CAPACIDADE FUNCIONAL DE IDOSOS INSTITUCIONALIZADOS NO MUNICÍPIO DE CAXIAS DO SUL, RS.

RENOSTO, Alexandra1; PFUTZE, Elaine G.2 ;BRANDALISE, Erica2; ZAGO, Laura G.2; TONDIN, Maicon2; SORANZO, Maria2; RISSI, Patrícia2; CONCEIÇÂO, Rênice A2.; FRIGHETTO, Vinícius B2.
1.Profesora Supervisora do Curso de Fisioterapia da Faculdade da Serra Gaúcha.
2.Acadêmicos do Curso de Fisioterapia da Faculdade da Serra Gaúcha.

RESUMO
Este estudo tem como objetivos identificar a capacidade funcional dos idosos do Lar São Francisco de Assis, a prevalência de patologias e a associação da funcionalidade com as variáveis demográficas. Esta pesquisa constitui um estudo transversal incluindo 62 idosos institucionalizados entre os meses de agosto a dezembro de 2006. Os entrevistados residem no Lar São Francisco de Assis no município de Caxias do Sul, RS. Os dados foram coletados por acadêmicos de Fisioterapia da Faculdade da Serra Gaúcha, utilizando-se como instrumentos de coleta de dados o Índice de Barthel e um questionário contendo variáveis demográficas como idade e sexo além de tipo de morbidade. A entrada dos dados foi realizada através do programa Epi Info versão 10.0 e a análise pelo pacote estatístico SPSS v. 11.0. Do total de 62 idosos, 3 não foram avaliados, sendo que, 2 por motivo de óbito e 1 por encontrar-se hospitalizado, ou seja, uma taxa de resposta de 95,2%. A idade média era de 79 anos, sendo 64% do sexo feminino. Observou-se que somente a idade tem associação altamente significativa com a capacidade funcional, ou seja, quanto maior a idade menor será a capacidade funcional. Verificou-se uma maior susceptibilidade aos agravos da saúde em relação ao aumento da longevidade.
Palavras – chave: capacidade funcional, idosos institucionalizados, prevalência de patologias.

INTRODUÇÃO

O envelhecimento da população é tanto um dos maiores triunfos da humanidade como também um dos maiores desafios. Em todo o mundo, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais está crescendo mais rapidamente do que qualquer outra faixa etária. Em 1950 havia cerca de 204 milhões de idosos no mundo e, em 1998 este contingente alcançava 579 milhões de pessoas, um crescimento de quase 8 milhões de pessoas idosas por ano. As projeções indicam que, em 2050, a população idosa será de 2 bilhões de pessoas. No Brasil configura-se um total de 15 milhões de idosos hoje. (IBGE, 2002).
O processo de transição demográfica, caracterizado pelo envelhecimento populacional, iniciou-se no final do século XIX em alguns países da Europa Ocidental, espalhou-se para o resto dos países desenvolvidos, e estendeu-se, nas duas últimas décadas, por vários países em desenvolvimento, inclusive o Brasil. Trata-se, portanto, de uma ocorrência mundial. A queda da natalidade, fecundidade e mortalidade parecem ser as principais causas deste fenômeno. Nos países desenvolvidos o envelhecimento da população foi conseqüência das melhorias concretas verificadas nas condições de vida da população e mais tarde, a partir dos anos 40 e 50 devido ao avanço da medicina e a descoberta de novos medicamentos. Em países subdesenvolvidos essa transição se deve basicamente as conquistas tecnológicas da medicina moderna, transferida dos países ricos, que possibilitaram recursos capazes de prevenir ou curar muitas moléstias fatais do passado, como as provocadas por infecções e parasitoses (NETTO, 1997; TUOMI, 1997a, ILMARINEM,2001, CARVALHO e GARCIA, 2003).
Depois dos 60 anos, o número de pessoas com algum tipo de incapacidade aumenta, e, a partir dos 80 essa cifra triplica. Fato que nos permite considerar a incapacidade física, mental e social do idoso, uma das grandes epidemias que iremos enfrentar no planeta nos próximos anos. Nesse sentido, a condição funcional do indivíduo, é um dos grandes indicadores de saúde que possibilita o planejamento dos serviços de saúde a partir do conhecimento das necessidades desta população, e, constitui as bases de suas demandas nos serviços sociais e de saúde. Manter-se funcionalmente ativo em um determinado contexto, considerando as relações culturais mantidas dentro do grupo em que participa como cidadão, parece ser um dos grandes desafios para a sociedade dos nossos tempos. Dessa forma, promover a saúde, torna-se uma grande prerrogativa para ações coletivas de saúde, onde os profissionais da saúde e a comunidade acadêmica tendem a dirigir seus estudos (GONZÁLES, 1995).
A capacidade funcional do idoso trata de executar atividades que lhe permitem cuidar de si próprio e viver independentemente em seu meio, sendo essas AVD’s (Atividades de Vida Diária) e AIVD’s (Atividades Instrumentais da Vida Diária). A institucionalização tem como repercussão, em geral, uma diminuição significativa da capacidade funcional e muitas vezes irreversíveis mudanças na qualidade de vida (COSTA, E. F.A; MONEGO, et al. ,2003).
As síndromes geriátricas e a dependência funcional se revelam como grandes indicadoras dos fatores precipitantes da institucionalização, demonstrando que o idoso asilado é mais frágil, requer maior cuidado e monitoramento. Estudos demonstram que de 1985 a 2060 o número de idosos institucionalizados no Brasil aumentará de 1,3 para 4,5 milhões, sendo que grande parte será de idosos dependentes (YUASO, D. R. et al.,1997). A partir dos dados supracitados, o presente artigo visa identificar a capacidade funcional dos idosos do Lar São Francisco de Assis, a prevalência de patologias e a associação da funcionalidade com as variáveis demográficas.

MATERIAL E MÉTODO

O presente estudo foi realizado a partir do programa de extensão acadêmica em fisioterapia geriátrica. Este programa envolve ações preventivas, educativas e reabilitadoras aos idosos. As ações preventivas preconizam um programa de atividades motoras de caráter cinesioterapêutico em grupo com os idosos. As ações educativas são proporcionadas através da concientização dos mesmos sobre diversas questões em saúde, além das práticas com vivências que estimulem e incentivem o autocuidado, socialização e integração no seu contexto e fora dele. As atividades são planejadas e organizadas antecipadamente com a supervisora do projeto. Sendo que, semanalmente são realizados grupos de estudo com os acadêmicos participantes do programa, visando acompanhar, discutir e avaliar o trabalho realizado. Desta forma proporciona-se aos acadêmicos a relação teórico-prática na construção do conhecimento.
Esta pesquisa que surgiu a partir das práticas desenvolvidas no projeto supracitado, constitui um estudo transversal incluindo 62 idosos institucionalizados entre os meses de agosto a dezembro de 2006 Os entrevistados residem no Lar São Francisco de Assis no município de Caxias do Sul, RS.
A coleta de dados foi realizada por acadêmicos do curso de Fisioterapia da Faculdade da Serra Gaúcha durante as práticas desenvolvidas no programa de fisioterapia geriátrica.. Os mesmos utilizaram um questionário contendo variáveis demográficas e tipo de morbidade. As variáveis demográficas foram: idade, coletada em anos completos no momento da pesquisa e recodificada em faixas etárias (> 70, 71-80, 81-90 e >90 anos) e sexo (masculino/feminino). O tipo de morbidade foi coletado através de dados informados pela instituição, sendo que os entrevistados podem apresentar mais de uma doença. Salienta-se que os dados não referidos diretamente pelos idosos foram informados pelos cuidadores da instituição.
Os dados sobre a capacidade funcional foram coletados através do Índice de Barthel. Tal instrumento, desenvolvido para avaliação do nível de dependência, principalmente para pacientes idosos ou portadores de seqüelas crônicas, vêm sendo utilizado desde 1965 e é recomendado pela OPS/OMS, tendo em vista a facilidade de aplicação e adaptação a diferentes culturas. No Brasil, em pesquisa bibliográfica realizada, observa-se sua utilização com a mesma finalidade e versão traduzida. O instrumento possui 10 itens contendo informações relacionadas à alimentação, banho, higiene pessoal, vestimenta, intestino, bexiga, transferência cadeira/cama, deambulação e subir escadas. Cada item possui um escore de 0 a 15 totalizando 100 pontos, variando de 0-15 dependência total, 20-35 dependência grave, 40-45 dependência moderada, 60-95 dependência leve e 100 pontos independente (CID-RUZAFA, J., DAMIÁN, M; MORENO, J, 1997; SULLIVAN, S. B. O’; SCHMITTZ, T. J., 1993).
A entrada dos dados foi realizada no mês de outubro através do Programa Epi Info versão 10.0 com dupla entrada por dois digitadores para posterior comparação da consistência dos dados e possíveis erros de digitação. A análise dos dados foi realizada pelo pacote estatístico SPSS v.11.0, através do teste qui quadrado, considerando como valor estatisticamente significativo p≤0,005.

RESULTADOS

Do total de 62 idosos, 3 não foram avaliados, sendo que, 2 por motivo de óbito e 1 por encontrar-se hospitalizado, ou seja, uma taxa de resposta de 95,2%. A idade média dos participantes estudados era de 79 anos , sendo que 64,4 % dos indivíduos pertencem ao sexo feminino.
Na tabela 1, dos 59 individuos avaliados, observou-se que 33 (55,9%) apresentaram dependência leve ou independente, e 15 (25,4%) dependência total. Destaca-se a prevalência de indivíduos com independência funcional nas AVD’s que dizem respeito à alimentação, vestimenta, transferência no banheiro/ cadeira e deambulação. Salienta-se que a maioria dos idosos possui dependência funcional para a variável banho (62,7%).
Em relação as variáveis demográficas, somente a idade demonstrou associação altamente significativa, ou seja, quanto maior a idade menor será a capacidade funcional. Quanto às morbidades coletadas, constatou-se maior prevalência de doenças do aparelho circulatório (44,06%), seguidas de transtornos mentais e comportamentais (37,29%) e doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas (23,73%), sendo que apenas 6,78% não apresentaram nenhuma morbidade. Deve-se considerar o fato de que os idosos avaliados podem apresentar mais de uma morbidade.

DISCUSSÃO

A prevalência do sexo feminino na amostra estudada mostrou-se similar a outros estudos realizados (SIQUEIRA et al, 2004). Enquanto as mulheres possuem a vantagem da longevidade, elas são vítimas mais freqüentes da violência doméstica e de discriminação no acesso à educação, salário, alimentação, trabalho significativo, cuidados da saúde, heranças, medidas de seguro social e poder político. Essas desvantagens cumulativas significam que as mulheres, mais que os homens, têm maior inclinação para a pobreza e o sofrimento de deficiências (ROSA, 2003; RAMOS, 2003; VERAS, 2002).
Quanto à avaliação da capacidade funcional, destacamos o índice reduzido dos idosos com dependência total isso. O desenvolvimento de programas na época em que a incapacidade funcional ainda não se instalou pode permitir que a pessoa envelheça de forma mais saudável, o que irá se refletir diretamente em sua condição de saúde futura. Ao mesmo tempo, na fase em que as perdas funcionais estão presentes, mas o indivíduo se mantém independente, as políticas voltadas ao tratamento desses idosos podem favorecer as melhoras na capacidade funcional e prevenir a dependência, por meio, por exemplo, da facilitação de desempenho das atividades, do replanejamento ambiental, da potencialização das atividades remanescentes e da melhora nas condições musculoesqueléticas (CAMARGOS, M.C.S.; PERPÉTUO, I.H.O.; MACHADO, C.J., 2005).
No estudo, a associação da idade com capacidade funcional reflete a o aumento da longevidade e a maior susceptibilidade aos agravos da saúde, a assim o comprometimento da funcionalidade e independência. O maior acometimento dos idosos em relação às morbidades foi as doenças do aparelho circulatório. Pesquisas demonstram que as origens do risco de doenças crônicas, como diabetes e doenças do coração, começam na infância ou na gestação. E este risco é subseqüentemente definido e modificado por fatores como status sócio-econômico e experiências ao longo da vida (OMS, 2002).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os idosos do Lar São Francisco de Assis representam uma população extremamente vulnerável e frágil, necessitando de cuidados com a saúde multidisciplinares e interdisciplinares. Além de abrigo, a casa torna-se para os idosos que ali se encontram uma unidade de saúde de longa permanência sendo, portanto, imprescindível à discussão da implementação de políticas públicas voltadas para o idoso institucionalizado.
Ressalta-se a importância deste estudo no processo de formação discente comprometido com a busca de conhecimentos, a construção de saberes referenciados pela investigação-ação, promovido pela força do cotidiano, da conscientização, necessária para qualquer iniciativa transformadora.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIA

CAMARGOS, MCS, PERPÉTUO, IHO, MACHADO, CJ. Expectativa de vida com incapacidade funcional em idosos em São Paulo, Brasil. Rev Panam Salud Publica. 2005;17(5/6):379–86.

CID-RUZAFA, J.; DAMIÁN, M; MORENO, J. Valoriación de la discapacidad fisica: el indice de Barthel. Revista Salud Publica, v. 71, n. 2, mar. 1997.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Envelhecimento ativo: um projeto de política de saúde. Segundo Encontro Mundial sobre Envelhecimento. Madri, abr. 2002.
ROSA, T. E.C. et al. Fatores determinantes da capacidade funcional entre idosos. In: Revista Saúde Pública, fev 2003.
Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Perfil dos idosos responsáveis pelo domicílio no Brasil. Estudos e Pesquisa. Rio de Janeiro. 2002

TUOMI, K. et al. Summary of the Finnish research project (1981-1992) to promote the health and work abillity of aging workers. Scand J Work Environ Health, v. 17, p. 166-171. 1997.

GONZÁLES, O. F. Evaluación geriatrica. Revista Cubana de Enfermería. Maio-Agosto, 1995.

ILMARINEN, J. Aging workers. Occup. e Environ.Med., v. 58, n. 8, p. 546-52. 2001.

NETTO, A. J. Gerontologia Básica. São Paulo: Lemos Editorial, 1997. 78 p.

CARVALHO, J. A. M.; GARCIA, R. A. O envelhecimento da população brasileira: um enfoque demográfico. Cad. Saúde Pública, v. 19, n. 3, p. 725-33. 2003.

SULLIVAN, S. B. O’; SCHMITTZ, T. J. Fisioterapia avaliação e tratamento. 2 ed. São Paulo: Manole, 1993.
RAMOS, L. R. Fatores determinantes do envelhecimento saudável em idosos residentes em centro urbano. São Paulo. Caderno Saúde Pública. Rio de Janeiro, 19 (3), p. 793-798, maio/jun. 2003.
VERAS, R. P. Terceira idade: gestão contemporânea em saúde. Rio de Janeiro: Relume, 2002.

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