Fisioterapia e doenças crônicas.

cronicas

A fisioterapia vem, nas últimas duas décadas, abrangendo cada vez mais áreas clínicas, tanto nas ações primárias da saúde, o que é de fundamental importância, como se solidificando nas ações secundárias e deixando para trás aquela imagem de trinta anos atrás de que a atuação do fisioterapeuta se restringia ao paciente sequelado, crônico ou não, caracterizando os tratamentos com a visão restrita dos centros de reabilitação, realidade assistencial daquele momento bastante inicial da nossa profissão. Acesso a hospital geral era visto como uma novidade pouco provável; por conseguinte, ações preventivas e/ou precoces acabavam por não se realizar.

Esse quadro foi se modificando à medida que o profissional de fisioterapia se tornava mais abrangente, capaz e questionador quanto à ocupação dos seus espaços, lutando por mais autonomia, liberdade e dignidade e, paralelamente, tornando os cursos de graduação mais abrangentes, aprofundados em mais aspectos clínicos, cirúrgicos e da própria biomecânica e cinesioterapia, sempre buscando alicerces científicos que dessem credibilidade e evidências que mostrassem que ser fisioterapeuta deveriam, obrigatoriamente, passar por todos esses estágios e que não éramos, simplesmente, executores de movimentos, o que, infelizmente, ainda ocorre até os dias de hoje. Esse é um aspecto muito amplo e complexo e que foge ao tema da coluna, mas não menos importante de ser debatido aprofundadamente.

Dada essa volta, quero trazer para nossa reflexão exatamente as condições da visão terciária. O Brasil não tem, tradicionalmente, uma política pública e/ou privada de saúde voltada para a prevenção; estamos engatinhando nesse sentido, pois muito há que se fazer para solidificar essa cultura.

Há uma íntima ligação entre as duas posições. Se houver uma cultura maciça voltada para a prevenção, certamente teremos, no futuro, condições de cronicidade menos alarmantes. Por outro lado, com o aumento da expectativa de vida, as morbidades e co-morbidades tornam-se mais evidentes, exatamente por não ter havido uma política de prevenção eficaz de longo prazo. Resultado: uma quantidade crescente de pacientes crônicos se evidencia de forma progressiva nos últimos anos; o que fazer? Se, por um lado, devemos atuar profissionalmente em maior intensidade, evidentemente, não devemos deixar de atuar, também de forma intensa, junto aos quadros cronificados. Não só pela cronicidade, mas, também, para prevenir – mesmo nas doenças crônicas – situações patológicas associadas.

O que parece um paradoxo, na verdade não é; existe uma coerência entre as duas situações e o fisioterapeuta tem participação significativa nas duas frentes. Infelizmente, isso não é percebido pelos próprios profissionais, em larga escala. Percebe-se um interesse imediatista voltado para procedimentos que se tornaram modismo e as situações de cronicidade nem sempre são tratadas com o mesmo empenho. Mas, como citei acima, é uma realidade inquestionável e, se não ocuparmos esse espaço de forma mais definitiva e consistente, muitos outros quadros se mostrarão à frente.

Realizo trabalho voluntário com pacientes reumáticos; quadros crônicos, progressivos ou não, mas com dois pontos comuns a todos: dor e limitação funcional. Quem é o profissional habilitado especificamente para atender essa demanda crescente? Nós, fisioterapeutas. Esse tipo de padecente sofre com a situação crônica de dor e limitação funcional causada pela dor, pelo próprio quadro reumático e retroalimentada pela imobilidade. Onde estão os especialistas para dar suporte a essas pessoas – não somente idosas como erroneamente se supõe? O alívio não é duradouro, mas palpável; com a continuidade da terapia consegue-se uma diminuição acentuada do quadro álgico e melhora da funcionalidade (nós somos os terapeutas da funcionalidade). Mas como dar continuidade se não existem locais em quantidade suficiente, não há profissionais em número relevante e com formação adequada para lidar com essa gama de pessoas ? – não é só calor, frio e movimento de braços – a marcação demora meses para avaliação e tratamento continuado, os locais que oferecem hidroterapia gratuitamente são em número muito reduzido, o tempo de atendimento é pequeno e o período de tratamento também, em função da cronicidade e da necessidade de acesso para outros pacientes, a fila de espera para cirurgias de liberação articular, como a do quadril, atinge dois a quatro anos e por aí vai Poderia enumerar vários outros aspectos que tornam dolorosa e penosa a evolução desses pacientes, em sua maioria, carentes e dependentes da assistência pública federal, estadual e municipal. Atualmente essa assistência é caótica, mas não chama a atenção, não aparece nos jornais e na televisão, não incomoda; então, vamos tocando em frente porque, aos olhos das autoridades da saúde, existem outros problemas de maior envergadura. Sem dúvida, mas pode ser criada uma política de abrangência que divida as frentes de ação para que todos tenham acesso digno aos diversos tipos de tratamento, principalmente à fisioterapia.

Focalizei os pacientes reumáticos de forma mais direcionada, mas não podemos deixar de lado os neuropatas (encefalopatia crônica, parkinsonismo, doenças extra-piramidais etc), pneumopatas (dpoc, asma, mucoviscidose, bronquiectasia etc) e outros. Temos que estar atentos ao fato de que, a situação crônica de hoje que não é bem tratada, com certeza, gerará quadros de gravidade futuramente.

Essa parcela das nossas frentes de atuação é menosprezada pelos próprios profissionais de fisioterapia. Devemos mostrar às autoridades da saúde que essas pessoas existem e que nós somos os profissionais de excelência para tratar desses irmãos tão necessitados. Vamos nos organizar, realizar campanhas de conscientização, pressionar para a realização de concursos públicos, visando resgatar esse contingente significativo e crescente de doentes crônicos. Por mais paradoxal que possa parecer, estaremos prevenindo futuras intercorrências previamente anunciadas.

Até a próxima.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.