FISIOTERAPIA PREVENTIVA NA INDÚSTRIA

1. Introdução:
A industrialização vertiginosa criou migrações internas e gerou novas formas de sobrevivência, de riscos e prazeres, que em última análise promoveram o aumento do número de pessoas portadoras de deficiências, alterando o estilo de vida do homem moderno, influenciando diretamente em sua saúde física, mental e social.
Nosso desenvolvimento levou apenas algumas décadas para testar e criar novas situações para as quais não sofremos seleção natural de adaptação, e impomos ao nosso organismo posturas, sobrecargas, contatos com substâncias nocivas, tensão, stress, diferenças de temperaturas, ruídos, etc.
A medida que a evolução da humanidade acontece, também as condições de trabalho, sua organização e seu ambiente mudam constantemente e novas agressões surgem. As empresas, para subsistirem no mercado de trabalho, necessitam de grande produtividade a um custo competitivo. Estas condições levam muitas vezes à imposição de ritmos de trabalho intensos, jornadas prolongadas, que podem estar associadas a ambientes ergonomicamente inadequados. Este quadro possibilita o surgimento das chamadas doenças da civilização (hipertensão, cirrose, imunodepressão…), que são, sem dúvida, a origem da maioria das visitas a ambulatórios e absenteísmo.
Dentro do contexto industrial, as maiores causas de queixas e afastamentos por parte dos funcionários estão compreendidas no conceito das ultimamente tão freqüentes e populares LER/DORTs (lesões por esforços repetitivos/distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho), que podem levar a seqüelas incapacitantes. Os principais fatores etiológicos das LER/DORTs são: emprego de força excessiva e/ou inadequada (acima de 4 kg), repetitividade (ciclos inferiores a 30 segundos), posturas viciosas (trabalho estático, padrões posturais inadequados), compressão mecânica (nervos, tendões, músculos pressionados contra equipamentos e mobiliários) e ainda o stress persistente (excesso de preocupações e projetos). Ao contrário do que se conhecia, estudos recentes estão chamando atenção para as posturas estáticas com uso excessivo e inadequado de força como a principal causa das DORTs e não a simples realização de movimentos repetitivos que nem sempre estão presentes (fato que contribuiu para substituição da terminologia de LER por DORT) e que se efetuados com ciclos de longa duração e maior tempo entre os ciclos, é menos prejudicial que a postura estática.
Diante de uma situação como esta se fazem necessários programas de reabilitação e prevenção. A reabilitação profissional tem como objetivo reabilitar a pessoa portadora de deficiência, reinserindo-a no mercado de trabalho de forma competitiva. Integrado à reabilitação, deve haver um programa de prevenção. Este justifica-se devido a necessidade de se por um fim ao surgimento de novos casos de DORT ou de novos acidentes de trabalho, e vem através da conscientização dos trabalhadores, por serem agentes diretos na identificação dos fatores desencadeantes da sintomatologia, permitindo que se detecte os casos em fase inicial e obtendo assim um caráter realmente preventivo.
Essas duas importantes áreas da Fisioterapia (REABILITAÇÃO E FISIOTERAPIA PREVENTIVA) cruzam-se na ERGONOMIA, termo que pode “abranger tanto a prevenção (saúde, segurança), o desemprenho no trabalho, como a pesquisa e suas aplicações” (CHRISTENSEN, 1987). A ergonomia é o campo de conhecimentos que, baseado na ciência, busca a adequação dos equipamentos, ambientes, organização do trabalho e as características e limitações antropométricas, fisiológicas, comportamentais, idade, sexo, habilidade… dos seres humanos. A ergonomia no ambiente estuda as questões como as cores, iluminação, ruídos, umidade e temperatura. Nos equipamentos, vai desde a caneta e o lápis, até o vestuário, mobiliário, teclados, monitores, maquinário. Todas são questões passíveis de intervenção ergonômica. Quanto à organização do trabalho, vai desde o relacionamento entre colegas, entre as chefias e o subordinado, até o ritmo, os turnos, as jornadas de trabalho e as solicitações impostas. Orienta-se também quanto à melhor postura do trabalhador, melhor utilização da musculatura (menor graduação de força possível e redução da repetitividade), através da análise dos movimentos e posturas críticas, avaliação da história ocupacional, além de inspeção, palpação e testes especiais. Enfim, a soma destes itens é que define a questão da ergonomia. O fisioterapeuta pode ser, então, considerado o profissional com melhor preparo teórico-prático para a realização dessa prestação de serviço
Más condições ergonômicas de trabalho e sedentarismo são alguns dos fatores que mais contribuem para as altas incidências de LER/DORT. Isso demonstra a validade das atividades preventivas como fator de profilaxia das LER/DORT. As atividades preventivas, que, em geral são bem aceitas pelos trabalhadores, auxiliam na diminuição das queixas e absenteísmo, além de outros benefícios, como aumentar a disposição para o trabalho, aumentar a produtividade, aumentar a integração do grupo e diminuir tensões e stress (que também são fatores contribuintes à instalação das LER/DORT).
As atividades preventivas atuam sobre os fatores causadores das lesões principalmente de duas formas. Na primeira, adequando ergonomicamente o local de trabalho e a postura, minimizando as possibilidades de incidências de patologias neurocompressivas e posições estáticas do corpo que gerem tensões musculares contínuas. Na segunda, forma mais comum de prevenção, combate-se o sedentarismo através de atividades físicas de forma geral, sendo a principal forma empregada no ambiente industrial a ginástica laboral.
As modificações propostas por um estudo ergonômico acompanham as peculiaridades de cada posto de trabalho avaliado, podendo interferir sobre o mobiliário, máquinas e ferramentas, quando da organização do trabalho, obtendo-se bons resultados a curto, médio e longo prazo.
Quando da aplicação de um projeto ergonômico, a ocorrência de novos casos de LER/DORT tem sido reduzida. Os casos detectados  grau I  são de fácil resolução através do tratamento médico-fisioterapêutico. Já nos casos de grau II a IV, o prognóstico não é tão favorável, sendo cada vez pior com o avanço da doença. Com a implementação de um estudo ergonômico pode-se alcançar expectativas como: valorização do trabalhador num contexto biopsicossocial; reequilíbrio psico-físico do trabalhador, com eliminação/redução do medo da incapacidade física para o trabalho; redução do absenteísmo; eliminação/redução dos acidentes de trabalho; melhoria na produtividade; garantia de evitar processos de responsabilidade civil contra a empresa.
A ginástica laboral surgiu como uma alternativa para aliviar a sobrecarga no sistema músculo-esquelético, minimizando a ocorrência das LER/DORTs. Esse tipo de ginástica, consiste em exercícios para aliviar as tensões nas atividades da vida profissional, levando a um relaxamento físico e mental, promovendo o auto-conhecimento e possibilitando à pessoa discriminar ou tornar-se consciente de tensões somáticas, além de auxiliar no controle destas. Preferencialmente são utilizados técnicas de alongamentos ativos e exercícios de resistência (pouca carga, alta repetição). Os alongamentos mantém os músculos mais flexíveis, preparam o corpo para o movimento e ajudam a concretizar a transição da inatividade para a atividade sem tensões indevidas. Devem ser realizados adequadamente às diferenças individuais quanto a tensão muscular e flexibilidade. Qualquer pessoa, desde que saudável, sem qualquer problema físico, pode aprender a fazer alongamentos de modo seguro e agradável. Os exercícios de resistência induzem alterações fisiológicas em quase todos os sistemas do corpo.
As alterações que resultam do treinamento (tanto alongamentos como exercícios de resistência) serão determinadas pela freqüência, duração e intensidade, bem como por fatores hereditários. Os efeitos do treinamento podem ser conservados por programas de manutenção, mas são perdidos após poucas semanas de destreinamento.
Se ministrada de forma correta, a ginástica laboral propicia os seguintes benefícios: diminui o número de acidentes de trabalho; previne a fadiga muscular; corrige vícios posturais; melhora a condição física geral; minimiza/previne doenças ocupacionais; diminui o absenteísmo e a procura ambulatorial; promove maior integração dos funcionários.
Através de estudos estatísticos, pôde-se concluir que as atividades preventivas mostram-se extremamente eficazes, justificando sua implementação em empresas que busquem a melhora da qualidade de vida de seus funcionários que como conseqüência aumentarão sua produtividade, diminuirão seus custos e minimizarão afastamentos e acidentes de trabalho.

4. Metodologia:
A pesquisa foi conduzida em uma Indústria de móveis na região de Sorocaba, que conta com 36 operários, todos do sexo masculino, com faixa etária predominando entre 15 e 25 anos, com tempo de serviço na Indústria prevalecendo inferior a 3 anos.
Para coleta de dados foi elaborado um questionário com o objetivo de levantar itens importantes e verificar a disposição de cada um em participar do projeto.
O procedimento deste estudo seguiu etapas predeterminadas, a saber:
a) Apresentação do Projeto e do Programa à Indústria
b) Avaliação fisioterápica individualizada;
c) Aplicação prática: Ginástica Laboral/Holística e Orientação e Correção Postural e Ergonômica;
d) Coleta de dados e análise dos resultados para conclusão final

5. Resultados e Discussão:
De acordo com os dados apresentados nos questionários, fotografias, filmagens, observação direta da rotina de trabalho, e relatos fornecidos pela empresa, não foram encontrados problemas “relevantes”(como afastamentos) relacionados ao trabalho, fato este supostamente relacionado à baixa faixa etária associada ao reduzido tempo de serviço na Indústria e na função atual.
No entanto, foram observados dados importantes de queixa de dores durante a jornada de trabalho, principalmente em coluna, membros inferiores (perna e pé), e punho, justificáveis pelos movimentos/posturas estáticas e/ou dinâmicas inadequadas (observadas nas fotos e filmagens) tais como movimentos repetitivos de rotação e inclinação de coluna, carregamento de peso sem uso dos carrinhos, manipulação de maquinário não adaptado ergonomicamente, e pela postura predominante durante a jornada de trabalho ser a posição em pé.
O esforço físico no trabalho foi considerado principalmente como moderado apesar de ainda não serem visíveis suas conseqüências, uma vez que a maioria dos operários trabalhava anteriormente em serviços com maior esforço físico ( de acordo com relato da empresa).
Apesar do tempo para entrar no ritmo de trabalho ser predominantemente inferior à 15 min.; considerável parcela das funções oferecer alto risco de acidentes (podendo ser bastante graves em alguns casos), exigindo então, por parte dos funcionários extrema atenção e concentração durante todo o serviço, e a atividade física predominante (futebol) ser praticada, pela grande maioria, apenas nos fins-de-semana, abre-se então um amplo campo de atuação com a finalidade de melhorar/minimizar as condições acima citadas ( aumentando a atenção  diminuição de risco de acidentes; diminuição do tempo gasto para entrar no ritmo de trabalho  aumento da produtividade; além de melhorar as condições gerais de vida dos funcionários).
Como a faixa etária dos sujeitos deste estudo é relativamente baixa, o tempo de serviço na Indústria e na mesma função também o são, não existe registro significativo de patologias relacionáveis ao trabalho, e a Indústria não demonstrou um interesse específico de direcionamento do programa para determinada função/setor (dando total autonomia de escolha ao grupo pesquisador), chegou-se a um trabalho total e exclusivamente preventivo e global (programa preventivo), de considerável importância pela ampla e real possibilidade de futuramente este quadro modificar-se de forma negativa, tanto para a empresa como para os operários (diminuição de produtividade e aumento do absenteísmo, entre outras alterações).
Este trabalho confirmou a necessidade de estudos específicos no campo da prevenção na Indústria, sugerindo que este tema possa ser abordado de forma mais aprofundada em outros estudos vinculados à graduação.

8. Referências Bibliográficas:
ANDERSON, B.; ALONGUE-SE; 1983; 20ª edição; Editora Press Grafic.
COSSENZA, C. E.; PERSONAL TRAINING; 1996; 1ª edição; Editora Sprint.
FOX, E. L.; BOWERS, R.W.; FOSS, M. L.; BASES FISIOLÓGICAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA E
DOS DESPORTOS; 1991; 4º edição; Editora Guanabara Koogan.
GUARDINER, M. D.; MANUAL DE TERAPIA POR EXERCÍCIO; 1983; 1ª edição; Editora Santos.
KISNER, C; COLBY, L.A.; EXERCÍCIOS TERAPÊUTICOS – Fundamentos e Técnicas; 1998; 1ª edição; Editora Manole
LIANZA, S.; MEDICINA DE REABILITAÇÃO; 1995; 2ª edição; Editora Guanabara Koogan.
MENDES, R.; PATOLOGIA DO TRABALHO; 1999; 1ª EDIÇÃO; Editora Atheneu.
MORAES, M. A. A.; MIGUEZ, S. A.; LER/DORTs – PREVENÇÃO E TRATAMENTO & NOÇÕES BÁSICAS DE ERGONOMIA; 1998; [Edição impressa].
PIRES, W. R.; QUALIDADE DE VIDA; 1996; 2ª edição; Editora Cartigraf

Alunos do 4 ano do Curso de Fisioterapia UNIP/Sorocaba
Aglair Teixeira da Costa Arruda
Carolina Ribeiro de Almeida
Erick Misuni Watanabe
Francine Corazza Rosa
Kátia Eliane Fátima de Moraes
Liliam Helena Benedetti
Marisa Domanoski Nogueira
Patrícia Rina Zecchinato

Orientadoras:
– Profa Beatriz de Oliveira Peixoto
Coordenadora do Curso e Profa da Disciplina Preventiva
– Profa Silvana Maria de Almeida Santos
Profa da Disciplina Fisioterapia Preventiva e Metodologia Científica
– Profa Conceição Aparecida de Almeida Santos
Profa da Disciplina Fisioterapia Preventiva

 

Atividades com destaque em postura estática

 

Atividade com destaque em membro inferiores

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