Mulheres ocupam espaço nas UPPs e ainda são mães dedicadas

Fonte: G1 globo.com em 13/05/2012 08h52– Atualizado em  13/05/2012 08h52

Elas investem na carreira policial para proporcionar vida melhor aos filhos.
Profissão tem riscos, mas as policiais militares não se deixam intimidar.

Policiais e mães, elas dividem o tempo entre as vielas das comunidades ocupadas pelas Unidades de Polícia Pacificadora e a maternidade. Formada em fisioterapia, mas sem encontrar oportunidade no mercado de trabalho, Juliana Maria de Souza Tomaz, 28 anos, viu no concurso da Polícia Militar uma chance de proporcionar uma vida melhor para o filho de 2 anos.
“Fico muito tempo longe de casa, mas o colégio não espera eu ter um paciente particular como fisioterapeuta para quitar a mensalidade atrasada, então fiz uma opção”, explica Juliana, soldado da UPP do Morro da Mangueira, que possui 47 mulheres na tropa, o maior contingente feminino entre as Unidades de Polícia Pacificadora. Atualmente, as 22 UPPs do Rio contam com o trabalho de 586 policiais mulheres.
Conciliar a rotina de policial militar e mãe exige sacrifício não só do coração, mas também do corpo. “Chego do trabalho e dou atenção a ele até a hora de ir para cama. Depois disso, vou lavar roupa, louça, arrumar a mochila. É tanta coisa que só termino por volta das 2h da madrugada. Durmo de quatro a cinco horas por noite”, diz Juliana.
A falta de tempo, no entanto, é contornada pela atenção e diálogo com os filhos o que, segundo a soldado da UPP da Mangueira Andréia dos Santos Oliveira, 31 anos, é fundamental na educação. “Nada melhor que a conversa para orientá-los e evitar que eles caiam no conto que vejo tantos jovens caírem na rotina do meu dia a dia. Depois que a gente se torna policial, vê o mundo com um olhar mais aberto e atento”, adverte a militar que tem um casal de filhos de 7 e 13 anos.

Ter ‘jogo de cintura’ é fundamental

Segundo ela, atualmente as coisa ficaram mais fáceis. “Meu filho cresceu acostumado a não dormir comigo todas as noites. Hoje em dia, na UPP, tenho uma escala ótima. Não tinha momento melhor da vida para isso acontecer, pois agora ele está maior e entendendo mais as coisas”, diz Valim, que também passa o dia no corre-corre para poder dar conta das “mil e uma” tarefas.
A atuação das mulheres nas UPPs não poderia ser mais adequada, segundo o comandante geral das unidades, coronel Rogério Seabra. Para ele, quando tem contato com criança a mulher se torna mais afetiva e isso é facilmente pelos moradores da comunidade. “É da natureza feminina proteger o infante. As crianças sentem naquele olhar, quase sempre maternal, um olhar de amparo e de carinho. Se for um olhar masculino, ainda que venha acompanhado de um sorriso e de um gestual agradável, há sempre uma desconfiança”, explica o coronel.
Para a comandante da UPP da Formiga, capitão Alessandra Carvalhas, as mulheres são fundamentais na metodologia de trabalho da polícia. Na visão da comandante, elas tendem a observar mais as necessidades da população e, por isso, são muito bem recebidas. “É um trabalho mais social e a mulher, por ter essa característica de mãe, tem uma visão e uma postura diferenciada da do homem, que é mais voltada para o combate”, revela Carvalhas.
Segundo a soldado Flávia Machado, 29 anos, da UPP da Formiga, a maternidade facilita seu trabalho na comunidade. “Eu, como mãe, consigo penetrar no universo das mulheres dessa comunidade. Acho que fica mais fácil entender os anseios e as necessidades delas e, de alguma forma, tentar ajudar. O que eu quero para os meus filhos eu gostaria que elas pudessem dar para os filhos delas”, diz a soldado que tem um filho de 12 anos.

Desigualdade entre eles e elas

Como vítima do preconceito, elas garantem que na maioria das vezes desempenham o mesmo papel ou até melhor que muitos homens. “Tem policias femininas que são até melhores que homens. Nós estamos preparadas para qualquer serviço. O treinamento é igual para homens e mulheres”, afirma a soldado Juliana, destacando que elas são chamadas de “fem” e não pela patente ou pelo nome, como acontece com os policiais militares homens.

 

Risco faz parte da profissão

Apesar do receio da família, as “mães das UPPs” garantem que o medo não faz parte do vocabulário delas. “Estava numa operação no Morro do Encontro, no Grajaú, monitorando a operação que estava acontecendo no morro em frente, o São João, quando ficamos no meio do fogo cruzado. Começou a chover tiro de tudo que era lado, não sabíamos de onde estava vindo e ficamos encurralados”, lembra Valim. Para ela, no entanto, a situação de risco e a adrenalina provocam uma mistura de sentimentos, que acaba minimizando uma possível sensação de medo.

Não é só durante o trabalho que o perigo ronda a vida dessas policias. Coisas simples como pegar um ônibus para ir ao trabalho, também podem ser um perigo para elas. “Ainda não tenho condições financeiras para comprar um carro e, por isso, às vezes me vejo fardada dentro de um ônibus. É uma situação arriscada, que me deixa com certo receio, mas eu conto com a sorte”, diz Flávia.

Mesmo com os riscos iminentes da profissão, Juliana garante que a farda vira uma espécie de tatuagem e o policial, mesmo em situações de risco, nunca deixa de cumprir o seu dever. “A farda faz parte do seu corpo, é como tatuagem. Por mais que eu seja mãe, também sou policial. Então, é meu dever tomar alguma medida se presenciar alguma coisa errada na rua. Do contrário, não estarei cumprindo o meu papel com a sociedade”.

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