INCLUSÃO DO FISIOTERAPEUTA NO PSF: PELA INTEGRALIDADE DA ATENÇÃO À SAÚDE E REORIENTAÇÃO DO MODELO ASSISTENCIAL

Inclusion of the physiotherapist in the PSF: for the integrality of the attention of health and redirection of the model of assistance.

Kelly de Freitas Pereira
Weberty de Britto e Souza

RESUMO

O processo de democratização, a busca do direito universal à saúde, da eqüidade, bem como o progresso científico e tecnológico ocorrido nos últimos anos, provocou a revisão dos paradigmas e elaboração de novas propostas para a saúde, buscando estratégias de reorganização do modelo assistencial vigente, com reformas sanitárias e criação de um sistema descentralizado da atenção à saúde. Esses processos culminaram no que hoje se estrutura em Programa de Saúde da Família, quem tem como enfoque a saúde da família entendida no seu aspecto biopsicossocial, com melhor compreensão e intervenção no processo saúde/doença. Essa estratégia prioriza as ações de promoção, prevenção e tratamento das doenças e recuperação da saúde dos indivíduos e da família. No entanto, verificam-se ainda falhas neste sistema necessitando de reformas e inclusões para a integralidade da atenção à saúde. Realizou-se um estudo de revisão bibliográfica seletiva e crítica das literaturas existentes, tendo como banco de dados diferentes fontes (internet, livros, artigos e revistas científicas), resultando em um artigo de divulgação, na qual traz relatos analíticos de informações atualizadas sobre a importância da inclusão do fisioterapeuta no PSF. O objetivo deste estudo é destacar a importância da inserção do Fisioterapeuta como agente multiplicador de saúde, atuando em interação com uma equipe multiprofissional e de forma interdisciplinar no modelo de atenção primária à saúde – o PSF.

Palavras-chave: Programa de Saúde da Família (PSF), fisioterapia, atenção primária, prevenção, promoção da saúde.

ABSTRACT

The democratization process, the universal access to health, the equality and the scientific and technologic progress have been advanced last decades, promoting a revision of the paradigms and proposing new ways for public health reorganizing the current system, with sanitary reforms and creation of a decentralized system. This process in Brazil culminated in the ‘Programa de Saúde da Família’, focused in family health understated in her biopsychosocial aspect, with better comprehension and intervention in the health/disease process. This strategy emphasizes actions promoting and preventing health as well as treating diseases and restoring the health in the family focus. However, faults still happen in this system, needing reforms for the integrality of the attention to the health. There happened a study of bibliographical selective revision and criticism of the existent literatures, taking as a bank of data different fountains (Internet, books, articles and scientific magazines), turning in an article of spread, which brings analytical information updated on the importance of the inclusion of the physiotherapist in the PSF. The objective of this study is to detach the importance of the insertion of the Physiotherapist as a multiplying agent of health, acting in interaction with a multiprofessional team and in an interdisciplinary form in the model of primary attention of health – the PSF.

Key words: Health Family Program, physiotherapy, primary attention, prevention, health promotion.

INTRODUÇÃO

A partir dos anos 80 um movimento de reformas sanitárias se generalizou pelo mundo difundindo novos paradigmas para a reestruturação dos sistemas de serviços de saúde(1,2,3). Alguns consensos foram construídos nesse percurso determinando novas práticas que vêm sendo preconizadas como estratégias de mudança na área de saúde pública. Um dos destaques deste processo de reestruturação é a introdução de várias medidas racionalizadoras da assistência médica, na tentativa de diminuir a ênfase no gasto hospitalar e redirecionar as ações e recursos para as práticas extra-hospitalares e de saúde pública (prevenção)(4). A atenção primária prevê a resolutividade das necessidades de saúde que extrapolam a esfera de intervenção curativa e reabilitadora individual, através da promoção da saúde, prevenção de doenças e educação continuada(5).

Este processo tem ocorrido também no Brasil, onde a assistência passou então de um modelo hospitalocêntrico, curativo e reabilitador, para um modelo assistencial promotor da saúde e preventivo, contando com a participação popular e a interdisciplinaridade dos diferentes profissionais da saúde(6). Foi então em 1981 iniciada a implantação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), onde pessoas da própria comunidade eram treinadas e designadas para executar ações simples em sua vizinhança. Em 1994, como forma de aprimorar estas ações, surge o Programa de Saúde da Família (PSF), adicionando aos agentes de saúde um médico, enfermeira e técnica de enfermagem(7). O PSF propõe ações de promoção, prevenção e tratamento das doenças e recuperação da saúde dos indivíduos e da família, do recém nascido ao idoso, sadio ou doente, de forma contínua(8).
A proposta de humanização da assistência e o vínculo de compromisso e de co-responsabilidade, estabelecido entre os serviços de saúde e a população, fazem do PSF um projeto de grande potencialidade transformadora do modelo assistencial(9). No contexto da Estratégia de Saúde da Família, denominação atual do PSF, há uma compreensão ampliada do processo saúde/doença e, portanto, da necessidade de intervenções de maior impacto e significação social(10).
Tendo a família como núcleo básico em sua concepção, a ESF apresenta algumas diretrizes operacionais que devem ser seguidas, observando-se sempre as realidades regionais, municipais e locais. Valoriza os princípios da territorialização, de vinculação com a população, de garantia de integralidade na atenção, de trabalho em equipe e enfoque interdisciplinar. Ainda, dá ênfase na promoção da saúde e estimula a participação da comunidade na gestão da saúde(11).
Embora sejam indiscutíveis os benefícios de um programa voltado para promoção da saúde e prevenção da doença e da satisfação popular nos locais assistidos pela ESF(12,13), estudos nacionais têm mostrado que ainda não houve impacto significativo nos indicadores de saúde após a implantação deste novo sistema(14,15). Não há dúvidas de que estamos no caminho correto, mas muito ainda dever ser feito. Há necessidade de aprimorar os serviços oferecidos na ESF e um dos pontos chave para tanto consiste na complementação da equipe multidisciplinar existente com profissionais de saúde também indispensáveis a uma assistência primária adequada. Hoje, profissionais como cirurgião-dentista, fisioterapeuta, nutricionista, psicólogo, farmacêutico dentre outros, tem buscado demonstrar a importância de sua inclusão na composição das equipes(16).
Este artigo vem discutir o papel do profissional fisioterapeuta na ESF na busca por uma atenção primária nos moldes preconizados pelo SUS, um sistema universal, igualitário e integral(17).

METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como um artigo de divulgação, na qual traz um relato analítico de informações atualizadas sobre a importância da inclusão do fisioterapeuta no PSF.
Foi realizado embasado em literaturas científicas, através de uma revisão bibliográfica seletiva e crítica das literaturas existentes. A execução do trabalho se fez de agosto a novembro de 2006, compreendendo na coleta de informações e no desenvolvimento do estudo. A coleta de informações foi realizada reunindo livros disponíveis na Biblioteca Central da Universidade Católica de Goiás e artigos extraídos de revistas e internet, através de pesquisa; nos bancos de dados Lilacs, Medline e Scielo; utilizando as palavras chave fisioterapia, atenção primária, promoção da saúde, programa de saúde da família, e associações.

O FISIOTERAPEUTA NA ATENÇÃO PRIMÁRIA

O significado da palavra prevenção na área da saúde, apesar dos problemas em conceituá-la, certamente é mais abrangente do que simplesmente defini-la como “o ato de evitar que algo aconteça”. Na verdade, a prevenção de que falamos sempre está presente na história natural da doença. Assim, distinguem-se três níveis de aplicação de medidas preventivas: prevenção primária, secundária e terciária(18).

O nível primário de prevenção é aplicável durante o período de pré-patogênese. Dessa forma, podemos considerar que a prevenção primária atua nos períodos em que o organismo se encontra em equilíbrio, estabelecendo ações que o mantenham nessa situação(19). São medidas destinadas a desenvolver uma saúde geral melhor, pela proteção específica do homem contra agentes patológicos ou pelo estabelecimento de barreiras contra os agentes do meio ambiente. A educação em saúde é elemento importante para esse objetivo(20).

O nível secundário de prevenção pode ser caracterizado quando o organismo já se encontra com alterações na forma e ou função; período de patogênese. Neste momento, ações realizadas com o objetivo de diagnosticar precocemente o problema e estabelecer as medidas terapêuticas adequadas formam os dois grupos de atividades que, se efetivadas com o sucesso esperado dentro das possibilidades de cada caso em particular, acarretarão o retorno do organismo ao estado de equilíbrio anterior(21).

Já o nível terciário de prevenção é estabelecido quando o indivíduo portador da enfermidade passou pelos estágios anteriores, permanecendo com uma seqüela residual e ou uma incapacidade. Neste caso, o objetivo consiste em minimizar as lesões para se evitar a invalidez total depois que as alterações anatômicas e fisiológicas já se encontram estabilizadas em maior ou menor grau. O objetivo principal desse nível é recolocar o indivíduo afetado em uma posição útil na sociedade, na expectativa da máxima utilização de suas capacidades residuais(7).

O Fisioterapeuta desenvolve atividades efetivas em todos os níveis de atenção à saúde, no entanto, devido a aspectos de ordem político-econômico e organizacional, a função do mesmo é pouco divulgada e subutilizada, contudo, paulatinamente experiências isoladas em algumas regiões brasileiras mostram que a inserção deste profissional enriquece e desenvolve ainda mais os cuidados de saúde da população(22).

O primeiro livro sobre o tema no Brasil foi editado apenas em 2002 por BARROS com o título: “O fisioterapeuta na saúde pública: atuação transformadora”. O livro trouxe 20 trabalhos relatando experiências e discussões acerca das possibilidades de atuação do fisioterapeuta em saúde coletiva(23).O profissional desenvolve atividades tanto nas Unidades Básicas de Saúde como nos domicílios, podendo ser destacadas:

1) Reconhecimento da área descentralizada,
2) Potencialidades da comunidade,
3) Grupos de gestantes,
4) Grupos de postura,
5) Grupos de mães de crianças com infecção respiratória aguda,
6) Grupo de prevenção de incapacidade em hanseníase,
7) Grupo de mães de crianças com problemas neurológicos,
8) Grupos de idosos,
9) Atuação no climatério,
10) Atuação na saúde da criança,
11) Atendimento individual,
12) Estimulação de crianças com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor,
13) Atuação em creches, Reeducação Postural Global,
14) Busca de novos casos de hanseníase,
15) Acompanhamento de pacientes acometidos pela hanseníase (tratamento de seqüelas),
16) Resgate dos cuidadores dentro do ambiente familiar,
17) Orientações de saúde em geral (não só relacionada à fisioterapia) entre outras(9).

Estão entre as principais atribuições do PSF a atenção à criança, à mulher e ao idoso e assistência às doenças como hipertensão, diabetes, hanseníase e tuberculose, havendo para cada programa ações específicas de atenção à saúde(24). A fisioterapia oferece suporte adequado a nível de atenção primária complementando de forma integrada estes programas.

Quanto à saúde da mulher, o fisioterapeuta atua na prevenção de câncer, papanicolau e auto-exames das mamas, orientando quanto ao diagnóstico precoce; realiza também procedimentos ou técnicas fisioterápicas afim de evitar complicações da histerectomia e da mastectomia incluindo drenagem linfática como forma de tratamento. Nos grupos de gestantes, o fisioterapeuta atua no condicionamento físico, aliado a exercícios respiratórios e de relaxamento, manipulação, além da orientação à gestante sobre como proceder no pré e pós-parto(25).

O processo de envelhecimento recebe influência de vários fatores a que o ser humano se sujeita no decorre de sua vida. Estas alterações variam de um indivíduo para o outro e são influenciadas, tanto pelo estilo de vida quanto por fatores genéticos. O envelhecimento traz para os indivíduos alterações progressivas, quer nos aspectos funcionais, quer nos motores, psicológicos e sociais. Dentre as modificações provenientes do envelhecimento destaca-se a diminuição da capacidade funcional do indivíduo ocasionada principalmente, pelo desuso físico e mental(26). Atividades preventivas e de reabilitação no âmbito da fisioterapia, realizadas nas unidades de saúde, são imprescindíveis para manter ou resgatar a autonomia de idosos e poderão ter grande impacto na saúde desta população(27).

A prática regular de exercícios físicos é uma estratégia preventiva primária, atrativa e eficaz, para manter e melhorar o estado de saúde física e psíquica em qualquer idade, tendo efeitos benéficos diretos e indiretos para prevenir e retardar as perdas funcionais do envelhecimento, reduzindo o risco de enfermidades e transtornos freqüentes na terceira idade tais como as coronariopatias, a hipertensão, a diabetes, a osteoporose, a desnutrição, a ansiedade, a depressão e a insônia(28,29,30). Em relação à recuperação da força muscular em idosos, estudos têm demonstrado que ela pode ser conseguida mediante programas de condicionamento físico, de força e resistência, de alta ou baixa intensidade(31,32). Os ossos e músculos respondem bem ao estresse físico, tornando-se maiores e mais fortes. Exercícios físicos provocam tensão física no corpo, ajuda a estimular o crescimento ósseo, preservar a massa óssea e, conseqüentemente, auxilia na prevenção e tratamento da osteoporose(33,34).

O fisioterapeuta tem um papel importante como instrumento integralizador no processo de promoção do envelhecimento saudável. Além de ser responsável pela educação do paciente em corrigir sua postura, evitar quedas e excesso de atividades físicas, que possam potencialmente resultar em fraturas ósseas indesejáveis, também são responsáveis pela prescrição de um programa de condicionamento físico específico para cada indivíduo(35). Objetiva-se com o tratamento fisioterápico aliado a exercícios físicos a melhora do equilíbrio e da marcha, o fortalecimento da musculatura proximal dos membros inferiores, a melhora da amplitude articular, o alongamento e aumento da flexibilidade muscular entre outros. Idosos que se mantêm em atividade, minimizam as chances de cair e aumentam a densidade óssea evitando fraturas, conforme transcorrido anteriormente(36).

Nos hipertensos e diabéticos, além de orientações para o auto-cuidado, monitoramento freqüente da pressão arterial e caminhadas, o papel do fisioterapeuta é importante naqueles usuários cujas condições clínicas ou outras complicações exijam um acompanhamento especial. Nos casos de Diabetes Mellitus, o trabalho em grupo traz benefícios para esses indivíduos, promovendo a saúde através de orientações quanto aos cuidados a serem tomados em relação a alterações de sensibilidade, especialmente nos membros inferiores, importância dos cuidados com a alimentação e da realização de atividade física freqüente(23). Nos grupos, podem ser realizados exercícios respiratórios, de reequilíbrio muscular, proprioceptivos, equilíbrio e coordenação motora, além da hidroterapia onde for possível(37).

Faz parte do trabalho do fisioterapeuta orientar a população sobre os cuidados com a postura corporal, atuando na prevenção de alterações na coluna vertebral(38). Pode atuar no PSF através de atividades em grupo que, além de contribuir para a diminuição da demanda por atendimentos individuais, é um fator importante na adesão ao tratamento(39).

No que diz respeito à saúde ocupacional, o fisioterapeuta pode atuar junto da equipe de saúde, levando orientações e promovendo alterações ergonômicas, especialmente nas pequenas e médias empresas na área de abrangência da Unidade de Saúde da Família(23).

Além de atuar no estimulo as crianças com atraso no Desenvolvimento neuropsicomotor, que muitas vezes são apenas de origem ambiental, o fisioterapeuta pode desenvolver grupo com mães e bebês possibilitando diagnóstico e intervenção precoce e adequada(23).

Em indivíduos portadores de hanseníase o fisioterapeuta atua na fase inicial, promovendo o auto-cuidado para que sejam evitadas complicações, inclusive as que levam as limitações físicas(23). O acesso precoce a fisioterapia reduz a possibilidade de progressão das lesões e no caso de hospitalização, também é responsável pela redução da permanência no leito, o que representa maior rotatividade e resolutividade(40).
Baseado no exposto verifica-se que o fisioterapeuta atua de forma integral as famílias, através de ações interdisciplinares e intersetoriais, visando a assistência e inclusão social das pessoas portadoras de deficiências, incapacitadas e desassistidas(25).

DISCUSSÃO

A construção de um sistema de serviços de saúde democrático – universal igualitário e integral – constitui um processo social e político que se realiza por meio de formulação de políticas públicas voltadas para a saúde, e essencialmente, no cotidiano dos serviços de saúde(17). Como introduzido anteriormente, o conceito de saúde vem passando por intensas transformações nas últimas décadas, principalmente no que diz respeito ao modelo de saúde adotado, passando de um modelo hospitalocêntrico, curativo e reabilitador, para um modelo assistencial promotor da saúde e preventivo, contando com a participação popular e a interdisciplinaridade dos diferentes profissionais da saúde(6).

No Brasil tem havido uma grande expansão de atenção à saúde, oferta de novas tecnologias, desenvolvimento de modelos assistenciais diversos e crescimento da importância política e econômica da atenção à saúde. Estas condições exigem racionalização das decisões e práticas pela Gestão Pública(41).

A escolha da família como espaço estratégico de atuação em saúde se faz relevante. A atenção centrada na família, entendida e percebida a partir do seu ambiente físico e social, vem possibilitando aos profissionais de saúde uma compreensão ampliada do processo saúde/doença e da necessidade de intervenções que vão além de práticas curativas(42). Foi possível verificar que o PSF de fato, evolui de um programa isolado para uma estratégia de reorientação do modelo assistencial na rede pública, havendo concordância quanto à visibilidade de sua trajetória e efeitos positivos na integralidade(43).

No entanto alguns estudos nacionais têm apontado pouco ou nenhum impacto positivo nos indicadores até o momento, não pelo PSF “per si” ser pouco resolutivo e sem diferencial em seus padrões de assistência à saúde, mas sim pelo modo como o programa é implementado e conduzido em cada município, influenciando diretamente nos resultados(44). Apesar da deficiência nos indicadores, constata-se clara satisfação dos usuários nas áreas onde o programa foi implantado, sendo a abordagem por uma equipe multidisciplinar, maior interação e proximidade com a comunidade e melhor compreensão do processo saúde/doença os itens mais responsabilizados por esta melhoria. A maior deficiência tem sido apontada na precariedade do referenciamento para os níveis secundário e terciário quando é necessário atendimento especializado não disponível no programa(7).
Percebe-se então que para que o Programa de Saúde da Família cumpra seu propósito, se faz necessário políticas públicas voltadas para seu aperfeiçoamento, com melhor capacitação da equipe e inclusão das principais modalidades terapêuticas vigentes, cada qual atuando na prevenção e promoção a saúde. Nenhuma profissão pode satisfazer todas as necessidades do doente, daí a necessidade de trabalhar em equipe(45).

A saúde pública, como ciência multidisciplinar e integradora de outras ciências(9), tem como responsabilidade incorporar novos conhecimentos, técnicas e sugestões no intuito de aprimorar a assistência oferecida a população(46). O PSF ainda é uma estratégia em construção, carecendo de melhor definição em aspectos conceituais e operacionais(43,47). Acumulam-se evidências apontando para a viabilidade de práticas mais abrangentes, alternativas ao modelo biomédico tradicional. Já havia sido demonstrada na reforma de Quebec, a possibilidade de que as organizações incorporassem inovações no sentido de uma maior integralidade das ações de atenção primária. Tais práticas permaneceram marginais, não sendo suficientes para imprimir uma mudança no modelo assistencial. A manutenção, difusão e aprimoramento do PSF parecem indicar uma maior potencialidade nesse sentido dentro do sistema público na reforma brasileira(43).

A participação da fisioterapia na saúde coletiva constitui-se em uma contribuição imperativa, que pode viabilizar maior resolução junto a outros profissionais(48). A presença do fisioterapeuta na comunidade se torna relevante na medida em que contribui para a promoção, prevenção, recuperação e reabilitação, obedecendo assim os princípios do atual modelo de saúde e consequentemente promovendo a melhoria da qualidade de vida da população(49).

A integralização deste profissional faz reforçar os paradigmas que permeiam o Programa de Saúde da Família. A atuação do fisioterapeuta nos postos e nos domicílios vai além da atenção direta ao paciente, mantendo contato com a família, propondo a educação e capacitação dos membros da família para os cuidados com o paciente(50). O profissional busca não só um olhar no aspecto clínico, mas busca ver o paciente holisticamente, observando os aspectos psicossociais e os processos de ajustamento envolvidos.

A título de exemplo, a Política Nacional de Saúde ao Idoso por si só torna imperiosa a presença do fisioterapeuta na atenção primária. Esta estabelece as diretrizes essenciais que norteiam a definição ou redefinição dos programas, planos, projetos e atividades do setor na atenção integral às pessoas em processo de envelhecimento e à população idosa (de acordo com a Lei n.º 842/94). Essas diretrizes são: a promoção do envelhecimento saudável; a manutenção da capacidade funcional; a assistência às necessidades de saúde do idoso; a reabilitação da capacidade funcional comprometida; a capacitação de recursos humanos; o apoio ao desenvolvimento de cuidados informais; e o apoio a estudos e pesquisas. Conforme já discorrido, o fisioterapeuta tem um papel imprescindível à promoção do envelhecimento saudável e a manutenção da máxima capacidade funcional do indivíduo que envelhece(51). Contudo o que se verifica é a deficiência na integralidade da atenção ao idoso devido à má estruturação dos programas que não contam com equipes multidisciplinares(52).

A realidade da inclusão do fisioterapeuta no PSF ainda é limitada em algumas regiões; contudo, a população das regiões beneficiadas demonstra grande satisfação quanto aos serviços prestados por estes profissionais(9). Experiências isoladas em algumas regiões brasileiras mostram que a inserção deste profissional enriquece e desenvolve ainda mais os cuidados de saúde da população(22). A inserção do fisioterapeuta iniciou apenas no ano de 1999, em Sobral-CE. Outras experiências isoladas vêm acontecendo pelo país, porém a divulgação dos mesmos por meio de publicações deixa a desejar(23).

Uma das principais dificuldades encontradas com respeito à inserção do fisioterapeuta, não apenas na ESF, mas na Saúde Pública de uma forma geral, diz respeito à formação inicial e a criação da profissão, que apresentava um caráter reabilitador, com atuação na atenção terciária, enraizada devido a grande demanda inicial por reabilitação, inerente a história da criação do curso(25).

A presença escassa do Fisioterapeuta no Programa de Saúde da Família é questionada. Sob o ponto de vista crítico, seria de suma importância à inserção deste profissional no programa, com objetivo de promoção da saúde, prevenção e tratamento das diversas enfermidades(53). Esses profissionais devem se identificar com a proposta de trabalho do PSF, que exige criatividade e iniciativa para trabalhos comunitários e em grupos, tendo cada um que conhecer os limites de competência e a responsabilidade operacional como profissional, e da sua inserção nas atividades da equipe, ou seja, o campo e o núcleo de competência e responsabilidade(23).

Tais profissionais são dotados de conhecimentos necessários para trabalhar com a população, aliada a uma criatividade de desenvolver ações eficientes e efetivas. Em resposta aos anseios das comunidades, a fisioterapia vem como fator multiplicador e integralizador à saúde, sendo o PSF/ESF a forma atual de viabilizar esse acesso.

CONCLUSÃO

O SUS, desde a sua implantação, busca transformar o sistema de saúde brasileiro, com base em suas diretrizes de descentralização, integralidade e participação comunitária. Esse sistema tenta criar condições necessárias para a reorganização das ações de saúde por meio da atenção nas áreas básicas, de média e de alta complexidade. O conceito ampliado de saúde estabelecido pelo Conselho Federal de 1988 e a nova forma de trabalho com a saúde necessitam de profissionais capazes de operar nesse contexto, desenvolvendo ações coerentes com um modelo de atenção integral à saúde.

O Fisioterapeuta, até pouco tempo atrás apresentava pouco destaque profissional na atenção primária à saúde. Os currículos dos cursos de Fisioterapia existentes no Brasil, priorizavam a ação curativa, valorizando pouco o modelo assistencial vigente, dificultando a inserção do Fisioterapeuta na Saúde Pública. Para atender as novas políticas de saúde, fazem-se necessárias mudanças na formação destes profissionais, que deve iniciar-se durante a graduação e manter-se como um processo de educação continuada após a inserção deste no mercado de trabalho. A formação do Fisioterapeuta atual deve objetivar a capacitação de um profissional capaz de atuar na saúde nos níveis de promoção, prevenção, preservação e recuperação da saúde do ser humano.

Pretende-se por meio do trabalho em equipe multidisciplinar potencializar a capacidade de produzir mudanças, especialmente se elas forem construídas a partir do saber e do poder compartilhados, transformando esforços isolados em movimentos articulados, com muito maior potencial de ação. Casos isolados da implantação deste profissional como integralizador de uma equipe interdisciplinar e multiprofissional em algumas regiões brasileiras demonstram eficiência e satisfação da população quanto a sua inclusão.

Considerando esta necessidade, o fisioterapeuta como profissional de saúde com formação generalista, humanista, crítica e reflexiva, está apto a se inserir no sistema de saúde vigente no país, atuando em todos os níveis de atenção à saúde, com base no rigor científico e intelectual, detendo uma visão ampla e global, respeitando os princípios bioéticos e culturais dos indivíduos e da coletividade. A participação do fisioterapeuta em programas como o PSF e em ações semelhantes de cuidados primários é indispensável para a concretização das diretrizes de uma assistência integral à saúde.

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