Gestão de grupo financeiro agrava crise na Gama Filho e UniverCidade.

Fonte: http://oglobo.globo.com/educacao

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RIO – Esta quarta-feira seria dia de volta às aulas para os cerca de 15 mil alunos da Universidade Gama Filho (UGF). Seria, se os professores da instituição, que é particular, não estivessem em greve pela segunda vez este ano devido a salários atrasados. A crise na universidade, que se acentuou a partir de 2011, quando o grupo Galileo Educacional passou a controlar a universidade, está em sua fase mais grave. Cerca de 50 alunos estão há um mês acampados na reitoria do campus de Piedade exigindo melhorias, enquanto o Ministério da Educação (MEC), que já suspendeu o vestibular UGF, estuda outras formas de interceder.

— Numa situação dessas, é inevitável o estudante não pensar em se transferir pra outra universidade. Mas tenho esperança de ainda ter aula este ano — pondera Rafael Collado, aluno de Medicina que paga cerca de R$ 3,5 mil de mensalidade para a Gama Filho. — É um absurdo a gente desembolsar tanto dinheiro enquanto os professores estão com os salários atrasados.

Em posição parecida, lidando com greves sistemáticas de professores e com vestibular suspenso, está o Centro Universitário da Cidade (UniverCidade), que passou a ser administrado pelo mesmo Galileo Educacional a partir de agosto de 2011. O grupo mantenedor chegou com a proposta de “reestruturar” as duas faculdades. Mas, de lá pra cá, a situação apenas se complicou. Os antigos gestores, entretanto, ao abrir mão das instituições, receberam indenizações milionárias.

O GLOBO teve acesso a contratos que formalizaram as transferências de mantença da UniverCidade e da Gama Filho ao Galileo. Ambas são entidades filantrópicas sem fins lucrativos, e por isso, não podem ser vendidas. Em vez disso, seus antigos proprietários receberam remunerações para não se tornarem concorrentes do Galileo. Paulo Gama, um dos ex-donos da Gama Filho, recebeu R$ 26.029.717,56 como indenização para ficar fora do mercado de educação superior por cinco anos. E mais R$ 1,5 milhão mensais, pelos mesmos cinco anos, para ceder a marca da faculdade. Já Luiz Alfredo da Gama recebeu R$ 18.571.777,15. Somados, esses valores chegam a cerca R$ 134 milhões. Para viabilizar a operação, o grupo ainda criou o Galileo Gestora de Recebíveis, sociedade com o propósito específico de emitir 100 debêntures no valor de R$ 1 milhão cada. A contrapartida? As mensalidades do curso de Medicina, o mais caro da UGF.

Já a Associação Educacional São Paulo Apóstolo (Assespa), que controlava a UniverCidade, pertencia ao ex-banqueiro Ronald Guimarães Levinsohn. Na transferência de controle para o Galileo Educacional, ficou estabelecida uma indenização de R$ 100 milhões, na forma de três terrenos, para que o Instituto Cultural de Ipanema e a Associação para a Modernização da Educação — entidades filantrópicas geridas pelo empresário e controladoras da Assespa — ficassem fora do setor de ensino superior durante 30 anos. Levinsohn, porém, garante:

— Esses terrenos nunca fizeram parte da negociação. Eu os comprei com meu dinheiro, mas estavam com a Assespa. A indenização foi apenas uma forma de tirar o terreno da transferência — afirma o empresário.

Veja aqui o histórico da crise do grupo Galileo Educacional.

Já de acordo com Daltro de Campos Borges Filho, advogado de Paulo Gama, a transação envolvendo seu cliente também não foi uma venda. Ele diz que, na visão de Paulo, a Gama Filho precisava estar ligada a um grupo financeiro para sobreviver. A transferência, então, teria sido vista como forma de fortalecer a instituição. Mas as esperadas melhorias não aconteceram e, ironicamente, agora o ex-proprietário está processando o Galileo por falta de pagamentos na indenização firmada.

A crise na UniverCidade, na Gama Filho e em outras faculdades privadas, como a Candido Mendes, foram investigadas na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) cujo relatório final será analisado pelos deputados nas próximas semanas. De acordo com o documento, o Galileo está afundado em débitos da ordem de R$ 900 milhões. O relatório pede o indiciamento de seis pessoas, entre reitores e ex-controladores de universidades. Um deles é Márcio André Mendes Costa, ex-dirigente do Galileo, responsável pela aquisição Gama Filho e da UniverCidade. Em outubro de 2012, ele passou o grupo para o empresário Adenor Gonçalves dos Santos, que já teve dois CPFs cancelados e coleciona mais de 40 ações na Justiça como réu. Adenor nunca foi visto por professores e alunos.

Os problemas financeiros na UGF são anteriores à transferência de mantença. Mas, desde que o Galileo entrou em cena, a crise se agravou rapidamente. Desde 2011, as mensalidades perderam descontos e subiram, em alguns casos, 40%, dizem estudantes. Cerca de mil professores foram demitidos, segundo o sindicato.

De acordo com Márcio André Mendes Costa, havia docentes ociosos e todas as medidas foram tomadas para resolver o problema de caixa. Ele nega a demissão de mil professores.

— Metade dos professores de Medicina ganhava sem dar aula. Foram 230 demitidos. A gente tem que entender que sem sanear não resolve. Nada justifica a Gama Filho ter uma folha de pagamento do tamanho que ela tinha. Eu recebi a universidade com quase R$ 500 milhões de dívidas dos antigos sócios e procurei revitalizá-la — argumenta o advogado.

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