FisioPerfil | Dr. José da Rocha

Qual ano e em qual faculdade que se formou ou estuda?

Escola de Reabilitação do Rio de JANEIRO-ERRJ/ABBR-turma de 1976

O que fez, faz ou fará na fisioterapia? 

Nesses 42 anos de profissão passei por todas as áreas de atuação que existiam na época, pois era possível a formação generalista, atuando na saúde pública, privada, atendimento domiciliar, em consultório, atividade acadêmica, gerencial, participação intensa de congressos vários, atuação no Crefito 2. Criador junto a outros colegas da época da fisioterapia respiratória no Rio de Janeiro, ministração de cursos de extensão e de aprimoramento ligados à fisioterapia respiratória e terapia intensiva

Qual foi a melhor coisa que fez na vida? 

Ser aprovado em concurso público para fisioterapeuta intensivista plantonista em hospital público de referência, abrindo uma porta importa para a implantação da fisioterapia 24hs nos hospitais, principal reivindicação nossa naquela época (1990)

Qual foi a pior coisa que fez na vida? 

Ter aberto mão de atuar em consultório de fisioterapia respiratória junto a um pneumologista que muito me apoiou e valorizava a nossa atuação e autonomia.

O que você mais gosta na profissão?

Difícil dizer, pois amo muito todas as atuações no processo reabilitacional.

O que você odeia na profissão?

A falta de comprometimento, de ética e da união da categoria.

Que qualidade mais admira nos profissionais que te cercam?

Há muitos profissionais de excelência com os quais tive a honra de atuar em diversas frentes e ocasiões diferentes, todos de extrema competência, seriedade e propostas relevantes de crescimento.

Que qualidade mais detesta nos profissionais que te cercam?

A traição que sofri em várias situações profissionais.

Qual sua maior virtude?

Lealdade.

Qual seu pior defeito?

Procrastinação.

Se pudesse mudar algo, o que seria?

Em relação à profissão: abrir espaço para os fisioterapeutas em todos os setores da saúde pública federal, estadual e municipal de todo o Brasil, desde as unidades ambulatoriais até os setores fechados de alta complexidade, urgência e emergência. Diminuir a relação de Fisioterapeutas nas UTIs de 1 para cada 5 leitos e não mais 1:10, pois isso é utópico.

Em relação ao país: ajudar a combater a fome e a miséria que atinge milhões de brasileiros sem que nada se faça de efetivo e duradouro. Me sinto culpado por não participar ativamente de algum movimento de ação e conscientização, sem demagogia.

Qual maior mentira já contou?

Tenho total aversão a mentira, mas quando criança escondi algumas vezes o boletim com notas baixas em matemática.

Qual fato foi mais inusitado em sua carreira?

Houveram muitos fatos inusitados, mas, entre eles, o caso de um paciente que fez um pneumotórax hipertensivo durante um atendimento domiciliar e bradicardizou, chegando a parar e eu consegui reverter o quadro sozinho, pois não havia tempo para solicitar auxílio.

As recuperações milagrosas de dois pacientes jovens que sofreram TCE grave.

Ter sido agraciado com o título de doutor Honoris Causa pela Sociedade Brasileira de Terapia Intensiva (SOBRATI).

Qual fato foi o mais cômico?

No último ano da faculdade estagiávamos no hospital da ABBR. Um colega pegou uma prótese de membro inferior com sapato, colocou em um forno de Bier e cobriu com um cobertor. Passou pela auxiliar de fisioterapia e informou a ela que o paciente estava com as pernas frias e parecia estar sem vida. A moça, que nem atinou que não tinha colocado ninguém no forno, ao tocar a “perna” ficou apavorada e correr a pedir socorro. Juntou gente. Ao descobrir o forno e constatar que era uma prótese, ficou muito brava e quase teve uma síncope. A gozação foi geral.

Qual seu maior arrependimento?

Quando fui trabalhar em um hospital público como contratado, o fisiatra chefe do serviço queria que os fisioterapeutas fizessem massagem nos pacientes, sendo que existiam massagistas para esse procedimento. Era recém formado e inexperiente; contra argumentei e bati de frente com ele. Em função disso, pedi demissão. Se tivesse mais maturidade, teria agido de maneira bem diferente. Anos depois, voltei ao mesmo hospital, mas, dessa vez, como concursado.

Qual dica daria aos colegas?

Humildade, estudo permanente para conquista de espaço pela competência, conhecimento e ética; não aceitar o aviltamento da profissão por outras categorias ou fatores externos; não explorar estagiários; socializar conhecimento; participar de todos os movimentos em prol do crescimento da categoria; perceber os outros profissionais da saúde como parceiros; vestir literalmente a camisa da fisioterapia com orgulho, respeito e amor pelo paciente.

Qual objeto de desejo?

Implantar cursos online para alunos e profissionais que não possam se deslocar e para aqueles que não podem ter gastos excessivos. Atualização e aprimoramento são fundamentais. Quando falo em curso online, não é um curso de 6 horas, mas, sim, um curso de abrangência, qualidade e bom material didático. Para conseguir isso, preciso de uma parceria com bom conhecimento de informática, o qual não possuo. Vou conseguir.

Qual sua aquisição mais recente?

Voltei a ministrar cursos como fazia há alguns anos e reiniciei com um curso teórico-prático de Espirometria, o qual pretendo disseminar pelo país, contribuindo para abrir essa fatia de mercado que o fisioterapeuta ainda não percebeu como uma oportunidade importante para sedimentar a autonomia dessa prática pela categoria.

Qual seu maior sonho?

Em relação à fisioterapia: o reconhecimento da relevância, dignidade, respeitabilidade e credibilidade da fisioterapia pelas autoridades de saúde, pelas demais categorias da saúde e pela sociedade brasileira, cada vez mais necessitada dos nossos serviços.

Em relação ao país: ainda poder ver justiça social, educação e saúde de qualidade ao alcance de toda a população.

Qual seu maior pesadelo?

Perceber que a categoria, em âmbito nacional, salvo honrosas e não poucas exceções, está permitindo o aniquilamento da profissão e nada se fazendo a respeito de forma efetiva. Alerto para isso há mais de dez anos, mas não consegui sensibilizar a classe nas várias tentativas que fiz. Se não nos unirmos em prol do bem comum e não nos fortalecermos eticamente, o futuro é bastante preocupante.

Que talento mais gostaria de ter?

Musical. Amo música, mas não sei tocar nenhum instrumento.

Se não fosse fisioterapeuta gostaria de ser o que?

Na época do científico e clássico pensei muito em fazer História e Filosofia, mas a ditadura e o AI5 me desencorajaram, pois a perseguição às ciências do pensamento era intensa e elas foram retiradas dos currículos. Infelizmente, o cerceamento ao livre pensar continua, pois não interessa às classes dominantes que o povo pense.

E qual profissão jamais queria ter?

Qualquer coisa ligada à números e cálculos; minha atração é pelo Homem seus valores e cultura.

Diga uma frase para por em nossa seção de frases.

“Ninguém vai bater mais forte do que a vida. Não importa como você vai bater e sim o quanto aguenta apanhar e continuar lutando; o quanto pode suportar e seguir em frente. É assim que se ganha. “

Diga um desafio?

Termos uma matriz curricular única para todos os cursos de graduação em fisioterapia do país, com abrangência generalista, respeitando as particularidades regionais específicas. Se um aluno necessitar mudar de instituição, não pode voltar atrás vários períodos em função da não equivalência dos currículos. O profissional que se graduou em Santa Catarina pode fazer um concurso no Amazonas, sabendo que tem as mesmas chances porque as matrizes são as mesmas. Enquanto tivermos essas discrepâncias acontecendo, não teremos uma graduação forte e efetiva.

Um livro?

Há muita coisa boa para ser lida e relida; é o caso dos livros de Herman Hesse, Fritjof Capra e Deepack Chopra, entre outros.
Em relação à fisioterapia também temos ótimas referências, principalmente da escola inglesa, francesa e australiana.

Quer fazer alguma divulgação?

Como citei acima, quero disseminar a prática embasada da Espirometria pelos fisioterapeutas. Tenho um curso agendado nos dias 21 e 22 de julho no Rio de Janeiro e outro em 07 e 08 de setembro em Manaus. A conscientização é muito importante, mas ainda estamos com baixa resposta. Quem tiver interesse para outras regiões do país, pode entrar em contato com a FisioBúzios. O curso é teórico-prático e é direcionado a profissionais e acadêmicos dos três últimos períodos.

Dias 21 e 22 de julho no Rio de Janeiro – Curso Teórico-Prático de Espirometria.
Dias 07 e 08 de setembro em Manaus – Curso Teórico-Prático de Espirometria.
Dias 15 e 16 e 21, 22 e 23 de setembro no Rio de Janeiro – Fisioterapia Respiratória p/ o Paciente Não Crítico

Para qual colega você tira o chapéu e porque?

Todos nós temos uma referência, um exemplo a seguir. A minha foi o saudoso Edgar Meirelles; uma referência enquanto professor, com uma visão adiante do seu tempo. Nos levava a pensar e avaliar o paciente como um todo, possuía grande cultura geral, fisioterapêutica e médica. Elegante e polêmico, foi um dos primeiros fisioterapeutas do Rio de Janeiro a atuar em hospital e foi muito criticado pelo pensamento retrógrado de alguns colegas da época, pois a fisioterapia só atuava na atenção terciária da saúde. Essa “ousadia” permitiu que a Fisioterapia desse um salto e eu tive a honra de participar desse momento em 1975. Foi um dos pioneiros na implantação da fisioterapia respiratória juntamente com nomes importantes como: Carlos Azeredo, Hélio Pio e eu também participei juntamente com o querido amigo Farley Campos.

joserochacunha62@gmail.com

Revista NovaFisio | Ano XXII – Nº 102 – julho de 2018
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