IMPLEMENTAÇÃO DE PROGRAMAS DOMICILIARES DE REABILITAÇÃO PEDIÁTRICA DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19: UMA JANELA DE OPORTUNIDADE?

Fisioterapeuta, chegou o Fisio.app | Aplicativo para fisioterapeutas. Baixe agora mesmo em www.fisio.app,

Dra. Egmar Longo (RN)

Professora Adjunta do curso de Fisioterapia e dos Programas de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação e Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN-FACISA).

Dra. Ana Carolina de Campos (SP)

Professora Adjunta do curso de Fisioterapia e do Programa de Pós-Graduação em Fisioterapia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Contextualização: Ficar em casa: essa foi a orientação inicial da Organização Mundial de Saúde (OMS) para conter o avanço do SARS-CoV-2, coronavírus causador da doença COVID-19 (Organização Mundial da Saúde [OMS], 2020). Cinco meses após a adoção de medidas como o fechamento de escolas, creches e serviços de reabilitação, o que provocou um importante impacto especialmente na vida de famílias com crianças com deficiência, algumas regiões do país estão discutindo estratégias para retomar uma nova rotina de atividades fora de casa, com todos os cuidados necessários até que uma vacina eficaz esteja disponível para a população brasileira. Até lá, no entanto, qualquer retomada pode incluir períodos alternados de distanciamento, de acordo com a situação da pandemia, assim como a necessidade de reduzir a circulação de pessoas para garantir a segurança coletiva, o que pode influenciar decisões sobre prioridade de atendimento por parte dos serviços de saúde, determinando períodos prolongados de confinamento para parte da população.

Crianças com deficiências, como paralisia cerebral, síndrome congênita do Zika vírus e outras condições crônicas da infância, são uma população considerada de risco, surgindo o grande desafio de manter os cuidados de que necessitam sem expô-las a risco maior do que o necessário.

A abordagem biopsicossocial é uma estratégia que pode apoiar as decisões a serem tomadas por terapeutas e famílias. Neste cenário, o contexto familiar e a participação da criança no contexto de sua casa ganham contornos ainda mais importantes tendo em vista a permanência aumentada nestes espaços. A adoção de práticas centradas na família, assim, impõe-se como necessária, em contraste com a habitual ênfase em aspectos da função corporal (LONGO et al., 2019).

Programas domiciliares contam com bom nível de evidência para promover melhora na função motora de crianças com paralisia cerebral (NOVAK et al., 2020). O modelo de referência para oferecer um programa domiciliar eficaz inclui cinco etapas (Figura 1).

Figura 1 – Etapas para a implementação de Programas Domiciliares

(baseada em: NOVAK; CUSICK, 2006).

Desenvolvimento: Entretanto, estamos prontos para implementá-los? Por um lado, profissionais contam com pouca experiência neste tipo de intervenção, tendo em vista a prevalência do modelo biomédico no contexto nacional. Além disso, o pouco contato com o contexto (por exemplo, por meio de visitas domiciliares) previamente à pandemia restringe seu conhecimento sobre a realidade de cada família. Soma-se, ainda, a falta de clareza por parte dos conselhos profissionais quanto ao seu respaldo para implementar tais ações, bem como a carência de formação disponível aos profissionais para atuar nesta frente (DANTAS et al., 2020). Por outro lado, familiares, ao verem ampliar suas responsabilidades quanto à terapia de seus filhos em casa, podem vir a experimentar sentimentos como insegurança, abandono e ansiedade, os quais aumentam os níveis de estresse que já são altos (RONE-ADAMS et al., 2004).

Proliferam em nosso país intervenções com baixo nível de evidência e alto custo, que superestimam a especialidade dos profissionais e leva os pais a se sentirem frágeis e incapazes de estimular seus filhos em casa, mesmo recebendo treinamento e supervisão adequados (Longo et al. 2020).

Apesar destes desafios, é preciso avançar, tendo em vista que a situação de distanciamento social pode se prolongar, ou ser retomado em outros momentos. Desta forma, algumas estratégias para facilitar a implementação de programas domiciliares incluem o uso das tecnologias, como aplicativos de mensagem de texto; cartilhas e vídeos informativos; chamadas de áudio e vídeo, sendo fundamental considerar as preferências e o contexto das famílias para a seleção de tais ferramentas. Além disso, torna-se necessário um monitoramento próximo para garantir que as famílias se sintam apoiadas e encorajadas.

Considerações finais: O cenario atual têm trazido grandes desafios para a prática de fisioterapeutas. É importante que os profissionais busquem oportunidades de formação, e adotem práticas baseadas em evidências, como os programas domiciliares, a fim de atender da melhor forma possível as necessidades de crianças com deficiências. Para além do momento da pandemia, esta mudança poderá maximizar os resultados das intervenções realizadas, e contribuir para o fortalecimento da Fisioterapia Neurofuncional da Criança e do Adolescente no país.

Leitura complementar:

Dantas LO, Barreto RPG, Ferreira CHJ. Digital physical therapy in the COVID-19 pandemic [published online ahead of print, 2020 May 1]. Braz J Phys Ther. 2020;S1413-3555(20)30402-0. doi:10.1016/j.bjpt.2020.04.006

Longo E, de Campos AC, Schiariti V. COVID-19 Pandemic: Is This a Good Time for Implementation of Home Programs for Children’s Rehabilitation in Low- and Middle-Income Countries?. Phys Occup Ther Pediatr. 2020;40(4):361-364. doi:10.1080/01942638.2020.1759947

Longo E, de Campos AC, Palisano RJ. Let’s make pediatric physical therapy a true evidence-based field! Can we count on you?. Braz J Phys Ther. 2019;23(3):187-188. doi:10.1016/j.bjpt.2018.10.011

Longo E, de Campos AC, Schiariti V. Zika Virus After Emergency Response: Can the ICF Guide Rehabilitation of Children With Microcephaly?. Pediatr Phys Ther. 2019;31(4):370-372. doi:10.1097/PEP.0000000000000647

Novak I, Cusick A. Home programmes in paediatric occupational therapy for chil-dren with cerebral palsy: Where to start? Australian Occupational Therapy Journal. 2006; 53(4),251–264.https://doi.org/10.1111/j.14401630.2006.00577.x

Novak I, Morgan C, Fahey M, et al. State of the Evidence Traffic Lights 2019: Systematic Review of Interventions for Preventing and Treating Children with Cerebral Palsy. Curr Neurol Neurosci Rep. 2020;20(2):3. Published 2020 Feb 21. doi:10.1007/s11910-020-1022-z

Rone-Adams SA, Stern DF, Walker V. Stress and compliance with a home exercise program among caregivers of children with disabilities. Pediatr Phys Ther. 2004;16(3):140-148. doi:10.1097/01.PEP.0000136006.13449.DC

World Health Organization. (2020). Report of the WHO-China joint mission on coronavirus dis-ease 2019 (COVID-19). Retrieved March 20, 2020, from https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/who-china-joint-mission-on-covid-19-final-report.pdf

WEBCOBRAF

No período de Outubro/2020 a Fevereiro/2021, sob a organização do XXIII COBRAF, do 1st International Seminar on Innovative Learning and Healthcare Approaches in Physical Therapy, do 1° Encontro de Fisioterapia nos Distúrbios do Sono e dos eventos parceiros – 5º COBRAFISM, I COBRASFE e COBRASFIPICS, acontecerá o WEBCOBRAF, que consiste em uma série de webinars, que ocorrerão de quinze em quinze dias com diversos temas. Poderão participar do WEBCOBRAF sem custo adicional, todos os que estiverem inscritos no XXIII COBRAF até 5 dias antes de cada webnair. Não perca essa oportunidade! Garanta já a sua participação.

17 DE OUTUBRO

WEBCOBRAF – WEBINAR DE FISIOTERAPIA PEDIÁTRICA
INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO EM FISIOTERAPIA NEUROFUNCIONAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM PARALISIA CEREBRAL COM BASE NA CIF
PALESTRANTES: PartiCipa Brasil & CanChild
17/10/2020 09h30min – 12h00min
Abertura – 5 min de duração
Palestras – 2 horas de duração
Peter Rosenbaum (CanChild, Canadá): F-words para o desenvolvimento da infância e a CIF
Kennea Ayupe (UnB, Brasil): Introdução à avaliação da criança e do adolescente no contexto da CIF
Paula Chagas (UFJF, Brasil): Avaliação dos fatores contextuais de acordo com core-sets da CIF
Robert Palisano (CanChild, USA)/ Hércules Leite (UFMG, Brasil)/ Ana Cristina Camargos (UFMG, Brasil): Avaliação do domínio da Atividade: GMFM, Challenge, Teste de Caminhada de 10 metros e PEDI-CAT
Ana Carolina de Campos (UFSCar, Brasil)/ Egmar Longo (UFRN-FACISA, Brasil): Avaliação do domínio de Participação: PEM-CY e YC-PEM
Aline Toledo (UnB, Brasil)/ Rafaela Moreira (UFSC, Brasil) /Rosane Morais (UFVJM, Brasil): Avaliação do domínio de Função Corporal: EASE, SRT, Teste de Caminhada de 6 minutos, FSA e Mini-mental
Discussão – 20 min de duração
Encerramento – 5 min de duração

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.