O ganho do fisioterapeuta – propostas para reflexão – final

Olá amigos. Com essa postagem desejo finalizar a séria de 5 textos a respeito dos ganhos do fisioterapeuta com propostas reflexivas de possíveis alternativas de solução. No último post direcionei à realidade da graduação e os reflexos na pós graduação lato sensu e, consequentemente, na qualidade da assistência. A formação é a base de tudo e, juntamente com ela, o comprometimento do profissional com a profissão escolhida.

Ao longo dos últimos anos presenciamos uma migração bastante significativa de fisioterapeutas para outras profissões  da área da saúde ou não. A queixa mais ouvida é a baixa remuneração, a falta de autonomia e de reconhecimento. Muitos até fizeram concursos públicos para garantir sustento e mantinham atividade como fisioterapeuta como segundo ganho porque realmente gostavam da profissão. É lamentável que as coisas tenham evoluído dessa maneira, daí a importância fundamental de modificarmos o nível de formação acadêmica, visando uma profissão mais forte desde a universidade.

Importante observar que, apesar disso, temos um quantitativo de profissionais em âmbito nacional, plenamente capaz de modificar esse quadro. Há quarenta anos éramos menos de 1000 e, mesmo assim, muitos avanços foram conquistados. A fisioterapia cresceu, muitas especialidades especialidades foram criadas e o fisioterapeuta dispõe, hoje, de um arsenal terapêutico muito mais amplo.

O fisioterapeuta brasileiro é considerado um dos melhores do mundo; aborda cinesiologicamente os pacientes como poucos países o fazem. Temos uma legislação das mais avançadas desde a criação do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, a qual nos dá ampla autonomia. Em muitos países da Europa até alguns anos atrás a profissão era de nível médio, muito dependente do médico e, muitas funções eram desempenhadas pela enfermagem. O que nos falta para viver decentemente da nossa profissão.

Os dois pontos fundamentais além do conhecimento – só quem tem conhecimento pode ter postura e atitude – é o fortalecimento ético e a união da categoria em torno de objetivos comuns. Sem esse dois fatores associados ao anterior não caminharemos. É fundamental que o colega apoie o outro, incentive suas pesquisas, ajude a divulgar, é necessário que aprendamos uns com os outros. Ninguém tem a verdade absoluta, ninguém sabe tudo, estamos nessa vida para aprender, sermos eternos aprendizes. Quando acontece algum congresso, jornada, reunião científica etc, a maioria da frequência é formada por acadêmicos ávidos por informação. Por que não vamos prestigiar o trabalho do colega? Por que não vamos aprender com ele, questionar no bom sentido? Esse ranço não é novo, pouco mudou. Em um congresso médico, de odontologia,enfermagem, nutrição etc é o profissional que vai em masa. Por que não ocorre o mesmo com a fisioterapia. Precisamos mudar esse quadro com urgência se quisermos alcançar o patamar de reconhecimento, dignidade, seriedade e real autonomia.

Pode parecer que não, mas vivemos um momento muito favorável. Pela nossa legislação onde há fisioterapia tem que ter fisioterapeuta. Então, vamos analisar alguns pontos para buscar soluções. Uma das queixas que ouço é, o mercado está saturado; ele não está absolutamente saturado, pelo contrário, ele está extremamente favorável, mas nós é que temos que abrir o mercado, mostrando o nosso real papel em várias frentes, política, gerencial, acadêmica, pesquisa e assistencial. Nosso espaço é muito bem definido, vamos ocupá-lo com a nossa principal arma, o conhecimento e a competência. Infelizmente, que não tem conhecimento, não tem competência; não tendo competência se submete a situações de grande constrangimento e acabam entrando no rol dos que não respeitam a categoria, recebendo 15,00 por um atendimento.

Tomando esse fato como gancho, como podemos melhorar isso? Infelizmente, o referencial de honorários é impraticável dentro do atual cenário sócio-econômico do país. Só para termos uma ideia da distorção de ganhos no Brasil, um médico recebe do sus por uma cirurgia cardíaca de tórax aberto, 70,00. Uma diarista não cobra menos de 150,00. Um atendimento fisioterapêutico por qualquer convênio de plano de saúde paga um valor aviltante.O dono da clínica ganha na quantidade; o tratamento é péssimo, o fisioterapeuta, na maioria das vezes, não avalia, não prescreve, não evolui, não realiza cinesioterapia de forma adequada, não programa alta. O que ele está fazendo ali? Enriquecendo o dono e colocando a fisioterapia para baixo, pois a colocação que ouvimos do paciente é: “já fiz trinta sessões e não melhorei, fisioterapia não serva para nada.”. Isso tem que mudar. Temos que ter coragem de não aceitar mais essa situação. Quando o fisioterapeuta frustrado sai da clínica, o dono abre a gaveta e pega o próximo currículo. Não interessa se ele possui vários cursos de aprimoramento ou extensão, pois para o dono só interessa ficar de acordo com o Conselho. Se ninguém aceitar e todos se posicionarem por um ganho real com autonomia e qualidade de tratamento, esse quadro muda; muda porque temos nossa legislação que nos apóia. Isso a nível de Brasil; hoje temos poder de pressão para isso.

Em relação aos Planos de saúde é fundamental que tenhamos uma estrutura formada por profissionais profundamente conhecedores da legislação vigente, contato oficial com a ANS, representando a fisioterapia do Brasil todo com integrantes de todos os estados que estejam dispostos a fiscalizar de perto e reivindicar o que é de direito para o profissional. Atendimentos com retorno financeiro digno, tempo decente de atendimento, avaliação rigorosa das glosas feitas pelos auditores nos atendimentos hospitalares e outro pontos que denigrem o nosso trabalho. As empresas de seguro-saúde sabem que, sem fisioterapia o tratamento não pode ser realizado, o que estamos esperando para pressionar essas empresas que têm lucro enorme e a qualidade cada vez mais questionável. Tenho uma amiga que possuía convênio em sua clínica e ficou dez anos sem reajuste. Apesar das lutas, reivindicações somadas ao seu alto padrão profissional, quebrou.

Logicamente que o colega pode pensar assim, se eu pressionar, perco o emprego. Sim, mas se todos pressionarem, você terá um emprego melhor e gratificante. Por isso, a corrente não pode ter elos partidos. É difícil, mas plenamente possível.

Vocês sabiam que se você apontar erros de tratamento e condutas e for despedido, a nossa legislação garante que o responsável pelo local não pode contratar ninguém para o seu lugar até o final d processo?  Não tenha medo, mas ande com o Código de Ética e leia sempre que puder.

Sabemos que os hospitais privados possuem um lobby forte no Congresso. Logicamente, o maior objetivo é aumentar lucros, diminuir gastos e sucatear a saúde pública o mais que puderem. Eles legislam em causa própria com grande poder de influência em várias frentes da saúde. Temos consciência, também que, muitas conquistas dependem de ações políticas. Por que temos tão poucos fisioterapeutas exercendo cargos políticos? Não sei o que ocorre, mas fisioterapeuta em sua maioria, não vota no outro. Precisamos de representantes municipais, estaduais e federais. Tive um ex aluno que foi secretário de saúde em um município do Espírito Santo. No Rio de Janeiro, há colegas que não conseguiram 15.000 votos para se eleger como vereador; é lamentável. Ações políticas podem facilitar o objetivo maior de estabilidade, autonomia e liberdade de trabalho que é a invasão das instituições públicas de saúde. Hoje temos hospitais gerais e especializados, UPAs, postos de saúde, unidades de saúde da mulher, clínicas da família, assistência domiciliar, hospitais e ambulatórios das Forças Armadas. Em cada hospital geral, várias especialidades desde o ambulatório até as unidades fechadas; enfim, quantas oportunidades! Onde está o fisioterapeuta? Há alguns anos atrás conheci um hospital geral federal com 178 leitos; um fisioterapeuta na unidade de transplantes como estatutário e outro na unidade neo natal como contratado. É vergonhoso. Essa realidade está espalhada pelo Brasil inteiro e nós podemos mudá-la. Existe um salário mínimo, um piso da categoria por 30 horas. Que esse piso possa ser garantido. Não dá para verificarmos concursos públicos em prefeituras, pagando um pouco mais de 900,00 por 40 horas. Menos ainda se pode aceitar que haja candidatos inscritos; isso só joga a categoria no buraco, como se ela não tivesse importância. Se ninguém se inscrever, o quadro muda.

É mister a criação de uma comissão permanente para avaliar constantemente a situação das instituições públicas, objetivando a realização de concursos públicos, instituir a relação de proporcionalidade de fisioterapeutas nas unidades fechadas. Sou pessoalmente contrário à relação de 1 fisioterapeuta para cada dez leitos. Acho que o fisioterapeuta intensivista é o mais generalista de todos e tem que saber tratar tudo que aparece e não se restringir ao quadro ventilatório. Embora seja prioridade, o profissional faz a diferença nas outras abordagens e precisamos fazer coisas que os outros profissionais não fazem e, dessa forma, tornar-se um profissional indispensável. Em função disso, um atendimento abrangente não dura menos de 1 hora e não podemos utilizar o estagiário para atender sozinho. Acredito que um profissional para cada 5 leitos já abrandaria o problema e enalteceria a ação do fisioterapeuta.

Outro fator relevante é o fato de o sus não pagar procedimentos à beira do leito. Dessa forma, não há interesse em ter muitos fisioterapeutas se o retorno é baixo. O que os gestores não entendem é que os procedimentos precoces no paciente acamado ajudam a diminuir comorbidades, gastos com medicamentos, exames em quantidade desnecessária. Enfim, o fisioterapeuta deve ser visto como investimento, e não, como gasto. A categoria deve  pressionar, por meio dessa comissão de alto nível, para que os procedimentos sejam pagos e não só os ambulatoriais. Isso daria um significativo impulso no interesse por mais profissionais nos hospitais.

Temos uma quantidade enorme de doentes crônicos que não conseguem atendimento fisioterapêutico perto de onde moram por não haver setores de fisioterapia disponíveis. Essa seria mais uma frente de trabalho importante, mas quem se interessa por doentes crônicos? Há alguns anos atrás atendia uma paciente com espondilite grave, que vinha de Campo Grande, um bairro distante para o centro da cidade. Resultado, o tratamento que realizava não tinha efeito nenhum. Se não temos o setor, o fisioterapeuta da família vai à residência do paciente.

Nos postos de saúde da mulher, é fundamental uma equipe de fisioterapeutas que acompanhe as gestantes tanto de baixa como de alta complexidade, realizando fisioterapia gestacional a partir do quarto mês e se associando aos demais profissionais da equipe. Essa não é uma área nova, em 1979 eu já trabalhava com gestantes. Podemos ter a ousadia de afirmar que ajudaríamos muito a evitar partos dolorosos com consequente lesão cerebral dos bebês

Aproximadamente 43 milhões de pessoas pagam plano de saúde; o que fazer com os outros 160 milhões de brasileiros que dependem da saúde pública. A Constituição brasileira preconiza que a saúde é dever do Estado e um direito do cidadão. Pelo menos em relação à fisioterapia vamos fazer valer esse direito. Há muitas vagas, há muito para a fisioterapia fazer, há muito o que mudar. Vamos criar uma comissão de alto nível para tornar realidade esse quadro caótico?

Vamos eleger mais colegas para cargos políticos e cobrar deles aquilo que o fisioterapeuta e a sociedade exigem.

Ainda em relação aos hospitais privados, digam não à terceirização. Não podemos deixar que as mudanças na CLT interfiram na contratação de profissionais. Sem fisioterapeuta não existe fisioterapia, então a hora é agora. Não vamos ceder aos interesses financeiros das instituições. Todos têm direito a um salário digno. O que se discute em relação ao hospital público, também se aplica ao hospital privado.

Outro ponto a modificar: moralidade nos atendimentos de home care. Mais uma vez, voltamos aos planos de saúde. Os atendimentos devem ser de qualidade e com ganho adequado. Isso só será possível se nos posicionarmos com firmeza frente às instituições que visam o lucro como ponto primordial. Não tem acordo, não tem fisioterapia. Chega de só os fisioterapeutas serem considerados os profissionais de menos valia.

Outra proposta. Atualmente, é raro uma família que não teve ou tem uma pessoa com necessidade de tratamento fisioterápico. As doenças crônicas, a violência, o trânsito e a longevidade são fatores que interferem diretamente nessa realidade. Por que não um plano de saúde fisioterapêutico? Já pensaram sobre isso? Se há plano odontológico, psicológico, pet, colegas empreendedores podem elaborar um plano desse tipo. Vai ser um bom empurrão para o crescimento digno da profissão.

Pelo visto, muito há o que fazer, mas o momento é favorável. Vamos incentivar a criação de grupos de trabalho pelo Brasil, vamos incentivar a formação de comissões de alto nível para começar a mudar esse quadro. Tenho certeza que, com união, ética e seriedade colheremos bons frutos dessa luta.

Para finalizar, quero dar algumas sugestões aos acadêmicos que estão concluindo o curso;

não cheguem ao mercado achando que só o fisioterapeuta sabe alguma coisa; mantenham humildade e simplicidade, elas abrem portas; tenham sempre a enfermagem como aliada, isso vai ser fundamental; conquiste o médico, principalmente o que implica ou que diz que não acredita, serão grandes parceiros posteriormente; não veja o médico como inimigo, ele é um membro da equipe como você também é. Ele sabe de medicina, mas de fisioterapia de entende é você, mostre isso a ele com competência e conhecimento; não se rebaixe, mas não se coloque acima de ninguém. Todos nós somos iguais perante Deus; todos nós somos valiosos igualmente para Ele. Só devemos olhar alguém de cima, se for para ajudá-lo a se levantar. Cole sempre na nutrição, eles são fundamentais para a realização de alguns trabalhos de pesquisa, se você conseguir perceber. Não se irrite com nenhum paciente em nenhuma circunstância, só ele sabe pelo que está passando. Seja sempre humano e misericordioso e jamais perca a fé em Deus ou na Força em que você acredita. Estude sempre, se atualize sempre e lembre-se: sucesso só vem antes de trabalho no dicionário. Dinheiro é uma consequência direta da sua competência e da sua capacidade de ousar no momento certo.

Deu certo para mim a vida inteira, desejo que dê muito certo para você também.

Estou à disposição para colaborar no que for preciso; a experiência pode ser útil em momentos críticos.

joserochacunha62@gmail.com

Abraço a todos.

1 comentário em “O ganho do fisioterapeuta – propostas para reflexão – final”

  1. Marli Galesi

    Obrigada pelo texto, pelos conselhos sempre coerentes e con muita sabedoria.
    Um abraço!!

    Marli

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