Entrevista com Dra. Ana Luiza Gelhoren

O que seria essa pneumonia do COVID-19?

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É uma doença com 2 características muito ruins. 1. Alta capacidade de contaminação e 2. Alta letalidade. 85% tem características clinicas benignas (com sintomas mais altos como coriza, perda de olfato, paladar, queda do estado geral, febre, diarreia). Mas 15% desenvolvem a forma mais grave. A segunda fase da doença, em torno da segunda semana, o paciente apresenta artralgia, mialgia, um certo grau de hipóxia, mas satura acima de 93% e se dosar D Dimero já mostra um grau de trombogênese. Se o paciente for submetido a TC vai mostrar o clássico vidro fosco e onde ele instala a pneumonia. Aqui ou ele resolve bem e escapa ou ele passa para a terceira fase da doença (entre o 8 e 10 dia), onde a atividade inflamatória e pró trombótica aumentam (IL6 e D Dimero aumentam consideravelmente comparado a fase anterior…. os altos níveis de IL6 nos alertam para citokine storm. Na TC, RX e US nós vemos acentuação do vidro fosco, infiltrados bilaterais predominantemente periférico e derrame pleural localizado e linhas B no US. Nessa fase, o paciente de repente pode necessitar de VM. Ele interna no hospital inflamado e em poucas horas ele faz insuficiência respiratória. Esse paciente crítico e grave tem um comprometimento alveolar, um comprometimento vascular importante, então tanto a ventilação quanto a perfusão estão prejudicados e em muitos casos fazem disfunção cardiovascular. A mortalidade desses casos em muitos centros é de 70 a 80%. A resolução da fase inflamatória e pro trombótica pode demorar 20 dias em média… e enquanto isso, o paciente necessita de monitoração ventilatória para que o modo como ventilamos não potencialize ainda mais a inflamação pulmonar (VILI). Por isso, o racional da ventilação protetora desde o inicio e não se prendam a fenótipos que permitam ventilações com volumes correntes altos pq a delimitação desses fenótipos não é clara e não bate a imagem com a mecânica. Resumindo: a hipoxemia não é proporcional ao dano alveolar, pq tem causas vasculares e a complacência não é proporcional as áreas hipotrasparentes, haja visto muitos pacientes com complacência acima de 40 com mais de 50% de unidades hounsfild acima de -500.

Como montar uma equipe de excelência no meio da pandemia?

O cenário instalado é de uma doença complexa, ainda não elucidada, que requer dos profissionais raciocínio clínico avançado.
O personagem crucial nesse cenário é o coordenador do serviço, que precisa:
Identificar quem são os fisioterapeutas experientes e especialistas.
Distribui-los pela escala, para que possam ajudar quem está chegando agora.
Treinar os novos profissionais

Vale lembrar que esses profissionais que estão chegando são necessários para cobrir os afastamentos e para garantir a abertura de novos leitos com o mínimo de fisioterapia. Muitos se dispuseram por questões financeiras, inclusive, outros com o intuito de ajudar, aprender, entrar para esse mercado aproveitando a demanda… é louvável que a equipe seja acolhida e treinada! E não dá pra exigir que eles estudem e adquiram raciocínio clínico da noite pro dia no meio de uma pandemia. Até porque na assistência desses pacientes temos mais dúvidas do que certezas e pra atrapalhar uma enxurrada de informações e desinformações na mídia.

De quem é essa responsabilidade? Do coordenador e dos especialistas! Porque eles tem 2 problemas pra resolver: o problema do paciente e o fornecer condições pra equipe não especialista exercer seu trabalho basicamente.

Nesse sentido, se torna imperativo uma educação continuada presente a atuante.

A primeira coisa a ser providenciada é o POP( protocolo operacional padrão). Esses precisam ser desenhados da forma mais clara e simples possível.

Depois do protocolo bem definido, entra o treinamento. Existem diferenças entre treinamento e Capacitação:

O treinamento consiste em potencializar um conhecimento que já existe, aperfeiçoando habilidades e comportamentos dentro de determinada função ou cargo que já era exercido.

A capacitação é o ato de preparar alguém para desenvolver atividades com mais autonomia, criando uma competência e ensinando habilidades para uma nova função.

Além desses pontos, os rounds a beira leito e uma coordenação presente a atuante fazem a diferença.

O que aprendemos durante a pandemia?

O primeiro e mais importante seria valorizar a nossa profissão. Somos fundamentais no ambiente da terapia intensiva. Com 15 anos de formada e atuante desde então em Unidades de Terapia Intensiva de referência, fico feliz em ver a minha profissão ganhando destaque. Somos poucos especialistas no Rio e no Brasil, e espero que aumente o interesse dos profissionais por essa área e que os profissionais se especializem e aumentem a visibilidade da nossa profissão.

Dra. Ana Luiza Ferreira Kogut Gelhoren
Fisioterapeuta intensivista
Coordenadora de fisioterapia do hospital de Campanha Lagoa-Barra
Mestranda em ciências biomédicas pelo IBCCF-UFRJ
Professora da pós graduação de Fisioterapia em Terapia Intensiva do IDOR
Fisioterapeuta supervisora do hospital Copa D’Or

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