FISIOTERAPIA E ESTRESSE: INCIDÊNCIA DE ESTRESSE EM PACIENTES ORTOPÉDICOS E SUA COMPARAÇÃO NO PRÉ E PÓS-TRATAMENTO FISIOTERAPÊUTICO

Margareth Maria Martinho da Silva¹, Luana de La Barra2

Resumo

Tendo sofrido eventos traumáticos, doenças, fraturas, lesões ou qualquer sorte de acometimentos físicos, os indivíduos submetidos ao tratamento fisioterapêutico vivenciam significantes mudanças. A necessidade de adaptações no trabalho, na vida social e pessoal, é fato que prevalece na vida da maioria dos pacientes ortopédicos. Estes, portando limitações de movimentos, têm de passar a lutar contra a inabilidade e dependência adquirida, que os restringem de fazer muito do que outrora podiam. Trata-se de mudanças tidas por “estressores”, responsáveis por originar transtornos metabólicos no organismo que tenta preservar sua homeostasia. Este fato pôde ser comprovado com os 58% da amostra que apresentou níveis de estresse variáveis entre alto, moderado e baixo, antes do tratamento fisioterapêutico. Destarte, esse artigo objetiva analisar a possibilidade de influência da Fisioterapia na vida e estresse desses pacientes, a partir da comparação de seu nível de estresse antes e depois do tratamento fisioterapêutico, com a aplicação de questionário.

Palavras-chave: mudanças, estresse, Fisioterapia.

Abstract

Having suffered traumatic events, disease, fractures, injuries or any sort of physical attack, people who are subjected to physiotherapeutic treatment live significant changes. The need for adjustments in the workplace, social and personal life, is a fact that prevails in most of the orthopedic patients’ life. These, having movements’ limitations, have to combat the acquired dependence and inability, which restricts them of doing many things they could do. It is affirmed about changes known by “stressors”, responsible to origin disorders in the body that tries to preserve its homeostasis. This fact could be shown with 58% of the sample, who had varying levels of stress among high, moderate and low, before the physiotherapeutic treatment. Therefore, this article aims to analyze the Physiotherapy’s possible influence in the life and stress of these patients, from the comparison of their stress’ level before and after the physiotherapeutic treatment, with a questionnaire application.

Key-words: changes, stress, Physiotherapy.

Revisado em 06/03/2008. Enviado em: 27/12/2008.
1 Aluna do Curso de Graduação em Fisioterapia da Universidade Paulista (UNIP) – Campus Anchieta.
2 Orientadora e Mestre do Curso de Graduação em Fisioterapia da Universidade Paulista (UNIP) – Campus Anchieta.
03203-010 – Rua Industrial, 138, Vila Alpina – São Paulo – SP – Brasil.
margareth.fisioterapia@gmail.com; luana22@terra.com.br

1. Introdução
1.1. Estresse
Segundo Castiel, 2005, a palavra “stress” surgiu na área da saúde no ano de 1936, por intermédio do fisiologista canadense, Hans Selye, a partir de sua postulação a respeito da “síndrome geral de adaptação”, que fundamentou a teoria do estresse, inicialmente por ele construída. Essa palavra foi introduzida como indicativa de uma resposta indeterminada do organismo frente a uma situação ou fator estressante. Posteriormente é que ela foi sendo empregada tanto para indicar a resposta do organismo como também da situação que provoca seus efeitos.
Dessa forma, tem-se por “estresse”, o resultado da junção da recepção de estímulos do ambiente (situação estressora ou “estressor”) pelo organismo mais a excitação emocional (desequilíbrio da homeostasia) por isso provocada. Em outras palavras, Almeida, 1989, afirma ser o estresse o resultado de um conjunto de reações ocorridas no organismo que indicam sua resposta biológica mediante sujeição a agressões, quais sejam de ordem física, psíquica, infecciosa, traumatológica ou tantas outras.
Ferreira et alii, 2002, acrescentam à caracterização do estresse, a proporção da perturbação de uma situação “estável” por meio de estímulos que levam o organismo à desregulação de seu equilíbrio, o que, muitas vezes, pode determinar seu ingresso ao estágio de doença. A partir desses estímulos geradores de desequilíbrios é que se inicia o que é conhecido por processo adaptativo ou “síndrome geral de adaptação”. Diversas alterações no organismo como, por exemplo, o aumento da secreção de adrenalina, ou manifestações sistêmicas, incluindo distúrbios fisiológicos e psicológicos, são fatores que assim caracterizam o início desse processo.
A reação e o modo com que um indivíduo recebe os estímulos estressores e responde ao estresse é algo absolutamente individual e variável de pessoa para pessoa. Margis et alii, 2003, ressaltam que isso se dá mediante as diversas possibilidades de métodos que o organismo tem disponível a ser utilizado para lidar com os agentes estressores à medida que estes vão surgindo. Logo, a resposta ao estresse é obtida a partir da disparidade entre o organismo interado com sua capacidade de reação perante uma situação de estresse (meio interno) e as demandas do ambiente, ou seja, estressores (meio externo). A capacidade de resposta de um indivíduo depende da intensidade, duração, número de estressores e âmbito que a influenciam e marcam a situação. Labrador et al.,1994, mostram que aspectos cognitivos, comportamentais e fisiológicos são componentes participantes na formulação da resposta do organismo ao estressor. Não obstante, o destaque destes três aspectos pode ser aceito com positividade no organismo até determinado ponto. Uma vez ultrapassado, poderá acarretar um efeito desorganizador. Como exemplo, tem-se as variáveis psicológicas que podem desenvolver sintomas físicos como uma tensão muscular proveniente de uma resposta mal adaptada ao estresse psicológico. Deste modo, a resposta ao estresse tem por objetivo avaliar a situação estressora bem como a presença de estressores, de maneira que as informações disponíveis sejam rapidamente processadas para o alcance de soluções precisas e condutas adequadas às quais o organismo deve seguir.
1.2. Estressores
Os estressores podem ser definidos como estímulos antecedentes à uma situação de mudança. Greenberg, 2002, acrescenta que estressores são estímulos que podem ser biológicos, psicológicos, sociológicos ou filosóficos, com potencial para ativar o organismo a elaborar uma resposta ao estresse. Em outras palavras, segundo Labrador et al.,1994, estressores são toda e qualquer situação provocadora de estresse no organismo, responsável pela promoção da desregulação de sua homeostase.

Classificados como acontecimentos vitais, acontecimentos diários menores ou situações de tensão crônica, Lipp, 2001, divide os estressores em duas categorias: estressores internos, que são os ocorridos dentro de um indivíduo, ou seja, proporcionados pelo próprio organismo, como no caso de uma febre, por exemplo; e estressores externos, que são os estímulos lançados pelo ambiente ou situações ambientais as quais o sujeito está propenso a vivenciar como, por exemplo, mudanças no âmbito social, pessoal ou profissional.
Segundo Lipp, 2001, os acontecimentos vitais são os eventos de vida estressores que, quando presentes, podem produzir efeitos psicológicos de maneira a manifestar sintomas de distúrbio adaptativo no indivíduo, ou seja, uma desordem em sua capacidade de adaptação. Apresentados como evento de vida estressores dependentes ou independentes, podem ser identificados pelos seguintes aspectos: os dependentes, como já supõe a classificação, dependem diretamente da intervenção, participação ou forma de relacionamento do sujeito para com o meio em que se encontra submetido. É o tipo de comportamento, atitude ou maneira com a qual uma pessoa se porta diante de uma situação, favorecendo ou não a si mesma. Diferentemente, os independentes não têm qualquer relação com a participação do indivíduo, pois estão além de um controle pessoal, por serem ocasionais e, assim, inevitáveis. O falecimento de um amigo ou a saída de um filho de casa exemplificam bem esta categoria de acontecimentos vitais. Podem ainda ser citadas aqui, as doenças agudas que têm um curso acelerado, cujos sintomas podem ter início abrupto ou insidioso, sendo, portanto, estressores instantâneos presentes em muitos pacientes da Fisioterapia.
Por sua vez, os acontecimentos diários menores são aqueles que estão presentes nas diversas situações corriqueiras da vida, como, perder objetos, ficar preso no trânsito, ter que esperar em filas, entre outras. Lipp, 2001, ressalta que assim como os eventos de vida estressores, os acontecimentos diários menores, portanto, também são provocadores de resposta ao estresse. Quando freqüentes, como, por exemplo, no caso da ocorrência de dores constantes ou periódicas, são estes acontecimentos os produtores de efeitos psicológicos e biológicos negativos no organismo em resposta ao estresse, podendo ser responsáveis por produzir grande desconforto psíquico para alguns indivíduos. Por isso a importância da observação de sua existência. Além de que, quando comparados aos efeitos dos eventos de vida estressor de menor ocorrência, os acontecimentos diários menores, por muitas vezes, são muito mais influentes.
O terceiro grupo de situações ambientais provocadoras de estresse corresponde às situações de tensão crônica. São estas as geradoras de estresse relativamente intenso que persistem ao longo do tempo e resultam em importantes efeitos psicopatológicos. Conforme Smith et alii, 1996, um exemplo que se tem são as doenças crônicas, que são aquelas cujos sintomas afetam continuamente a saúde do indivíduo por um longo período de tempo ou podendo ainda não ter cura. Almeida et alii, 2002, elucidam ainda que estas doenças são as responsáveis pelos maiores gastos na área da saúde, além de serem as principais causas de incapacidade na população que acaba por representar as maiores demandas por tratamento. São, portanto, estressores presentes em longo prazo que precisam de atenção especial. No caso da Fisioterapia, aí está a importância do processo de tratamento e busca da reabilitação desses pacientes o quanto antes, à medida do possível.
1.3. Resposta ao Estresse
Primariamente descrita pelo fisiologista Walter Cannon, a resposta ao estresse, segundo Greenberg, 2002, foi intitulada de resposta de luta-ou-fuga. Labrador et al.,1994, elucidam que a maneira pela qual um indivíduo será afetado pelo estresse é definida pela capacidade que este tem em filtrar e processar informações e estímulos enviados pelo ambiente, capazes de perturbar-lhe a homeostasia. Luft et alii, 2007, confirmam que a resposta ao estresse é determinada pelo modo como uma pessoa recebe o estresse e classifica as informações para si como sendo relevantes, amenas, desagradáveis, aterrorizantes e assim por diante. Existem fatores que determinam as habilidades que o sujeito se dispõe na emissão de respostas corretamente elaboradas para cada estressor a que se depare. O aprendizado prévio de condutas pertinentes, os resultados outrora obtidos pela emissão de respostas e a necessidade de seu reforço em situações posteriores e similares são os seus determinantes.
Segundo Labrador et al., 1994, diante de um estressor, as respostas comportamentais básicas e principais são: enfrentamento (ataque) e evitação (fuga). A resposta de enfrentamento delimita a maneira pela qual o indivíduo irá agir, bem como os transtornos psicofisiológicos que estará suposto a sofrer. Isto é possível mediante a definição dos recursos e estruturas fisiológicas que serão mobilizadas a partir do momento em que o organismo opta por este tipo de resposta. O estresse é, por muitas vezes, caracterizado por sentimentos como a tristeza, preocupação, tensão, frustração e fuga, que podem ser justamente modulados pelas conseqüências da utilização dessa resposta de enfrentamento. A fuga é um tipo de resposta pela qual há refutação por parte do indivíduo em encarar uma determinada situação que lhe promova estresse. Esse é um fato muito ocorrido na Fisioterapia, por exemplo, cujos pacientes, por muitas vezes, apenas buscam seu tratamento quando não há mais meio de escapar do mesmo. Em outras palavras, o que ocorre é que, na maioria das vezes, mesmo sabendo da necessidade de buscar ajuda profissional para um determinado problema, nega-se o fato até que este se apresente agravado e sem outra solução senão o tratamento.
As situações de estresse estimulam a ativação fisiológica geral do organismo, promovendo a reação (resposta) do indivíduo ao se deparar com as mesmas. Margis et alii, 2003, esclarecem a existência de diversos mecanismos neurais e endócrinos hoje conhecidos, que seletivamente são ativados visando a reação do organismo frente ao estresse. O aumento significativo da liberação ou secreção de noradrenalina, dopamina e até mesmo cortisol, são bons exemplos disto.
1.4. Fisioterapia e Estresse
A Fisioterapia é um segmento da área de saúde que estuda, avalia, previne e trata os distúrbios da cinesia humana, decorrentes de alterações de órgãos e sistemas do organismo. Contribui, com seu conteúdo específico, para o restabelecimento, a manutenção e a promoção da saúde. É, portanto, um ramo da saúde cujo principal objeto de estudo é o movimento humano. Na área ortopédica, a reabilitação desse objeto de estudo passa a ser o objetivo a ser alcançado, tendo em vista o comprometimento do movimento devido à ocorrência de acometimentos físicos apresentados em seus respectivos pacientes.
Vários são os eventos capazes de gerar estresse em indivíduos. O evento traumático grave é um exemplo disso. Neste, inclui-se aspectos relacionados ao comprometimento da integridade física do próprio sujeito ou de outrem. Yehuda et al., 2000, afirmam que ainda que momentâneo ou vivenciado por apenas uma vez, o evento traumático acarreta conseqüências psíquicas que serão retidas por um longo e, por vezes, até indeterminado período de tempo. Como uma ilustração, pode-se citar os pacientes com fratura de fêmur por ocasião de acidente de moto. Mesmo que com um tempo de tratamento fisioterapêutico, ainda que seus movimentos venham sendo aos poucos recuperados, estes sujeitos carregam consigo o sentimento de medo que os restringem de descarregar peso ou até mesmo utilizar o membro acometido pelo trauma vivido e pelo temor de sofrer nova fratura ou sentir dor. Estes, portanto, são portadores de estresse, visto que, segundo Lipp, 2001, toda mudança significativa que exija adaptação por parte do organismo, justamente causa um certo nível de estresse. Holmes et al., 1967, expõem que essa necessidade de adaptação exerce um papel fundamental e determinante na patogênese do estresse, por ser uma reação muito complexa. Reação essa composta de alterações psicofisiológicas que ocorrem quando o indivíduo é forçado a enfrentar situações que ultrapassem sua habilidade de enfrentamento.
Segundo Nakasato et al., 2000, à medida que sofremos mudanças, reservas de energia adaptativa vão sendo utilizadas pelo organismo. Contudo, em certas circunstâncias, este fato pode resultar no enfraquecimento da resistência física e mental do indivíduo, facilitando assim o surgimento de inúmeras doenças psicofisiológicas, cuja gênese se dá pelo estresse emocional excessivo. Dessa forma, além dos problemas físicos gerados por um acometimento e suas conseqüências, a Fisioterapia lida com pacientes que também carregam consigo problemas sociais, econômicos e emocionais. Muitas vezes esses problemas têm relação direta com as mudanças proporcionadas por ocasião do próprio acometimento (doença, lesão, fratura, etc) somado à suas conseqüências (dor, rigidez, dependência, incapacidade de realizar atividades diárias, etc) e à própria obrigação que esses indivíduos têm em serem submetidos ao tratamento fisioterapêutico. Marques et al., 1998, confirmam que a dor e a rigidez levam à falta de mobilidade com resultante perda de independência, o que acaba causando frustração e raiva ao paciente. As desordens músculoesqueléticas causam efeitos adversos no potencial de trabalho, podendo resultar em desemprego, e a inabilidade nas atividades de vida diária (AVDs) aumentam o estresse geral tanto do paciente como de sua família.
O estresse pode contribuir para a ontogênese de várias doenças físicas e psíquicas. Além disso, Lipp, 2001, esclarece que seu estado prolongado pode interferir no bem-estar físico e psicológico, afetando ainda a qualidade de vida, no que se refere à independência e capacidade de realização de quaisquer atividades necessárias e tangentes ao alcance da satisfação dessas pessoas com suas vidas. Mediante o conhecimento da diversidade de fatores e problemas que envolvem seus pacientes, o papel da Fisioterapia, portanto, se baseia especialmente na melhora da função através do manejo da dor, melhora da força e ganho de amplitude articular, segundo afirmam Marques et al., 1998. Isto proporciona ao paciente melhora no desempenho de suas atividades de vida diárias, culminando-lhe ainda em ganho de bem-estar, o que é de suma importância para melhoria de sua qualidade de vida e auto-estima tão fundamentais, podendo resultar na estabilização, ou até mesmo na redução do estresse, neste caso.

2. Metodologia
Com o objetivo de avaliar a interferência da Fisioterapia no estresse e na vida de seus pacientes, foi realizada uma pesquisa de campo descritiva, que é o tipo de pesquisa que observa, registra, analisa e correlaciona fatos ou fenômenos sem manipulá-los. Ou seja, a pesquisa descritiva procura descobrir, com a precisão possível, a freqüência com que um fenômeno ocorre, sua relação e conexão com outros, sua natureza e características. Este tipo de pesquisa foi acatado, portanto, logrando analisar a ocorrência de estresse nos pacientes em tratamento fisioterapêutico, constituintes da amostra, comparando seu nível antes e depois da fisioterapia. Foram aplicados questionários, bem como foram feitas as observações da variação de sinais vitais para o alcance do objetivo que permeia a presente pesquisa.
Foram excluídos os pacientes menores de 18 anos, e estes deveriam ter o máximo de seis meses de tratamento fisioterapêutico, na justificativa de se ter em vista avaliar indivíduos com menos cronicidade de sintomas possível, por ainda se mostrarem em estágio de processo de adaptação às mudanças decorrentes de seus acometimentos e, principalmente, ao tratamento fisioterapêutico.
A amostra foi constituída por um grupo de dez pacientes pertencentes à área ortopédica da Clínica de Fisioterapia da Universidade Paulista. Quatro sujeitos do sexo masculino e seis do sexo feminino, com idades variáveis de 18 a 60 anos.
A aplicação de um questionário especificamente elaborado segundo o objetivo proposto, foi realizada. O questionário intitulado por “Questionário de Avaliação da Interferência da Fisioterapia no Estresse e na Vida de Pacientes”, teve sua construção estrutural baseada pelo questionário de Rahe, 1999. A elaboração deste questionário se mostrou necessária mediante a inexistência de questionários de estresse já validados, com foco que suprisse as precisões apresentadas para a realização deste estudo.
O Questionário de Avaliação da Interferência da Fisioterapia no Estresse e na Vida de Pacientes é constituído de doze perguntas divididas em duas etapas que contém quatro alternativas de múltipla escolha. Assim, na primeira etapa constam oito perguntas, as quais foram respondidas pelos dez sujeitos da amostra antes e depois do tratamento fisioterapêutico, a fim de se avaliar a interferência da Fisioterapia no estresse desses pacientes. Focando questões correspondentes à saúde, Fisioterapia e trabalho, os indivíduos foram orientados a escolher as alternativas que melhor se ajustassem a sua situação em tempo real. A segunda etapa do questionário se fundamentou em quatro perguntas, respondidas pelos pacientes numa única vez, que pudessem avaliar a interferência da Fisioterapia na vida financeira, pessoal e social dessas pessoas, bem como em seu trabalho, casa e família.
As alternativas constituintes das perguntas em ambas as etapas do questionário, foram organizadas de maneira decrescente. Destarte, estas possuem valores que predizem o nível de estresse a que os pacientes se encontram perante situações de vida, que podem ser tidas por estressoras, ali levantadas.
A avaliação dos sinais vitais dos pacientes foi realizada a partir do aferimento da pressão arterial e freqüência cardíaca antes e depois do tratamento fisioterapêutico, a fim de que se comprovassem os resultados obtidos pela aplicação do questionário em harmonia com a constatação de variações dos sinais vitais entre esses períodos.

3. Resultados
Por intermédio da análise feita da primeira etapa do questionário que foi respondida pelos dez pacientes, pôde-se constatar a ocorrência de estresse (entre os níveis de muito, moderado e pouco) em 58% da amostra, antes do tratamento fisioterapêutico. O Quadro 1 resume os resultados da estatística efetuada para a devida análise da ocorrência de estresse nos indivíduos da amostra antes do tratamento fisioterapêutico.
Mediante os resultados acima expostos, podem-se destacar os eventos de vida estressores que mais se mostram presentes na vida dos pacientes observados. A “dependência” é tida por principal fator estressante, segundo o índice de 80% de pacientes que relataram que o fato de necessitarem de ajuda para a realização de atividades corriqueiras, ou ainda, o receio em realizá-las sozinhos, mesmo sabendo que já são capazes, é o que mais lhes têm incomodado. Em seguida, com 70% de incidência, a dor também se mostra como grande estressor na vida desses pacientes que relatam lhes causar nervosismo. Além disso, 60% dos pacientes relatam que a restrição de movimentos que possuem, também é um fator significativo capaz de explicar sua incidência de estresse.
Após o tratamento fisioterapêutico, a primeira etapa do questionário foi novamente aplicada. A partir de então, chegou-se à estimativa de que 55% dos pacientes se apresentavam sem estresse, e o índice dos que se apresentavam com níveis de estresse entre muito, moderado e baixo, antes do tratamento, foi reduzido para 45%. O Quadro 2 expõe as porcentagens que levaram a esses resultados.
Conforme os resultados apresentados, percebe-se certa participação da Fisioterapia na redução do estresse de seus pacientes. Este fato pode ser explicado ao se observar a redução de predominância dos principais fatores estressantes outrora delineados conforme as respostas dos pacientes antes de receberem tratamento fisioterapêutico. Assim, pode-se citar a redução da dor, onde o índice de pacientes que disseram não sentir dor após a Fisioterapia cresceu para 60%. A porcentagem de pacientes que relataram não mais se sentirem dependentes de auxílio para a realização de suas atividades funcionais diárias, também sofreu acréscimo, chegando a 40%. E, por fim, o índice de 80% de pacientes que indicaram sentir pouca restrição em seus movimentos, ainda se mostrou determinante para o alcance dessa conclusão.
A partir destes resultados, foi calculado o índice de interferência que a Fisioterapia pôde proporcionar no estresse dos pacientes da amostra, melhorando-o ou piorando-o, ou ainda, a inexistência de interferência da mesma, deixando o estresse de seus pacientes estável. O Gráfico 1 foi construído, portanto, com este objetivo, por meio da comparação da ocorrência de estresse nos pacientes antes e depois de receberem tratamento fisioterapêutico. Por meio dos resultados abaixo expostos, pode-se perceber que a maioria dos pacientes apresentou estabilidade em seu estresse, o que é demonstrado pela predominância do índice de 65% que permite a conclusão de que a Fisioterapia não interferiu no estresse da maioria dos pacientes da amostra.
Avaliando-se a segunda etapa do questionário que foi aplicada nos pacientes uma única vez, pôde –se observar a predominância da inexistência de interferência da Fisioterapia na vida tanto financeira, pessoal e social, como no trabalho, casa e família na maioria dos pacientes da amostra. Isto é demonstrado através do índice de 70% alcançado, como elucidam o Quadro 3 e o Gráfico 2.

4. Discussão
A realização deste estudo permitiu a visualização prática da afirmação de Holmes et al., 1967, no que diz respeito às alterações psicofisiológicas ocasionadas pelo estresse em situações onde o indivíduo se vê forçado a enfrentar determinadas situações indesejadas ou que outrora não faziam parte de sua vida. Estatisticamente isto pôde ser observado no índice muito baixo de 10% de pacientes que apresentaram piora no estresse, a partir da comparação de seu nível antes e após o tratamento fisioterapêutico. O que leva à conclusão de que o resultado da presente pesquisa discorda da afirmação do autor, já que a maioria dos pacientes pertencentes à amostra não apresentaram piora ou estresse ocasionado pela Fisioterapia, ou seja, neste estudo, a Fisioterapia não se mostrou como um fator desencadeante de estresse.
Conforme Marques et al., 1998, a perda da independência ocasionada, além do acometimento, por sintomas como dor e restrição de movimentos, resultam em sentimento de frustração no paciente, o que tem por conseqüência a propulsão do estresse. A pesquisa realizada, sobretudo, comprovou o fato de que a Fisioterapia pode aliviar estes sintomas, o que faz com que os pacientes se sintam melhor. Isto pode ser afirmado pelo índice satisfatoriamente atingido de 25% de melhora do estresse nos pacientes observados.
Ainda, segundo Greenberg, 2002, baixa auto-estima, insegurança, medo e raiva são reações emocionais proporcionadas quando as situações de vida são percebidas e avaliadas cognitivamente como aflitivas. Isto explica o índice de 10% de pacientes que relataram desmotivação em participar do tratamento fisioterapêutico antes deste ter início, e seu crescimento para 20% que relataram total indisposição em participar do tratamento, após o mesmo. Contudo, apesar de terem a Fisioterapia por “obrigação”, com o presente estudo se pôde constatar o índice de 100% de sentimentos de bem-estar, confiança e auto-estima e 90% de completa satisfação e ânimo, relatados pelos pacientes, que o tratamento fisioterapêutico é capaz de lhes proporcionar. Além disso, pôde-se chegar ao índice gratificante de 80% dos pacientes que afirmaram ter plena consciência de que seu estado de saúde pode melhorar e confiam que com a Fisioterapia isto será possível.

5. Conclusão
Como já visto, o estresse começa com uma situação de vida que tira o equilíbrio do organismo. Na vida dos pacientes ortopédicos aqui avaliados, o princípio desse desequilíbrio se deu com o acometimento físico e progrediu mediante as limitações por este proporcionadas, que levaram esses indivíduos a buscar tratamento médico, na maioria dos casos, cirúrgico, e, por fim, fisioterapêutico. Estes ainda se vêem na obrigação de se sujeitarem às adaptações exigidas por seu estado de saúde, sendo restringidos de fazer muito do que outrora faziam. São mudanças que exigem adaptações, pois podem levar estes indivíduos a questionar seu próprio valor e a sentir falta da sensação de serem “independentes”, proporcionando então a ocorrência de estresse.
A realização deste estudo levou em consideração os fatores deflagradores de estresse e todo o processo de adaptação sofrido pelos pacientes da amostra. Dessa maneira, conseguiu-se chegar à estimativa de que, na maior parte da amostra, a Fisioterapia não executou influência significativa no estresse e, tampouco, na vida da maioria dos indivíduos observados. Fato que permite a conclusão de que a Fisioterapia, nesta pesquisa, não representou fator agravante e, muito menos, desencadeante de estresse nos pacientes ortopédicos, quando feita a comparação de seu nível de estresse antes e depois do tratamento fisioterapêutico.

6. ANEXOS

 

 


7. Referências Bibliográficas
ALMEIDA, M. F.; BARATA, R. B.; MONTERO, C. V.; SILVA, Z. P. Prevalência de doenças crônicas auto-referidas e utilização de serviços de saúde, PNAD/1998, Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, vol. 7, n. 4, 2002.

ALMEIDA FILHO, N. Epidemiologia sem números. Rio de Janeiro: Campus, 1989. Apud, CASTIEL, L. D. O Estresse na Pesquisa Epidemiológica: O Desgaste dos Modelos de Explicação Coletiva do Processo Saúde-Doença. PHYSIS – Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 15(Suplemento):103- 120, 2005.

CASTIEL, L. D. O Estresse na Pesquisa Epidemiológica: O Desgaste dos Modelos de Explicação Coletiva do Processo Saúde-Doença. PHYSIS – Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, 15(Suplemento):103- 120, 2005.

FERREIRA, E. A. G.; MARQUES, A. P.; MATSUTANI, L. A.; VASCONCELLOS, E. G.; MENDONÇA, L. L. F. Avaliação da Dor e Estresse em Pacientes com Fibromialgia. Revista Brasileira de Reumatologia, v. 42, p. 104-110, 2002.

GREENBERG, J. S. Administração do Estresse. São Paulo: Manole, 6a edição, 2002.

HOLMES, T. H.; RAHE, R. K. The Social Readjustment Scale. Journal Psychosomatic Research, 4: 189-94, 1967. Apud, LIPP, M. E. N.; Estresse emocional: a contribuição de estressores internos e externos. Revista de Psiquiatria Clínica, 28 (6):347-349, 2001.

LABRADOR, F. J.; CRESPO, M. Evalución del estrés. In: Fernandéz-Ballesteros R. Evaluación conductual hoy. Un enfoque para el cambio en psicologia clínica y de la salud. Ediciones pirámide S.A – Madrid; 1994. p. 484-529. Apud, MARGIS, R.; PICON, P.; COSNER, A. F.; SILVEIRA, R. O. Relação Entre Estressores, Estresse e Ansiedade. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, vol. 25, suplemento 1, Porto Alegre, abril de 2003.

LIPP, M. E. N.; Estresse emocional: a contribuição de estressores internos e externos. Revista de Psiquiatria Clínica, 28 (6):347-349, 2001.

LUFT, C B; SANCHES, S. O.; MAZO, G. Z.; ANDRADE, A. Escala de Estresse Percebido. In: Versão Brasileiras de Estresse Percebido: Tradução e Validação para Idosos. Revista de Saúde Pública, 41 (4): 615, 2007.

MARGIS, R.; PICON, P.; COSNER, A. F.; SILVEIRA, R. O. Relação Entre Estressores, Estresse e Ansiedade. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, vol. 25, suplemento 1, Porto Alegre, abril de 2003.

MARQUES, A. P.; KONDO, A. A Fisioterapia na Osteoartrose: Uma Revisão de Literatura. Revista Brasileira de Reumatologia, São Paulo, v. 38, n. 2, p. 83-90, 1998.

NAKASATO, H. K.; CAROMANO, F. A. Estresse – Os Fundamentos Necessários para Compreensão das Alterações Cínico-Funcionais. Arq. Ciências da Saúde, UNIPAR, 4(3):269-275, set.-dez. de 2000.

RAHE, R. H. Teste seu Nível de Estresse, 1999.

SMITH, B. H.; CHAMBERS, W. A.; SMITH, W. C. Chronic Pain: Time for Epidemiology. Journal of the Royal Society of Medicine, 89: 181-183, abril de1996. Tradução nossa.

YEHUDA R.; DAVISDSON, J. Clinician’s Manual on Posttraumatic Stress Disorder. Science Press, London; 2000. Apud, MARGIS, R.; PICON, P.; COSNER, A. F.; SILVEIRA, R. O. Relação Entre Estressores, Estresse e Ansiedade. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, vol. 25, suplemento 1, Porto Alegre, abril de 2003.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.