Jovens editam selfies e buscam procedimentos estéticos para parecerem eles mesmos após filtros

Estudo da Universidade de Boston, publicado em agosto, criou o apelido Dismorfia Snapchat ou Dismorfia Instagram para designar novos anseios na busca por cirurgia plástica. Agora, os pacientes não querem mais parecer com as celebridades: querem ser eles mesmos após o filtro de edição na selfie  .

Basta uma ruga ou uma mancha na foto para os aplicativos de edição de imagem serem acionados, evidenciando o impacto das mídias sociais na percepção que o paciente tem da sua própria imagem. A autocrítica severa faz com que Facetune, Snapchat e outros aplicativos de edição e filtro de imagem sejam usados à exaustão, principalmente por jovens. Mas, agora, a nova pesquisa Selfies – Living in the Era of Filtered Photographs, publicada na JAMA Facial Plast Surg, em agosto do ano passado, apelidou de Dismorfia Snapchat (ou Dismorfia Instagram) o hábito cada vez mais comum de um paciente ir com a foto dele mesmo (porém editada) a um consultório de cirurgião plástico ou dermatologista. “Estudos anteriores mostravam que pacientes jovens queriam mudanças estéticas para ficarem parecidos com celebridades. Agora, a tendência é parecer mais magra, simétrica e suave à medida que as pessoas percebem-se assim após usar as ferramentas de edição. Ou seja, o paciente usa os filtros e quer passar por um procedimento para parecer ele mesmo – só que após a edição da foto”, afirma o dermatologista Dr. Jardis Volpe, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Academia Americana de Dermatologia. Estes filtros podem aguçar o nariz, aumentar os lábios e alargar os olhos, além de apagar rugas e clarear a pele. “Esta é uma tendência alarmante, porque essas selfies filtradas e editadas muitas vezes apresentam uma aparência inatingível e estão desfocando a linha de realidade e fantasia para esses pacientes”, afirma a cirurgiã plástica Dra. Beatriz Lassance, membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e da ISAPS (International Society of Aesthetic Plastic Surgery).

De acordo com o estudo, os jovens são os mais familiarizados com os aplicativos, de forma que eles alteram e editam seus rostos para modificar sua aparência real. Mas eles passam a olhar a imagem editada como um objetivo a ser alcançado e buscam as cirurgias plásticas e procedimentos injetáveis. A pesquisa da Universidade de Boston notou que quase 55% dos cirurgiões plásticos dos Estados Unidos estão relatando que estão sendo cada vez mais procurados para melhorar a aparência de seus pacientes, com base em fotos [editadas] deles mesmos.

O dermatologista afirma que isso também é comum no Brasil. De acordo com o Censo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, em 2016 houve aumento de 390% em procedimentos estéticos não cirúrgicos em comparação com 2014. “Alguns pacientes buscam procedimentos mínimos e às vezes sem necessidade”, afirma o Dr. Jardis. “Jovens de 20 a 30 anos, que estão cada vez mais ‘escravos da aparência’, buscam – mais cedo do que deveriam – técnicas de preenchimento e aplicação de toxina botulínica para prevenir sinais de envelhecimento como rugas, que ainda estão longe de aparecer. Para eles há uma necessidade de parecer sempre jovem, o que dá a impressão de que a aparência é sempre mais importante, já que o julgamento perfeccionista chega bem antes que os efeitos da idade”, explica o dermatologista.

De acordo com o ensaio publicado na JAMA Facial Plast Surg, nos Estados Unidos, há um aumento nos procedimentos assimétricos nasais e faciais. Em 2017, por exemplo, os cirurgiões plásticos realizaram 17,5 milhões de procedimentos. Este é um aumento de 2% em relação ao ano anterior e um aumento de 200% desde 2000, segundo a Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos. Os procedimentos incluem trabalhos no nariz ou rinoplastias, elevadores da pálpebra, aumento do peito e lipoaspiração.

De acordo com o Dr. Jardis, quando há um exagero na busca por uma mudança, há um risco muito grande do paciente sofrer com a dismorfofobia, um distúrbio de imagem corporal que atinge cerca de 2% da população geral e 20% dos pacientes de clinicas dermatológicas. “Na dismorfofobia, ou Transtorno Dismórfico Corporal, o paciente preocupa-se excessivamente com defeitos mínimos na aparência. É comum ainda observar casos extremos de pessoas jovens que querem melhorar um defeito que não existe. O problema é que elas não aceitam limites. Então acabam indo de lugar a lugar até que algum profissional faça o que elas desejam, o que acaba gerando a artificialidade e o exagero”, afirma.

Um estudo anterior, realizado em 2015, mostrou que adolescentes que usavam frequentemente aplicativos de edição de fotos são mais propensas a sofrer de insatisfação com a aparência e superestimar o peso e a forma corporal, e estão excessivamente preocupadas com dietas comparadas a meninas que usam os filtros com menos frequência. “Essas jovens que compartilham mais fotos nas mídias sociais e valorizaram as opiniões de seus amigos foram mais propensas a sofrer de distúrbios alimentares e dismorfia corporal, descobriram os pesquisadores”, diz o médico. “Esses indivíduos podem estar deprimidos e isolar-se. Muitos desses indivíduos sofrem de transtornos obsessivos compulsivos e podem ter pensamentos suicidas”, diz o Dr. Jardis.

O estudo afirma que a solução não é a cirurgia plástica, mas a indicação para intervenção psicológica e/ou medicação para melhorar os níveis de serotonina e corrigir esses problemas entre os jovens.

De acordo com a cirurgiã plástica Dra. Beatriz Lassance, esse movimento de jovens em antecipar procedimentos tem a ver com o medo do envelhecer. “Mas envelhecer também é bom. Algumas comunidades na Ásia, por exemplo encaram seus idosos com respeito, são símbolos de sabedoria, consultores, e suas rugas são motivo de orgulho”, afirma a médica. “No mundo ocidental, a beleza é sinônimo de juventude, as capas de revista estampam jovens, rostos sem qualquer sombra de rugas, mulheres magras, maquiadas e sem falar no Photoshop. Culote, barriguinha, rugas, tudo é doença, tem que ser tratado a qualquer custo”, completa. “Há sempre uma frustração. A ação dos músculos que se contraíram em cada sorriso, ao longo dos anos, obviamente vai marcar a pele e produzir rugas. Ainda bem, pois a melhor e mais eficaz maneira de não ter rugas é não sorrir, não chorar, não se surpreender. Não viver”, diz. “Vale a pena?”, questiona.

A Dra. Beatriz argumenta que até mesmo as cirurgias plásticas evoluem no sentido de dar uma aparência mais natural às pessoas. Mas essa é uma preocupação que devemos ter apenas quando os sinais do envelhecimento aparecerem.

Fontes:
Dr. Jardis Volpe, dermatologista; Diretor Clínico da Clínica Volpe (São Paulo). Formado pela Universidade de São Paulo (USP); Especialista em Dermatologia pela Sociedade Brasileira de Dermatologia; Membro da Sociedade Americana de Laser, da SBD e da Academia Americana de Dermatologia; Pós-graduação em Dermatocosmiatria pela FMABC; Atualização em Laser pela Harvard Medical School. www.clinicavolpe.com.br

Dra. Beatriz Lassance, Cirurgiã Plástica formada na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e residência em cirurgia plástica na Faculdade de Medicina do ABC. Trabalhou no Onze Lieve Vrouwe Gusthuis – Amsterdam -NL e é Membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, da ISAPS (International Society of Aesthetic Plastic Surgery) e da American Society of Plastic Surgery.(ASPS)

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