FISIOTERAPIA EM ONCOLOGIA

DRENAGEM LINFÁTICA MANUAL EM ONCOLOGIA: MITO, MODA OU CIÊNCIA?

Autora

Dra. Anke Bergmann (RJ) Fisioterapeuta, Doutora em Ciências da Saúde, Pesquisadora INCA, Coordenadora Nacional da Pós-graduação em Fisioterapia em Oncologia/InterFisio, Presidente Associação Brasileira de Fisioterapia em Oncologia, Editora Científica Revista Brasileira de Cancerologia
PALESTRANTE CONFIRMADA

Contextualização: O câncer é um dos principais problemas de saúde pública. O sistema linfático é uma das principais vias de disseminação das células neoplásicas e, por isso, o tratamento local dos tumores sólidos, de alguma maneira, envolve a abordagem nos linfonodos regionais e consequente dano a esse sistema. Nesse sentido, os pacientes oncológicos apresentam alta incidência complicações linfáticas secundárias ao tratamento oncológico, sendo a terapia manual por meio da drenagem linfática manual (DLM), uma das condutas mais utilizadas. Entretanto, a DLM, na prática clínica e nos cursos de formação, começou a ser usada de forma indiscriminada e desconsiderando, muitas vezes, os princípios da prática baseada em evidências. Nesse contexto, é necessário discutir as evidências científicas da DLM na prevenção e tratamento das complicações advindas das intervenções oncológicas e da evolução do câncer, de forma a contribuir na decisão do fisioterapeuta em realizar ou não a DLM em cada situação da prática clínica.

Desenvolvimento: A DLM previne a ocorrência do linfedema em pacientes oncológicos? A DLM realizada após a linfadenectomia tem como objetivo favorecer as anastomoses linfolinfáticas, “direcionando” o fluxo linfático superficial para as regiões não comprometidas. Em mulheres após câncer de mama, revisões sistemáticas e meta-análises de ensaios clínicos randomizados, não encontraram redução do risco de linfedema no grupo submetido à DLM preventiva. Com base nas evidências atualmente disponíveis, não é possível afirmar que a DLM é eficaz na prevenção do linfedema secundário ao tratamento oncológico. Mas, quando utilizada com outras condutas fisioterapêuticas, pode favorecer a aderência às orientações preventivas (como exercícios, controle do peso corporal e infecções) e o diagnóstico precoce do linfedema.

A realização da DLM pode aumentar o risco de recidiva e metástase em pacientes oncológicos? A DLM faz parte da abordagem fisioterapêutica em diversas situações clínicas dos pacientes oncológicos, no entanto, existem relatos que, ao aumentar a absorção de líquido e proteínas do interstício, poderia também favorecer a ocorrência de metástases. Revisões sistemáticas comparando a incidência de recidiva e metástase não encontraram aumento do risco nas pessoas que realizaram DLM. Em conclusão, a evolução de doença ocorre devido a um microambiente adequado e de acordo com a sua biologia tumoral. Não existe, portanto, nenhuma evidência que a DLM tenha algum impacto no aumento do risco de recidiva e metástase, podendo ser realizada com segurança nos pacientes oncológicos.

Qual a eficácia da DLM na redução do volume do membro no tratamento do linfedema secundário ao câncer? A terapia descongestiva complexa (TDC) é o tratamento padrão para o linfedema de qualquer origem, tendo como um componente a DLM. Ensaios clínicos e revisões sistemáticas com meta-analise demonstram que, na TDC, a redução do volume do membro é a mesma, independente da realização da DLM. Considerando os dados disponíveis no momento, a DLM não pode ser considerada o principal componente no tratamento do linfedema, mas sempre que possível, deve ser realizada com o objetivo de minimizar os sintomas e aumentar a aderência à terapia compressiva.

Considerações finais: A DLM, embora ainda com pouca evidência científica da sua eficácia na redução do volume dos membros, tem sido amplamente utilizada e com resultados favoráveis na melhora dos sintomas associados ao linfedema e da qualidade de vida de pacientes oncológicos. Todos os estudos relatam também que a DLM é uma conduta segura e com boa aceitação pelos pacientes. A decisão terapêutica de realizar ou não a DLM nos pacientes oncológicos deve ser baseada nas situações clínicas individualizadas, na experiência do fisioterapeuta, no desejo do paciente e, também nas condições econômicas e estruturais do local de atendimento.

Leitura complementar: Bergmann A, da Costa Leite Ferreira MG, de Aguiar SS, de Almeida Dias R, de Souza Abrahao K, Paltrinieri EM, Martinez Allende RG, Andrade MF. Physiotherapy in upper limb lymphedema after breast cancer treatment: a randomized study. Lymphology. 2014 Jun;47(2):82-91.

Fabro ENA, Costa RM, Oliveira JF, Lou M, Torres D, Orind F, Macedo F, Carvalho CM, Ribeiro MJP, Bergmann A. Atenção fisioterapêutica no controle do linfedema secundário ao tratamento do câncer de mama: rotina do Hospital do Câncer III/Instituto Nacional de Câncer. Rev Bras Mastologia. 2016;26(1):4-8. doi: 10.5327/Z201600010002RBM

Executive Committee. The Diagnosis and Treatment of Peripheral Lymphedema: 2016 Consensus Document of the International Society of Lymphology. Lymphology. 2016 Dec;49(4):170-84.

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3 comentários em “FISIOTERAPIA EM ONCOLOGIA”

  1. Muito interessante me enriqueceu de conhecimento que parecem elemementar mas quando não são bem esclarecidos ficam dúvidas vou guardar este artigo pra consulta parabéns admiro muito seu trabalho

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