ELETROESTIMULAÇÃO TRANSCUTÂNEA EM NERVO TIBIAL POSTERIOR NA BEXIGA NEUROGÊNICA

FERNANDA APARECIDA DE ORNELAS*
AMANDA ALVES GUERRA**, FABÍOLA FERNANDA GARONI NASCIMENTO**, VANESSA ALVES BORDINHON**

* FISIOTERAPEUTA PROFA DRA. DO CURSO DE FISIOTERAPIA DA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS – UNISANTOS.
** FISIOTERAPEUTA PELA UNISANTOS.

RESUMO
A bexiga hiperativa neurogênica é a perda urinária resultante de disfunção do sistema nervoso central ou periférico, podendo ter como fator etiológico o acidente vascular encefálico (AVE), a esclerose múltipla (EM) e a esclerose lateral amiotrófica (ELA). Dependendo do nível da lesão no sistema nervoso, poderá apresenta-se de duas formas distintas: hiperreflexa ou espástica (lesão acima de T10) ou flácida (lesão abaixo de T10). Como não há terapia para a cura dessa disfunção, devido ao fator etiológico ser de fundo neurológico, os objetivos das intervenções são de preservar o trato urinário superior, controlar e prevenir infecções urinárias e, quando possível, manter a continência vesical, contribuindo assim para melhora na qualidade de vida nos indivíduos acometidos. O objetivo do presente estudo foi de verificar a resposta da eletroestimulação no trajeto do nervo tibial posterior em pacientes homens, com características clínicas de bexiga hiperativa neurogênica. Afim de atingir tal objetivo, foram avaliados 3 indivíduos do sexo masculino, sendo 2 mantidos no grupo submetido a eletroestimulação do nervo tibial posterior e um mantido no grupo controle, os quais foram acompanhados durante dez sessões de 30 minutos cada, duas vezes por semana, durante 36 dias. Como formas de avaliação e/ou acompanhamento foram utilizados questionário de qualidade de vida, diário miccional e pesagem de kits higiênicos (com forros ou fraldas geriátricas utilizados pelos pacientes participantes). A aplicação da eletroestimulação foi realizada por um aparelho de TENS da marca IBRAMED®. Os resultados demonstraram que tanto no grupo da intervenção como no grupo controle não houve uma melhora estatisticamente significativa.
Palavras chaves: Fisioterapia, Bexiga neurogênica, Eletroestimulação, Nervo tibial posterior.

ABSTRACT
The neurological overactive bladder is the involuntary incontinence resultant of the central or peripheral nervous system disfunction, being able to have as etiologic factor the AVE, the Multiple Sclerosis and ELA. Depending on the injury level in the nervous system, may present two distinct forms: hyperreflexia or espástica (injury above of T10) or limp (injury below of T10). As there isn’t have therapy to cure this disfunction due to the fact that the etiologic factor is neurological, the objectives of the intervations are to preserve the upper urinary tract, control and prevent urinary infections and when possible to keep the vesical continence, contributing for life quality improvement in those individuals. The aim of the present study is to verify the eletrical stimulation response of the posterior tibial nerve in patients male with clinical characteristic of neurological overactive bladder. In order to achieve this aim, 3 male individuals were evaluated, 2 kept in the group submitted to posterior tibial nerve eletrical stimulation and 1 kept in the control group, who were assisted during 10 sessions of 30 minutes each, twice a week, for a 36-day-period. As form of evaluation and/or treament they were given a questionnaire on quality of life, daily miccional and schedule weight of hygienical kits (with linings or geriatrical diapers used by participant patients). The application of the electrical stimulation was carried through a TENS device of the IBRAMED® brand. The results demonstrate in the intervention group as long as in the control group don’t show an statistical significated improvement.
Keywords: Physiotherapy, Neurogenical bladder, Eletrical Stimulation, Posterior tibial nerve.

1. INTRODUÇÃO
A incontinência urinária (IU) é a perda involuntária de urina, que se torna um problema social e/ou higiênico.1 No sexo feminino, entre 45 e 65 anos é de forma bastante freqüente (cerca de 57%) porém esta disfunção também afeta o sexo masculino.2 Como exemplos de incontinência urinária podem ser citados: esforço, mista, bexiga hiperativa idiopática, e bexiga hiperativa neurogênica.3
A bexiga hiperativa neurogênica é a perda involuntária de urina decorrente da disfunção do sistema nervoso (central e periférico)4 como por exemplo: Acidente Vascular Encefálico (AVE), Esclerose Múltipla (EM), neuropatias periféricas (diabetes mellitus) 5 podendo se apresentar de duas formas distintas dependendo da localização da lesão, como bexiga hiperreflexa ou flácida.6
Para diagnosticar a incontinência urinária é de fundamental importância o exame de urodinâmica ou histórico clínico do paciente, o qual o clínico geral, neurologista ou geriatra irá interpretar os sinais e sintomas referidos pelo paciente, como odor, escoriações, assaduras e pruridos.7
Uma das relevantes complicações da incontinência urinária é a piora na qualidade de vida dos pacientes, fazendo com que muitos se isolem socialmente, podendo acarretar depressão, ansiedade e perda da auto estima.8
Como forma de tratamento para a incontinência urinária, podem ser utilizados os procedimentos cirúrgicos, as intervenções medicamentosas e a intervenção fisioterapêutica.9
A primeira opção de tratamento para a incontinência urinária é a farmacológica, porém seus resultados se apresentam de forma temporária, não ocorrendo o controle completo dos sintomas apresentados pelos pacientes.10,11
Os procedimentos cirúrgicos são pouco realizados na prática, por ser uma opção de tratamento reservada a um pequeno grupo de pacientes, devido seu alto custo e o não oferecimento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 12
A fisioterapia é utilizada para amenizar e até mesmo tratar a incontinência urinária, apresentando-se como forma mais adequada de intervenção terapêutica por não possuir, na maioria das vezes, efeitos colaterais, não levar a desconfortos significativos e por apresentar opção de não ser invasiva.6
Na tentativa de amenizar os desconfortos gerados pela incontinência urinária, o objetivo do presente estudo foi verificar a resposta da eletroestimulação no trajeto do nervo tibial posterior em pacientes do sexo masculino com características clínicas de bexiga hiperativa neurogênica.

3. PACIENTES E MÉTODO
3.1.Pacientes e composição dos grupos de estudo
O presente estudo apresenta caráter descritivo – quantitativo e qualitativo, desenvolvido no setor de fisioterapia em Ortopedia e Traumatologia, da Clínica Universitária Madre Paulina, da Universidade Católica de Santos (Unisantos), no período de 15 de agosto a 19 de setembro de 2006, sendo assistidos e/ou acompanhados quatro voluntários do sexo masculino, de 42 a 77 anos, durante 36 dias, duas vezes por semana, totalizando dez sessões de atendimento.
Foram critérios de inclusão: sexo masculino e características clínicas de bexiga hiperativa neurogênica, com presença de perda urinária involuntária constante ou episódica, após lesão neurológica.
Como critérios de exclusão foram considerados: sexo feminino, incontinência fecal, presença de feridas ou escaras no local de aplicação da corrente elétrica, indivíduos amputados de membros inferiores (MMII), implantes metálicos próximos ao local de aplicação, cardiopatias não controladas, neoplasias, uso de marcapasso cardíaco, pacientes portadores de refluxo gastro-esofágico (RGE), bronquite ou asma, diminuição da percepção sensorial, hipertensão ou hipotensão, epilepsia não controlada, pacientes obesos, indivíduos analfabetos ou semi-analfabetos, pacientes com distúrbios cognitivos ou dificuldades de compreensão, com baixo nível de consciência e menores de 21 anos ou que não sejam legalmente responsáveis. Os pacientes deste estudo foram divididos em dois grupos:
Grupo I (Intervenção) representado por dois pacientes submetidos a 10 sessões de eletroestimulação transcutânea bilateral no trajeto do nervo tibial posterior.
Grupo II (Controle) formado por um paciente, o qual não foi assistido pela intervenção fisioterapêutica, sendo acompanhado apenas nas avaliações, seguindo os mesmos intervalos de tempo do Grupo I.
O estudo foi iniciado com quatro pacientes, porém apenas três completaram as 10 sessões de eletroestimulação e acompanhamento propostas pelas autoras, pelo fato de um dos participantes ter sido orientado pelo clínico responsável a não dar prosseguimento as sessões de eletroestimulação, pois o mesmo afirmou que tal recurso fisioterapêutico acelera o processo de desmielinização dos axônios e por outro lado decreveu que a eletroestimulação contribui para o processo de regeneração dos axônios13.

3.2.Método
3.2.1.Procedimento
Inicialmente foi solicitado parecer da Comissão de Ética em Pesquisa (COMET) da Universidade Católica de Santos, localizada na cidade de Santos – SP, com parecer favorável em 17 de Setembro de 2006 (Número do processo 7867-08-2006).
Para melhor consecução do objetivo proposto, este estudo foi dividido em oito etapas:

Etapa I – Avaliação ∕ Anamnese
Nesta etapa, foram levantados dados pessoais e clínicos dos pacientes. Este foi elaborado pelas integrantes, devido à dificuldade de obtenção de dados na literatura que pudessem ser utilizados neste estudo.

Etapa II – Avaliação subjetiva
Foi realizada pela aplicação de um Questionário de Qualidade de Vida (QQV)14, em três momentos. No primeiro momento (M1), este foi aplicado antes da primeira sessão de eletroestimulação, no segundo momento (M2) foi aplicado após as cinco primeiras sessões e o terceiro momento (M3) ao término das dez sessões de eletroestimulação propostas pelas autoras deste estudo, com o objetivo de avaliar a resposta dos pacientes frente o conceito de qualidade de vida.

Etapa III – Avaliação objetiva
Para a avaliação objetiva foram disponibilizados: um copo plástico graduado em mililitros (ml) da marca Injetemp® para avaliação da ingesta de líquidos e um outro copo com as mesmas características, para quantificar o volume miccional; 10 forros higiênicos representados por fraldas geriátricas da marca Bigfral® ou por absorvente externo sem gel da marca Compre Bem® dependendo do volume de perda urinária de cada paciente. Estas fraldas ou absorventes foram disponibilizados de forma unitária em sua respectiva embalagem plástica da marca Ziploc® com dimensões de 25 X 40 cm para as fraldas e com 50 X 50 cm para os absorventes higiênicos, devidamente etiquetada por uma fita adesiva de cor branca de 3 cm X 2 cm (centímetros) contendo as iniciais de cada paciente e o número do respectivo material.
Antes de serem disponibilizados aos pacientes estes foram pesados em uma balança de semi – precisão da marca Gehaka® modelo BG 4400 e notificado seu respectivo peso seco em gramas em sua etiqueta adesiva.
Após o uso dos forros estes foram disponibilizados novamente para a pesagem, caracterizando como peso úmido. Os valores utilizados para a análise foi a subtração do peso seco ao peso úmido (PU – PS).
A quantidade de perda urinária também foi mensurada pela análise do Diário Miccional (DM), o qual era trazido por cada paciente, a cada sessão de atendimento, devidamente preenchido, o qual era possível mensurar a quantidade de urina excretada.
Na data de cada intervenção fisioterapêutica pela manhã cada paciente foi instruído a utilizar o material (fralda descartável ou absorvente higiênico) e permanecer com o mesmo até o horário da intervenção. Este foi retirado na Clínica Universitária e recolocado na respectiva embalagem plástica no máximo quinze minutos antes da fisioterapia e era novamente pesado nas mesmas condições anteriores. A quantificação da urina foi realizada pela diferença entre o peso do material molhado com o material seco.
Para melhor comparação do peso seco com o peso úmido foi padronizada a unidade de medida dos kits, revertendo o peso de gramas (g) para mililitros (ml), essa reversão foi realizada com a pesagem de uma fralda seca no becker da balança de semi-precisão e anotado o seu peso. Após isso foi adicionado 1ml de água e observado o acréscimo de 1g no peso total da fralda, concluindo então que 1g é igual a 1ml.

Etapa IV – Período de adaptação
Para que houvesse padronização e prévio conhecimento da dieta, volume de líquidos ingeridos, uso de medicamentos e atividades física e sexual de todos os pacientes, foi realizado o período de adaptação do estudo. Os pacientes preenchiam o quadro com o tipo e quantidade de líquido e alimento ingerido, o tipo e quantidade de medicamento, e o tempo e tipo de prática física e sexual. Foi disponibilizado um quadro do perfil diário para cada um, na data da avaliação para notificação desses itens e seus respectivos intervalos de tempo durante setenta e duas horas.
Os pacientes foram orientados que a caracterização desses três dias deveria ser mantida durante a realização deste estudo, para que qualquer alteração não pudesse ser colocada em questionamento com os resultados apresentados.

Etapa VII – Intervenção
Esta etapa foi realizada com a utilização de um aparelho de estimulação elétrica nervosa transcutânea (TENS), modelo Neurodym III, da marca IBRAMED®, composto por quatro eletrodos de borracha de 8 cm. A freqüência do aparelho foi de 60 Hz (Hertz), a freqüência da corrente utilizada foi de 1 Hz para encontrar o ponto motor, depois esta foi aumentada para 10 Hz, largura de pulso 200 ms e intensidade de acordo com a sensibilidade de cada paciente. Durante a adequação da intensidade houve a tentativa de mantê-la até a resposta motora do paciente, e se, à presença desta, ocorria sua diminuição, para que houvesse apenas resposta sensitiva15, podendo variar de 16 a 18 mA (miliamperes).
Os pacientes foram posicionados em decúbito dorsal sobre um tablado com 45 cm de altura e 180 cm de largura x 180 cm de comprimento, com aproximadamente 35 graus de flexão de quadril e semi – flexão de joelhos em aproximadamente 85 graus, apoiados sobre um rolo de posicionamento de 60 cm de comprimento e 24 cm de diâmetro, revestido de corino. A região cefálica dos pacientes era mantida sobre um travesseiro de 40 cm de comprimento e 60 cm de largura, também revestido por corino.
Os eletrodos foram posicionados no trajeto do nervo tibial posterior, estando um em maléolo medial e o outro dez centímetros acima deste, bilateralmente, sendo o pólo positivo (vermelho) posicionado em cima e o pólo negativo (preto) embaixo (Figura 1).


Foram realizadas dez sessões de eletroestimulação no trajeto do nervo tibial posterior em cada paciente do Grupo I. A aplicação da corrente elétrica foi de 30 minutos, porém os pacientes permaneciam na sala em média aproximadamente 45 minutos para a realização de todo o procedimento, para a mensuração da PAi (Pressão arterial inicial) e PAf (Pressão arterial final).
Para cada intervenção fisioterapêutica foram utilizados os seguintes materiais: um par de luvas de procedimentos da marca SuperMax® (Lote n° 11725450), álcool 70% da marca ZULU® (Lote n° 38), para limpeza da área de aplicação da corrente elétrica, gel hidrossolúvel da marca Electron Plus® (Lote 0512) para melhor condução da corrente e fita adesiva (16 mm X 50m) da marca Cremer® (Lote 3216-2)para fixação dos eletrodos do TENS . Foi solicitado que cada paciente trouxesse um lençol ou toalha para proteção do tablado.

Etapa VIII – Reavaliações
Foram realizadas de forma contínua, após cada intervenção de eletroestimulação, analisando-se o Diário Miccional (DM) e a pesagem do material úmido, para que os dados deste estudo apresentassem condições para comparação e discussão.
Esta etapa constou também da reaplicação do questionário de qualidade de vida (QQV), realizada em dois momentos: o primeiro momento (M1) após cinco sessões de eletroestimulação e o segundo momento (M2) após as dez sessões de eletroestimulação propostas pelas autoras deste estudo, seguindo a mesma conduta de aplicação da avaliação.

4 . RESULTADOS
4.1. Identificação dos pacientes deste estudo
A idade média dos pacientes deste estudo foi de 62,33 anos (extremos entre 42 e 77 anos).
Foi observado que 67% (n=2) dos pacientes deste estudo são da raça negra, sendo estes do Grupo da Intervenção (GI) e 33% (n=1) da raça branca, sendo este pertencente ao Grupo Controle (GII).
Com referência ao estado civil, 67% (n=2) dos pacientes eram casados, sendo 33% (n=1) do Grupo da Intervenção (GI) e 33% (n=1) do Grupo Controle (GII) e 33% (n=1) dos pacientes eram solteiros, sendo este pertencente ao Grupo da Intervenção (GI).
Com relação ao grau de escolaridade foram obtidos os seguintes dados: 67% (n=2) dos pacientes do Grupo da Intervenção (GI) apresentaram ensino fundamental incompleto e 33% (n=1) dos pacientes do Grupo Controle (GII) o ensino superior incompleto.
Referente o Índice de Massa Corpórea (IMC), 67% (n=2) dos pacientes do Grupo da Intervenção (GI) apresentaram valores entre 25-30 e 33% (n=1) dos pacientes do Grupo Controle (GII) valores entre 20-25.
Quando questionados com relação ao tempo de perda urinária, 67% (n=2) dos pacientes do Grupo da Intervenção (GI) relataram perda há menos de 1 ano e 33% (n=1) dos pacientes do Grupo Controle (GII) relataram perda há mais de 3 anos.
Quanto à prática de atividade física, 67% (n=2) dos pacientes do Grupo da Intervenção (GI) afirmaram sua prática e 33% (n=1) dos pacientes do Grupo Controle (GII) negaram.
Com relação à necessidade do uso de forros, 67% (n=2) dos pacientes, sendo 1 paciente do Grupo da Intervenção (GI) e 1 do Grupo Controle (GII) negaram o uso e 33% (n=1) dos pacientes do Grupo da Intervenção (GI) afirmaram.
Quando questionados quanto à prática de atividade sexual 67% (n=2) dos pacientes afirmaram sua prática, sendo 1 paciente do Grupo da Intervenção (GI) e 1 paciente do Grupo Controle (GII) e 1 do Grupo da Intervenção (GI) negou a sua prática.

4.2. Avaliação do Diário Miccional
A média do peso do Kit seco foi de 467,6 e do Kit Úmido foi de 467,9 do paciente 1 do Grupo da Intervenção (GI). No paciente 2 do Grupo da Intervenção (GI), a média do peso do Kit seco foi de 556,1 e do Kit Úmido foi de 780,9. Do paciente 1 do Grupo Controle (GII), a média do peso do Kit seco foi de 467,6 e do Kit Úmido foi de 468,7.
A Figura 2 (A, B, C) mostra a freqüência miccional do paciente 1 do Grupo da Intervenção (GI), paciente 2 do Grupo da Intervenção (GI) e do paciente 1 do Grupo Controle (GII).


5. DISCUSSÃO
Indivíduos com disfunções vesicais apresentam restrição das suas atividades afetando a qualidade de vida em diversos aspectos (emocionais, alterações de sono e isolamento social)5.
A incidência de traumatismo raquimedular, acidente vascular encefálico e esclerose lateral amiotrófica é maior no sexo masculino quando comparadas ao sexo feminino16, diferentes apenas da esclerose múltipla, a qual se apresentou com maior incidência no sexo feminino17. Esta foi adicionada a este estudo pelo fato de também ter sido utilizada no principal artigo de referência15e por apresentar pacientes na Clínica Universitária de Fisioterapia.
Os pacientes portadores de incontinência fecal foram excluídos do estudo devido esta disfunção interferir na pesagem dos kits higiênicos, levando a alterações dos resultados obtidos. Pacientes com presença de feridas ou escaras no local de aplicação da corrente elétrica, implantes metálicos próximos ao local de aplicação, cardiopatias não controladas, neoplasias, uso de marcapasso cardíaco, diminuição da percepção sensorial, hipertensão não controlada ou hipotensão, epilepsia não controlada e obesos foram excluídos deste estudo devido esses fatores serem contra-indicações para a aplicação de eletroestimulação18.
Os pacientes portadores de refluxo gastro-esofágico (RGE), bronquite ou asma não participaram do estudo devido os pacientes permanecerem em decúbito dorsal durante a terapia, agravando o quadro dessas patologias, segundo dados levantados por.19
O perfil dos pacientes levantado no item anamnese apresentou como principal utilidade, além da caracterização dos pacientes do estudo, o levantamento das condições pré determinantes para patologias ou respostas frente o protocolo terapêutico.
Uma das técnicas utilizadas pela fisioterapia é a eletroestimulação6, a qual pode ser aplicada nas formas transcutânea e/ou intracavitária20. A forma intracavitária não foi aplicada pelo fato da não aceitação dos pacientes devido fatores culturais15. A eletroestimulação fora da região ano-genital apresenta maior aceitação dos pacientes15.
O nervo tibial posterior e a bexiga compartilham a mesma raiz nervosa (S2-S4), sendo por esta razão o local escolhido para o posicionamento dos eletrodos15.O relaxamento da musculatura esquelética voluntária e do esfíncter externo uretral é necessário para o início do arco reflexo sacral da micção e por esta razão a importância da massagem sacral21,22. Esta não foi realizada para que houvesse condições de observar apenas os efeitos da eletroestimulação.
O protocolo de 10 sessões de intervenções fisioterapêuticas foi utilizado seguindo os mesmos parâmetros de liberação da maioria dos convênios de saúde para o mesmo tipo de atendimento. Na prática não foi encontrada nenhuma lei ou cláusula que justificasse esse número de liberações para atendimentos fisioterapêuticos. O que ocorre é apenas um consenso médico, seguido pela maioria dos seguros saúde.
No levantamento dos resultados do Diário Miccional do paciente 1 do Grupo da Intervenção (GI), foi observado que a freqüência miccional obteve melhora fisiológica. O valor ideal é igual a 7 micções/dia23. Correlacionando ao quadro patológico do paciente, o mesmo não se apresenta de forma benéfica, uma vez que o comprometimento neurológico leva a perda urinária por hiperatividade, resultando no aumento da freqüência miccional3,6.
Avaliando a freqüência miccional do paciente 2 do Grupo da Intervenção (GI), observou-se melhora fisiológica23, sendo igual a 7 micções/dia. Relacionando ao quadro patológico do paciente, o mesmo não se apresenta de forma benéfica, pois, essa lesão neurológica resulta em perda urinária pela falta do controle do esfíncter vesical, fazendo com que a freqüência miccional se eleve16,24. Durante a avaliação da freqüência miccional do paciente 1 do Grupo Controle (GII), foi observado que fisiologicamente encontra-se dentro dos padrões de normalidade, uma vez que a freqüência miccional ideal é igual a 7 micções/dia23.
Foi observado em nosso estudo que o volume miccional do paciente 1 do Grupo da Intervenção (GI) obteve melhora fisiológica da eliminação voluntária, embora essa não possa ser mensurada precisamente, apresenta-se proporcional a ingesta líquida. A quantidade de líquido eliminada pelo organismo varia de acordo com fatores hormonais, atividade física, sudorese, fezes, temperatura corporal, temperatura ambiental, evaporação pelo trato respiratório, quantidade de sódio no organismo e utilização de fármacos24,25.
Na avaliação do volume miccional do paciente 2 do Grupo da Intervenção (GI), foi observada melhora fisiológica na eliminação voluntária sendo esta proporcional a ingesta líquida. A eliminação de líquido pelo organismo não pode ser quantificada com precisão24,25.
No levantamento dos resultados do volume miccional do paciente 1 do Grupo Controle (GII), observou-se retenção característica do quadro neurológico, pois o mesmo apresentou eliminação de líquidos superior a ingesta. A bexiga flácida poderá levar a perda urinária por transbordamento através da retenção de líquidos na bexiga24.Observou-se que a ingesta líquida do paciente 1 e 2 do Grupo da Intervenção (GI) e 1 do Grupo Controle (GII) são menores quando relacionadas ao padrão de normalidade. A ingesta de líquidos diária deve ser igual a 2 l/dia24.
Com relação ao intervalo de tempo entre as micções, foi observado no paciente 1 do Grupo de Intervenção (GI) que houve melhora fisiológica. O intervalo miccional se dá de 4 a 5 h/dia23. Quando relacionado à patologia, a diminuição deste intervalo não é benéfico ao paciente, pois está diretamente relacionada a hiperatividade do detrusor. As contrações não inibidas do músculo detrusor promovem a perda urinária6.
Na análise do intervalo miccional do paciente 2 do Grupo da Intervenção (GI) observou-se piora fisiológica e patológica do quadro devido a diminuição do intervalo de 4 a 5 h/dia em um indivíduo normal23. Como conseqüência da diminuição deste intervalo há o aumento da freqüência miccional, ocasionada pela falha do controle do esfíncter, levando a perda urinária16.
Observando o intervalo miccional do paciente 1 do Grupo Controle (GII), concluiu-se que houve piora, pois ocorreu um aumento no intervalo. Fisiologicamente os intervalos não devem ser superiores a 5 h/dia23. Comparado ao quadro patológico, de retenção provocado pelo aumento do intervalo pode estar diretamente ligado à perda urinária22.

6. CONCLUSÃO
A resposta da eletroestimulação no trajeto do nervo tibial posterior em pacientes do sexo masculino com queixa de perda urinária involuntária pós patologia neurológica não apresentou resultados estatisticamente relevantes neste estudo.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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25. DOUGLAS, C. R. Tratado de fisiologia aplicada a ciência da saúde. 4 ed. São Paulo: Robe Editorial, 1999.

3 comentários em “ELETROESTIMULAÇÃO TRANSCUTÂNEA EM NERVO TIBIAL POSTERIOR NA BEXIGA NEUROGÊNICA”

  1. André Sanches

    Sou fisioterapeuta, estou com uma paciente que realizou cirurgia de cisto de tarlov, tendo que realizar cirurgia há 2 anos atras estando desde então com bexiga neurogênica espástica tendo que realizar a sondagem de 4 a 5 vezes ao dia com eliminação de 400 a 500 ml por sondagem. Estou trabalhando com eletro estimulação TENS e exercícios para musculatura pélvica, paciente relata que após o inicio da fisioterapia percebe a vontade de fazer “xixi” mas não consegue apenas gotas.
    Poderia me dar algumas informações para a paciente relaxar…
    Atenciosamente.

  2. Meu filho de 19 anos tem bexiga neurogenica descoberto desde dos 11 anos, o mesmo faz uso de sonda de alivio e toma medicamentos anti convulsivom , garoto normal inteligente anda normal gostaria de saber como ter acesso no Brasil a o aparelho estimulador de bexiga neurogenica para quem sofre de retenção urinária?

  3. Gostaria de saber m si no Brasil já tem estimulador para quem tem retenção urinaria devido a bexiga neurogenica?
    Pois tenho um filho de 19 anos com esse problema o mesmo faz uso de sonda uretral de alivio desde os 11 anos.

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