O fisioterapeuta e o salário

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De onde vem os valores dos salários dos Fisioterapeutas? É pouco? A profissão é valorizada? Entenda um pouco mais da origem de algumas indagações…

Temos nos salários pagos aos fisioterapeutas um dos maiores problemas para o crescimento da profissão. Digo crescimento no sentido de estímulo, satisfação e realização profissionais.

Vários aspectos devem ser analisados para que uma ação efetiva seja levada a cabo.

Esse problema não é recente, mas vem se agravando na medida proporcional em que a competitividade e a aparente falta de mercado aumentam.

É fundamental entendermos o que acontecia no passado e que é uma prática efetivada no Brasil até hoje, se buscarmos quaisquer fontes de pesquisas do IBGE. O salário pago às mulheres é mais baixo do que aqueles pagos ao homem. A categoria da fisioterapia é formada, em sua maioria, por mulheres. Quando citei o que ocorria no passado era um fato bastante comum termos fisioterapeutas do sexo feminino que exerciam a profissão como um “hobbie” para sua satisfação pessoal, durante meio período do dia e sem nenhum estímulo de crescimento profissional. Como estava era bom; é desagradável citar isso, mas ocorria muito. Um outro ponto importante mencionarmos na raiz desse problema é a formação antiga do fisioterapeuta. Nem todos sabem, mas a fisioterapia no Rio de Janeiro cresceu e se firmou a partir da Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR). Um grupo de médicos ortopedistas, reumatologistas e neurologistas importaram a idéia da medicina física e reabilitação dos Estados Unidos e Europa e passaram a aplicá-la aqui. Surgiu um grande problema: quem iria “executar” as técnicas de tratamento fisioterápico? Foi, então, criado um curso técnico voltado essencialmente para a prática e os alunos possuíam nível médio de formação, usando calça jeans, tênis e camiseta branca como uniforme.

Essa lagartixa se transformou em um jacaré que se voltou contra esse grupo e a fisioterapia cresceu; passou a nível superior na década de 1960 e, quando ocorreu a regulamentação da profissão em 1969 pela junta militar que governava o país, todos aqueles de nível médio foram agraciados com o título de nível superior. Foram sem dúvida, grandes heróis esses profissionais, mas a base da profissão era puída.
A noção que se tinha e a que se tem ainda hoje da fisioterapia é de uma coisa menor. A principal categoria de nossos pacientes de hoje é formada por idosos, jovens àquela época e com essa visão distorcida ao longo das décadas. Tudo isso contribuiu para que a fisioterapia fosse distorcida e aviltada, pois parece uma coisa que todo mundo aplica, que todo mundo conhece.

Observem uma distorção que todos nós usamos no dia a dia e que contribui para essa desvalorização: quando alguém relata para você algum problema orgânico, qual é a pergunta? Você está fazendo tratamento médico? Se o problema citado é odontológico, qual é a pergunta? Você está fazendo tratamento dentário? E com relação à fisioterapia? Você ESTÁ FAZENDO fisioterapia? Quem faz fisioterapia é o acadêmico da graduação, os pacientes fazem tratamento fisioterápico. Na prática quem valoriza dessa maneira?

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Um outro problema crônico e que voltou a aumentar na última década está relacionado aos fisioterapeutas. De forma crescente, vemos ex-alunos cursando medicina, enfermagem, nutrição, farmácia, além de educação física. Alguns buscam outras categorias por apresentarem melhores salários, mais vagas em concursos públicos, maior estabilidade; outros buscam porque queriam ser médicos e /ou odontólogos e, não conseguindo, iniciaram pela fisioterapia como um trampolim. Ora, se essas pessoas buscaram o curso de fisioterapia frustrados porque queriam outra formação, que vínculo, que engajamento, que comprometimento vão ter com a fisioterapia e suas lutas?

Basicamente nada vão fazer para ajudar a trazer de volta com maior ênfase a credibilidade e a respeitabilidade da fisioterapia junto aos profissionais da equipe de saúde.
Eu costumo chamar isso de cultura fisioterapêutica. Outras categorias mais antigas e mais sedimentadas possuem essa cultura. A fisioterapia como é mais recente, com vários problemas estruturais e com várias deformações, não a possui e isso interfere bastante.

Os cursos pré-vestibular continuam enaltecendo medicina, engenharia e direito. Será que só existem essas profissões?

Será que somente essas profissões são respeitáveis?

Será que as pessoas só serão felizes e realizadas nessas três opções? Os pais ficam muito satisfeitos e orgulhosos com essas escolhas; olham com desconfiança outras alternativas – fisioterapia então, …

O aluno de medicina, direito, educação física, engenharia etc., já incorporam o profissional quando o curso começa. E o fisioterapeuta? A grande maioria dos alunos não sabe o que é fisioterapia ao iniciar o curso e, o que causa mais preocupação, continua sem saber ao terminar o curso.

Felizmente, temos alunos que percebem isso claramente e serão fisioterapeutas de forma visceral como eu sou e muitos colegas espalhados pelo país também o são; mas somos poucos ainda para atender as necessidades da população brasileira. A criação dessa consciência, vai gerar um profissional lutador, participante ativo do processo de crescimento que queremos, vai correr na frente e não atrás como é costume para que perdeu a oportunidade.

Apesar de ser uma colocação desconfortável, considero o profissional responsável por grande parte da culpa pela maior parcela das situações inadequadas pelas quais passamos.
Sabe-se que, no Brasil, os profissionais da área da saúde não são bem remunerados via de regra. A exceção fica por conta do serviço público federal e algumas unidades estaduais que tenham alguma autonomia e apresentam salários diferenciados. No mais, os salários oferecidos chegam a ser um deboche com as categorias.

Em relação à fisioterapia o problema torna-se mais angustiante por vários motivos: o tratamento fisioterápico de médio e longo prazos apresentam custo financeiro elevado, sendo impossível para as famílias manterem por muito tempo um tratamento seqüencial de qualidade. A partir daí, se o tratamento não puder ser interrompido, inicia-se uma competição absurdamente desastrosa, onde quem cobrar menos pelo atendimento passa a tratar do paciente.

Há relatos de atendimentos por R$2,00. Não foi erro de digitação, o atendimento por dois reais é uma realidade. Em função disso, vários desdobramentos passam a ser evidentes. Se o profissional cobra dois reais, porque o paciente pagará oitenta, cem reais pelo mesmo tratamento (dentro do raciocínio leigo de que é o mesmo tratamento); o profissional que cobra esse valor ou proporcionalmente menos para competir é um fisioterapeuta consciente da sua responsabilidade junto àquele que recebe seu atendimento e junto à sociedade? O fisioterapeuta qualificado, consciente, comprometido, estudioso, ético, que valoriza seu trabalho e o desempenha com qualidade, seriedade e amor não merece receber o valor proporcional e justo pela sua competência?

É nesse ponto que focalizo o porque de achar que o fisioterapeuta é o principal culpado da situação salarial e, por conseqüência, de mercado que presenciamos hoje.

É fundamental que o profissional se nivele por cima. Não importa o comportamento das outras categorias; o que interessa é que o fisioterapeuta seja sempre muito bom e valorize o próprio trabalho para que todos também o façam. Costumo afirmar que, só encara com argumentos aquele que sabe e tem embasamento para o que está falando; quem não sabe se submete e se submete como conseqüência direta da sua incompetência, não tem o que reclamar. Se todos forem bons, não haverá como nivelar por baixo nem como permitir a vulgarização e mesmo a prostituição da  profissão. Para isso começar a acontecer é necessário que a graduação melhore urgentemente a formação dos profissionais não só no aspecto técnico-científico, como também ético e de conhecimento a respeito do que é realmente a fisioterapia. É fundamental que os docentes fisioterapeutas tenham pleno vínculo com a profissão e não, como faz uma minoria, falem em sala de aula que a fisioterapia está com o mercado saturado, que os alunos deveriam procurar outra carreira, que não sabem o que os alunos estão fazendo ali, entre outros comentários desastrosos e sem ética.

Quanto mais consciente for o aluno do primeiro período a respeito da profissão que escolheu, quanto mais subsídios ele tiver precocemente para crescer e entender que o profissional se forma quando inicia o curso e não quando termina, melhores profissionais teremos e, com certeza, não haverá lugar para as submissões que vemos acontecer no dia-a-dia.

Outro ponto que contribui para o quadro atual é a falta de opções e de vagas na esfera pública (federal, estadual e municipal) uma nação decente para com os seus habitantes. Se os governos entendessem e agilizassem a funcionalidade da saúde, o panorama seria outro. Em relação à fisioterapia faz-se necessária uma literal invasão dos hospitais públicos.

Há anos que venho repetindo que, o futuro da fisioterapia de qualidade está nos hospitais. Porque no hospital público essa noção torna-se mais clara? Porque lá está o contingente mais necessitado da atenção fisioterapêutica primária, secundária e terciária. Lá a fisioterapia se mostra em toda a sua amplitude e competência na busca pela respeitabilidade e dignidade profissionais. Nos hospitais e clínicas particulares encontramos até fisioterapeutas em maior quantidade, mas a realidade é bem mais preocupante, pois os problemas e distorções são bem mais graves, mas nem por isso o fisioterapeuta é menos responsável.

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