FISIOTERAPIA MOTORA NAS DOENÇAS NEUROMUSCULARES COMUNS NA INFÂNCIA – CUIDADO CENTRADO NO PACIENTE

Dra. Jaqueline Almeida Pereira (RJ)

Fisioterapeuta; Mestre e Doutoranda em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Docente do Departamento de Fisioterapia/UFRJ.

CONTEXTUALIZAÇÃO:

As doenças neuromusculares mais comuns na infância são a distrofia muscular de Duchenne (DMD) e a atrofia muscular espinhal (AME) (1,2). Apesar de não haver cura para essas doenças, novas medicações têm modificado o seu curso natural, proporcionando ganhos funcionais, porém, a maioria dos pacientes ainda não tem acesso a estas terapêuticas. A fisioterapia motora tem como objetivo e conduta se ajustar à realidade e condição clínica de cada paciente, considerando as características da doença, idade de início, topografia da lesão e velocidade de progressão. Nesse sentido, a reabilitação pode ajudar o paciente a continuar suas atividades de forma independente e segura, favorecendo sempre seu potencial funcional máximo (1-3).

DESENVOLVIMENTO:

A abordagem da fisioterapia se beneficia quando o diagnóstico clínico ocorre na fase inicial da doença, permitindo uma atuação mais efetiva na prevenção dos agravos dos encurtamentos musculares e deformidades, bem como nas perdas funcionais (3,4). É preciso avaliar a força muscular, a amplitude articular e a fadiga, além do uso de escalas funcionais específicas. Os testes cronometrados como o levantar do chão, caminhar/correr 10 metros e subir/descer 4 degraus, são ótimos aliados na predição da perda da marcha, a medida que a doença evolui, há o aumento do tempo para executar a mesma tarefa (3,5). A intervenção da fisioterapia motora deve ser adaptada às necessidades individuais como fase da doença, resposta à terapia e tolerância aos exercícios. Precisamos respeitar a topografia da lesão, porém é comum à maioria das doenças neuromusculares (DNM) a necessidade de manter a amplitude articular íntegra com a realização de alongamentos diários implementados a rotina da família e seu efeito precisa ser prolongado para garantir a manutenção do comprimento do músculo com o auxílio de órteses, talas e parapódio/tábua ortostática. Exercícios e atividades aeróbicas submáximas (por exemplo, natação e cicloergômetro) podem ser realizados com assistência, no entanto, as DNM com topografia de lesão das fibras musculares como as distrofinopatias – DMD, os exercícios excêntricos e de alta resistência, devem ser evitados e deve haver monitoramento para evitar esforço excessivo (2-4). Todos os pacientes dependentes de cadeira de rodas devem ter suas cadeiras adaptadas de forma personalizada, e para pacientes mais fortes, as cadeiras de rodas podem ser manuais e leves, para promover autopropulsão. É importante que programas de exercícios e atividades as quais estimulem a ativação muscular sejam encorajados, pois podem ter efeito na manutenção e melhora de função, amplitude de movimento, resistência, equilíbrio, atividades da vida diária e participação na escola, atividades sociais e ocupacionais (4).

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

O ponto comum entre as várias doenças neuromusculares são fraqueza muscular e fadiga e a determinação do que é indicado ou contra indicado está relacionada à topografia da lesão, identificando os principais grupos musculares acometidos pela fraqueza muscular e à velocidade da evolução clínica. A antecipação ao processo de perda ou exacerbação do quadro é o ponto fundamental para uma boa reabilitação, sendo necessário proatividade por parte dos terapeutas envolvidos no processo de acompanhamento do paciente e ajuste constante da terapia em conjunto com a criança e seus pais. Por fim, é importante destacar que a doença progride com perdas funcionais, mas alguns pacientes já se beneficiam de ganhos funcionais mediante o uso de novos medicamentos, fiquem sempre atentos as mudanças.

REFERÊNCIAS:

  1. Araujo APQC, Nardes F, Fortes CPDD, Pereira JA, Rebel MF, Dias CM, Barbosa RCGA, Lopes MVR, Langer AL, Neves FR, Reis EF. Brazilian consensus on Duchenne muscular dystrophy. Part 2: rehabilitation and systemic care. Arq Neuropsiquiatr. 2018 Jul;76(7):481-489. doi: 10.1590/0004-282X20180062. Erratum in: Arq Neuropsiquiatr. 2018 Oct;76(10):1.
  2. Mercuri E, Finkel RS, Muntoni F, Wirth B, Montes J, Main M, Mazzone ES, Vitale M, Snyder B, Quijano-Roy S, Bertini E, Davis RH, Meyer OH, Simonds AK, Schroth MK, Graham RJ, Kirschner J, Iannaccone ST, Crawford TO, Woods S, Qian Y, Sejersen T; SMA Care Group. Diagnosis and management of spinal muscular atrophy: Part 1: Recommendations for diagnosis, rehabilitation, orthopedic and nutritional care. Neuromuscul Disord. 2018 Feb;28(2):103-115. doi: 10.1016/j.nmd.2017.11.005.
  3. Birnkrant DJ, Bushby K, Bann CM, Apkon SD, Blackwell A, Brumbaugh D, Case LE, Clemens PR, Hadjiyannakis S, Pandya S, Street N, Tomezsko J, Wagner KR, Ward LM, Weber DR; DMD Care Considerations Working Group. Diagnosis and management of Duchenne muscular dystrophy, part 1: diagnosis, and neuromuscular, rehabilitation, endocrine, and gastrointestinal and nutritional management. Lancet Neurol. 2018 Mar;17(3):251-267. doi: 10.1016/S1474-4422(18)30024-3. Epub 2018 Feb 3. Erratum in: Lancet Neurol. 2018 Apr 4.
  4. Fortes CPDD, Koiller LM, Araújo APQC. Cuidados com a pessoa com distrofia muscular de Duchenne: revisando as recomendações. Rev. Bras. Neurol. 2018 Abr-Jun;54(2): 5-13.
  5. Pereira AC, Ribeiro MG, Araújo AP. Timed motor function tests capacity in healthy children. Arch Dis Child. 2016 Feb;101(2):147-51. doi: 10.1136/archdischild-2014-307396.

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