MODIFICAÇÕES ELETROCORTICAIS EM PACIENTE COM COMPROMETIMENTO DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL PODEM SER INDUZIDAS POR INTERVENÇÕES FISIOTERAPÊUTICAS E SÃO INDICADORES DE PROGNÓSTICO FUNCIONAL

Dra. Juliana Bittencourt Marques (RJ)

Fisioterapeuta; Doutora em Saúde Mental pelo Instituto de Psiquiatria (IPUB) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Docente do curso de graduação em Fisioterapia da Universidade Veiga de Almeida (UVA).

Contextualização: A Fisioterapia Neurofuncional moderna é pautada na plasticidade cerebral e aprendizagem motora. Diante disso, acredita-se que identificar as modificações que intervenções específicas determinam nas redes neurais se faz útil para que possamos compreender por qual razão existe grande variabilidade de respostas comportamentais dos pacientes. Pesquisas que investigam mudanças no sistema nervoso conseguem definir o prognóstico, a melhor freqüência, duração, intensidade, tipos de estimulação e a melhor fase que essa deve ser aplicada (1).

Desenvolvimento: A plasticidade cerebral é a capacidade de o sistema nervoso sofrer mudanças adaptativas estruturais e funcionais. Para medir a plasticidade funcional é necessário usar ferramentas específicas, dentre essas podemos citar o eletroencefalograma (EEG). Tal ferramenta pode ser usada de forma qualitativa e quantitativa na prática clínica e em pesquisas na área da neurofisiologia, por ser uma técnica não invasiva e devido a suas características, como a sua ótima resolução temporal que permite captar e registrar atividade neural na faixa de milissegundos (2). Os circuitos envolvidos na preparação e execução do movimento podem ser estudados usando o EEG, por exemplo, a dessincronização do ritmo sensório-motor é considerada um indicador de ativação cortical. Ela é observada durante a aprendizagem motora implícita e explícita de tarefas que envolvem movimentos complexos. Indivíduos com doença de Parkinson (DP) e esclerose múltipla (EM) apresentam anormalidades na dessincronização desse ritmo. Indivíduos com DP apresentam atraso na latência da dessincronização que pode ser interpretada como uma anormalidade na preparação motora. Uma hiperexpressão da dessincronização pode ser interpretada como uma atividade compensatória ou uma conectividade corticocortical prejudicada em pacientes com EM que apresentam fadiga (1). Há evidências que na fase aguda do acidente vascular cerebral (AVC) (6 a 24 horas) alterações em bandas de frequência lenta e rápida são indicadores potencialmente fortes de resultados clínicos, como gravidade da lesão e probabilidade de recuperação (3). Outro estudo que analisou esses sujeitos verificou uma correlação significativa entre a evolução da dessincronização alfa durante a intervenção fisioterapêutica e a melhora clínica. Pacientes que apresentaram comportamentos distintos de dessincronização reagiram de forma diferente às intervenções usadas para favorecer a recuperação motora (4).

Considerações finais: Diante das evidências supracitadas verifica-se que intervenções baseadas em movimentos modulam frequências oscilatórias. Também é possível observar que detectar alterações no padrão cortical pode auxiliar na escolha de intervenções que favoreçam a recuperação de pacientes e que o emprego de ferramentas como o EEG pode levar a um melhor conhecimento do sistema nervoso favorecendo uma melhor personalização de intervenções após sua lesão.

Leitura complementar:

  1. Leocani L, Comi G. Electrophysiological studies of brain plasticity of the motor system. Neurol Sci. 2006;27 Suppl 1:S27-S29. doi:10.1007/s10072-006-0542-x
  2. Tassinari CA. An electroencephalographer recalls the history of the Federation on the 70th anniversary of its journal, Clinical Neurophysiology. Clin Neurophysiol. 2019;130(12):2258-2263. doi:10.1016/j.clinph.2019.10.010
  3. Iyer KK. Effective assessments of electroencephalography during stroke recovery: contemporary approaches and considerations. J Neurophysiol. 2017;118(5):2521-2525. doi:10.1152/jn.00206.2017
  4. Ray AM, Figueiredo TDC, López-Larraz E, Birbaumer N, Ramos-Murguialday A. Brain oscillatory activity as a biomarker of motor recovery in chronic stroke. Hum Brain Mapp. 2020;41(5):1296-1308. doi:10.1002/hbm.24876
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