FISIOTERAPIA E EDUCAÇÃO: REDIMENSIONANDO O ASPECTO CORPÓREO DA PARALISIA CEREBRAL

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Patrícia Celis Murillio, Ft Ms em Educação Escolar, professora da disciplina de neurologia na Universidade UNIP, patceu@bol.com.br

RESUMO

Estudar a criança com paralisia cerebral (PC) significa compreende-la por sua singularidade física e motora. A pesquisa investiga a história do corpo e da deficiência, e as implicações do imaginário social sobre a instituição escola. A metodologia utilizada contou com uma pesquisa empírica e uma observação feita a campo, investigando o ambiente escolar da criança com deficiência motora moderada e grave. Desta forma, foi possível observar as diferentes dificuldades enfrentadas pelo professor, no seu cotidiano escolar, ao lidar com o corpo do aluno deficiente, e a forma como a instituição escola disponibiliza recursos para educação especial. Os resultados revelam que o professor e a escola não possuem um respaldo técnico e teórico, para o trabalho com a deficiência motora, e as nossas conclusões vão ao encontro de uma escola que precisa contextualizar a necessidade corpórea, com o mesmo grau de importância que é dado aos aspectos cognitivos do desenvolvimento humano.
Palavras chaves: Paralisa Cerebral, Educação Motora, Corporeidade.

INTRODUÇÂO

Na visão de FOUCAULT (1995), Em toda a Idade Média, o corpo manifestou-se através do pensamento cristão a acreditar no seu sofrimento físico. Assim, um sofrimento justificável insere a própria exclusão, tendo em vista o caráter profano do mesmo. Neste sentido, a deficiência, seja ela mental ou física, era entendida como um sofrimento que advém do cosmos para remissão dos pecados terrenos.
Podemos perceber de acordo com KASSAR (1999), que o cristianismo normatizou o comportamento, estabelecendo algum grau de controle e de coação sobre a conduta corporal. Historicamente, a relação do homem com o próprio corpo estabeleceu uma série de padrões, que determinou o sentido do corpo normal ou patológico. Neste caminho, a normalidade corpórea ou intelectual, permeou a estrutura escolar destinando o conteúdo curricular para uma escola padronizada.
Para SOUZA & FERRARETO (1998), quando se faz presente um comprometimento neurológico da motricidade todo desenvolvimento sensório motor a ser finalizado com padrões posturais e funcionais de força, flexibilidade, equilíbrio e coordenação estarão alterados possibilitando diferentes graus de incapacidade motora.
As diferentes seqüelas tornam a criança com paralisia cerebral um ser singular, com uma postura específica que pode dificultar várias das suas tarefas motoras do corpo como; controle de tronco, sentar, ortostatismo, andar e funções motoras da mão. A dificuldade para organizar e sustentar o corpo podem ser grandes a ponto desta criança não ser capaz de utilizar o próprio corpo.
Historicamente a paralisia cerebral vem a ser descrita dentre os casos de impossibilidade de cura ou mesmo educabilidade. Esta confusão percorre o sentido do corpo deficiente até os dias atuais, sendo resquício de um padrão normativo do comportamento corpóreo.
A história do corpo social revela todas as suas exclusões, e a paralisia cerebral estigmatizada por uma condição motora deficiente, deixa de receber o auxilio educacional motor adequado para o seu desenvolvimento cognitivo. A escola que sempre privilegiou o desenvolvimento cognitivo normal compreende com dificuldade o fato de que a perda da normalidade física requer o olhar da singularidade motora que aprende e se desenvolve.
Estudos realizados por PIAGET (2002), apontam à importância da coordenação sensório motora da criança, logo após o seu nascimento, enfatizando a aprendizagem motora como base e via de acesso para o desenvolvimento cognitivo.
Para GONÇALVEZ (2005), O corpo quando visto por sua funcionalidade mecânica, destituído da condição intrínseca, corpo-mente-alma, passa a ser apenas um apêndice a suportar a mente que aprende.
A ponte a ser estabelecida entre a paralisia cerebral e a condição educacional da sua musculatura, se dá com a importância da construção de uma organização neurológica da postura do corpo físico, para que a criança possa estar apta às operações abstratas do conhecimento.
A condução motora para a reorganização neurológica da postura é o primeiro passo a darmos no sentido de educarmos uma postura, pois o corpo aprende e aprimora os seus hábitos motores. O mecanismo sensório-motor desperta a aprendizagem dos primeiros esquemas corporais, e fornece a criança elementos corpóreos suficientes para que a mesma venha a explorar o ambiente a partir do próprio corpo, para concomitantemente elaborar as representações abstratas do raciocínio lógico.
Para PARISI (2001), está claro que todo trabalho terapêutico possibilita a criança com paralisia cerebral desenvolver com hábitos motores adequados e uma boa ergonomia corporal, favorecendo o crescimento sadio do sistema músculo – esquelético prevenindo deformidades e incapacidades funcionais decorrentes da má postura. Contudo, não alcança um maior grau de percepção corporal, o que limita o seu esquema e consciência corporal.
Segundo GONÇAVEZ (2005), a importância do movimento dentro dos aspectos corpóreos da criança com paralisia cerebral, ganha força à medida que o alinhamento da postura possibilita as articulações e vísceras uma boa saúde, suprimindo o sentido da dor e buscando agora o prazer e o conforto do próprio corpo.
Pensar em hábitos motores diários que favoreçam a construção do esquema e da consciência corporal reflete uma nova preocupação com a condição corpórea da criança, que passa a ser entendida como um processo de aprendizagem atrelado diretamente aos aspectos cognitivos.
COSTA (2001) acredita que a incapacidade motora, logo no início da vida, pode vir a trazer atrasos para o desenvolvimento cognitivo. A experiência motora possibilita a criança criar não apenas a imagem do movimento em sua consciência corporal, como também lhe dá a abertura para explorar novos espaços. Esta conquista motora prepara a criança para a vida operacional do raciocínio lógico.

MATERIAL E MÉTODO.

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A pesquisa tem caráter qualitativo ressaltando os aspectos educacionais da singularidade presente no desenvolvimento motor da criança com paralisia cerebral. Desta forma, realizaremos uma investigação empírica, uma observação a campo e uma revisão bibliográfica.
O projeto buscou caminhos que trouxessem um conhecimento amplo sobre a paralisia cerebral, redimensionando a sua condição corpórea. Para tal alcance alguns passos foram dados no sentido de detalharmos as alterações neurológicas da postura, e suas principais implicações no desenvolvimento neuro psico motor da criança.

Procedimentos:
1ª. Fase – Levantamento bibliográfico:
Realizar uma revisão da literatura, buscando os diferentes olhares sobre a paralisia cerebral. Neste momento entendemos a necessidade de compreender diferentes temas como: Aspectos filosóficos do corpo; a história da deficiência; corporeidade; incapacidades motoras da paralisia cerebral; aspectos educacionais da criança com paralisia cerebral; parâmetros curriculares; propostas alternativas de educação motora; a importância do desenvolvimento sensório motor da criança PC.
2ª. Fase – Pesquisa de Campo
Pesquisa empírica: Estudos a campo revelaram detalhes sobre a compreensão do corpo dentro do ambiente escolar. Estudamos crianças na faixa etária correspondente à idade pré-escolar, 3 – 6 anos, e portadoras de paralisia cerebral, com grau moderado e grave. Investigamos uma escola pública que oferece quatro salas especiais. O trabalho teve a duração de um ano, com duas visitas semanais, totalizando 80 visitas. O pesquisador atuou como um observador da motricidade a partir dos trabalhos pedagógicos, de caráter motor, realizados em sala de aula.
Observações do pesquisador em campo: desenvolvimento da postura da criança ao longo do dia; dificuldades do professor no manuseio da criança com PC; espaços explorados dentro da escola pela criança; acessos para portadores de deficiência e recursos apropriados para adaptações funcionais; desenvolvimento da motricidade durante as atividades de sala de aula; independência para as atividades de vida diária e o treino das mesmas;
3ª. Fase – Coleta e Análise dos Dados:
Uma transcrição referente a todos os dados obtidos com a observação do pesquisador, os quais foram anotados em um caderno de campo. Diálogos realizados com os professores das salas especiais também foram transcritos para um diário de campo.
4ª. Fase – Análise dos dados:
Feita a partir de uma análise do conteúdo, extraída dos diálogos obtidos com os professores. Esta análise proporcionou redimensionar os aspectos da educação corpórea, através dos dados da literatura e da realidade atual da nossa educação formal e especial, nos aspectos referentes ao desenvolvimento da motricidade. O conjunto dos dados, observação a campo, reconstituiu aspectos equivocados ou ainda mesmo desconhecidos para uma educação motora, a partir de uma visão singular do que vem a ser o desenvolvimento motor da criança com paralisia cerebral.

RESULTADOS.

As observações do pesquisador, feita a campo, puderam constar:
• Dificuldades para locomover as crianças de forma adequada, em decorrência da ausência de recursos ergonômicos necessários em sala de aula.
• Problemas posturais e doenças ocupacionais relatados pelos professores, o que implicava em afastamento.
• A falta de uma formação continuada para os professores da educação especial
• A falta de motivação, dos professores, em decorrência dos pequenos avanços motores e intelectuais obtidos pelos alunos.
• Horários diferenciados para o almoço das crianças da educação especial e da educação regular.
• A entrada para o interior da escola, dos alunos da sala especial é feita pelo portão lateral e não pelo portão principal, onde todos os demais alunos do ensino regular estavam acostumados a chegar ou a sair.
• Poucos recursos destinados à adequação de salas de aulas. Apenas uma sala de aula era destinada para as quatro turmas especiais, sendo duas turmas matutinas e duas turmas vespertinas, assim o pátio era usado quando a outra turma usava a única sala ou quando os alunos da educação regular não estavam no pátio.
Atualmente, podemos dizer que um novo paradigma tenta substituir o imaginário de um corpo nefasto e profano, inspirando novos sentimentos, ressaltando corpo mente e espírito na condição subjetiva do ser, e o corpo passa a ser um elemento a mais de construção e aprendizagem. Contudo, o sistema educacional não oferece condições adequadas para a diversidade humana, e podemos verificar que mesmo sabendo da fundamental importância da aquisição das habilidades motoras, não formaliza uma educação corpórea que possa subsidiar a educação de um corpo deficiente, pois privilegia a educação cognitiva em detrimento da educação corpórea.

DISCUSSÃO.

Na voz da autora e portadora de paralisia cerebral PARISE (2001), a fisioterapia é um trabalho que poderia se estender às escolas, justamente pelo fato de podermos inserir hábitos motores.
Para FRUG (2001), a fragmentação da condição corpo-mente por uma visão mecanicista, deixa seqüelas no sistema educacional. Hoje buscamos reformular conceitos, e o tema corporeidade passa a ter fundamental importância a partir do momento que corpo, mente e alma, passam a ser reintegrados ao sujeito que aprende e se desenvolve.

CONCLUSÃO.

O projeto compreende a condição filosófica do corpo procurando repassar este conhecimento para a estrutura atual de educação, revendo as propostas dos trabalhos pedagógicos na área de motricidade humana e as condições ergonômicas em que os mesmos são realizados. A partir da reconstrução de um paradigma mecanicista, a proposta de uma educação motora revigora os currículos escolares, proporcionando, principalmente a criança com paralisia cerebral interligar a sua condição corpórea ao seu desenvolvimento cognitivo. O conteúdo curricular do ensino especial levanta pontos específicos do trabalho pedagógico, voltado para o desenvolvimento da motricidade da criança com paralisia cerebral, mas descontextualiza uma realidade especifica para com a deficiência física e motora.

REFERÊNCIAS

COSTA, Auredite Cardoso. Psicopedagogia e Psicomotricidade. Pontos de intersecção nas dificuldades de aprendizagem. Petrópolis, R.J: Vozes, 2001.

FRUG, C. S. Educação motora em portadores de deficiência: formação da consciência corporal. São Paulo: Plexus, 2001.

GONÇALVES, Maria Augusta S. Sentir, pensar, agir: corporeidade e educação. 8ª. ed. Campinas. SP: Papirus, 2005.

FOUCAULT, Michel. História da Loucura. 4ª. ed. São Paulo: Perspectiva, 1995.

KASSAR, Mônica de Carvalho. Deficiência múltipla e educação no Brasil: discurso e silêncio na história de sujeitos. Campinas, SP: Autores associados, 1999.

PARISI, Luciana. Vida ser, ser vida. SP: Makron Books, 2001.

PIAGET, Jean. A Construção do real na criança. 3ª. ed. São Paulo: Ática, 2002.

ROMARIZ, Jaqueline. Paralisia Cerebral: narcisismo e posição subjetiva. Rio de Janeiro: Art Bureau, 1999.

SOUZA, Ângela Maria & FERRARETO, Ivan. Paralisia Cerebral: aspectos práticos. São Paulo: Memnon, 1998.

PATRÍCIA CELIS MURILLIO
RUA BENEDITO BARBOSA 182. BAIRRO: PARQUE RESIDENCIAL VALE DO SOL. ARARAQUARA – SP CEP: 14804072.
Telefone – 16- 33363266
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