ESTUDO EPIDEMIOLÓGICO DO SETOR DE CARDIOLOGIA E PNEUMOLOGIA DA CLÍNICA ESCOLA DE FISIOTERAPIA DA UNIVERSIDADE DE CUIABÁ ENTRE OS ANOS 2002 A 2007

Epidemiological study of the sector of cardiology and pulmonology of Physical Therapy Clinic of the University of Cuiabá between the years 2002 to 2007

Carla Dente1
Lorena Filipim Souza1
Marcos Adriano Salício2
1Acadêmicas de Graduação de Fisioterapia da Universidade de Cuiabá
2Professor Mestre Orientador da Clínica de Fisioterapia da Universidade de Cuiabá
Resumo

A epidemiologia pode se identificar como a única disciplina capaz de dar racionalidade ao funcionamento dos serviços de saúde, por isso procura-se introduzi-la cada vez mais aos profissionais que aí atuam. Entre os desafios da epidemiologia estão o estudo das desigualdades em saúde, o desenvolvimento de pensamento sobre ambiente, qualidade de vida, conceito e medidas de saúde. Foi realizado um estudo retrospectivo epidemiológico sobre as patologias da Clínica de Fisioterapia da Universidade de Cuiabá, no setor de cardiologia e pneumologia entre os anos de 2002 a 2007, visando um parâmetro das patologias mais freqüentes, a média de idade dos pacientes atendidos e a prevalência do sexo, com finalidade de conhecer e propor ações direcionadas, mais precisas às necessidades melhorando as condições do atendimento aos pacientes, bem como a ampliação da fonte de pesquisa para este tipo de estudo. Para isto foi realizado um levantamento de dados obtidos dos prontuários dos pacientes atendidos na Clínica Escola de Fisioterapia da Universidade de Cuiabá presentes no arquivo geral entre os anos de 2002 a 2007, sendo excluídos prontuários que não continham dados como diagnóstico clínico, sexo e idade. As patologias foram ainda divididas em categorias: respiratória, neurológica, cardíaca e associadas/ outros. Apos o levantamento dos dados, os mesmos foram tabulados, e analisados para determinação dos resultados apresentados em forma de gráficos, para posterior análise estatística.

Palavras chaves: Epidemiologia, Clínica, fisioterapia, saúde coletiva.

Abstract

Epidemiology can be identified as the only discipline capable of rationality in the functioning of health services, so we seek to introduce it increasingly to professionals who act. Among the challenges of epidemiology is the study of inequalities in health, the development of thinking about the environment, quality of life concept and measures of health. We conducted a retrospective epidemiological study of the pathology of Clinical Physical Therapy at the University of Cuiabá, in the field of cardiology and respiratory medicine in the years 2002 to 2007, targeting a parameter of the most frequent pathologies, the average age of patients served and the prevalence of sex with a purpose to meet and propose actions that target more specific needs by improving the conditions of patient care and expanding the resource for this type of study. For this was a survey of data from the charts of patients seen at the School of Physiotherapy, University of Cuiabá present in the general between the years 2002 to 2007 were excluded records that contained data such as clinical diagnosis, sex and age. The heart diseases were further divided into categories: respiratory, neurological, cardiac and associated / other. After the survey data, they were tabulated and analyzed to determine the results presented in graph form, for statistical analysis.

Keywords: Epidemiology, Clinic, physiotherapy, health.

Introdução

Com o surgimento durante o século passado, a epidemiologia tinha um objetivo eminentemente pragmático: fornecer subsídios para as ações de saúde pública. No entanto a revolução industrial fez surgir na Europa um contexto sanitário diferente, onde se concentravam grandes massas nos centros urbanos, que se expandiam rapidamente, trabalhando e vivendo em condições precárias, fazendo surgir a saúde pública nos moldes que a conhecemos. As condições de saúde da população estavam longe do ideal, e a intervenção estatal havia se limitado quase que exclusivamente as epidemias. Visto isso, relatórios sobre as más condições de vida e saúde da massa trabalhadora foram sendo publicados, e ao mesmo tempo movimentos reivindicatórios socialistas foram surgindo. A partir daí surgiram interpretações alternativas do processo saúde-doença em que Chadwick 1970 aponta a doença como resultante de inadequações na estrutura urbana que poderiam ser corrigidas através de adequada legislação sanitária, e Engels 1975 vê a doença como resultante da contradição fundamental do capitalismo, que só se corrigiria com a mudança do modo de produção vigente1.
John Snow 1967, relata em seus estudos os casos de cólera em Londres no Século XIX, exemplificando fundamentos filosóficos da epidemiologia e analisando separadamente as características de tempo, lugar e pessoa, isolando um a um os fatores intervenientes, comparando as características e locais das pessoas afetadas pelas epidemias de cólera. Sendo assim Snow inaugura o método epidemiológico ao estudo dos determinantes da ocorrência e distribuição das doenças1.
A Segunda Guerra Mundial trouxe algumas alterações importantes ao panorama da saúde pública. De um lado reforçando a fé na universalidade das doenças, principalmente graças aos avanços da biologia, e por outro lado algumas questões sobre o acomodamento teórico desta crença através de um contato maior com um mundo subdesenvolvido, evidenciando características regionais de uma mesma doença. Os sucessos da moderna tecnologia da saúde pública durante e após a guerra, a diminuição da incidência das doenças sexualmente transmissíveis, controle da malária na Europa e o controle de epidemias, abriu a era dos pacotes epidemiológicos para controle das doenças .
Entre os desafios da epidemiologia estão o estudo das desigualdades em saúde, o desenvolvimento de pensamento sobre ambiente, qualidade de vida, conceito e medidas de saúde2. Ela epidemiologia pode se identificar como a única disciplina capaz de dar racionalidade ao funcionamento dos serviços de saúde, por isso procura-se introduzi-la cada vez mais aos profissionais que aí atuam. Ao longo do caminho a epidemiologia tentou várias vias de acesso a saúde pública, em cada uma delas sempre conseguiu avanços. Bem ou mal, a epidemiologia, o planejamento, a investigação, não resolveram a situação, mas implantaram-se nos serviços e sistemas de saúde .
Nos últimos anos a epidemiologia vem crescendo e ao mesmo tempo sofrendo questionamentos acerca de suas bases epistemológicas, isto é, seus pressupostos teórico-filosóficos, sua metodologia científica, suas técnicas de investigação, entre outras. O objetivo epidemiológico está longe de ser aprendido por intermédio de qualidades essenciais, já que cada fenômeno epidemiológico tem seu significado determinado pelas condições objetivas de sua apreensão, e só nessas condições adquire objetividade . Os êxitos positivos e negativos da epidemiologia são muitos, por um lado expandiu-se enormemente a capacidade de conhecimento e transformação produtiva do espaço público da saúde, que aproximações metafísicas de diversas naturezas deixaram por longo tempo fora do alcance de uma intervenção mais positiva .
Visando proporcionar um parâmetro sobre as reais situações da saúde no Brasil, estão sendo implantados cada vez mais programas nacionais e linhas de financiamento em áreas de interesses estratégicos. A partir do aumento do estudo na área da epidemiologia, as publicações da área de saúde coletiva foram divididas em biomedicina, clínica e saúde coletiva, já que assim procedendo, se ampliam às chances de se tomar decisões mais efetivas, trazendo maiores benefícios à saúde da população, com menos custos econômicos ou sociais. No âmbito clínico o estudo epidemiológico faz-se importante para que a partir dos dados coletados possam ser feitos investimentos nos setores mais necessitados e utilizados5.
A Clínica de Fisioterapia da Universidade de Cuiabá, fundada em 1992, é responsável por atender pacientes para tratamento fisioterápico em diversos setores como: neurologia, neuropediatria, cardiologia e pneumologia, ortopedia e traumatologia, ginecologia e obstetrícia. Pela clínica passam em média cem pacientes por dia, sendo atendidos pelos estagiários do quarto ano de fisioterapia da Universidade de Cuiabá, supervisionados pelos professores responsáveis de cada setor. Neste artigo foi realizado um estudo retrospectivo epidemiológico sobre as patologias da Clínica de Fisioterapia da Universidade de Cuiabá, no setor de cardiologia e pneumologia entre os anos de 2002 a 2007, com objetivo de obter a prevalência das patologias atendidas no setor, do sexo e a média de idade dos pacientes, tendo como finalidade conhecer e propor ações direcionadas, mais precisas às necessidades para melhorar as condições do atendimento aos pacientes, bem como a ampliação da fonte de pesquisa para este tipo de estudo.

Materiais e Métodos

O desenvolvimento do trabalho foi realizado por meio do levantamento de dados obtidos dos prontuários dos pacientes atendidos na Clínica Escola de Fisioterapia da Universidade de Cuiabá presentes no arquivo geral entre os anos de 2002 a 2007. A utilização dos dados a partir de 2002 deve-se a falta de informações sobre as doenças nos prontuários anteriores a este período, durante o período pesquisado foram encontrados problemas relacionados com os dados necessários para o estudo. Foram excluídos deste estudo todos os pacientes cujos prontuários não continham patologias, tempo de tratamento, sexo e idade.
Para melhor analise, as patologias foram divididas em categorias: respiratória, neurológica, cardíaca e associadas/outros (que referem-se a mais de uma categoria de patologia para o mesmo paciente ou outra doença não categorizada.). Após o levantamento dos dados, os mesmos foram tabulados, em uma planilha de Microsoft Office Excel 2003, e analisados, no programa Epi Info 3.3.2 versão 2005, para determinação dos resultados apresentados em forma de gráficos, para posterior análise estatística. O estudo teve inicio após aprovação previa do projeto pelo Comitê de Ética, sob número de registro 002/CEP/UNIC/2009 – protocolo n° 0307-337.

Resultados

Durante a análise dos dados, observou-se que no setor avaliado foram encontradas patologias respiratórias, cardíacas, neurológicas e associados/ outros. . Quando foram verificados os anos relativos de 2002 á 2006 observou-se que a patologia de maior prevalência foram as respiratórias, porém, ao analisar os achados de 2007, as patologias associadas/ outros (60%), foram as mais prevalentes como mostra a tabela 1.0 e o gráfico 2.0.
Todos os anos observados demonstram que o sexo masculino prevaleceu em tratamento como mostra a tabela 2.0 e o gráfico 2.0. A maior média de idade correspondeu aos anos de 2007, com idade de 49,2 (+/- 26,22), e o ano em que a média de idade foi menor correspondeu a 2006 com 32,4 (+/-. 27,97), como mostra a tabela 3.0.
Na média geral as patologias prevaleceram na área respiratória, com 60,2%, o sexo mais acometido foi o masculino, com 57,5%, e a faixa etária ficou entre os 37 anos de idade.


Discussão

O desenvolvimento da epidemiologia clínica como uma ciência básica para a pesquisa vem abrindo grandes clarões no caminho do desenvolvimento científico, que poderão levar a uma nova era da evolução da saúde5. Segundo os achados literários a definição de caso fornecida pela clínica e o instrumental técnico de análise da bioestatística, deram as bases necessárias para se caracterizar o estudo epidemiológico como disciplina científica , como pode ser visto neste trabalho.
A ascensão da mortalidade por doenças respiratórias, que mostrou ser a mais freqüente nos casos deste estudo, fortaleceu o paradigma do risco na pesquisa epidemiológica6. Cada fato pode ser analisado e potencialmente medido, sendo então confrontado a um conjunto ou incluído numa série de acontecimentos. As idéias de normal e patológico adquirem conotações quantitativas mais do que qualitativas7.
Esse novo saber não nasce livre de contradições. Por um lado, ele é um saber que se refere a fenômenos patológicos que se expressam através de sintomas e sinais possíveis de serem captados pelo método de investigação clínica; de outro, é um saber que se refere à contagem de “casos clínicos” a partir dos quais vão se estabelecer as relações probabilísticas entre sinais e sintomas de um lado e significados ou diagnósticos, de outro7. Seja qual for a forma, é necessário que o estudo seja preciso, de fontes de arquivos seguros e muito bem organizados, para que, neste contexto, a epidemiologia possa desempenhar um de seus possíveis papéis: subsidiar a epidemiologia clínica em sua tarefa ideológica destinando-se a uma tarefa auxiliar de aprimoramento metodológico. A falta de organização coloca a disciplina em situação incômoda não apenas no interior da própria comunidade científica, mas principalmente na arena política da sociedade. Foram encontradas dificuldades para realização deste trabalho, já que parte dos prontuários não estavam presentes nos arquivos ou continham dados incompletos. Sendo assim para melhor desempenho dos estudos e para obter resultados mais fidedignos devem ser implementados modelos de arquivos e prontuários adequados para analisar e melhorar o entendimento sobre os eventos patológicos e suas causas, afinal quanto mais individual, mais eficaz será a utilização do estudo epidemiológico para a melhora e qualidade de vida da população estudada, sendo que cada fator saúde-doença é diferente dependendo da situação e nível de vida de cada cidadão, auxiliando a compreensão de problemas e métodos para avaliar a qualidade da informação gerada nos serviços de saúde6.
Os dados revelaram a média de prevalência das patologias que se mostrou alta na parte respiratória, com 60,2 %. E o sexo mais acometido foi o masculino com média de 57,5%, corroborando com outros estudos que nos mostram que doenças respiratórias como enfisema pulmonar, bronquite e asma, são mais freqüentes em homens(9,10). A média de faixa etária ter ficado entre os 37 anos não deixa claro qual a prevalência de idade para cada patologia, mas mostra que há um comprometimento homogêneo de uma classe populacional jovem, economicamente ativa, e que consequentemente trará alto custo aos cofres públicos, pois segundo a literatura doenças respiratórias levam a uma significante incapacidade funcional, perda de produtividade e piora da qualidade de vida, que se agravam substancialmente com a progressão de doenças8, além de confrontar o conceito de que doenças respiratórias são mais comuns somente em crianças ou pessoas mais velhas e idosas, tendo em vista as mudanças demográficas, as melhorias na assistência à saúde e o aumento da renda, que faz com que o peso das doenças transmissíveis tende a diminuir, enquanto o peso das doenças respiratórias crônicas tende a piorar devido ao fumo e ao envelhecimento da população(11, 12) .
Traçar estratégias de intervenção com base nessas informações mostra-se tarefa difícil, de impacto geralmente discutível, principalmente quando não há um acervo de arquivos que contenham dados que tornem este tipo de estudo possível e fidedigno, por estes e outros motivos a literatura fala sobre a incapacidade que têm demonstrado os epidemiologistas para construir modelos de explicação causal convincentes6.

Conclusão

Através deste trabalho concluímos que, doenças respiratórias em atendimento na clinica escola de fisioterapia estão em ascensão, demonstrando um possível aumento na busca de tratamento das pessoas comprometidas com estas patologias. Entre outros achados, os resultados demonstraram que nesta população analisada, o comprometimento não foi apenas de crianças ou pessoas mais velhas, mas também parte de uma população jovem e em pleno auge de suas atividades. O predomínio de ocorrência das doenças foi em indivíduos do sexo masculino, conforme demonstrado em muitos achados da literatura cientifica.
Além disso concluímos que antes que qualquer outro novo modelo seja empregado é necessário que seja feita a conscientização, tanto de quem escreve, quanto de quem cuida dos prontuários e arquivos, deixando clara a importância deste tipo de documento para a epidemiologia e como isto pode ser útil para toda população envolvida.
Assim sendo, o estudo epidemiológico, favorece a oportunidade de uma visão ampla, possibilitando maiores investimentos e organização do setor, e até mesmo em políticas de saúde que previnam a piora de quadros agravantes na área da saúde, como a área respiratória, proporcionando também incentivo e credibilidade a melhores e maiores estudos relacionados à clínica epidemiológica.

Referências

1-SILVA, J. Luiz: Considerações acerca dos fundamentos teóricos da explicação em epidemiologia. Revista Saúde Pública, São Paulo, v.19 n.4, agos.1985. Disponível em: . Acesso em 23 out. 2008.

2-PAIM, S. Jairnilson: Epidemiologia e planejamento: a recomposição das práticas epidemiológicas na gestão do SUS.

3-CARVALHEIRO, da Rocha José. A Epidemiologia salvou-se por milagre, mas a Saúde Pública soçobrou. Saúde soc. V.4 n.1-2 São Paulo 1995.

4-AYRES, C.M José Ricardo. Elementos históricos e filosóficos para a crítica de epidemiologia. Revista Saúde Pública. São Paulo, v.27 n.2, abr 1993. Disponível em: . Acesso em 29 out. 2008.

5-FILHO, C. Adauto; SESSO, C. Ricardo; ATALLAH, N. Álvaro. Epidemiologia Clínica: uma ciência básica para o clínico. Sociedade Brasileira de Epidemiologia, vol 15.; n2; junho de 1989.

6-BARATA, R.B. Causality and epidemiology. História, Ciências, Saúde- Manguinhos, IV (1):31-49, Mar – Jun. 1997.

7-BARQUERA, Simon, MENDEZ, R. G. Favio and TOVAR, Víctor. Methodology in the epidemiological research of respiratory diseases and environmentall pollution. Rev Saude Publica 2002; 36 (1):107 – 13.

8-RODRIGUES, Leite Sérgio; VIEGAS, de Assie Carlos Alberto; LIMA, Terezinha. Efetividade da reabilitação pulmonar como tratamento coadjuvante da doença pulmonar obstrutiva crônica. J. Pneumol 28(2)- mar-abr de 2002.

9-TRWIN, Scot; TECKLIN, S. Jan: Fisioterapia Cardiopulmonar. 3 edição, Manole- 2003.

10-SULLIVAN, J. Susan; SCHIMITZ, J. Thomas: Fisioterapia: Avaliação e Tratamento. 4 Edição, Manole – 2004

11-World Health Organization. WHO strategy for prevention and control of chronic respiratory diseases. Geneva: WHO; 2002

12-DESALLU, O. Olufemi ; OLUWAFEMI, A. Joshua; OJO, Ololade: Morbidade e mortalidade relacionadas a doenças respiratórias em adultos atendidos em um hospital terciário na Nigéria. J. bras. pneumol. vol.35 no.8 São Paulo Aug. 2009

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