Fisioterapeuta tem vida mudada por infecção medular

Paula Pereira Ferrari já trabalhava com deficientes quando tornou-se cadeirante

O ano 2012 marca a interseção na vida de Paula Pereira Ferrari. Nele, a fisioterapeuta que sempre trabalhou com deficiência física contraiu uma infecção medular que comprometeu o movimento das pernas.

Ela, que tinha como ofício estimular seus pacientes a buscarem novas possibilidades com cadeira de rodas, agora, tinha que aplicar toda a teoria em uma prática pessoal.

No papel de cadeirante, passou a enxergar a vida com olhar “mais sincero”. “Hoje consigo dizer com muito mais propriedade aos que cruzam o meu caminho que a deficiência física não é o fim da linha. Ao contrario. Pode ser um belo início”, conta ela, aos 31 anos, em referência à própria jornada.

Além de permanecer com o trabalho de fisioterapia, após perder o movimento das pernas, ela arrumou outros dois empregos. Pela manhã trabalha como representante de venda de produtos para pessoas em cadeiras de roda. À tarde, lida com os pacientes no centro de reabilitação. À noite, participa de um grupo que desenvolve aplicativos eletrônicos para facilitar a vida de quem é deficiente físico. Nesta rotina ainda sobra fôlego para ser modelo.

“Senti a necessidade de mostrar aos meus amigos e familiares uma outra face da minha condição. E trabalhar com beleza foi uma forma de dizer que, sim, estava tudo bem comigo”, conta.
Paula:
“.A cadeira de rodas me deu a liberdade para fazer o que me dá prazer”

O início

Paula, nascida e criada na capital paulista, escolheu a fisioterapia como vocação porque sempre admirou o leque de possibilidades aberto com a reabilitação. Em 2009, formada, se especializou no atendimento de crianças e começou a perceber que uma das sequelas mais nefastas entre seus pacientes era a sensação de “caminho interrompido” que eles vivenciavam. “A autoestima também era uma questão muito comprometida e havia também uma exclusão sobre a vida profissional, amorosa e sobre a sexualidade”, pontua.

Foi neste tempo que Paula conheceu a fotógrafa Kica de Castro. “Fui chefe do setor de fotografias em um centro de reabilitação. O foco eram imagens cientificas, para artigos e prontuários médicos. As pessoas quando entravam no setor estavam sempre de cabeça baixa, olhar melancólico e, algumas vezes, em lágrimas. Vendo essa situação, resolvi quebrar o gelo, transformando o local em um estúdio fotográfico. Deu tão certo que, em 2007, montei uma agência exclusiva para modelos com deficiência”, rememora a fotógrafa.

O encontro entre Kica e Paula foi o início da primeira parceria. A fisioterapeuta fazendo palestras e um trabalho de resgate da autoestima de seus pacientes. Kica, enquadrando a beleza e o amor próprio que eles acreditavam que haviam deixado pelo caminho.

Tudo caminhava quando, em 2012, a união das duas profissionais foi revisitada. Agora, era Paula que precisava deste resgate. “Fiz uma cirurgia para a retirada de um mioma uterino e contrai uma infecção na medula. As sequelas foram inevitáveis. Hoje, preciso usar cadeira de rodas em 80% do meu dia”, explica. “O conhecimento técnico que eu tinha ‘matou’ um pouco da esperança de que eu poderia reverter aquele quadro. Porém, ao mesmo tempo, a experiência com tantos pacientes me estimulava. Eu sabia que tinha um mundo de possibilidades pela frente”, avalia a fisioterapeuta.

A cura

Assim que foi possível, Paula voltou a atender no centro de reabilitação. E recebeu um convite de Kica para, ela própria, ser modelo da agência.
Fisioterapeuta Paula Pereira Ferrari é fotografada por Kica de Castro

Paula segue sua jornada, ainda mais assoberbada do que antes e com mais “propriedade para falar sobre deficiência”. Agora, tem a vivência para, sem titubeios, disseminar o que é a cura.

“Estar curada é poder escolher as coisas que te fazem bem. A cadeira de rodas me deu a liberdade para fazer o que me dá prazer. Estar curada é ter a certeza de que você pode ser feliz.”

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