Com nanismo Aline Carla Polti é formada em fisioterapia e dá aulas de segunda a sexta.

Por Valma Silva, G1 Bahia

 

Baiana com nanismo se destaca como professora de pilates em Salvador

Uma jovem baiana com nanismo, transtorno caracterizado por deficiência no crescimento, conta que enfrentou dificuldades e preconceito para, após se graduar e fazer especializações, se realizar como professora de pilates. Aline Carla Polti tem 31 anos, é natural de Salvador, onde sempre viveu com os pais e o irmão. Ela é formada em fisioterapia, especialista em saúde da mulher, uroginecologia e obstetrícia.

Popularmente conhecidas como “anões”, as pessoas que têm a doença apresentam baixa estatura, se comparadas com a média da população de mesma idade e sexo. Elas são consideradas deficientes físicas e têm direito a receber benefício do INSS. Aline, porém, fez questão de estudar e trabalhar. Atualmente ela dá aulas de pilates de segunda a sexta-feira, em duas academias da capital baiana.

O termo “anão” é considerado pejorativo, entretanto, nem sempre Aline se sente ofendida ao ser chamada dessa forma. “Tudo depende do tom. A gente percebe quando há maldade e nesse caso, claro que pode machucar. Mas geralmente é tranquilo quando falam”, afirma a fisioterapeuta, que tem 1,34m de altura.

Ela relata que sempre conta com a solidariedade das pessoas nas ruas, que se sensibilizam com a dificuldade que enfrenta ao fazer coisas simples para a maioria, como utilizar caixas eletrônicos, pegar produtos em prateleiras de supermercados e farmácias, ou entrar em um ônibus. “Nossa sociedade não é preparada para lidar com o diferente, com as minorias. Praticamente não existe adaptação e acessibilidade para pessoas como eu”, pontua.

Aline Carla mede apenas 1,34 cm, mas os lugares onde ela vive não  são adaptados (Foto: Valma Silva / G1 BA)Aline Carla mede apenas 1,34 cm, mas os lugares onde ela vive não  são adaptados (Foto: Valma Silva / G1 BA)

Aline Carla mede apenas 1,34 cm, mas os lugares onde ela vive não são adaptados (Foto: Valma Silva / G1 BA)

Aline garante que leva uma vida normal, sem se abater pelos empecilhos diários, mas nem sempre foi assim. Na pré-adolescência, precisou fazer terapia, para lidar melhor com a própria imagem. Teve época que não conseguia nem me olhar no espelho, pois não gostava do que via. “Eu me achava estranha. A minha autoestima estava muito baixa e teve uma fase que fiquei um pouco agressiva”, admite.

O comportamento mudou no momento em que ela deixou de conviver apenas com os colegas da escola em que estudou desde criança, onde era conhecida por todos e era bem tratada, e passou a fazer atividades como natação e dança, para ajudar a alinhar a postura.

“Na natação eu era excluída, era o ‘patinho feio’ da turma. Os alunos me apontavam, riam de mim. Aquilo doía muito. Foi a primeira vez que não consegui reagir, pois eu sempre fui de revidar qualquer ameaça de provocação”, recorda.

Outra situação constrangedora foi no começo da carreira como fisioterapeuta. Enquanto na faculdade ela recebia apoio de professores, na primeira clínica onde trabalhou alguns pacientes não foram tão receptivos. “Teve um que chegou na sala e quando viu que quem faria os procedimentos com ele seria eu, simplesmente deu as costas e saiu. Fiquei arrasada, mas meus colegas e meu irmão, que também é fisioterapeuta, me confortaram”.

Ainda hoje, Aline conta que precisa enfrentar os olhares que recebe diariamente nos lugares onde frequenta. Eles se tornam mais expressivos quando novos alunos chegam para tomar aulas de pilates onde ela trabalha. “O primeiro contato sempre choca. Não é normal ver pessoas com nanismo trabalhando na minha área e muita gente fica ressabiada no começo. Fazem perguntas para testar meus conhecimentos, ficam me observando enquanto trabalho. Quando percebem que tenho qualificação e capacitação profissional, as pessoas se libertam de preconceitos”, observa.

Aline Carla Polti se formou há quatro anos (Foto: Arquivo Pessoal )Aline Carla Polti se formou há quatro anos (Foto: Arquivo Pessoal )

Aline Carla Polti se formou há quatro anos (Foto: Arquivo Pessoal )

Aline Carla já sofre preconceito no mercado de trabalho por ter nanismo (Foto: Valma Silva/ G1 BA)Aline Carla já sofre preconceito no mercado de trabalho por ter nanismo (Foto: Valma Silva/ G1 BA)

Aline Carla já sofre preconceito no mercado de trabalho por ter nanismo (Foto: Valma Silva/ G1 BA)

Aline se formou há quatro anos em fisioterapia e há três trabalha como professora de pilates. Ela detalha que sempre quis atuar na área de saúde. “Eu precisei fazer tantos tratamentos, que quero retribuir para outras pessoas o bem que esses profissionais me fizeram”, justifica. Ela passou por diversos especialistas como geneticista, ortopedista, fisioterapeuta, endocrinologista, fonoaudiólogo, entre outros. Também fez uma cirurgia para corrigir um desvio na coluna.

Embora tenha origem genética, não há nenhum outro caso de nanismo na família de Aline. O tipo dela é pituitário, que é provocado por distúrbios metabólicos e hormonais, especialmente pela deficiência da produção do hormônio do crescimento humano ou resistência à ação dele [o outro tipo é o chamado acondroplasia e se caracteriza pelo impedimento do crescimento dos ossos].

A doença foi descoberta logo após o parto. “Minha mãe conta que no começo teve o susto inicial, mas logo depois correu para buscar orientação, tratamento e tudo mais que fosse necessário para que eu tivesse a vida mais normal possível”.

A casa onde Aline mora com os pais não é adaptada, assim como as salas onde ela dá aula. Familiares a ajudam dentro de casa e na sala, ela cria alternativas, como subir em uma meia-lua para ter acesso a lugares mais altos ou pedir ajuda de colegas e dos próprios alunos para pegar algum objeto que não esteja com fácil alcance.

Aline reconhece que chama atenção das pessoas em qualquer lugar que esteja, mas não se sente intimidada com isso. “A minha condição é diferente e lido bem com ela. Sou feliz do meu jeito. Sempre fui assim, não sei como é viver de uma outra forma “.

Aline Carla Polti garante que leva uma vida normal, apesar dos desafios (Foto: Valma Silva)Aline Carla Polti garante que leva uma vida normal, apesar dos desafios (Foto: Valma Silva)

Aline Carla Polti garante que leva uma vida normal, apesar dos desafios (Foto: Valma Silva)

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