O entrevistado deste domingo é Dalton Kina, fisioterapeuta

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Ele estudou, foi longe e vai além – o entrevistado deste domingo é Dalton Kina, fisioterapeuta catanduvense que lançou uma plataforma simuladora que pode ser usada nos mais diferentes perfis, sejam atletas, idosos, jovens… A meta agora é tornar o protótipo funcional e se tornar algo viável, mas se engana quem pensa que ele para por ai, Dalton também tem um projeto futuro que envolve a reabilitação robótica que seja economicamente acessível, voltado para a área de neurologia.
Nosso entrevistado conta que escolheu a fisioterapia por parecer um curso novo para a época. Ele sempre fugiu do comum e se voltou inclusive para a prática da acupuntura e outros recursos da medicina chinesa, que havia sido reconhecida, há pouco tempo naquela época pelo Conselho Federal de Fisioterapia. A ideia de lançar a plataforma surgiu ao acaso, devido a dificuldade que ele tinha para lidar com os problemas de postura do próprio filho. Confira como foi tudo isso e como estão as novidades no desenvolvimento dos jogos:

O Regional – Como surgiu o seu interesse pela área de fisioterapia?
Dalton Y. Kina – Por pressão. Família de japoneses, você tem duas opções: ou você estuda ou vai ter que estudar. E na ocasião, eu estava perdido como uma boa parte dos moleques nessa fase de vestibular. Não houve nada de ideal de profissão ou vocação. Queria algo que fugisse daqueles cursos tradicionais na época. E a fisioterapia era um curso relativamente novo naquela ocasião.

O Regional – Na sua área sempre procurou o novo? O diferente? Aquilo que fugia do comum?
Dalton Y. Kina – Acredito que sim. Tanto que acabei me voltando para prática da acupuntura e outros recursos da medicina chinesa como ventosas, que eram situações novas no contexto acadêmico naquela época. Embora já tivesse tido contato com acupuntura através do meu pai, em ocasiões em que ele recorria às agulhas para se tratar, foi só na universidade que eu tive contato com estudos que embasavam cientificamente os benefícios da acupuntura, que na ocasião estava recém reconhecida como prática clínica pelo Conselho Federal de Fisioterapia. Me lembro de ter conseguido uma autorização para frequentar, ainda como graduando, da primeira turma da especialização em acupuntura voltado a classe.

O Regional – Você criou uma plataforma simuladora para ajudar seu filho com problemas de postura. Como foi isso?
Dalton Y. Kina – Ideias com força para sair do papel geralmente surgem em função de problemas que necessitam de solução. Nesse caso, foi minha dificuldade em lidar com problema postural do meu filho. Reabilitação pode ser considerada sinônimo de reaprendizado, porque exige do paciente, treinamento de habilidades motoras. Isso requer desse paciente certa disciplina, frequência e repetibilidade de gestos motores, que tornam os tratamentos monótonos e na maioria das vezes desmotivantes, principalmente para adolescentes e jovens. Inclusive, isso é relatado como uma das causas de abandono de tratamento na literatura. No entanto, esses mesmos adolescentes e jovens são capazes de passar horas a frente de vídeo games. Estudos apontam que quase 70% deles são sedentários. São chamados nativos digitais, isto é, nasceram já com controles e novas tecnologias como extensão das mãos. Conhecidos como Millennials e Centennials, ou gerações Y e Z, são aficcionados por tecnologia, novas experiências e interessados em mudar o jeito como as coisas funcionam.

O Regional – Como surgiu a ideia? Quanto tempo até começar a funcionar?
Dalton Y. Kina – A ideia inicial era então usar o engajamento proporcionado pelos games, associado a um plano instável, que permite simular esportes e ações através de realidade virtual com o intuito de atrair e fidelizar essas novas gerações de pacientes aos tratamentos.

O Regional – Quantos jogos foram desenvolvidos com ela? Qual é o objetivo de cada um deles?
Dalton Y. Kina – Foram desenvolvidos 3 jogos, o primeiro deles, de asa delta, idealizado para uso em tratamentos posturais, onde o paciente necessita estar deitado de barriga para baixo sobre a plataforma, simulando um voo de asa delta, para que possa controlar o personagem na tela. O segundo jogo envolve um labirinto no formato circular onde o paciente precisa se equilibrar sobre a plataforma para poder conduzir uma bola através desse labirinto.

O Regional – E o terceiro? Como é?
Dalton Y. Kina – O terceiro dos jogos remete ao ”Genius”, brinquedo vendido na década de 70. Esse game foi idealizado pensando na prevenção de quedas em idosos, uma vez que é exigido desse paciente a realização de dupla tarefa, envolvendo simultaneamente equilíbrio e esforço cognitivo para memorização e acompanhamento da sequência de cores e sons que são propostos na tela. Quedas têm sido apontadas como uma das principais causas de morbimortalidade em idosos, população que cresce três vezes mais que o restante das outras faixas etárias. Estudos apontam que alterações de equilíbrio envolvidas nas quedas já começam a aparecer a partir dos 40 anos de idade. Daí a necessidade de ações preventivas que estejam focadas na população chamada “baby boomers”, contingente de quase 40 milhões de indivíduos, que buscam envelhecer com qualidade de vida e estão prestes a entrar na terceira idade

O Regional – Para chegar a esse resultado, contou com a ajuda de quem?
Dalton Y. Kina – Tivemos apoio da FAPESP, agência de fomento a pesquisa do Estado de São Paulo, que liberou recursos para aquisição de equipamentos além de bolsas para custeio dos pesquisadores envolvidos. Como se trata de um projeto multidisciplinar foi necessário montar um time de competências complementares formado por engenheiro especializado em sistemas embarcados, além de profissionais de programação e designer de games.

O Regional – O Projeto foi selecionado pela FAPESP para um treinamento. Como foi isso?
Dalton Y. Kina – O treinamento é aplicado na National Science Foundation, celeiro de inovações nos EUA, onde nós tivemos oportunidade de entrevistar mais de 100 profissionais ligados a área de reabilitação, e que nos apontaram para um segmento mais necessitado da nossa solução, o segmento de neuroreabilitação Infantil. Pacientes com algum tipo de deficiência necessitam tratamento ao longo de toda a vida. Portanto, é inevitável que em algum momento se tornem monótonos e repetitivos.

O Regional – Podem atuar no tratamento de crianças especiais?
Dalton Y. Kina – Entretanto, para que possamos utilizá-la clinicamente, há necessidade de passar pelos trâmites envolvidos na validação acadêmica. Aprovação do projeto pelo comitê de ética. Temos iniciado processo de validação científica através de estudo multicêntrico envolvendo linha de pesquisa que estuda realidade virtual na reabilitação da USP de São Paulo, clínicas e entidades de apoio a pessoa com deficiência da região.

O Regional – A plataforma pode ser usada em atletas?
Dalton Y. Kina – Isso mesmo, como nossa solução envolve um plano instável que pode ser ajustado conforme as condições de cada paciente, através de sistema de frenagem elástica, ela pode ser usada para treino de equilíbrio e “ganho funcional de tronco”, o chamado “core”, que é importante para autonomia de cadeirantes e fundamental para atletas, inclusive do paradesporto, como vôlei adaptado, basquete em cadeira de rodas, paracanoagem, etc. A importância de envolver uma plataforma instável atrelada a jogos, tem também por objetivo, submeter pacientes a desafios de equilíbrio, na busca de respostas posturais automáticas e controle motor que geralmente estão ausentes na maioria destes pacientes neurológicos.

O Regional – Quais são os próximos passos?
Dalton Y. Kina – A meta agora é tornar nosso protótipo funcional escalável, transformá-lo em um produto viável. Nesse sentido, recentemente tivemos a visita do Prof. Rozenfeld da pós-graduação da engenharia de Produção – USP, que em uma análise prévia, apontou para viabilidade econômico-financeira do nosso modelo de negócio, que está baseado em servitização (comodato da solução).

O Regional – Também existe uma segunda patente de tamanho e custo reduzidos?
Dalton Y. Kina – (Ela) pode ser uma alternativa para uso doméstico pelos pacientes, que poderá aumentar a base de usuários. Temos implementado também, o uso de óculos de Realidade Virtual na nossa solução, o que proporciona uma experiência de tratamento mais imersiva e impactante. Sabe-se que quanto maior a quantidade de inputs cerebrais (informações sensoriais) durante aprendizado, maiores as chances de retenção daquela tarefa podendo, além de fidelizar o paciente, abreviar tempo de tratamento. Um outro projeto futuro envolve reabilitação robótica de custo acessível voltado à área de neuro. Porque embora estejam acontecendo importantes conquistas no estudo de células tronco, que avança a passos largos, ainda assim continuará havendo sempre a necessidade de treinamentos repetitivos de habilidades motoras necessárias ao reaprendizado.

“Ideias com força para sair do papel geralmente surgem em função de problemas que necessitam de solução. Nesse caso, foi minha dificuldade em lidar com
problema postural do meu filho”

Cíntia Souza
Da Reportagem Local

Fonte: https://oregional.com.br

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