E as crianças que vão nascer com microcefalia?

Por Rodrigo Lima, diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC)

Vivemos uma epidemia de doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti e entre elas a infecção pelo vírus Zika tem sido destacada por sua possível (mas ainda não comprovada) possibilidade de provocar microcefalia em bebês que tenham sido atingidos durante a gestação. A microcefalia é uma condição importante porque na maioria dos casos costuma estar associada a algum grau de comprometimento do sistema nervoso. Além da microcefalia, outras condições têm sido associadas à infecção pelo Zika, desde problemas oculares até doenças neurológicas. Isso tem gerado uma mobilização com poucos precedentes em nossa história, voltada para o controle da população do mosquito e para medidas individuais de prevenção de picadas. Mas afinal de contas, que tipo de problema estamos enfrentando? Estamos diante de uma epidemia grave? A resposta parece ser diferente da que tem sido defendida pelo senso comum.

Em pleno verão temos pessoas mais preocupadas com o uso de repelentes do que com o protetor solar, e que usam roupas de mangas e pernas longas apesar do calor. Crianças são privadas de brincar ao ar livre. Famílias instalam telas em suas janelas, ou enfrentam os custos de manter ventiladores e arcondicionados ligados por várias horas durante o dia para evitar abrir suas janelas. Gestantes lotam as agendas de médicos ultrassonografistas, interessadas em saber se seus bebês foram atingidos. Mulheres adiam por tempo indeterminado o sonho da maternidade. A população está assustada, e o sentimento é alimentado pela cobertura permanente do tema por uma mídia ansiosa para entender o que está acontecendo.

Apesar do alarde, a infecção pelo Zika ainda pode ser considerada um problema simples. É importante lembrar que são poucos os casos de microcefalia com infecção confirmada, em comparação com o provável número de casos da doença (que jamais saberemos, pois a doença não era de notificação compulsória até pouco tempo e os testes diagnósticos ainda estão indisponíveis para a maioria da população). Quando os casos de Zika começaram a surgir no ano passado, a maioria dos médicos se deparou com uma doença com quadro clínico mais leve que o da dengue ou da chikungunya, transmitidas pelo mesmo mosquito. Ainda não sabemos se o vírus de fato causa a microcefalia, e caso a hipótese seja confirmada, também precisaremos descobrir quantas pessoas entre as infectadas desenvolveram alguma complicação mais grave. Enquanto não chegamos lá, é preciso ter cautela, e isso deveria significar mais ceticismo do que pânico. Precisamos tranquilizar as pessoas e voltar nossas preocupações para questões que ainda têm sido negligenciadas.

Não temos no momento a estrutura necessária para dar assistência adequada a todas as crianças com microcefalia e a suas famílias. Centros de reabilitação com equipes multiprofissionais existem, mas ainda são inacessíveis para a maioria da população. Os protocolos de assistência são de boa qualidade no papel, mas se referem a uma rede de serviços que é mais inexistente à medida em que a renda familiar diminui. Talvez estejamos diante de uma oportunidade de discutir os problemas estruturais do SUS: o subfinanciamento do sistema e a fragilidade da gestão da saúde no país.

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