CAPACIDADE FUNCIONAL EM IDOSOS NA COMUNIDADE: UM OBJETIVO A SER ALCANÇADO

Avila, C.A.L.1; Souza, F.B.2; Fernandes, A.A.3; Flores, D.M.4
Resumo
Tendo-se em conta a expectativa de vida cada vez mais alta, vários estudos têm sido desenvolvidos de modo a contribuir para a melhoria da capacidade funcional na terceira idade. Muitos dos declínios observados no envelhecimento são frutos de um estilo de vida e de hábitos inadequados e nocivos à saúde. A meta no atendimento à saúde deixa de ser a de apenas prolongar a vida, mas, principalmente, a de manter a capacidade funcional do indivíduo, de forma que esse permaneça autônomo e independente pelo maior tempo possível. O objetivo da presente revisão é mostrar o perfil dos idosos em relação as suas capacidades, incapacidades, mobilidade e atividades psicossociais, o quanto às alterações na funcionalidade e independência influenciam para um declínio da vida do idoso. A conclusão a que chegamos baseado nos artigos estudados, é que estamos engatinhando na atenção primária a saúde daqueles que estão envelhecendo o atendimento domiciliar é a melhor alternativa para a promoção, prevenção e reabilitação das habilidades essenciais para uma velhice mais sadia e feliz.
Palavras-chave: Idosos. Envelhecimento. Capacidade funcional.

Abstract
Having in account the life expectancy raising up every time, many studies have been being developed in a mode to contribute to the improvement of the functional capacity in the third age. Many of the observed declines in the aging are fruits of inadequate and harmful life styles and habits. The goal in the health attendance no more is only to prolong life, but, principally, to keep ones functional capacity, so he can stay autonomous and independent for the most time that’s possible. The objective of the present revision is to show the profile of the aged in relation to his capacities, incapacities, mobility and psychosocial activities, the amount of influence that the changes in the functionality and independence of the aged contribute to his life decline. The conclusion we have arrive, based on the studied articles, is that we’re crawling in primary attention to the health of the ones that are aging. The domiciliary attendance is the best alternative to promote, prevent and rehab of the essential abilities for a healthy and happy oldness.
Key Words: Elderly. Aging. Functional status.

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1 – Aluna do Curso de Graduação em Fisioterapia da Unisinos
2 – Aluno do Curso de Graduação em Fisioterapia da Unisinos, e-mail: fernandob@unisinos.br
3 – Coordenador do Curso de Graduação em Fisioterapia da Unisinos
4 – Professora do Curso de Graduação em Fisioterapia da Unisinos

Introdução
O envelhecimento humano sempre mereceu considerações, tanto do viver quanto do morrer, por isso, desde os primórdios de sua existência, o homem tem procurado prolongar a vida e entender a velhice. Com o aumento gradativo da longevidade, a visão da velhice como malogro tem sido substituída pela de conquista, a ser desfrutada com qualidade.
Ninguém nega a ordem natural que se segue após a concepção e que o desenvolvimento faculta: gestação, nascimento, infância, adolescência, maturidade, velhice e morte.
Muitos dos declínios observados no envelhecimento são frutos de um estilo de vida e de hábitos inadequados e nocivos à saúde. Portanto, estabelecer mudanças e adaptações no estilo de vida do adulto, pode reduzir o risco de doenças e incapacidades funcionais, marcando assim um envelhecimento bem sucedido. Os fatores psicológicos que influem no senso de equilíbrio e de autonomia, além de um efetivo suporte social têm um papel importante na promoção do bem-estar geral na velhice. Este é então, um produto do processo de adaptação entre nível de habilidade e competência individual e as demandas ou pressões do meio ambiente.
Diante do envelhecimento populacional, a meta no atendimento à saúde deixa de ser a de apenas prolongar a vida, mas, principalmente, a de manter a capacidade funcional do indivíduo, de forma que esse permaneça autônomo e independente pelo maior tempo possível. Para que isso ocorra, o sistema de saúde precisa garantir o acesso universal aos cuidados progressivos de saúde e as políticas públicas devem enfatizar a promoção de saúde e a prevenção de doenças. (Costa et al., 2006)
A Organização Mundial de Saúde (OMS) destaca a capacidade funcional e a independência como fatores preponderantes para o diagnóstico de saúde física e mental na população idosa. A mobilidade, capacidade de deslocamento do indivíduo pelo ambiente, é um componente da função física extremamente importante; constituindo um pré-requisito para a execução das atividades de vida diária (AVDs) e a manutenção da independência. Seu prejuízo pode gerar dependência e incapacidades. (Oliveira, et al.., 2006)
Neri (2001) e Paschoal (1996) definem independência funcional como a capacidade de realizar algo com os próprios meios. Ela está ligada à mobilidade e à capacidade funcional, onde o indivíduo vive, sem requerer ajuda para a execução das atividades básicas e instrumentais da vida diária. Segundo Chaimowicz (1997), no Brasil, um inquérito domiciliar demonstrou que o aumento da expectativa de vida vem associado ao acréscimo da proporção de indivíduos que necessitam de auxílio para a realização das AVDs.
Segundo Rosa e colaboradores (2003), já foi descrito que os fatores mais fortemente associados com as capacidades funcionais estão relacionados com a presença de algumas doenças, deficiências ou problemas médicos. Entretanto, observa-se, que a principal hipótese subjacente em alguns desses estudos é a de que a capacidade funcional é influenciada por fatores demográficos, socioeconômicos, culturais e psicossociais.
A avaliação do estado de saúde da população idosa utilizando, exclusivamente, por exemplo, estatísticas de mortalidade, pode não fornecer um retrato mais detalhado das reais condições de vida e saúde dessa, pois não refletiria a elevada incidência de condições que interferem em sua qualidade de vida, sem, no entanto, serem responsáveis por sua morte. Indicadores de morbidade que abordem também as incapacidades vem demonstrando ser os mais adequados, pois refletem o impacto da doença/incapacidade sobre a família, o sistema de saúde e a qualidade de vida dos idosos. (Chaimowicz, 1997)
A Avaliação Funcional representa uma maneira de medir se uma pessoa é ou não capaz de, independentemente, desempenhar as atividades necessárias para cuidar de si mesma e de seu entorno e, caso não seja, verificar se essa necessidade de ajuda é parcial ou total. (O’Sullivan, 2004)
Muitos são os instrumentos utilizados para avaliação funcional em idosos como podemos observar nos artigos estudados entre eles estão: Índice de Barthel e escala de Lawton e Índice de Katz – (Atividades Básicas de Vida Diária – ABVD e Atividades Instrumentais de Vida Diária – AIVD); Timed Up and Go (TUG) – (mobilidade); Medida de Independência Funcional (MIF); Mini-Exame do Estado Mental (MEEM) – (cognição) entre outros.
O presente estudo visa dar uma visão geral da capacidade funcional dos idosos e tentar mostrar como as alterações na funcionalidade e independência influenciam para um declínio na qualidade de vida dos idosos na comunidade, contribuindo assim para o seu entendimento e favorecendo o planejamento de condutas eficazes para esses indivíduos. Para o nosso artigo de revisão foram analisados doze artigos e dois livros compreendidos entre os anos de 1993 e 2006 a respeito dos idosos e sua capacidade funcional.

Discussão
Em geral, a população de idosos com mais de 60 anos, apresentou uma alta prevalência de doenças crônicas ¬ quase 90% referiram pelo menos uma, principalmente hipertensão arterial, dores articulares, diabetes, AVC e varizes. Sendo que essas doenças levam a algum tipo de dependência, diferente dos dados sociodemográficos que não podem ser modificados pelo indivíduo, a dependência nas AVDs é um fator que pode ser mutável com prevenção e reabilitação.
Como mostra o estudo feito por Ramos et al. (1993) o inquérito domiciliar realizado em dez subdistritos de cinco regiões do Município de São Paulo, estratificados pelo nível socioeconômico, no início dos anos 90, revelou que 86% dos entrevistados apresentavam pelo menos uma doença crônica.
Os resultados obtidos dos estudos feitos nos artigos aos quais baseamos nossa revisão relatam que a mobilidade e o deslocamento no ambiente são elementos essenciais para que as AVDs sejam realizadas com independência. As AVDs se dividem em, ABVD que são as tarefas que uma pessoa precisa realizar para cuidar de si, tais como: tomar banho, vestir-se, ir ao banheiro, andar, comer, passar da cama para a cadeira, mover-se na cama e ter continência urinária e fecal; e AIVD são as habilidades do idoso para administrar o ambiente em que vive e inclui as seguintes ações: preparar refeições, fazer tarefas domésticas, lavar roupas, manusear dinheiro, usar o telefone, tomar medicações, fazer compras e utilizar os meios de transporte.
No Brasil de acordo com dados pesquisados “o comprometimento na independência para realizar as AVDs antes dos 70 anos, revela um envelhecimento mal sucedido, provavelmente devido às condições sociais e econômicas adversas, que influenciaram negativamente no estado de saúde”. (Costa et al., 2006)
Chaimowicz (1997), encontrou uma correlação positiva entre a idade e a proporção de idosos que necessitavam de auxílio para a realização de AVDs.
Segundo Rosa et al. (2003), os idosos com nível mais baixo de escolaridade apresentaram chances cerca de cinco vezes maior de ter dependência moderada/grave em AVDs.
Para Costa et al. (2006), a falta de controle dos esfíncteres pode levar ao isolamento social, alterações na auto-estima e auto-imagem, podendo influenciar também nas atividades instrumentais de vida diária.
Dentre todas as variáveis determinantes para a dependência entre os idosos, idade continua sendo a principal, as demais variáveis são dependentes de uma complexa interação entre o indivíduo e o meio ambiente que por sua vez varia de cultura para cultura assim como com o tempo.
O sedentarismo entre os idosos é freqüente podendo levar a diminuição da flexibilidade, com a falta de mobilidade articular o indivíduo deixa de realizar atividades do seu dia-a-dia. Porém se orientado por um profissional competente, e iniciar um programa de atividades físicas melhora a mobilidade articular e força muscular retardando a sua inatividade e dependência.
Para o risco de morte através do estudo feito por Ramos et al.(2001) apud Ramos (2003) poucas variáveis mantiveram um efeito independente e significante: sexo, idade, hospitalização prévia e positividade nos rastreamentos para déficit cognitivo e dependência no dia-a-dia, nesse estudo feito por Ramos (2003) provou-se que na prática, os únicos fatores de risco mutáveis que poderiam diminuir o risco de morte seriam o estado cognitivo e o grau de dependência no dia-a-dia ambos poderiam ser incorporados a atenção à saúde do idoso diminuindo o grau de incapacidade funcional dando uma maior autonomia ao sujeito que envelhece.
Assim como diz Ricci (2005) as tarefas deverão ser executadas no tempo do idoso e com o incentivo para que ele as realize com maior autonomia e independência possível.
O atendimento domiciliar, citado por muitos autores, surge como uma alternativa de modalidade de assistência à saúde para o tratamento de idosos com algum grau de dependência. Não devemos ter está visão hospitalocêntrica onde o hospital centraliza o atendimento, muitos dos problemas podem e devem ser tratados na comunidade e/ou em seu lar.
Para Maciel e Guerra (2005) a Fisioterapia configura-se como recurso capaz de analisar e implementar programas de intervenção para evitar e se contrapor a muitas das alterações e deficiências encontradas em pessoas idosas e para melhorar sua capacidade de deambulação e saúde geral. A intervenção fisioterapêutica compreende a promoção do bem-estar, a melhoria ou manutenção das capacidades funcionais, a prevenção de limites, bem como a própria reabilitação, quando as deficiências estiverem instaladas.
O fisioterapeuta pode muito bem atender a essa demanda a respeito da capacidade funcional na atenção básica a saúde do idoso na sua comunidade em seu domicílio, assim como referiu Ramos et al. (1993) que dentre as muitas atividades com grande potencial de impacto, na saúde dessa parcela da população, está a fisioterapia, no plano das unidades básicas de saúde (UBS), com objetivos não só restauradores de incapacidades, mas também preventivos.O atendimento domiciliar é imprescindível ao trabalho de atenção primária do profissional fisioterapeuta, pois é quando nós deparamos com a realidade das pessoas, verificando suas atividades de vida diária, suas limitações e a partir daí proceder aos encaminhamentos e orientações pertinentes a cada caso.
De acordo com Silvestre e Costa Neto (2003) os profissionais que atuam na atenção básica devem ter de modo claro à importância da manutenção do idoso na rotina familiar e na vida em comunidade como fatores fundamentais para a manutenção de seu equilíbrio físico e mental.
O trabalho deve ser de multiprofissionais da área da saúde para que o idoso seja tratado como um todo, esse é o caminho para que se adquira um “envelhecimento bem-sucedido” capaz de cuidar tanto da parte física com da mental e emocional levando a uma maior independência e autonomia para que esses anos a mais conquistados sejam vividos com a melhor qualidade de vida possível.

Conclusão
Tendo em vista que a capacidade funcional do ser humano declina com a idade, é necessário planejar estratégias que melhorem o estilo de vida dos idosos, principalmente em relação a programas que proporcionem: promoção e melhoria da força muscular e de articulação; promoção, tratamento e reabilitação da capacidade funcional dos esfíncteres urinário e intestinal; integração social dentro e fora do contexto familiar; construção de um sistema adequado de suporte ao idoso; educação permanente ao longo da vida e valorização do processo de envelhecimento individual e populacional. (Costa et al., 2006)
Políticas de Saúde Públicas devem investir mais na conservação da autonomia e independência da saúde do idoso na comunidade, no seu ambiente familiar, para que esse não sobrecarregue a família e o sistema de saúde.
A rede de apoio ao idoso não pode mais depender apenas de iniciativas isoladas de profissionais conscientes. O envelhecimento bem-sucedido deve ser a meta a ser atingida. Como dizia Jung, “o anoitecer da vida deve também possuir um significado próprio e não pode ser, apenas, um apêndice lamentável da manhã da vida”. (Garrido; Menezes, 2002)

Referências Bibliográficas
1. Chaimowicz F. A saúde dos idosos brasileiros às vésperas do século XXI: problemas, projeções e alternativas. Rev. Saúde Pública, vol. 31 no. 2. São Paulo; 1997.
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10. Ramos, L.R.; Rosa, T.E.C.; Oliveira, Z.M.;. Medina, M.C.G; Santos, F.R.G. Perfil do idoso em área metropolitana na região sudeste do Brasil: resultados de inquérito domiciliar. Rev. Saúde Pública vol.27 no.2 São Paulo, 1993.
11. Ramos, L. R. Fatores determinantes do envelhecimento saudável em idosos residentes em centro urbano: Projeto Epidoso, São Paulo. Cad. Saúde Pública vol.19 no.3 Rio de Janeiro, 2003.
12. Ricci, N. .; Kubota, M.T. ; Cordeiro, R.C. Concordância de observações sobre a capacidade funcional de idosos em assistência domiciliar. Rev. Saúde Pública v.39 n.4 São Paulo, 2005.
13. Rosa, T.E.C.; Benício, M.H.A.; Latorre, M.R.D.O.; Ramos, L.R. Fatores determinantes da capacidade funcional entre idosos. Ver. Saúde Píblica vol. 37 n. 1 São Paulo, 2003.
14. Silvestre, J.A.; Costa Neto, M.M. Abordagem do idoso em programas de saúde da família. Cad.Saúde Pública vol.19 no.3, Rio de Janeiro, 2003.

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