LEVANTAMENTO DO USO DE ANABOLIZANTES E SUPLEMENTOS NUTRICIONAIS EM ACADEMIAS DE MUSCULAÇÃO

An essay on anabolic and nutricional suplement use at weight lifting gyns

INÁCIO, F. R 1; COSTA, C. E. R. 1; ADÉLSON… 1 GRANJEIRO, P. A 2.
1. Acadêmico de Fisioterapia
2. Professor de bioquímica básica do curso de Fisioterapia

Instituição de Ensino: CENTRO REGIONAL UNIVERSITÁRIO DE ESPÍRITO SANTO DO PINHAL – UNIPINHAL – Curso de Fisioterapia.
Av. Hélio Vergueiro Leite, s/n CxP 05
Jardim Universitário Espírito Santo do Pinhal – SP
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Autor responsável: Paulo Afonso Granjeiro
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Trabalho apresentado no Encontro dos Estudantes de Fisioterapia do Sudeste
Guarapari – ES
28, 29, 30 Abril e 1 de Maio 2006

Trabalho apresentado no lll Simpósio de Pesquisa, Extensão e Ensino (SIMPE – UNIPINHAL) – Espírito Santo do Pinhal – SP
09 – 11 de Maio de 2006

Resumo:

Este estudo revela que um número crescente de jovens faz uso de esteróides anabolizantes androgênicos (EAA) e suplementos nutricionais, a fim de obterem um ganho rápido de massa muscular. Seu uso, contudo, provoca inúmeros efeitos colaterais fisiológicos e psicológicos que afetam a saúde. Foram aplicados questionários em academias de musculação das cidades de Poços de Caldas, Águas de Lindóia, Monte Sião e Espírito Santo do Pinhal, para verificação do uso dessas substâncias, a determinação do grau de informação sobre as mesmas e a forma de aquisição e indicação. Foram entrevistadas 64 pessoas, entre homens e mulheres, com idade entre 15 e 40 anos. Notamos que: a) o uso de academia se deve à busca da hipertrofia muscular e de atividade física; b) entre os suplementos utilizados, os de maior incidêcia são os Aminoácidos Ramificados (64,28%) e a Creatina (64,28%); c) as indicação para o seu consumo foi feita nas próprias academias (64,28%). A freqüência de uso de suplementos é diária e sua aquisição se faz em lojas especializadas, a partir da orientação dos educadores físicos. Devido aos impedimentos legais, somente 14,06% revelaram o uso de anabolizantes, sendo que a maioria, freqüenta a academia há mais de 3 anos (66,66%), apresentando idade entre 18 a 25 anos (66,66%). O uso de anabolizantes é associado a suplemento alimentar com o objetivo de manter ou aumentar o volume de massa muscular. A conclusão deste estudo é que, mesmo sabendo dos riscos envolvidos, são os homens mais jovens que fazem uso de esteróides para obter hipertrofia muscular acelerada e que apesar das proibições legais, a aquisição de esteróides não é dificultada.

ABSTRACT

This study shows that an increasing number of young persons have been using androgenic anabolic steroids (AAE) and nutritional supplements in order to get muscular mass in a short period of time. There are several physiologic and psychological collateral effects that affect human health in this practice. Forms were applied to a group of practitioner at fitness academies at the cities of Poços de Caldas, Águas de Lindóia, Monte Sião e Espírito Santo do Pinhal, in order to point out the consumption of these substances, to determine the level of information about them and the way they are gotten and prescribed. Forms were answered by 64 persons, men and women, aged between 15 and 40 years. The most relevant data obtained are: a) fitness centers are looked for to get muscular hypertrophy and for physical activity; b) the most consumed supplements by costumers are amino acids (64,28%) and creatine (64,28%); c) they are prescribed at the fitness centers (64,28%). Supplements are bought at specialized shops, on a basis of daily consume, under the guidance of the physical trainers. Due to legal restrictions against its consumption, only 14,06% of the practitioner interviewed confessed the use of “anabolic steroids”. They are between 18 and 25 years old (66,66%) and have been frequenting fitness academies for more than 3 years (66,66%). Steroids are combined with dietary supplements in view of maintenance or increase of muscular mass. The conclusion is that the youngest fitness practitioner are the most important consumers of substances for muscular hypertrophy, even that they know the risks involved. They do not find any difficulty to get these steroids in the market.

Introdução

Um número crescente de jovens vem fazendo uso abusivo de esteróides anabolizantes androgênicos (EAA), popularmente conhecidos como “bombas”, a fim de obter um ganho rápido de massa muscular, e que ultrapasse aquele alcançado por meio de simples exercícios físicos6. Em 2002, Assunção2 relatou que os usuários acreditam que os EAA ajam tanto de maneira direta, ocasionando hipertrofia muscular, quanto indireta, proporcionando “sessões de atividade físicas mais intensas”, por tornarem o usuário mais disposto, menos fatigável e mais motivado.
O uso desses esteróides tem relatos de milhares de anos. Na Grécia antiga, por exemplo, testículos de carneiros (fonte de testosterona) eram usados por campeões olímpicos para um melhor desempenho. No final do século XIX, um fisiologista francês chamado Charles Eduard Brown-Séquard, com o intuito de rejuvenescer, injetou em si mesmo certo líquido derivado de cães e porcos da Índia. Ao final de tal experimento, ele relatou que tanto sua força física quanto sua energia intelectual progrediram. Já no século seguinte, por volta da Segunda Guerra Mundial, os andrógenos eram usados no tratamento de certas doenças ligadas à debilidade crônica, na depressão e na recuperação de grandes cirurgias. Entretanto, foi a partir de 1954, com atletas russos, que tais substâncias começaram a ser realmente difundidas, principalmente nos esportes, seu uso foi, porém, vedado pelo Comitê Olímpico Internacional.
Atualmente, essas drogas têm sido usadas também por não-atletas que buscam aumentar massa e força musculares através da hipertrofia muscular, assim como melhorar a aparência. Entretanto, a hipertrofia muscular não é o único efeito do uso de anabolizantes. Há inúmeros efeitos colaterais fisiológicos e psicológicos. Dentre os mais comuns, os efeitos secundários como pêlo facial, engrossamento da voz, aumento de pêlos no corpo, amenorréia, aumento de apetite, crescimento do clitóris e diminuição dos seios (nas mulheres); ginecomastia, atrofia testicular, impotência, diminuição da contagem dos espermatozóides, calvície (nos homens); acnes, queda do cabelo, distúrbios da função do fígado, tumores no fígado, coágulos de sangue, retenção de líquido no organismo, aumento da pressão arterial, risco de adquisição de doenças transmissíveis, como AIDS e hepatite. Também, foi observado que a interrupção do uso de anabolizantes determina uma síndrome de abstinência, durante a qual surgem sintomas adrenérgicos e craving (“fissura”), bem como depressão7. Para o uso de nadrolona e mesterolona foi observado o aparecimento de hematoma hepático subcapsular e subseqüente e hemorragia intra-abdominal em atletas de culturismo. No caso do uso de testosterona pode causar icterícia e adenocarcinoma de fígado 17.
O uso incorreto dos anabolizantes também implica em múltiplos efeitos psicológicos. Nos Estados Unidos, foi feito um amplo estudo com usuários de EAA, demonstrando que 25% dos indivíduos sofriam de algum tipo de transtorno de humor, desde mania e transtorno bipolar até depressão profunda14. Em 2002, Silva et al.18 apontam a correlação entre o uso indiscriminado de EAA e atos agressivos em geral, chamando atenção para mudanças súbitas de temperamento, síndromes comportamentais e, inclusive, crimes contra a propriedade. Mencionam ainda aumento da irritabilidade, raiva e hostilidade, ciúme patológico, alterações da libido e sentimentos de invencibilidade. Desta forma, categorizaram os efeitos psicológicos dos EAA em três subdivisões. Na primeira, enquadram-se os efeitos imediatos do mau uso: aumento da confiança, da energia e da auto-estima, acompanhados por um maior entusiasmo e motivação, além de insônia, menor fadiga, habilidade para treinar com dor, irritação, raiva e agitação, ou seja, efeitos ligados a mudanças de humor e euforia. Na segunda categoria, correspondente ao uso prolongado com doses exageradas, observa-se perda de inibição, com alterações ainda mais acentuadas do humor. Na terceira categoria, os efeitos tornam-se mais graves por haverem evoluído de sentimentos de agressividade para comportamentos violentos, hostis e anti-sociais. Homicídio, suicídio e abuso infantil são algumas conseqüências desses acessos de fúria. No plano cognitivo, Silva et al.18 (2002) encontraram com maior freqüência sintomas como distração, esquecimento e confusão mental.
Em 1999, Lise7 descreve estudos envolvendo jovens atletas usuários e não-usuários de EAA, cujos resultados apontam para uma maior agressividade, maior impulsividade e menor cooperatividade do primeiro grupo em relação ao segundo. Tal agressividade pode levar a crimes, como assassinatos, por parte de alguns usuários. Também demonstra que o narcisismo patológico e a personalidade anti-social estão relacionados com o uso de EAA, e que o uso abusivo poder vir a causar graves distúrbios de humor. Segundo Assunção2 (2002), o uso indevido de esteróides anabolizantes pode trazer conseqüências psicológicas ainda mais graves. Isso acontece quando o usuário passa a apresentar sintomas de um transtorno dismórfico corporal, a dismorfia muscular.
Silva et al.18, (2002) ainda formulam a hipótese de que casos de esquizofrenia aguda podem ser gerados pelo uso do esteróide metandienona. Já o uso de oxandrolona e oximetolona estaria ligado a casos de mania, hipomania, confusão mental, paranóia e depressão.
Alguns estudos revelam que os EAA podem causar dependência, eventualmente levando a síndromes de abstinência que podem desencadear crises comportamentais. Outros estudos parecem demonstrar que tais efeitos comportamentais podem estar relacionados com o uso de metandiona, devido à alteração da função serotoninérgica causada por ela18. Devido à abstinência ocasionada pela interrupção do uso dos EAA, Wroblewska21 (1996) percebeu sintomas como: perda de controle, depressão, fadiga, inquietação, perda de apetite, insônia, decréscimo da libido e dores de cabeça.
Já os suplementos nutricionais podem ser definidos como produtos feitos de vitaminas, minerais, produtos herbais, extratos de tecidos, proteínas e aminoácidos e outros produtos, consumidos com o objetivo de melhorar a saúde e prevenir doenças21. A American Dietetic Association (ADA) afirma que a melhor estratégia nutricional para a promoção da saúde e redução do risco de doença crônica é obter os nutrientes adequados através de uma alimentação variada, porém, também considera apropriado o uso de suplementos de vitaminas e minerais quando evidências científicas bem aceitas e revisadas demonstram segurança e eficiência em seu consumo. Em 2002, Percego13, relacionou a qualidade de vida à prática de atividade física diária e a uma alimentação equilibrada e saudável, havendo necessidade de suplementação somente se o atleta for de alta performance.
Preocupado com essas mudanças comportamentais de culto ao corpo e dos comprovados riscos causados pelo uso indiscriminado de suplementos nutricionais e anabolizantes por praticantes de academias, o presente trabalho tem o intuito de fazer um levantamento do perfil de usuários de academias no que diz respeito ao uso de EAA e Suplementos.

Resultados

Dos indivíduos entrevistados 31,87% são de Poços de Caldas-MG, 48,43% de Águas de Lindóia-SP, 26,56% de Monte Sião-MG e 3,12% Espírito Santo do Pinhal-SP(gráfico 1), regiões do Sudeste do Estado de São Paulo e Sul de Minas. Fazem uso de suplementos alimentares 71,42%, com idade entre 15 e 25 a anos; 17,85%, entre 26 e 30 e 10,71%, entre 31 e 40. A escolha por fazer academia foi avaliada e observamos que a atividade física (57,81%) e a hipertrofia (54,68%) apresentam maior interesse, seguidos pela necessidade de emagrecer (15,62%) e a indicação médica (4,69%). Entre os suplementos, o percentual de usuários é de 56,25%, sendo os mais usados Aminoácidos Ramificados (64,28%) e Creatina (64,28%), seguidos por Carnitina (46,42%) e Albumina (42,85%). As indicações para o seu consumo foram feitas em academias (64,28%), por amigos (28,57%), pelos meios de comunicação (7,14%) e por indicação médica (3,57%). A maior freqüência apresentada do uso de suplementos foi a diária (82,14%), apesar de uso semanal (10,72%) e mensal (7,14%) consideráveis. A aquisição dos suplementos acontece em lojas especializadas (75%), seguida de Drogarias (21,42%) e, discretamente, nas próprias academias (3,57%). Um dado importante é que 82,72% dos entrevistados sabem dos riscos causados pelo abuso dessas substâncias. As academias em sua grande maioria (96,42%) dispõe de profissionais habilitados a dar orientação aos seu freqüentadores.
Mas, o quadro mais preocupante está relacionado ao uso de anabolizantes, uma vez que constatamos 14,06% dos freqüentadores de academia os utilizam. Se aliarmos o fato dessas substâncias serem ilegais e a restrição em responder, por parte de alguns freqüentadores, podemos constatar abuso. A idade dos usuários é de 18 a 25 anos (66,66%), de 26 a 30 anos (22,22%) e de 31 a 40 (11,11%). O tempo de academia é de 22,22% com menos de 1 ano, 11,11% de 1 a 3 anos e 66,66% com mais de 3 anos. A associação de anabolizantes com suplementos se faz presente em 88,88% L-Carnitina, e 77,77% com Aminoácidos ramificados e em 66,66% ,com Albumina e com Creatina (gráfico ausente). O objetivo dos usuários de anabolizantes está relacionado, em 88,88%, com a manutenção da hipertrofia; em 44,44%, com a manutenção da atividade física, por 11,11%, com o emagrecimento (gráfico ausente).

Gráfico 1: Idade dos usuários de Suplementos Alimentares


Discussão

Em 2002, a Revista Brasileira de Ciência e Movimento15 relatou que a maioria dos usuários de suplementos e anabolizantes tinham idades entre 18 e 26 anos e nível médio de escolaridade. Em nossa região, jovens entre 15 e 25 anos relataram terem acesso a essas substâncias, demonstrando uma queda na idade dos que se expõem ao problema, frente ao relatado sobre o início da década. Os números que indicam esse uso prematuro de suplementos e anabolizantes estão mostrados nos gráficos 2 e 3. Em Belo Horizonte, no ano de 1999, Ribeiro16 demonstrou que os usuários estão na faixa etária de 15 a 18 anos. Nos EUA, foram realizadas pesquisas, nos anos de 1991 e 1992, com o objetivo de quantificar o uso indevido de EAA e, já naquela época, observou-se que os estudantes do Ensino Médio, sendo 4% a 11% dos homens e 0,5% a 2,5% das mulheres, já haviam feito uso dessas substâncias3.
O interesse maior por praticantes de academia consiste em manter uma atividade física, como relatado por Nahas11, em 2001. Também demonstrou que o movimento do corpo é necessário para satisfazer necessidades ergonômicas, como peso, postura, movimento necessário às articulações e circulação – através da queima de calorias, alongamento e movimento. Uma boa condição muscular proporciona maior capacidade para realizar as atividades diárias, com eficiência e menos fadiga; permite atividades esportivas com melhor desempenho e menor risco de lesões, ajudando também na postura, tornando os músculos fortes, protegendo assim as articulações, diminuindo risco de lesões ligamentares e dores nas costas. A resistência cardiorespiratória juntamente com a composição corporal são componentes relacionados à saúde e oferecem proteção contra o aparecimento de distúrbios provocados pela vida sedentária, reafirma Toscano19 em 2001. Já a hipertrofia acaba sendo um estímulo ao uso dessas substâncias. Em 1990, Parraga12 observou que há uma influência negativa do meio social, responsável pela exigência do padrão estético, não importando os meios e métodos necessários a sua aquisição, uma vez que a sociedade estabelece, através da mídia, o modelo de corpo ideal.
Quanto ao uso de suplementos, a ingestão excessiva de proteína e aminoácidos, através dos alimentos ou suplementos protéicos, tem mostrado os efeitos danosos à saúde. Proteínas em níveis acima de 15% das calorias totais podem levar a cetose, gota e sobrecarga renal, aumentar a gordura corporal, desidratação, promover balanço negativo de cálcio e induzir perda de massa óssea, como descrita por Mahan e Escott-Stump13, em 1996. Garcia14 em 1999, em seu estudo, preconiza que os aminoácidos de cadeia ramificada e glutamina são os mais utilizados para produção de energia durante exercícios intensos, principalmente para evitar acentuado catabolismo protéico muscular. Ayllón3, em 2001, esclarece que a creatina é um componente inorgânico natural, obtido pela ingestão de carne, especialmente pescado, e pode ser sintetizado no pâncreas, fígado e rins, utilizando os aminoácidos arginina, glicina e metionina. É a principal molécula de ressíntese de ATP nos primeiros 10 segundos de atividades físicas máximas. Com sua suplementação, a ressíntese de ATP é mais eficiente e a recuperação mais rápida. Araújo e Soares1, em 1999, notaram que o consumo de aminoácidos é duas vezes maior que a da creatina. Em nosso trabalho, constatamos que o consumo de aminoácidos e creatina está na mesma proporção. Em 1995, Van Hall et al.20, relataram que o uso de aminoácidos tem sido proposto com o objetivo de melhorar a função muscular, além de reduzir a relação e retardar o inicio da fadiga. No caso da creatina, o seu uso está relacionado com o aumento da força e a velocidade das atividades que predominam como fonte energia o sistema ATP-fosfocreatina.
Quando se questionou sobre quem orientou o uso dos produtos, as informações foram diversas, sendo que os suplementos foram, em sua maioria, indicados por nutricionistas ou professores/instrutores de academias, como relatado pela Revista Brasileira de Ciência e Movimento15 em 2002 e constatado nesta pesquisa, que a grande maioria (64,28%) foi orientada por profissionais da própria academia (gráfico 6).
Alguns metabólitos dos esteróides anabolizantes estão relacionados a alterações nos testes de função hepática, icterícia e peliose hepática, não podendo suas alterações serem observadas pelos usuários. Em 2000, Fonseca & Thiesen4 demonstraram que alguns marcadores enzimáticos hepáticos, como a transaminase oxalacética (TGO) e transaminase pirúvica (TGP), podem estar elevadas mesmo nos halterofilistas sem uso de anabolizantes, pois são liberadas pelo músculo e tem grande importância no metabolismo das proteínas.
Moura10, em 1984, afirmou que o “ganho de massa” referido com o uso de anabolizantes está relacionado à síntese de proteínas no músculo esquelético, principalmente devido à regulação da transcrição do RNA ribossômico, quando aplicado por períodos curtos. Esses efeitos, provavelmente se perdem ou diminuem, após algumas semanas, ou mesmo pelo uso continuado da droga. Em 1998, Macedo et al.8 analisaram 305 atletas de academias, utilizando questionários, e constataram que a maioria eram homens, com idade média de 22 anos, e adquiriam a droga em farmácias, sem receita médica. Observaram que 35,1% desconheciam os efeitos colaterais e que 28,4% acreditavam que doses adequadas não trariam danos à saúde. Isso deve ao fato dos entrevistados saberem que a aquisição acontece por atos ilegais, por serem considerados drogas de efeito anabólico e assim não revelando os locais de compra dessas substâncias.

Conclusão

O uso indevido de EAAs e suplementos causa diversos males nos indivíduos, mas um número cada vez maior de jovens os utilizam. Os EAA, juntamente com os suplementos, são utilizados, indiscriminadamente, por atletas, praticantes de atividade física e, inclusive, por adolescentes e crianças para prática esportiva recreativa. Isso ocorre devido ao comércio livre (mercado negro, farmácias de manipulação, farmácias veterinárias) e à obtenção sem prescrição médica ou com prescrição médica indevida. Essas substâncias são em sua maioria de procedência duvidosa, manipuladas sem cuidados adequados de higiene, provocando, muitas vezes, doenças infecto-contagiosas. Os dados apontam para a falta de informação dos jovens entrevistados sobre a extensão dos danos à saúde decorrentes do uso de anabolizantes, mostrando que, para muitos, o desejo de desenvolver massa muscular e alcançar um suposto corpo ideal se sobrepõe ao risco de efeitos colaterais. A comunidade científica vem alertando a sociedade quanto ao uso indiscriminado e aos efeitos nocivos do mau uso dessas substâncias.
Frente a essa problemática, autoridades governamentais de diversos países se posicionaram a respeito do assunto, criando políticas de combate ao abuso de EAA dentro e fora do esporte. Além da intervenção de profissionais da saúde, que, ao interagirem com os indivíduos, devem questionar durante a entrevista o uso indevido dessas substâncias, os pais também devem desencorajá-los. É importante a divulgação e orientação das pessoas envolvidas na prática esportiva sobre necessidades nutricionais e efeitos dos produtos utilizados para melhorar o desempenho e a aparência física.
Campanhas publicitárias e educacionais que alertem sobre esse problema fazem-se necessárias, pois a intervenção educacional tem demonstrado ser um instrumento efetivo no combate ao uso dessas substâncias por adolescentes, diminuindo, assim, as chances de um prejuízo maior à saúde. Não há estudos suficientes, de longa duração, para dizer se o uso de suplementos traz benefícios ou malefícios aos usuários.

Agradecimentos

Os autores agradecem ao Prof. Dr. Paulo Chaves de Rezende Martins, da Universidade de Brasília, pelos seus valiosos comentários e revisão crítica do trabalho.

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