CAPACIDADE FUNCIONAL EM PACIENTES COM SEQÜELA DE ACIDENTE VASCULAR ENCEFÁLICO

Gisele de Castro e Silva1, Soleni Santana de Oliveira2, Ruth Losada de Menezes3 Tania Regina Vieira 3

1Fisioterapeuta do Centro de Reabilitação de Aparecida de Goiânia-GO
2Fisioterapeuta graduada pela Universidade Salgado de Oliveira – Goiânia
3Docentes do Curso de Fisioterapia da Universidade Salgado de Oliveira – Goiânia


I – Introdução

O acidente vascular encefálico (AVE) caracteriza-se por incapacitação súbita da circulação cerebral causada por um bloqueio parcial ou total de um ou mais vasos sanguíneos cerebrais (FRANÇA; FORTES; COSTA, 2004). Os AVEs podem ser do tipo isquêmico ou hemorrágico; os isquêmicos ocorrem por obstrução das principais artérias que levam sangue ao cérebro, as áreas irrigadas por essas artérias deixam de receber sangue oxigenado; 80% dos AVEs são desse tipo. Os hemorrágicos ocorrem por ruptura de uma dessas artérias levando ao sangramento intercerebral (OLIVEIRA, 2001; MAZZOLA, 2007).
Os efeitos neurológicos de um AVE são determinados pela área cerebral afetada, pela causa, extensão da lesão e as funções das áreas lesadas (SOUZA et al, 2003; VALENTE et al, 2006).
As principais manifestações clínicas do AVE, do ponto de vista motor, são a hemiplegia e hemiparesia que são a paralisia e fraqueza de um hemi corpo, respectivamente. Além dessas manifestações, podem ocorrer outras como distúrbios sensitivo, cognitivo, de linguagem, de equilíbrio, de tônus e simetria postural (CACHO; MELO; VIEIRA, 2004; TEIXEIRA et al, 2005).
Esse tipo de evento vascular possui alta prevalência na população mundial e isso está relacionado à alta incidência de fatores de risco presentes no cotidiano das pessoas, como a hipertensão arterial, diabetes, obesidade, sedentarismo, fumo, ingestão excessiva de álcool. Estes fatores podem levar um evento vascular (PIRES; GAGLIARDI; GORZONI, 2004; MAZZOLA, 2007).
O AVE possui elevada taxa de sobrevida, levando a algum tipo de deficiência, gerando grandes déficits na independência, o que faz o paciente ficar com sua capacidade funcional prejudicada interferindo na sua qualidade de vida (O’SULLIVAN, 2003; TEIXEIRA et al, 2005).
A capacidade funcional é descrita quanto à habilidade e independência de indivíduos desenvolverem atividades específicas, sendo esta determinante para pacientes neurológicos terem uma boa qualidade de vida (GUIMARÃES et al, 2004). O paciente após um AVE, geralmente, apresenta alguma limitação física, seja ela temporária ou não, que afeta sua capacidade funcional causando prejuízo na execução de suas atividades de vida diárias (AVD’s). Isso leva o paciente a ser uma pessoa totalmente ou parcialmente dependente de cuidadores.
A habilidade e independência de desenvolver as AVD’s dos pacientes com seqüela de AVE pode ser mensurada por meio do Índice de Barthel, em que mede a capacidade de executar atividades e cuidados pessoais do indivíduo em aspecto quantitativo, fornecendo informação sobre a qualidade ou melhora da função do indivíduo (CACHO; MELO; VIEIRA, 2004).
A avaliação por meio do Índice de Barthel poderá fornecer dados que medem especificamente o grau de assistência que um indivíduo necessita para desenvolver seus cuidados pessoais e AVD’s . Esse instrumento de pesquisa é composto por dez itens com um número específico de pontos para cada questionamento, variando de 0 a 100, que caracteriza a capacidade funcional do paciente em severa, grave, moderada ou leve (KAKIHARA; NEVES, 2005).
Este estudo teve por objetivo avaliar a capacidade funcional individual dos pacientes com diagnóstico de acidente vascular encefálico (AVE) que fazem tratamento fisioterápico no Centro de Reabilitação de Aparecida de Goiânia (CRAG) utilizando o Índice de Barthel.

II – Materiais e Métodos

O presente estudo caracterizou-se por ser quantitativo e descritivo de propósito prático, com coletas de dados através de questionários individuais utilizando-se o Índice de Barthel em pacientes com diagnóstico de AVE, no mês de setembro de 2007, atendidos no Centro de Reabilitação de Aparecida de Goiânia – GO (CRAG).
O CRAG é uma instituição pública municipal, instalada na cidade de Aparecida de Goiânia, de caráter ambulatorial que presta atendimento nas áreas de fisioterapia, fonoaudiologia e psicologia para população local. O serviço de fisioterapia desta unidade atende pacientes nas áreas de ortopedia, reumatologia, respiratória e neurológica de casos de pequena e média complexidade. No entanto, a maior demanda nesse centro é de pacientes neurológicos e entre eles há um grande número de pacientes com seqüela de AVE.
A amostra foi constituída por 35 indivíduos selecionados através da análise de todos os prontuários pertencentes ao setor de fisioterapia neurológica, no qual o critério de inclusão foi ter o diagnóstico de AVE. Foram excluídos os pacientes que não apresentavam aspectos cognitivos dentro da normalidade.
A avaliação da capacidade funcional foi realizada por meio do Índice de Barthel, que é um instrumento de pesquisa composto por 10 questões com pontuações diferenciadas que variam de zero, que equivale à completa dependência em todas as atividades, a 100, que equivale à completa independência em todas as atividades. As questões são relacionadas às refeições, banho, vestimenta, asseios, evacuação, micção, uso do banheiro, transferências, locomoção e mobilidade (QUADRO 1). Foi escolhido este instrumento devido à sua fácil administração, credibilidade e validade dos dados obtidos como provam vários estudos com uma variedade de populações de pacientes.

QUADRO 1: Índice de Barthel


A análise dos dados foi obtida de forma descritiva e estes foram relacionados entre si através do programa Microsoft Excel, versão 2000. A discussão foi realizada com referencial literário concernente ao tema.
Os pacientes voluntários assinaram um Termo de Consentimento em que foram esclarecidos previamente os procedimentos que seriam realizados. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Goiás, por estar de acordo com a Resolução CNS 196/96, seguindo todos os preceitos exigidos (protocolo 054/2007).

III – Resultados

Dos 35 pacientes selecionados 13 eram do sexo feminino (37%) e 22 do masculino (63%) com idade média de 57,37 (38 – 81 anos), sendo 9 pacientes dependentes de cadeira de rodas (26%) para se locomoverem (TABELA 1). Dentro dessa amostra 14 pacientes (35%) apresentavam menos de um ano de acidente vascular e 26 (65%) superior a esse tempo, com variação de 2 meses a 1 ano e 6 meses de evento e 31 pacientes (89%) fazem tratamento na instituição menos de um ano e 4 mais de um ano (11%), variando de 1 mês a 1 ano e 5 meses (TABELA 2).

Quanto à capacidade funcional observamos que a maioria dos participantes (54%) apresentou leve incapacidade (FIGURA 1).

FIGURA 1 – Graus de incapacidade funcional observados nos pacientes com seqüela de AVE, por meio do Índice de Barthel, CRAG – Aparecida de Goiânia (GO), 2007.

 

Os resultados da avaliação da capacidade funcional por atividades encontram-se na TABELA 3, abaixo.

IV – Discussão

A literatura demonstra que o AVE ocorre predominantemente no gênero masculino (O’SULLIVAN, 2003; PIRES; GAGLIARDI; GORZONI, 2004; RODRIGUES; SÁ; ALOUCHE, 2004; MAZZOLA, 2007). Neste estudo, o resultado encontrado apresenta características semelhantes às da literatura, sendo que a maior proporção observada foram em homens (63%).
O perfil dos pacientes deste estudo, quanto à incidência de idade do acometimento do AVE, demonstrou maior prevalência em pacientes com idade inferior a 60 anos (60%), indo contra a literatura que demonstra uma maior freqüência na faixa etária dos 60 aos 74 anos (PIRES; GAGLIARDI; GORZONI, 2004; RODRIGUES; SÁ; ALOUCHE, 2004;VALENTE et al, 2006; MAZZOLA et al, 2007). A precocidade do AVE na população, possivelmente está relacionada com os maus hábitos de vida como o tabagismo, etilismo, sedentarismo, a presença de enfermidades como a diabetes, hipertensão, hipercolesterolemia.
No estudo de Valente et al(2006) foi observado que, em 75% dos casos analisados, a artéria mais acometida é a arterial média, que de acordo com O’Sullivan (2003) é o local mais comum para AVE e resulta em hemiparesia/plegia com predomínio braquial. Pode-se observar que no presente estudo, as atividades alimentação e vestimenta obtiveram maiores porcentagens de dependência, podendo esta estar relacionada com maior presença de seqüela em membro superior. As atividades de vida diária como alimentação, higiene e vestuário serão prejudicados pela ausência ou diminuição de força, alteração de tônus muscular e dor na articulação do ombro, além da presença de sinergismo patológicos que dificultarão o movimento adequado do membro superior para a realização das AVD’s (SMITH, WEISS, LEHMKUHL, 1997; VALENTE et al, 2006; CESÁRIO, PENASSO, OLIVEIRA,2006).
A fraqueza muscular, ou tônus muscular anormal no tronco, leva a padrões de alinhamento atípico no tronco, cinturas escapular e pélvica, criando uma posição inicial atípica para o movimento funcional (COSTA, BEZERRA, OLIVEIRA, 2006). Cesário, Penasso e Oliveira (2006) ressaltam que a execução das AVD’s, tais como vestir, alimenta-se, mudar de posição, andar, sentar, alcançar objetos dependem e envolvem o controle postural, visto que as variações nos escores na pontuação dos indivíduos avaliados refletem a diminuição de algumas habilidades diárias.
A atividade postural do hemiparético ou do hemiplégico e assimetria na distribuição do peso corporal não é uma condição favorável para a aquisição das atividades funcionais. Costa, Bezerra e Oliveira (2006), descreveram a simetria e transferência de peso em pacientes com seqüela de AVE e sua correlação com o desempenho das AVD’s. Concluíram que a diminuição da simetria e transferência de peso prejudica as atividades funcionais com seqüela de AVE. De acordo com Cesário, Penasso e Oliveira (2006), a assimetria e a dificuldade em suportar o peso no lado afetado interferem na capacidade de manter controle postural, impedindo a orientação e estabilidade para realizar movimentos com o tronco e membros.
O resultado da atividade deambulação e subir escadas, neste estudo, mostraram déficits na população estudada, totalizando 54,29% e 51,43%, respectivamente. Junqueira, Ribeiro e Scianni (2004) relatam que a relação entre a espasticidade, assimetria e fraqueza muscular são fatores determinante nos déficits do desempenho funcional com sujeitos com AVE, principalmente com a marcha. Teixeira et al (2005), afirmam que o desempenho da marcha em pacientes com seqüela de AVE é caracterizado por baixa velocidade e assimetria residual, espacial e temporal, em comparação com indivíduos saudáveis. A habilidade de subir escadas é uma condição importante para a independência funcional nas AVD’s, como transpor meio-fio e tomar ônibus, além de ampliar o convívio social, contribuindo para melhora da qualidade de vida.

V – Conclusão

Este estudo evidenciou que o Acidente Vascular Encefálico vem acontecendo não somente em pessoas idosas, mas, também, tem grande predominância em adultos, o que justifica o cuidado intensivo na prevenção dos fatores de risco que podem desencadear um evento vascular, por meio de campanha de conscientização sobre conseqüências como a incapacidade funcional que a patologia pode provocar. Uma característica do AVE é que quando não causa morte, deixa seqüelas devastadoras, incapacidade física, perda da independência funcional e conseqüente redução da função social e emocional. Os pacientes em programa de reabilitação no CRAG apresentam maior dificuldade em desenvolver as atividades de alimentação e vestimenta, ou seja, das atividades que exigem muito da função motora dos membros superiores. Os pacientes assistidos nessa instituição caracterizaram-se por apresentar leve incapacidade funcional, porém o suficiente para interferir na qualidade de vida devido à necessidade de dependência na execução de alguma AVD.

Agradecimentos

Agradecemos ao Centro de Reabilitação de Aparecida de Goiânia pela confiança de nosso trabalho e aos pacientes que participaram da realização deste estudo.

Referências

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CESÁRIO, C.M.C.; PENASSO, P.; OLIVIERA, A.P.R. Impacto da disfunção motora na qualidade de vida em pacientes com acidente vascular encefálico. Revista Neurociências, v. 14, n.1, p.6-9, jan./mar. 2006.

COSTA, M.C.F.; BEZERRA, P. P.; OLVEIRA, A.P.R. Impacto da hemiparesia na simetria a na transferência de peso: repercussões no desempenho funcional. Revista Neurociências, v. 14, n.2, p.10-13, abr./jun. 2006.

FRANÇA, R. M.; FORTES, V. L. F; COSTA, G. L. O idoso com acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico agudo: vivenciando o cuidado. Revista brasileira de ciências do envelhecimento humano, Passo Fundo, p. 22-29, jul./dez. 2004.

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JUNQUEIRA, R.T.; RIBEIRO, A.M.B.; SCIANNI, A.A. Efeitos do fortalecimento muscular e sua relação com atividade funcional e a espasticidade em indivíduos hemiparéticos. Revista Brasileira de Fisioterapia, v.8, n.3, p.247-252. 2004.

KAKIHARA, C. T.; NEVES, C.G. Avaliação do grau de funcionalidade de pacientes que sofreram acidente vascular encefálico antes e após intervenção fisioterapêutica no solo e na hidroterapia. Fisioterapia Brasil, São Paulo, v. 6, n.5, p.332-338, set/out. 2005.

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1 comentário em “CAPACIDADE FUNCIONAL EM PACIENTES COM SEQÜELA DE ACIDENTE VASCULAR ENCEFÁLICO”

  1. Joarez silva

    Parabéns pelo trabalho realizado! Bem esclarecedor quanto as sequelas de AVE! Uma linguagem simples mas inteligível onde todos podem ler e entender! Abraços!

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