Falando de vertigens…

O cérebro é um estimulador de ações, mas para a pessoa ficar em pé, correr, dançar ou praticar esportes com um bom equilíbrio postural, é necessário que as informações que chegam até o cérebro sejam coerentes e concordantes.
Conflitos entre essas informações podem levar à ocorrência de vertigens.

O cérebro é um estimulador de ações, um gerador de hipóteses. Como explica o neurofisiologista francês Alain Berthoz, o cérebro antecipa as consequências de nossas ações, em função de  memórias do passado. Segundo essa teoria, nós temos um modelo interno (cortical), formado por nossas experiências da infância e do dia a dia. Os trabalhos mais recentes sobre esse modelo cognitivista confirmam que já nascemos com 50% do modelo e que a outra metade é adquirida ao longo da vida. Quanto mais intensas forem as estimulações sensoriais, por meio de experiências diversificadas, mais rico será o modelo interno. 

Por exemplo, para tornar-se um campeão, um atleta precisa desenvolver sistematicamente o seu modelo interno. O treinamento intensivo tornará mais eficaz o seu desempenho.

O cérebro e o equilíbrio

Nosso cérebro recebe informações o tempo todo, vindas dos sistemas sensoriais periféricos – visão, propriocepção (percepção do corpo) e sistema vestibular. Ele as recebe, analisa, ajusta, compara, inibe e, em tempo real, ajusta a postura e o movimento desejados, gerando, segundo Alain Berthoz, o sentido do movimento, o chamado “sexto sentido”.

A descoberta de neurônios que codificam a posição e a amplitude dos deslocamentos do rato no espaço constitui as premissas do conhecimento do nosso sistema de navegação interna (Prêmio Nobel de Medicina 2014).

Mas, para que tudo isso aconteça de modo inconsciente, para a pessoa ficar em pé, correr, dançar, praticar esportes com um bom equilíbrio postural, é necessário que essas informações que chegam até o cérebro sejam coerentes e concordantes. Se houver discordância de informações entre os sistemas envolvidos nas ações da pessoa, surgirá um conflito sensorial. E a solução que o cérebro encontra para resolver esse conflito é o surgimento dos seguintes sintomas: vertigens, tonteira, desequilíbrio ou mesmo quedas, associados a reações neurovegetativas como sudorese, enjoo, vômitos e, às vezes, diarreia.

 

“Vertigem é uma ilusão de movimento.”

 

Como acontece…

Dentro da orelha interna, existem cinco captadores sensoriais que medem a aceleração angular (movimentos da cabeça para a direita ou esquerda) e linear (de cima para baixo).

Entre esses captadores, os utrículos têm função de destaque. São eles que levam a pessoa a vencer a força da gravidade, mantendo-se de pé. As células sensoriais utriculares são cobertas por uma camada de gelatina, onde estão alojados cristais de carbonato de cálcio, chamados otólitos. Os otólitos podem-se descolar, por vários motivos, da camada de gelatina e se alojarem em outros captadores, criando a patologia VPPB, que se manifesta sobretudo à noite, quando a pessoa se deita.

Por causa dos cristais, o cérebro recebe uma informação incongruente com a habitual e, como resposta, gera o nistagmo (movimento de vai e vem do olho). É o nistagmo que dá a sensação de que tudo está girando, com reações neurovegetativas como enjoo, sudorese, náuseas e vômitos.

Um bom exemplo para ilustrar essa vertigem é compará-la com os cabelos. A cabeleira não faz mal à cabeça, mas se o cabelo cai sobre o olho, pode causar desarmonia.

É isto que acontece com os otólitos – ao se alojarem nos captadores sensoriais, eles necessitam ser retirados e transferidos para seu lugar de origem, os utrículos. Não existe tratamento medicamentoso para essa afecção, ela é curada somente pelo procedimento fisioterápico conhecido como Manobra Liberatória de Semont ou pela técnica de reposicionamento de Epley. Mas essas manobras somente serão eficazes se for comprovado, por meio do exame no videonistagmoscópio (VNS), que se trata realmente de uma VPPB.

Histórico da VPPB

A Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB), com segundos de duração, é uma afecção mecânica, e não uma lesão da orelha interna. Ou seja, não existem sinais espontâneos, e se eles estão presentes, não é VPPB.

Os primeiros estudos referentes à VPPB remontam ao final do século XIX. O tema foi muito pesquisado ao longo do século XX. Em 1980, o fisioterapeuta francês Alain Semont, um dos principais pesquisadores do equilíbrio, descobre o tratamento dessa afecção, a Manobra Liberatória. Esse ato terapêutico, capaz de deixar o paciente assintomático e curado com uma única manobra, é simples e é praticado no meio médico em todo o mundo, mas exige conhecimento, formação adequada e o aparelho de videonistagmoscopia. Esse aparelho comprova a presença do nistagmo, que
é característico da VPPB.

Alain Semont é o responsável por demonstrar que as causas e os tratamentos não podem ser os mesmos para os diferentes tipos de vertigens. Após a descoberta de Semont, o médico norte-americano Epley modificou a manobra, vinculando-a ao seu nome. Hoje são praticadas tanto a manobra de Semont como a de Epley, ambas com resultados de 90% a 100% de eficácia.

Devemos estar cientes de que nem tudo que gira quando nos deitamos é uma VPPB (cristais) e exige a realização dessa manobra. Existem ainda, entre outras: vertigem de posição, desencadeada pela mudança de posição da cabeça ou do corpo, quando a pessoa está deitada, e que persiste enquanto essa posição for mantida; vertigem de posicionamento, também provocada pelo movimento da cabeça ou do corpo, de rápida duração, mesmo que a pessoa mantenha a nova posição; e vertigem cinética, que surge no decorrer do movimento da cabeça ou do corpo, quando a pessoa se desloca para desenvolver as atividades do dia a dia.

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