CONHECIMENTO DE GESTANTES ATENDIDAS NA REDE PÚBLICA DE UBERABA SOBRE A ATUAÇÃO DA FISIOTERAPIA APLICADA À OBSTETRÍCIA

Daiane de Oliveira Silva1, Mariene de Oliveira Alves1, Adriana D’Aprile Rezende2, Erika Mondin Bulos2.
1 Graduandas do curso de Fisioterapia pela Universidade de Uberaba
2 Docentes do curso de Fisioterapia da Universidade de Uberaba
Data de envio do artigo: 01/07/2009
Contato: daiane.fisioterapia@gmail.com /Endereço para correspondência: Daiane de Oliveira Silva, R. Santo André 246, Leblon, 38030-420, Uberaba-MG.

Resumo

A garantia de saúde para todos, preconizada na Constituição Federal, está relacionada à implantação e implementação do Sistema Único de Saúde e ao cumprimento de seus princípios e diretrizes por todos os profissionais e órgãos envolvidos. O novo paradigma de sistema de saúde universal objetiva a promoção da saúde, a prevenção de enfermidades e a educação continuada, contando com a participação da sociedade. O fisioterapeuta, neste contexto e como integrante efetivo passa a contribuir para uma melhoria nas ações de atenção à saúde nos diferentes níveis de complexidade. O objetivo deste trabalho foi traçar o nível de conhecimento das gestantes atendidas nas Unidades Básicas de Saúde do município de Uberaba, na tentativa de verificar a existência e operacionalização dos mecanismos de acesso à informação destas usuárias quanto à preparação fisioterapêutica na gestação. Observou-se que a maioria das gestantes não conheciam a Fisioterapia aplicada a Obstetrícia e que, portanto, para que haja um atendimento integral à esta população são necessário meios de inclusão deste profissional na atenção básica.

Palavras-chave: Fisioterapia. Obstetrícia. Gestantes. Saúde da Mulher.

Introdução

A inserção da fisioterapia nos serviços de atenção primaria à saúde é um processo em construção, uma vez que sua forma mais tradicional de atuação acontece em serviços de nível secundário e terciário (RIBEIRO, 2002).
O nível primário de prevenção é aplicável durante o período de pré-patogênese, ou seja, quando o indivíduo se encontra em um estado de saúde ótima ou, no mínimo, saúde sub-ótima. Dessa forma, podemos considerar que a prevenção primária atua nos períodos em que o organismo se encontra em equilíbrio, estabelecendo ações que o mantenham nessa situação (ROUQUAYROL, 1999).
O nível secundário de prevenção pode ser caracterizado quando o organismo já encontra-se com alterações na forma e na função, ou seja, está no período de patogênese e em enfermidade real. Neste momento, ações realizadas com o objetivo de diagnosticar precocemente o problema e estabelecer as medidas terapêuticas necessárias formam os dois grupos de atividades que, se efetivadas com o sucesso esperado dentro das possibilidades de cada caso em particular, acarretarão o retorno do organismo ao estado de equilíbrio anterior ou, na pior das hipóteses, interromperão o declínio desse organismo para níveis mais inferiores da escala de saúde e da doença (ROUQUAYROL, 1999).
O nível terciário de prevenção é estabelecido quando o indivíduo portador da enfermidade passou pelos estágios anteriores, permanecendo com uma seqüela residual e/ou uma incapacidade que necessitam ser minimizadas. O objetivo principal desse nível é recolocar o indivíduo acometido em uma posição útil e fazer com que o mesmo retorne às suas funções na sociedade (ROUQUAYROL, 1999).
Em primeiro instante os demais profissionais de saúde não entendiam bem qual era o papel e a função do fisioterapeuta na saúde coletiva, pois o fisioterapeuta ainda é considerado um profissional da reabilitação, ou seja, destinando suas ações apenas para a recuperação da saúde do indivíduo.
Surgindo, inicialmente, como uma especialidade da Medicina a Fisioterapia tornou-se, posteriormente, uma profissão autônoma, mas seguindo a lógica da especialidade foi enquadrada, em termos de hierarquia na organização do sistema de saúde em serviços de atenção secundária e terciária (RIBEIRO, 2002, p.312).
No Brasil, a criação do Sistema Único de Saúde em 1988, inaugurou um novo período no qual tem sido observada expansão das unidades de serviços e reorientação dos programas de saúde. Eventos técnicos científicos, conferências de saúde e dirigentes tem reiterado a necessidade da inclusão nos níveis primários, secundários e terciários de atenção à saúde (COSTA, 2006 apud RIBEIRO, 2002, p. 311-8).

A garantia de saúde para todos, preconizada na Constituição Federal de 1988, está diretamente relacionada à implantação e implementação do Sistema Único de Saúde (SUS) e ao cumprimento de seus princípios e diretrizes por todos profissionais e órgãos envolvidos. Torna-se evidente a necessidade do fisioterapeuta para que se possa efetivar um sistema de saúde universal, objetivando a promoção da saúde, a prevenção de enfermidades e a educação continuada contanto principalmente com a participação da sociedade (RAGASSON et al., 2007).
Neste novo paradigma o fisioterapeuta passa a contribuir para uma melhoria nas ações de atenção à saúde nos diferentes níveis de complexidade. Procura aperfeiçoar, principalmente o acesso e a integralidade definidos pelo SUS às demandas básicas atendidas pelas Unidades Básicas de Saúde (VERAS, 2002). Porém, devido à aspectos de ordem político-econômicos e organizacionais, sua função é pouco divulgada. Contudo experiências isoladas em algumas regiões do Brasil mostram que a inserção da fisioterapia no Programa de Saúde da Família (PSF) enriquece e desenvolve ainda mais os cuidados de saúde da população (BARROS, 2002).
Em vários municípios do país tem-se observado cada vez mais a participação do fisioterapeuta em atividades de atuação primária na saúde coletiva, demonstrando a importância deste profissional na prevenção e promoção de saúde.
Em julho de 2005 o Ministério da Saúde através da portaria nº 1065 criou os Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), tendo como finalidade ampliar a integralidade e a resolubilidade da atenção à saúde, dando suporte a demanda do PSF. Os NASF’s (Núcleos de Apoio à Saúde da Família) atualmente seguem quatro modalidades de ação em saúde, que são: alimentação/nutrição, atividade física, saúde mental e reabilitação. Sendo a demanda por atendimento no setor de reabilitação muito grande, e que, portanto ações voltadas ao nível primário de atenção a saúde continuam não sendo priorizadas de forma efetiva.
Faz parte da estratégia de atuação dos núcleos promoverem a saúde e a qualidade de vida, como estratégia de prevenção de doenças. Por essa razão destaca-se a importância da atuação multiprofissional, com fisioterapeutas, nutricionistas, terapeutas, entre outros.
No município de Uberaba, ainda está em processo à regularização do fisioterapeuta como integrante na equipe do PSF, sendo de suma importância para todos e a sociedade em geral a divulgação dos serviços prestados por esse profissional. As NASF vêm atuando de modo isolado em algumas regiões municipais, porém, restrita à ações reabilitadoras devido à demanda por este serviço.
A proposta de humanização da assistência e o vínculo de compromisso e de responsabilidades, estabelecidos entre os serviços de saúde e a população, fazem do PSF um projeto de grande potencialidade transformadora do modelo assistencial capaz de atender a diferentes grupos de indivíduos, com diferentes necessidades. Quanto aos serviços oferecidos pela fisioterapia, estes se enquadram dentro da proposta do SUS de atendimento à demanda espontânea, ou seja, pessoas que buscam o serviço com propósitos diversos, inclusive pacientes durante a gestação (SAMPAIO, 2002).
O trabalho de fisioterapia na promoção da saúde nos serviços públicos é uma nova forma de atuação, e por isso ainda passa por dificuldades técnicas, necessitando de adaptações e esforços para divulgação dos serviços prestados, principalmente nas novas áreas de atuação como a Fisioterapia aplicada a Obstetrícia, que foi implantada, pela primeira vez, no serviço ambulatorial da Maternidade Escola Hilda Brandão, em Minas Gerais, no ano de 1988, visando atendimento fisioterápico às gestantes, tanto no pré-natal como no parto e puerpério imediato (SOUZA, 1999).
Com a evolução das políticas de saúde pública é cada vez mais notável a real importância do fisioterapeuta no acompanhamento as gestantes e principalmente sua efetiva atuação PSF. A preocupação em expandir o acesso ao tratamento fisioterapêutico à população gestante que dele necessita, vem suscitando debates e impulsionando experiências de atuação da fisioterapia na atenção primária, buscando construir um modelo de atuação desse nível de atenção, que não costuma ser tradição na prática fisioterapêutica (RIBEIRO, 2002).
Conforme o Manual do Ministério da Saúde (2001) a gestante deve ser preparada com o objetivo de vivenciar a gestação e a experiência do parto como um processo fisiológico natural acreditando na sua capacidade de gerar a dar à luz, sentindo-se protagonista deste evento.
Para tanto, o enfoque da assistência ao pré-natal, ao parto e a maternidade em si tem sido bem diferenciado. Programas multidisciplinares de preparação para o parto, caracterizados pelo desenvolvimento de métodos educativos, atenção psicológica e preparo físico especifico, estão se tornando comuns e cada vez mais procurados pela maioria das gestantes, com o objetivo de assegurar o controle sobre seu corpo e sua gestação, introduzindo-as na prática de exercícios que resultam em equilíbrio físico e mental, envolvendo alongamentos, exercícios respiratórios e fortalecimento além de orientações gerais sobre a postura (ARTAL; WISWELL; DRINKAWATER, 1999).
Um grande número de gestantes tem procurado diversos meios para obtenção de uma gravidez mais segura e tranqüila, visando o bem estar próprio e do bebê. O fisioterapeuta pode contribuir imensamente proporcionando a essas mulheres uma gestação ainda mais saudável pois pode promover maior conscientização da vivência gestacional, vivência esta que se caracteriza por um período de grandes mudanças biopsicossocial (ZUCCO; BARRETO 2001).
Durante a gravidez, os exercícios físicos monitorados podem atuar no controle da diabetes, na manutenção do peso ideal além de auxiliar no retorno venoso. Favorece também as condições de distribuição sangüínea e a oxigenação otimizando a irrigação dos tecidos e da placenta.
Nos últimos anos, a assistência prestada á mulher, ao recém nascido e a família durante o processo de nascimento tem sofrido modificações importantes, como a melhora na institucionalização do parto e consequentemente a diminuição das incertezas e ansiedades sofridas neste período. É fundamental para a humanização do parto o adequado preparo da gestante para o momento do nascimento, e esse preparo deve ser iniciado precocemente, durante o pré-natal (Ministério da Saúde, 2001, p.26).

Segundo Artal (1999) não podemos nos esquecer que todo o sistema orgânico da gestante está intimamente envolvido nesse processo complexo. Com relação às técnicas utilizadas com gestantes, tem-se observado que a indução da respiração controlada voluntariamente fornece à mãe e ao feto a oxigenação necessária, sem ocorrência de fadiga durante o trabalho de parto. O uso das técnicas de relaxamento é defendido como um meio de quebrar esse ciclo vicioso da dor-temor-tensão e o treino de expulsão se faz necessário para a gestante adquirir segurança e confiança para o momento do parto (POLDEN; MANTLE, 1993).
Ainda, segundo Polden e Mantle (2000 p.103), “… nós, fisioterapeutas, podemos auxiliar a gestante a adaptar-se às mudanças corporais do início ao final da gravidez, de maneira que seu estresse e seus desconfortos físicos sejam minimizados”. Através de uma avaliação detalhada e uma programação terapêutica eficiente é possível prevenir e tratar a maioria das disfunções músculo-esqueléticas, orientar sobre posicionamentos adequados e preparar a gestante para um parto consciente.
O fisioterapeuta além de ampliar os conhecimentos das gestantes com relação à gravidez, parto e puerpério, pode orientá-las quanto às formas de auto-cuidado, como prevenção das algias na coluna vertebral, amamentação, atividades de vida diária a fim de assegurar melhora da auto-estima e da qualidade de vida (DE CONTI, 2003; FADYNHA, 1999).
Com rápido aumento nas taxas de cesáreas, observado no Brasil a partir da década de 1970, abriu-se uma discussão tanto entre os especialistas quanto entre pessoas preocupadas com os aspectos sociais, psicológicos e antropológicos desse fenômeno. A mulher tem plenamente o direito de decidir qual a via de parto de sua preferência independente da sugestão de seu médico e, portanto, ser preparada fisicamente para que o parto ocorra sem maiores problemas. O parto normal deve ser estimulado por se tratar de um fenômeno fisiológico que beneficia a gestante e o bebê e, quanto mais conscientizada das alterações biomecânicas e das funções dos seus músculos durante o parto, maior a participação ativa da gestante com conseqüente rapidez em sua recuperação. Este talvez seja um dos maiores benefícios que o fisioterapeuta pode promover para esta população (FAUNDES; CECATTI, 1991).
A fisioterapia aplicada a Obstetrícia trata-se de uma área ainda em crescimento que está sendo aceita e reconhecida atualmente por médicos e outros profissionais da área de saúde, portanto devemos estar preparados para esse novo mercado que se abre e divulgar o conhecimento às gestantes, pois são elas que se beneficiarão com a fisioterapia.
A procura por este serviço pode estar relacionada com o nível sócio-econômico e cultural, além da divulgação do serviço do profissional de fisioterapia nesse novo campo de atuação. Acredita-se que quanto maior o nível sócio-econômico maior o acesso à informação e conseqüentemente, o indivíduo torna-se mais crítico e mais responsável pela sua saúde. Seguindo o princípio da universalidade proposto na implantação do SUS, todos tem direito à informação e ao acesso aos serviços de saúde visando a atenção de modo integral à qualquer grupo ou população.
Entretanto, por interesse ou desinteresse político, mesmo que haja comprovações dos benefícios de algumas ações e/ou serviços para saúde coletiva, ainda vemos a escassez de novas propostas de condutas preventivas e promotoras de saúde, em específico, na área de saúde da mulher, mais diretamente, à gestantes, visto que, em sua maioria, não há informação nem oferta de serviços na rede pública para preparação para o parto normal e puerpério, a não ser o pré-natal, que, apesar de extremamente necessário, poderia ser complementado com outras ações de profissionais como o fisioterapeuta.
Como base no exposto, o objetivo do trabalho foi traçar qual o nível de conhecimento das gestantes atendidas nas unidades básicas de saúde do município de Uberaba/MG referente atuação fisioterapêutica durante o período gestacional, com intuito de comprovar uma hipótese de que o grau de conhecimento das usuárias atendidas na rede pública seja mínimo; embora seja de extrema importância para essas mulheres a preparação fisioterapêutica para o parto.
Portanto, realizamos a pesquisa, verificando qual é o nível de conhecimento entre as usuárias do serviço público em UBS’s sobre esse profissional, uma vez que a assistência dada pela Fisioterapia nas comunidades deve ser estimulada nas ações de políticas públicas, já que a demanda dos serviços voltados a essa área de atuação é grande.
Constatada a hipótese levantada, ou seja, que o grau de conhecimento das usuárias é ínfimo poderão surgir novas propostas de ações que modifiquem a atenção da saúde desta população, além de um redirecionamento dos serviços de atenção básica, da comprovação real da necessidade do fisioterapeuta voltado à atenção primária como parte essencial de uma equipe multiprofissional, voltado à saúde coletiva, mais especificamente, a mulher gestante.

Materiais e métodos

A pesquisa foi composta por um módulo social que produziu informações que permitiram identificar e descrever o nível de conhecimento que as gestantes possuíam sobre a Fisioterapia aplicada a Obstetrícia. Foi utilizado como instrumento para registro destas informações, um questionário formulado pelas pesquisadoras. O questionário dispunha de perguntas claras e objetivas de múltipla escolha sendo subdivido em: perguntas (7) referentes aos dados pessoais da gestante; (11) gestação atual e/ou anteriores e (5) conhecimento sobre a fisioterapia aplicada a Obstetrícia . O questionário foi aplicado em entrevistas individuais com as gestantes que aceitaram participar da pesquisa após a submissão do projeto ao Comitê de Ética da Universidade de Uberaba.

– Amostra

A população estudada foi constituída de 50 gestantes voluntárias sem faixa etária e períodos gestacionais pré-estabelecidos atendidas pelo SUS e que faziam o pré-natal em UBS’s do município de Uberaba.
Antes de participarem as voluntárias foram informadas sobre o teor e o objetivo da pesquisa devendo a mesma assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (APÊNDICE B).
Foram critérios de exclusão, gestantes com distúrbios psiquiátricos, além de gestantes que se recusaram a participar da pesquisa e/ou ler e assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

-Local

A execução da pesquisa ocorreu no espaço físico interno das Unidades Básicas de Saúde (UBS’s) selecionadas. A seleção das UBS’s foram feitas seguindo os critérios:
A) Região: optou-se por UBS’s em diferentes pontos do município, pelas diferenças sócio-econômicas e culturais;
B) Voluntariedade: permissão da direção clínica das UBS’s para utilização do espaço físico da unidade e para contato com as usuárias em foco.
Com base nestes critérios foram incluídas a Unidade Básicas de Saúde Inimá Baroni localizada no bairro Amoroso Costa, UBS Amad Ali localizada no bairro Elza Amuí, UBS Jacob José Pinto localizada no bairro Cássio Resende e a UBS da Abadia localizada no bairro Abadia, a Unidade Regional de Saúde Dr. José Lineu Miziara localizada na Vila São Cristóvão e o Centro de Atenção Integrado a Saúde da Mulher (CAISM) localizado no bairro Parque do Mirante.
Para a permissão da execução da pesquisa um ofício foi apresentado ao responsável pela Secretaria de Saúde do município de Uberaba na pessoa do Sr. Secretário Municipal Interino de Saúde Dr. João Franco Filho, o qual expediu por escrito, autorização timbrada e carimbada para intervenção nas UBS’s selecionadas.

Resultados

A amostra estudada apresentou faixa etária média de 24,5 anos, e dentre elas 44% eram casadas, 38% concluíram o 2° grau, 56% declaram que a renda familiar era de até 2 salários mínimos.
Quando questionadas sobre a realização de outro tipo de preparação para o parto além do pré-natal, 56% responderam que não realizavam nenhum outro tipo de preparo.
Relativo às orientações recebidas, 58% responderam ter recebido orientação apenas de seu médico e apenas 2% referiam ter recebido do fisioterapeuta.
Referente a Fisioterapia aplicada à Obstetrícia, 92% informaram não ter conhecimento da importância deste serviço, sendo que 84% afirmaram não conhecer nenhuma técnica fisioterápica.
Com relação ao tempo de expulsão e recuperação da gestante após o parto normal, 86% desconheciam que a Fisioterapia quando realizada diminui o tempo expulsivo e acelera a recuperação da mulher.
A maioria das gestantes entrevistadas (92%), relataram desconhecer outra gestante que tenha feito preparação com um Fisioterapeuta.
De acordo com o gráfico 1, se fosse oferecido atendimento fisioterapêutico aplicado a Obstetrícia nas Unidades Básicas de Saúde, a maioria das voluntárias gostariam de realizar esse tipo de preparação.

Discussão

A procura por informações pertinentes a Fisioterapia aplicada a Obstetrícia pode estar relacionada com o nível cultural e sócio-econômico das gestantes, verificando-se que 38% apresentavam apenas o 2º grau completo e 56% possuíam renda familiar de até 2 salários mínimos. Acreditamos que as gestantes que possuem maior poder aquisitivo e conhecimento sobre as modificações ocorridas durante a gestação, não ficam restritas apenas aos serviços oferecidos na saúde pública, buscando outros serviços até mesmo os privados. Não é possível confirmarmos esta hipótese uma vez que não há dados que comparem à busca por este serviço relacionado ao nível sócio-econômico de mulheres gestantes. Entretanto o perfil das gestantes entrevistadas nos remete a confirmação de que elas se limitam somente aos serviços prestados nas UBS’s e com nas mesmas, não é disponibilizado este tipo de serviço, estas gestantes deixam ser beneficiadas pelas condutas fisioterapêuticas com conseqüente melhora das condições físicas durante a gestação.
Segundo o artigo 196 da Constituição Brasileira de 1988, “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário ás ações e serviços para a sua promoção, proteção e recuperação”, entretanto verifica-se que na saúde pública o fisioterapeuta ainda é visto como um profissional de atenção terciária e a sua inserção na atenção básica, visando prevenção e promoção de saúde, ainda está em consolidação.
A Fisioterapia tem buscado novos modelos de assistência que sejam eficazes para a promoção de saúde, tratamento e redução de incapacidades. Conseqüentemente possibilita uma melhor qualidade de vida da população e redução de gastos com internações e cirurgias para os cofres públicos (SAMPAIO, 2002).
Conforme o esperado, a maioria das gestantes não tem o conhecimento sobre a atuação da Fisioterapia aplicada a Obstetrícia, porém sabe-se que a preparação para o parto é importante para uma gestação de sucesso. Além de sofrer menos com as alterações que estão ocorrendo em seu corpo, à gestante que se prepara pode ter uma menor probabilidade de complicações durante o nascimento do bebê e uma melhor recuperação no puerpério (CANTO; MARQUES; BIO, 1996).
Verificou-se que a maioria da população entrevistada recebeu orientações sobre a gestação apenas de seu médico, pois provavelmente este profissional é o que está mais próximo da mulher durante a gestação, porém esse tipo de conduta deve ser revista, pois os outros profissionais da área da saúde em comum com o médico, possuem embasamento para orientar e preparar a gestante para o parto.
O rápido aumento nas taxas de cesáreas, no Brasil a partir da década de 1970, tem gerado discussão entre os especialistas e pessoas preocupadas com os aspectos sociais, psicológicos e antropológicos (NEIVA, 1981), entretanto a maioria das mulheres entrevistadas relatou preferir o parto normal, pois acreditam que a recuperação da mulher é mais rápida e fácil. Porém quando questionadas com relação ao tempo expulsivo e a recuperação no pós-parto imediato a maioria desconhece que um trabalho adequado com o fisioterapeuta diminui o trabalho de parto e favorece uma recuperação imediata no puerpério. Sabemos que o parto normal trará menor risco de infecções e uma recuperação mais rápida, além de um menor custo para o sistema de saúde (O COFFITO, 2007).
No município de Sobral/CE entre os grupos existentes na estratégia do PSF, destaca-se o de gestantes, onde o fisioterapeuta realiza todo o trabalho corporal envolvendo alongamentos, relaxamentos, exercícios respiratórios e de fortalecimento/relaxamento perineal, além das orientações posturais, atuando efetivamente na preparação para o parto (O COFFITO, 2007).
No levantamento bibliográfico, não foram encontradas referências suficientes que demonstrassem estudos específicos em que pudéssemos determinar também o nível de conhecimento sobre a fisioterapia aplicada a Obstetrícia entre as gestantes nas demais regiões do Brasil como Sobral/CE.
Portanto a atenção básica é um processo ainda em construção, onde não se dedicar e não entender os princípios da mesma é retroceder no reconhecimento profissional dos fisioterapeutas. A saúde das gestantes só pode ser alcançada na medida em que, conhecemos suas realidades e necessidades de forma participativa e integral, atuando no que realmente a interessa.
No município de Uberaba/MG, o fisioterapeuta não está inserido legalmente em todos os PSF, face ao exposto sua atuação na Saúde Coletiva é pouco divulgada, não atingindo de forma eficaz a população de mulheres no período gestacional. Quando as gestantes foram questionadas sobre a oferta do atendimento fisioterapêutico aplicado a Obstetrícia nas Unidades Básicas de Saúde 98% gostariam de realizar esse tipo de preparação, retratando que a maioria da população entrevistada tem o desejo de participar efetivamente de grupos que atendem as gestantes de forma interdisciplinar, como o de Sobral/CE.
Falta conhecimento público do que representa nossa profissão e da imensa importância que nós fisioterapeutas temos no contexto de saúde coletiva. Como podemos verificar com a pesquisa a fisioterapia ainda é conhecida como reabilitadora nos distúrbios ortopédicos e seqüelas neurológicas, e novas áreas de atuação, como a fisioterapia em obstetrícia sofrem menor divulgação, visto que tal fato foi relatado por 92% das entrevistadas.
Segundo Barros (2003), o fisioterapeuta é um profissional liberal, pleno e autônomo da área da saúde, o qual já deixou de ser apenas um reabilitador, e hoje vem atuando, nas áreas de promoção, prevenção e atenção primária a saúde, em todos os aspectos de atenção no tratamento, prevenção e recuperação das diversas patologias, como a dermatologia, saúde do trabalho, pediatria, ginecologia, ortopedia, traumatologia, neurologia, cardiologia, pneumologia e reumatologia. O fisioterapeuta é um profissional que não depende da indústria da farmácia e tem custos de diagnóstico e terapêutico muito baixo. Isso torna o fisioterapeuta, útil e necessário para atender as demandas na área da saúde, onde a desigualdade social é grande e o investimento na saúde é insignificante.
Acreditamos que a falta de divulgação da profissão ainda existe, pois até mesmo os médicos, enfermeiros e outros profissionais envolvidos na saúde coletiva desconhecem ou sabem muito pouco sobre a atuação da fisioterapia voltada as gestantes e a atuação até mesmo dos demais colegas de equipe, deixando de encaminhar suas pacientes a fisioterapia por medo ou preconceito do que é desconhecido para eles.
Devemos cada vez mais atuar na saúde coletiva, pois só temos a agregar e enriquecer o serviço prestado com qualidade, que atenda a todos de forma eficaz, prevenindo as doenças e promovendo a saúde da população, de forma conjunta com os médicos e demais profissionais de saúde para que os mesmos se conscientizem da importância da fisioterapia no preparo da gestante e no puerpério.

Conclusão

Durante o período gestacional, o Fisioterapeuta pode desenvolver ações que possibilitam amenizar as alterações físicas existentes, orientar, conscientizar e preparar para o trabalho de parto e puerpério imediato a gestante.
Para desenvolver um trabalho direto com essas mulheres é necessário a inclusão definitiva do fisioterapeuta na atenção primária, pois como foi verificado em Uberaba/MG, a maioria das gestantes entrevistadas relatou que se fosse oferecido esse tipo de serviço nas Unidades Básicas de Saúde, elas gostariam de realizar.
Após a inserção deste profissional, é necessário estratégias para atingir as gestantes, divulgando de forma empírica a atuação do fisioterapeuta.
Outra forma de conscientização das gestantes seria lembrar aos médicos que acompanham o pré-natal, sobre a importância da Fisioterapia, possibilitando assim o encaminhamento das mesmas para o atendimento fisioterapêutico ou para participação de grupos que visassem à preparação integral da mulher para o parto e puerpério imediato.
Seria pertinente a confecção de cartazes, folders, panfletos e palestras nas salas de espera do atendimento médico sobre a importância da Fisioterapia aplicada à Obstetrícia e mais que isso, que o fisioterapeuta fosse membro efetivo das equipes de saúde das UBS, e que houvesse indicações por parte de outros profissionais para este atendimento.
Inclusos nestas equipes, seria de suma importância que os fisioterapeutas participassem da organização de grupos de assistência à gestante em UBS’s e a disponibilização de atendimento fisioterapêutico individualizado na atenção primária visando a prevenção de distúrbios posturais, orientações sobre atividades de vida diária, preparação cardio-respiratória e músculo-esquelética para o parto normal.
O fisioterapeuta vem conquistando aos poucos seu espaço na atenção primária, demonstrando aos demais profissionais e usuários que a Fisioterapia não é apenas uma área reabilitadora e que há diversas áreas de atuação como a Fisioterapia aplicada à Obstetrícia em que podemos atuar na prevenção e promoção da saúde, proporcionando assim melhor qualidade de vida a população.

Referências Bibliográficas

1. ARTAL, R. WISWELL, R. A.; DRINKAWATER, B.L. Ajustes Fisiológicos e Endocrinológicos à Gravidez. In: ______ O exercício na gravidez. 2. ed. São Paulo: Manole, 1999. Cap. 2, p.34-37.

BARROS, F.B.M. O fisioterapeuta na saúde da população: atuação transformadora. Fisiobrasil, Rio de Janeiro, p. 185-192, 2002.

2. BARROS, F. B. M. Autonomia profissional do fisioterapeuta ao longo da história. Fisiobrasil, n. 59, maio/junho. 2003.

3. BRASIL, A. C. O. et al. O papel do fisioterapeuta do programa saúde da família do município de Sobral-Ceará. Revista Brasileira em Promoção da Saúde, Fortaleza, v. 1, n. 18, p.03-06, 12 jan. 2005.

4. BRASIL. Constituição da Republica Federativa do Brasil. Brasília, 1998. Disponível em: . Acesso em 20 fev. 2008.

5. CANTO, C. R. E. M.; MARQUES, A. P.; BIO, E. R. A influencia da atividade física materna sobre o curso gestacional e desenvolvimento fetal. Feminina, São Paulo, v. 24, n. 5, p. 459-460, jun. 1996.

6. COSTA, C. Características da produção científica de fisioterapia relacionada à saúde coletiva. Fisioterapia Brasil, Santos, n. 2, p.133-137, 24 mar. 2006.

7. DE CONTI et al. Efeito de técnicas fisioterápicas sobre os desconfortos músculo-esqueléticos da gestação. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, São Paulo, v. 25, n. 9, out. 2003.

8. FADYNHA, M. Meditações para gestantes: o guia para uma gravidez saudável, plena e feliz. Rio de Janeiro: Sextante, 1999.

9. FAÚNDES, A.; CECATTI, J.G. A operação Cesárea no Brasil. Incidência, tendências, causas, conseqüências e propostas de ação. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 7, n. 2, p.150-173, 1991.

10. MANUAL DO MINISTÉRIO DA SAÚDE/BRASIL. Parto, Aborto e Puerpério; Assistência Humanizada à Mulher. Ministério da Saúde, Área Técnica, Secretaria de Políticas de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2001.

11. NEIVA, J.G. Índice de cesariana. Feminina, v. 9, p. 516-518, 1981.

12. O COFFITO. Escola de posturas: resolutividade do ato fisioterapêutico. Disponível em: . Acesso em: 05 out. 2007.

13. OLIVEIRA, E. A. et al. A contribuição da Fisioterapia no processo de humanização da gestação e do parto. Conceitos, Paraiba, p.119-122, jun. 2005.

14. POLDEN, M.; MANTLE, J. Fisioterapia em ginecologia e obstetrícia. São Paulo: Santos, 2000.

15. POLDEN, M.; MANTLE, J. Preparação para o parto. In: ________. Fisioterapia em ginecologia e obstetrícia. São Paulo: Santos, 1993. Cap. 22.

16. RAGASSON, C. A. P. et al. Atribuições do fisioterapeuta no programa de saúde da família: reflexões a partir da prática profissional. Disponível em: . Acesso em: 29 out. 2007.

17. RIBEIRO, K. S. Q. S. A atuação da fisioterapia na atenção primária à saúde – Reflexões a partir de uma experiência universitária. Fisioterapia Brasil, São Paulo, v. 3, n. 5, p.311-8, set. 2002.

18. ROUQUAYROL M. Z, ALMEIDA F. N. Epidemiologia e Saúde. 5. ed. Rio de Janeiro: Medsi, 1999.

19. SAMPAIO, R. F. Promoção de saúde, prevenção de doenças e incapacidades: a experiência da fisioterapia/UFMG em uma unidade básica de saúde. Fisioterapia em Movimento, Curitiba, v. 15, n. 1, p.19-23, set. 2002.

20. SOUZA, E.L.B.L. Considerações de um fisioterapeuta obstetra. In: SOUZA, E.L.B.L. Fisioterapia aplicada à Obstetrícia e Aspectos de Neonatologia: Uma visão multidisciplinar. 2ed. rev.e amp. Belo Horizonte: Helth, 1999, p.19-21

21. VEIGA, A. C. et al. A atuação do fisioterapeuta na unidade básica de saúde. Fisioterapia Brasil, São Paulo, v. 05, p.246-249, 1 jun. 2004.

22. VÉRAS. M.M.S. O fisioterapeuta no Programa Saúde da Família. In. BARROS FMB, ed: O Fisioterapeuta na saúde da população: atuação transformadora. Fisiobrasil, p. 185-192, 2002.

23. ZUCCO, F; BARRETO, S.J. Fisioterapia na gravidez de risco. Revista Fisio & Terapia, Rio de Janeiro, ano 6, n.29, out./nov. 2001.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.