Flexibilidade corporal é um defeito genético


Flexibilidade corporal é um defeito genético

Hipermobilidade atinge cerca de 30% da população e pode causar tendinites e bursites, lesões de ligamentos, desvios na coluna vertebral e nos joelhos e até mesmo a incontinência urinária

Nos tempos de colégio você era um daqueles alunos que nunca conseguia se esticar como o professor de educação física pedia? Encostar as mãos no chão com o corpo ereto era um sacrifício? Saiba que você pode se considerar dentro dos padrões esperados de flexibilidade. Em contrapartida, aqueles seus amigos que ficavam tão orgulhosos em conseguir explorar o máximo da elasticidade do corpo podem ser vítimas de um defeito genético dos tecidos moles tais como tendões e ligamentos, que pode desencadear muitos problemas para a saúde.

A fisioterapeuta Neuseli Marino Lamari, professora da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), estima que 30% da população considerada normal sofra de Hipermobilidade Articular, caracaterizada pela capacidade de desempenhar movimentos articulares considerados fora dos padrões normais.

Os contorcionistas dos circos são um exemplo clássico dos níveis de flexibilidade articular que um portador do defeito genético podem alcançar. Os movimentos realizados chamam a atenção pela amplitude e pelo fato de serem impossíveis para uma pessoa considerada dentro dos padrões. Neuseli explica que tal capacidade não é uma doença, mas um defeito genético dos tecidos que desencadeia a frouxidão das articulações corporais e que pode acarretar problemas como dores em decorrências de tendinites e bursites, lesões de ligamentos, desvios na coluna vertebral e nos joelhos e até mesmo a incontinência urinária entre outras.

Segundo Neuseli, grande parte das queixas de dores na coluna, no ombro, no joelho e muitas outras, entre trabalhadores de indústrias, são identificados casos de portadores de HA. Somente na industria têxtil, foram encontrados 27,7% dos casos. “Há muitas pessoas que procuram os consultórios com queixa de dores no corpo e o diagnóstico de HA nunca foi feito. O ideal seria que em toda rotina de exame físico se incluísse o teste para detectar o portador. Mas o teste ainda é desconhecido pela maioria dos profissionais da saúde”, afirma. Para o diagnóstico, é realizado um procedimento físico rápido e sem custo. O mais utilizado é o Método de Beighton, rápido, simples e sem a necessidade de equipamentos. Caso o exame acuse frouxidão em pelo menos cinco dos nove pontos corporais analisados, o paciente pode ser considerado um portador da HA.

A flexibilidade varia de acordo com o sexo, idade, raça entre outros e pode estar relacionada à algumas doenças como a Síndrome de Hellers Danlos e à composição corporal (com o predomínio de algumas fibras colágenas) mas, de acordo com Lamari, o problema é resultado da seleção da natureza. Alguns grupos apresentam maior incidência como as mulheres e os negros. As crianças manifestam a HA de forma mais acentuada, e a amplitude dos movimentos pode ficar menor com o passar do tempo. Entretanto, o portador carrega o problema por toda a sua vida e a flexibilidade corporal não vai depender de fatores como treinamentos e temperatura.

Prevenção
A HA não tem cura. O portador, portanto, deve tomar alguns cuidados para evitar complicações como não realizar tarefas com repetitividade, reeducar-se quanto à sua postura, evitar esportes de impacto e realizar exercícios especiais. As mulheres devem realizar, além dos atividades tradicionais, exercícios para o fortalecimento da musculatura que sustenta a bexiga e o intestino.

Não há um consenso para quais os níveis ideais de flexibilidade para a saúde de um indivíduo. “O que podemos afirmar é que movimentos como tocar as mãos nos pés ao fletir o corpo para a frente não é uma tarefa considerada normal. O esperado é que não se consiga”, finaliza.

Neuseli Marino Lamari
Fisioterapeuta, doutora em Ciências da Saúde pela Famerp, fundadora do Serviço de Fisioterapia do Hospital de Base de Rio Preto, coordeandora da pós-graduação Lacto Senso, professora e orientadora da pós-graduação Stricto Senso da Famerp; Possui publicações científicas na área de hipermobilidade, coluna vertebral e membros superiores.

Informações para a imprensa
Thiago Guimarães
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