos no século 21 e ainda constatamos o fisioterapeuta sendo mencionado como o rapaz da fisioterapia, como a mocinha da fisioterapia. Ao se mencionar o tratamento fisioterápico o paciente coloca que está fazendo fisioterapia. Quem faz fisioterapia é o acadêmico, o paciente faz tratamento fisioterápico. Mas se o próprio fisioterapeuta pergunta ao paciente se está fazendo fisioterapia….

Isso parece ser um ponto pequeno, mas é muito importante, pois tentam denegrir a fisioterapia constantemente. A fisioterapia é uma missão grandiosa, é uma especialidade belíssima e de fundamental relevância junto à equipe da saúde e junto à sociedade como um todo. Somos nós que temos que mostrar isso, somos nós que temos que elevar nosso nível, somos nós que temos que mostrar nossa competência, credibilidade e dignidade, somos nós que temos que abrir as portas do mercado. A luta é nossa. Não é possível prostituirmos a nossa profissão, cobrando R$15,00 por um atendimento particular, assim como não podem várias outras coisas.

Como dizia Walt Disney, “se eu posso pensar, é possível fazer.” É possível fazer, mas com conhecimento, ética forte, união plena da categoria, postura e atitude. Só quem ama profundamente, visceralmente a profissão consegue perceber isso.

No próximo post vou trazer outros pontos de vista pessoais, visando contribuir para a reflexão de todos nós.

Abraço a todos

2 comentários em “O ganho financeiro do fisioterapeuta 4a parte – propostas de soluções”

  1. Lucas Pontel

    Sou Aluno do terceiro ano, apaixonado por anatomia, infelizmente, tem vezes na sala de aula que eu mesmo sei mais sobre músculos do que os professores, lamentável. Espero quando eu for docente eu consiga reverter nem que seja um pouquinho os conhecimentos dos próximos alunos.

  2. Muito bom e pertinente o seu texto. Sou aluna do terceiro semestre e já percebo essas grandes discrepâncias. O fato de eu estar fazendo a segunda graduação me permite comparar as instituições e os colegas, e as diferenças são imensas.
    Grande abraço!

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