BENEFICÊNCIA DO USO TERAPÊUTICO DO CANABIDIOL COMPARADO À TOXINA BOTULÍNICA NO CONTROLE DA DOR CRÔNICA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DE LITERATURA

REIS, Ryan Lucas de Oliveira1
BEZERRA, João Lucas de Morais1
HONORATO, Gabriel Evangelista1;
Klenda Pereira de Oliveira2.
  1. Acadêmico de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte. Manaus, Amazonas.
  2. Fisioterapeuta especialista em Fisioterapia Neurofuncional, professora do Centro universitário do Norte. Manaus, Amazonas.

RESUMO

A dor é uma experiência sensorial nos tecidos que pode ser real ou potencial e leva o indivíduo a ter outras manifestações clínicas, interferindo em relações sociais e profissionais. Ela pode ser dividida em aguda ou crônica, sendo, a última, a causa de 75 a 80% dos atendimentos no serviço de saúde pública. O canabidiolé relatado há mais de três mil anos como potencial terapêutico em diversos distúrbios quando em contato com o sistema endocanabinóide, sendo a dor crônica um deles. Esta revisão integrativa de literatura tem como objetivo evidenciar os benefícios do uso do canabidiol para o controle da dor crônica em comparação com a Toxina Botulínica Tipo A. Como metodologia, foi feita a busca de artigos que abordam o uso do canabidiol, com ênfase na dor crônica, nas bases de dados Scielo e LILACS, publicados durante o período de 2015 a 2019. Como resultado, o canabidiol se mostrou mais eficaz por seus efeitos neuroprotetores, por dispensar combinações com outros analgésicos, principalmente opióides, e apresentar efeitos adversos leves. Mesmo com vários estudos sobre os efeitos benéficos do canabidiol, a divergência entre autores sobre a existência ou não do efeito psicotrópico do CBD, junto com antipatia ao assunto, é o que impede que os estudos sobre seus efeitos medicinais avancem, essencialmente no Brasil

Palavras-chave: Canabinóides; Dor crônica; Toxinas Botulínicas Tipo A.

ABSTRACT

Pain is a sensory experience in tissues that can be real or potential and leads the individual to have other clinical manifestations, interfering in social and professional relationships. It can be classified as acute or chronic, the second one is the cause of 75 to 80% of the attendances at the public health service. Cannabidiol has been reported over three thousand years ago as a therapeutic potential in several disorders when in contact with the endocannabinoid system, with chronic pain being one of them. This literature integrative review presents the benefits of using cannabidiol for the control of chronic pain compared to Botulinum Toxin Type A. As methodology, a research of articles about the using of cannabidiol was made, with an emphasis on chronic pain in the Scielo and LILACS databases, published between 2015 to 2019. As results of this research, cannabidiol proved to be more effective due to its neuroprotective effects, for dispensing combinations with other analgesics, mainly opioids, and presenting mild adverse effects.

Keywords: Cannabinoids; Chronic Pain; Botulinum Toxins, Type A

INTRODUÇÃO

A dor é uma experiência sensorial nos tecidos que pode ser real ou potencial e leva o indivíduo a ter outras manifestações clínicas, podendo até interferir em relações sociais e profissionais (KRELING; CRUZ; PIMENTA, 2006). A dor crônica é, segundo Ascenção, Lustosa e Silva (2016), o motivo mais prevalente de procura por assistência médica, o que a torna além de incômoda, dispendiosa.

Existem diversas linhas de tratamento para a dor crônica, sendo os gabapentinoides, os antidepressivos tricíclicos e os inibidores seletivos de recaptação da serotonina os primeiros; analgésicos opióides os segundos; e apenas como terceira opção de tratamento o uso de canabinóides. (ASCENÇÃO; LUSTOSA; SILVA, 2016).

A Cannabis sativa (CS) é uma espécie do gênero Cannabis, que possui mais de 100 compostos químicos – os fitocanabinóides – sendo Δ9-tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CDB) os mais conhecidos. O CDB, óleo extraído da CS, é relatado há mais de três mil anos como potencial terapêutico em diversos distúrbios quando em contato com o sistema endocanabinóide, responsável por funções reguladoras importantes no sistema imunológico e nervoso (CARVALHO et al. 2017).

O CDB é uma substância lipossolúvel derivada da Cannabis sativa que possui efeitos neurológicos através dos receptores canabinóides CB1 e CB2 encontrados no sistema nervoso central e imunológico do ser humano. É utilizado em alguns países como fármaco terapêutico em diversas doenças, sobretudo na dor crônica causada por espasticidade. Isso ocorre, pois o CDB ligado aos receptores canabinóides estimulam a adenilato ciclase, induzindo o fechamento dos canais de cálcio e diminuindo a contração muscular (ASCENÇÃO; LUSTOSA; SILVA, 2016).

Já a toxina botulínica, produto da fermentação da bacteria Clostridium botulinum, é uma importante toxina que teve seu mecanismo de ação descoberto por Emile Van Ermengen e possui oito sorotipos imunologicamente distintosDe acordo com Colhado, Boeing e Ortega (2009), a Toxina Botulínica Tipo A já possui efeitos benéficos comprovados em relação à dor e tem a diminuição de analgésicos como vantagem.

Desta forma, uniu-se o a funcionalidade o CDB e da Toxina Botulínica Tipo A às necessidades de tratamentos que diminuíssem a dor crônica e a grande quantidade de estudos acerca dos dois temas, evidenciando a necessidade de um estudo que permita analisar estudos de diferentes metodologias, integrando os diversos resultados da pesquisa. Diante disso, questiona-se: quais os benefícios do uso do CDB e da Toxina Botulínica Tipo A no controle da dor crônica?

A fisioterapia tem grande importância na melhora da saúde e qualidade de vida dos pacientes, sobretudo os conviventes com dores crônicas, nesse sentido, justificam-se neste estudo a importância do fisioterapeuta conhecer os benefícios do CDB na dor crônica e se tem como objetivo principal evidenciar os benefícios para esse fim.

REVISÃO DE LITERATURA

Dor

A dor é uma experiência sensorial nos tecidos que pode ser real ou potencial e leva o indivíduo a ter outras manifestações clínicas, podendo até interferir em relações sociais e profissionais (KRELING; CRUZ; PIMENTA, 2006).

De acordo com Guyton e Hall (2011), a dor é um mecanismo protetor e pode ser classificada em dois tipos principais: rápida e lenta. A rápida não pode ser sentida nas partes profundas do corpo, enquanto a lenta sim, ela está relacionada com a destruição tecidual e tende aumentar com o tempo.

Guyton e Hall (2011) também afirma que existem algumas substâncias que estão diretamente relacionadas coma dor por aumentarem o estímulo nervoso e a sensação da dor: bradicinina, serotonina, histamina, íons potássio, ácidos, acetilcolina, prostaglandinas e substância P.

A dor, de acordo com Bastos et al. (2007), pode ser dividida em: aguda, quando o sintoma é intenso e não persiste, e crônica, quando dura por mais de seis meses. Ela pode estar presente em diferentes faixas etária e induz respostas que se diferem em cada pessoa.

“Os processos psicológicos, assim como as experiências passadas e cultura, influenciam na percepção e resposta à dor. Em alguns casos, a mera verbalização assegura o término do processo doloroso e propicia alívio total. Portanto, a presença da dor pode ser determinada por necessidades psicológicas pessoais específicas. Esse modelo sugere que a ocorrência de dor seja modificada por processos psicológicos que agem no sentido modulador” (BASTOS et al., 2007)

De acordo com Brandão Júnior e Besset (2015), a dor crônica é a causa de

75 a 80% dos atendimentos no serviço de saúde pública. A dor crônica é, segundo Ascenção, Lustosa e Silva (2016), o motivo mais prevalente de procura por assistência médica, o que a torna além de incômoda, dispendiosa.

“Ela também é a principal causa de absenteísmo, licenças médicas, aposentadorias por doença, indenizações trabalhistas e baixa produtividade no trabalho. Desse modo, a dor constitui-se em um grave problema de saúde pública” (BRANDÃO JÚNIOR e BESSET, 2015).

Bastos et al. (2007) afirma que, se os tratamentos da dor não forem levados a sério, podem resultar em “insegurança, irritação, desânimo, ansiedade, depressão”. Podendo gerar, além do aumento do quadro álgico, aumento também nos gastos públicos com saúde.

Existem diversas linhas de tratamento para a dor crônica, sendo os gabapentinoides, os antidepressivos tricíclicos e os inibidores seletivos de recaptação da serotonina os primeiros; analgésicos opioides os segundos; e apenas como terceira opção de tratamento o uso de canabinóides. (ASCENÇÃO; LUSTOSA; SILVA, 2016).

A gabapentina e pregabalina são gabapentinoides que exercem efeitos positivos nas dores neuropáticas, pós-operatórios e epilepsia. Isso ocorre, pois ele inibe a transmissão da dor se ligando aos canais de cálcio (MAITRA et al., 2017).

Os antidepressivos tricíclicos bloqueiam a recaptura de monoaminas (norepinefrina, serotonina e dopamina), bloqueiam receptores muscarínicos, histaminérgicos de tipo 1, alfa e beta adrenérgicos, serotonérgicos diversos e mais raramente dopaminérgicos. Os antidepressivos inibidores seletivos de receptação de serotonina inibem a receptação de serotonina, resultando em potencialização da transmissão serotonérgica nas células nervosas. Essa mudança na concentração monoaminérgica nas fendas sinápticas possuem ação antinevrálgica, isso é: analgésica. (MORENO; MORENO; SOARES, 1999).

Os opióides, muito discriminados por alguns autores, podem ter vários benefícios para uma parcela da população. Eles podem ser divididos em duas classes: fracos e fortes. Os fracos são compostos com outros fármacos e possuem liberação rápida, enquanto os fortes possuem uma liberação lenta no organismo (RIBEIRO, SCHMIDT E SCHMIDT, 2002).

Cannabis sativa

Há quase 5000 anos existem registros do uso da Cannabis sativa (CS). Conhecida como maconha, a planta da família de canabiáceas (Cannabaceae) é plantada por todo o mundo e tem grande valor comercial (PACIEVITCH, 2010).

O Primeiro relato do uso da CS foi feito na China. O seu uso varia desde as indústrias têxteis e rituais religiosos ao uso medicinal. Em alguns países, como Holanda, Bélgica e alguns estados americanos já liberaram o uso medicinal da Cannabis sativa (HONÓRIO et al., 2006).

“O uso medicinal da Cannabis […] para aliviar sintomas relacionados ao tratamento de câncer, AIDS, esclerose múltipla e síndrome de Tourette (que causa movimentos involuntários). Muitos oncologistas e pacientes defendem o uso da Cannabis […] como agente antiemético, mas, quando comparada com outros agentes terapêuticos, a Cannabis tem um efeito menor do que os fármacos já existentes” (HONÓRIO et al., 2006).

Trazida para o Brasil pelos escravos, seu uso foi rapidamente difundido pelos povos nativos e demonizada pela população após a II Conferência do Ópio em Genebra, 1924. Essa demonização foi compactuada pela Organização das Nações Unidas, ONU, a qual ainda a compara com outros entorpecentes, como a heroína (CARLINI, 2006).

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), aprovou em junho de 2019 o uso do canabidiol medicinal, substância extraída da Cannabis sativa, para fins medicinal e científico (CAPOMACCIO, 2019).

Segundo Bonfá, Vinagre e Figueiredo (2008), os produtos da CS despertam o interesse do seu uso em pós-operatório, mas ainda não há comprovação da sua eficácia nessa situação.

A CS, assim como outras da mesma família, produz compostos terpenofenólicos, oscanabinóides, sendo o canabidiol(CBD) e o Δ9tetrahidrocanabinol (THC) os mais conhecidos (SMALL, E.; BECKSTEAD, H.D.,1973; CARVALHO et al. 2017).

Ambos possuem efeitos terapêuticos com propriedades medicinais e, embora o THC seja potencialmente mais eficaz no tratamento da dor, apenas o CDB é utilizado. Isso ocorre, pois, segundo Brucki et al. (2015) o CBD é o canabinóide que não possui propriedades psicotrópicas.

Bonfá, Vinagre e Figueiredo (2008) afirmam que “o fumo é o método mais conhecido e a melhor forma de administração para a CS”. No entanto, o fumo da CS tem efeitos adversos semelhantes ao fumo do tabaco. Seu uso crônico provoca alterações no trato respiratório, podendo causar disfunções como dispneia e insuficiência respiratória e seu uso crônico pode aumentar a incidência de câncer de pulmão e laringe. Os efeitos alucinógenos começam a fazer efeito nos primeiros segundos depois de fumados (PACIEVITCH, 2010; HONÓRIO et al., 2006).

“Sob o efeito do THC, os batimentos cardíacos aumentam, a boca fica seca e os olhos ficam avermelhados. Geralmente, há uma sensação de euforia, seguida de relaxamento e riso fácil. No entanto, a pessoa tem dificuldade em calcular tempo e espaço, e tem diminuída sua capacidade de atenção e memória, embora possa haver grande fluxo de ideias, geralmente mais rápidas do que a capacidade de expô-las” (PACIEVITCH, 2010).

Canabidiol (CDB)

O CDB, óleo extraído da CS,é relatado há mais de três mil anos como potencial terapêutico em diversos distúrbios quando em contato com o sistema endocanabinóide. Esse sistema é responsável por funções reguladoras importantes no sistema imunológico e nervoso (CARVALHO et al. 2017).

Ele é uma substância lipossolúvel que possui efeitos neurológicos através dos receptores canabinóides CB1 e CB2 encontrados no sistema nervoso central e imunológico do ser humano. É utilizado em alguns países como fármaco terapêutico em diversas doenças, sobretudo na dor crônica causada por espasticidade. Isso ocorre, pois o CDB, ligado aos receptores canabinóides, estimulam a adenilato ciclase, induzindo o fechamento dos canais de cálcio e diminuindo a contração muscular (ASCENÇÃO; LUSTOSA; SILVA, 2016).

Acreditava-se, até meados de 1980, que o CDB atravessasse a membrana plasmática e não atuasse diretamente em receptores extramembranares, isso porque o CDB possui uma natureza lipofílica. Após diversas pesquisas, descobriu-se que o CBD possui receptores na membrana celular, acoplado à proteína G. (ALVES, SPANIOL, LINDEN, 2012; BONFA, VINAGRE, FIGUEIREDO, 2008).

Os receptors descobertos foram dois: CB1 e CB2. O primeiro, encontrado no sistema nervosa central e o segundo no sistema nervoso periférico. O aumento do cálcio intracelular é o principal fator que faz com que os canabinóides se liguem a esses receptores e desencadeiem uma cascata de reações (BONFA, VINAGRE, FIGUEIREDO, 2008).

A adenilato ciclase é uma enzima fixada na membrana plasmática conhecida por aumentar a concentrção de cAMP no citosol, o que leva à ativação da proteína cinase A (PKA). Os receptores CB1 e CB2, quando ativos, inibem a adenilato ciclase, causando um déficit na conversão de ATP em cAMP diminuindo a ação da PKA; há a redução da fosforilação dos canais de potássio e aumento da saída destes íons nas células pré-sinápticas, provocando uma dessensibilização neuronal (BONFA, VINAGRE, FIGUEIREDO, 2008; LODISH et al., 2014).

FÁRMACOSUSO
Agonistas do CB1 periféricoEstimulante do apetite Disfunções glandulares
Agonistas do CB2Processo inflamatório perférico e dor aguda
Antagonistas do CB1Deficiência de memória Tratamento da obesidade Dependência alcoólica
Quadro 1: Ações terapêuticas dos canabinóides. Fonte: BONFA, Laura; VINAGRE, Ronaldo Contreiras de Oliveira; FIGUEIREDO, Núbia Verçosa de (2008)

Existem 4 grupos de canabinóides que atuam nos receptores canabinóides:

dibenzopiranos (CDB e THC), ciclo-hexilfenóis e aminoalquilindóis (canabinóides sintéticos) e os próprios canabinóides endógenos. Todos produzem diversos efeitos metabólicos e biológicos. Criados desde 1960, esses fármacos nunca chegaram a ser comercializados e são utilizados apenas nos estudos científicos sobre o sistema canainóide endógeno (ALVES, SPANIOL, LINDEN, 2012; LESSA, CAVALCANTI, FIGUEIREDO, 2016).

Aplicações do canabidiol

De acordo com Ribeiro (2014), o canabidiol possui diversas aplicações terapêuticas. Dentre elas: epilepsia, pressão intra-ocular, asma, dor, espasmos musculares, cãibras, ataxia, náuseas e inapetite.

Os efeitos do canabidiol começam a fazer efeito entre 30 e 60 minutos após ingerido. Quantos aos efeitos adversos relacionados ao uso do canabidiol, dentre todos, existe a dependência química dos efeitos, principalmente ao abandonar o uso de forma repentina. Essa dependência pode causar efeitos adversos secundários (mas não relacionados à abstinência), como: insônia, irritabilidade, agitação, náusea e cãibras. (PACIEVITCH, 2010; HONÓRIO et al., 2006).

Honório et al. (2006) afirma que o CBD não causa dependência física, como outras drogas, mas pode causar dependência psicotrópica, advinda do uso crônico, podendo levar ao consumo de outras drogas. Esse efeito psicotrópico é o que gera o impasse da aplicação do uso do canabidiol em terapias farmacológicas em alguns lugares do mundo.

Toxina Botulínica Tipo A

A toxina botulínica (TxB), produto da fermentação da bacteria Clostridium botulinum, é uma importante toxina que teve seu mecanismo de ação descoberto por Emile Van Ermengen e possui oito sorotipos imunologicamente distintos: A, B, C1, C2, D, E, F e G, embora a toxina botulínica tipo A (TxB-A) seja mais conhecida (COLHADO; BOEING; ORTEGA, 2009).

A TxB-A é composta por duas cadeias proteicas ligadas por ponte dissulfeto:

uma leve (zinco-endopeptidase, que causa efeitos tóxicos) e uma pesada (que causa a internalização da TxB nos terminais colinérgicos pré-sinápticos). Muito utilizada em pacientes com espasmos, a TxB-A impede a liberação de acetilcolina, por meio da ligação de degradação do complexo SNARE, na fenda sináptica e inibe a condução elétrica e, consequentemente, a contração musculoesquelética (COLHADO; BOEING; ORTEGA, 2009).

De acordo com Colhado, Boeing e Ortega (2009), a TxB-A já possui efeitos benéficos comprovados em relação à dor, pois” pode enfraquecer seletivamente a musculatura dolorosa, interrompendo o ciclo espasmo-dor”, e tem a diminuição de analgésicos como vantagem.

Aplicações Da Toxina Botulínica Tipo A

Segundo Colhado, Boeing e Ortega, (2009), a TxB pode ser utilizada em distonias musculares, estrabismo, espasmos em geral, bruxismo, dores lombares e neuropáticas. Sua utilização diminui as dores crônicas causadas por diversas patologias e, embora seja um tratamento de alto custo, a duração dos efeitos diminui a necessidade do de outros medicamentos, trazendo melhora na qualidade de vida do paciente.

METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa de literatura. O propósito desse tipo de estudo é sintetizar o conteúdo de diversos materiais e analisar criticamente as informações neles contidas (SOUSA et al., 2017).

Sousa et al. (2017) afirma ainda que, em uma revisão integrativa de literatura, há a necessidade de uma análise crítica a uma síntese de informações, mas, para isso, deve haver a delimitação de um assunto e formulação de uma pergunta. Nesse contexto, questionou-se: quais os benefícios do uso do canabidiol no controle da dor crônica? Existem aplicações terapêuticas mais indicadas?

Para a coleta de dados, foram utilizadas duas bases de dados para a busca eletrônica: Scielo e LILACS. Foi feita a busca de artigos que abordam o uso do canabidiol, com ênfase na dor crônica, durante o período de 2015 a 2019.

Foi realizada a pesquisa booleana com os seguintes descritores: Canabinóides, Dor crônica, Toxinas Botulínicas Tipo A; Importante destacar que são descritores já registrados no DeCS, Descritores em Ciências da Saúde.

Foram incluídos os estudos de livre acesso, disponíveis na íntegra e em língua portuguesa, inglesa ou espanhola e excluídos todos os artigos de revisão, guidelines, estudos que utilizaram a Cannabis sativa fumada, artigos que não eram da área da saúde e os que não respondiam à questão norteadora.

Após a coleta de dados, foi realizada uma análise crítica dos materiais encontrados e tabelados os autores, os títulos, ano, objetivos e resultados dos artigos relevantes ao estudo.

Todas as referências e nomes dos autores dos artigos encontrados foram preservados. Para que os aspectos éticos fossem mantidos, as citações e referenciações textuais usadas seguiram as normas da ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas.

A seguir, um fluxograma com os artigos encontrados nas bases de dados e eleitos para o estudo:

Fluxograma 1: artigos encontrados nas bases de dados eleitos para a revisão integrativa de literatura. Fonte: Autor (2020)

RESULTADOS

A seguir, um quadro com os artigos encontrados nas bases de dados e eleitos para o estudo:

ARTIGOAUTOR (ANO)OBJETIVOSCONCLUSÃO
1Cannabis medicinal como recurso terapéutico: estudio preliminar.GUIDA, Julia Galzerano et al. (2019).Analisar uma experiência clínicoterapêutica preliminar com alto teor de CBD.Maioria do sexo feminino, maior de 60 anos, com neuropatologias e dor crônica osteoarticular refratária à terapia.
2Uso terapêutico de produtos à base de canabidiol no Brasil: estudo descritivo, 2014–2017.MOTA, Daniel et al. (2019).Descrever as características e as condições clínicas dos pacientes que obitiveram autorização excepcional da ANVISA para importação de produtos à base de CDB em associação com outros canabinóides para uso terapêutico no Brasil.Foram 1.713 pacientes identificados, dos quais 61,7% apresentaram idade ≤ 19 anos. Os quadros de epilepsia, dor crônica e doença de Parkinson foram os códigos da CID-10 mais frequentes. Entre os produtos solicitados para uso terapêutico, 15 (57,7%) não constavam em Resolução da ANVISA.
3Madre inhaladora de canabinóides; un problema, un reto y lo que debemos considerar; reporte de un caso.VEYNAROCHA, Abraham Irishd et al. (2017).Apresentar um caso clínico e os riscos do uso da maconha durante a gravidez.O uso de maconha durante a gravidez aumenta o risco de problemas neurocomportamentais no feto. O CDB altera o sistema endógeno, fazendo com que o recém-nascido desenvolva problemas atenção, memória e uso de habilidades cognitivas.
4Mecanismos neuroprotetores dos canabinóides na isquemia cerebral e doenças neurodegenerativasOSUNAZAZUETA, Marcela Amparo; PONCEGOMEZ, Juan Antonio; PEREZ- NERI, Ivan (2015).Estudar os mecanismos fisiopato-lógicos da morte neuronal para dar continuidade ao efeito do CDB sobre esses processos.CDB influencia positivamente a recuperação neurológica em áreas afetadas pela morte neuronal aguda e crônica. Ele exerce efeito neuroprotetor por meio de diferentes mecanismos que incluem ação antioxidante e inibição da excitotoxicidade, reduzindo e bloqueando a liberação de aminoácidos excitatórios e alguns mediadores da inflamação.
5Canabinóides em neurologia – Academia Brasileira de Neurologia.BRUCKI, Sonia M. D. et al. (2015).Exercer uma posição crítica sobre o uso do CDB e outros derivados da cannabis em doenças neurológicas.O uso do CDB é indicado na falha terapêutica dos tratamentos já consagrados ou quando os mesmos apresentam eficácia insuficiente.
6Cannabis no tratamento da dor crônica não oncológica.MUÑOZ S, Evelyn (2015).Avaliar os efeitos da Cannabis no tratamento da dor crôn-ca não oncológica.canabinóides possuem papel analgésico, fornecendo uma opção terapêutica razoável no tratamento da dor crônica não oncológica em pacientes selecionados.
7Uso de toxina botulínica tipo A en el manejo de dolor crónico refractario a tratamiento. Reporte de una serie de casos.MIRANDA M, Ana Luisa; ALFARO C, Roberto (2015).caracterizar procedimentos de infiltração com TxB-A em pacientes com dor crônica refratária ao tratamento.o uso de TxB-A na dor crônica mostrou-se positive na dor crônica musculoesquelética, que permitiu controlar satisfatoriamente a dor, diminuir as crises álgicas e diminuir o uso de opióides.

Quadro 2: artigos encontrados nas bases de dados eleitos para a revisão integrativa de literatura. Fonte: Autor (2020)

DISCUSSÃO

O estudo de GUIDA et al. (2019) mostrou que os pacientes que realizaram o tratamento com alto teor de CDB tiveram resultados positivos e poucas pessoas apresentaram leves efeitos adversos (16,3%). Os pacientes que optaram por não participar do tratamento, alegaram que assim fizeram devido os altos custos e dificuldade de adquirir a cannabis medicinal.

Entre 2014 e 2017, a ANVISA teve um registro de 1.713 pacientes que buscaram obter 26 produtos a base de CDB. Esses (com média de 22anos, sendo a maioria das regiões sudeste, sul e nordeste) apresentaram, majoritariamente, os quadros de epilepsia (62,9%), dor crônica (3,8%) e doença de Parkinson (3,6%) (MOTA et al., 2019).

Mota et al. (2019) afirma ainda que a ANVISA, a fim de normalizar os pedidos de importação de produtos derivados do CDB associados a outros canabinóides, divulgou nas RDC nº 17/2015 e RDC nº 128/201 os nomes dos produtos comercializados em outros países. No entanto, 57,7% dos produtos solicitados não constavam nessas resoluções.

Veyna-Rocha et al. (2017) mostrou em seu estudo os diversos efeitos da maconha em vários sistemas do corpo humano: efeito antidiarreico, broncodilatação, bradicardia, hipotensão e posterior aumento da frequência cardíaca. No sistema nervoso o uso é relativamente contraditório, o seu uso promove a neuroproteção nas lesões agudas, mas altera funções cognitivas, de memória, comportamento e humor.

O problema se trata da maconha fumada, pois, essa tem efeitos semelhantes ao fumo do tabaco: destruição do epitélio brônquico, infecções respiratórias, aumento do muco e tosse (VEYNA-ROCHA et al. 2017).

De acordo com Veyna-Rocha et al. (2017), os componentes da maconha podem afetar o sistema reprodutor e o sistema endócrino. Essas alterações podem impedir a implantação embrionária, nas mulheres, e afetar a mobilidade espermática, no homem. Quando a gravidez acontece, os canabinóides reduzem o fluxo sanguíneo, diminuindo a oxigenação e restringindo o crescimento fetal. O estudo afirma que as crianças, nascidas, expostas à cannabis durante o pré-natal tinham córtex frontal mais expresso.

Apesar do que já foi explanado acerca dos efeitos dos canabinóides no corpo humano, ele possui diversos benefícios. A neuroproteção, segundo OsunaZazueta, Ponce-Gomez e Perez-Neri (2015), é um mecanismo pelo qual o corpo inibe a cascata imunológica e metabólica que induz um dano neurológico agudo e o CDB e outros canabinóides possuem esse efeito neuroprotetor.

Além disso, os canabinóides possuem potencial terapêutico nas doenças neurodegenerativas, o “derivado HU-211 é eficaz na recuperação motora, memória, redução do edema cerebral e reorganização estrutural da barreira hematoencefálica” (OSUNA-ZAZUETA; PONCE-GOMEZ; PEREZ-NERI, 2015).

Ele pode ser administrado de várias formas. No estudo de Muños (2015) foram apresentadas três: oral, sublingual e tópica. Todas as três apresentaram os mesmos efeitos, inclusive os adversos: fadiga, sonolência, tontura e fraqueza. Ainda assim os canabinóides mostram ser moderadamente eficazes nos tratamentos da dor crônica.

A Academia Brasileira de Neurologia emitiu em 2015 uma posição sobre o uso do CBD na epilepsia, esclerose múltipla, Doença de Parkinson, dor neuropática e cefaleia: no Brasil, os estudos acerca das interações entre o CDB e outros medicamentos ainda são escassos devido a restrição legal do mesmo. O que se sabe é que o uso terapêutico do CDB deve ser usado apenas na falha ou ineficácia de outras terapias (BRUCKI et al., 2015).

Quanto à toxina botulínica, seu efeito analgésico e independente ao tônus muscular. Ele existe, mas, para melhores resultados, é geralmente combinado a outros analgésicos. No estudo de Miranda e Alfaro (2015) é dito que o uso da Txb-A deve ser feito apenas quando a dor crônica for refratária, isto é, secundária ao diagnóstico inicial.

A Txb-A pode ser um mecanismo muito útil no manejo da dor crônica musculoesquelética, mas ainda faltam estudos que direcionem protocolos de diagnóstico e tratamento, com esse fármaco, nessas situações (MIRANDA E ALFARO, 2015).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante dos estudos apresentados, fica claro que o estigma social acerca da Cannabis sativa não é incoerente. Seus efeitos adversos, sobretudo os efeitos psicotrópicos devem ser levados em consideração ao se discutir sobre essa planta.

No entanto, é preciso destacar que, diferente da CS, o CDB não possui grande parte desses efeitos e seu uso terapêutico tem grande valor, não apenas comercial, mas medicinal. Diante dos problemas socioculturais que a dor crônica promove, é quase indiscutível os benefícios trazidos pelo canabidiol.

Em comparação coma toxina botulínica, o CDB mostra-se mais eficaz por seus efeitos neuroprotetores, por dispensar combinações com outros analgésicos, principalmente opióides, e apresentar efeitos adversos leves.

Mesmo com vários estudos sobre os efeitos benéficos do canabidiol, a divergência entre autores sobre a existência ou não do efeito psicotrópico do CBD, junto com antipatia ao assunto, é o que impede que os estudos sobre seus efeitos medicinais avancem, essencialmente no Brasil.

REFERÊNCIAS

ALVES, Audrei de Oliveira; SPANIOL, Bárbara; LINDEN, Rafael. Canabinóides sintéticos: drogas de abuso emergentes.Rev. psiquiatr. clín., São Paulo , v. 39, n. 4, p. 142-148, 2012.

ASCENÇÃO, M. D.; LUSTOSO, V. R.; SILVA, L. J. Canabinóides no Tratamento da Dor Crônica. Revista de Medicina e Saúde de Brasília, p. 255-63. Outubro, 2016.

BASTOS, Daniela Freitas et al . Dor.Rev. SBPH, Rio de Janeiro, v. 10, n. 1, p. 8596, junho, 2007.

BRANDÃO JUNIOR, Pedro Moacyr Chagas; BESSE, Vera Lopes. Dor Crônica: Um problema de saúde pública, uma questão para a psicanálise. POLÊM!CA, v. 15, n. 3, p 25-41, outubro, 2015.

BONFA, Laura; VINAGRE, Ronaldo Contreiras de Oliveira; FIGUEIREDO, Núbia Verçosa de. Uso de canabinóides na dor crônica e em cuidados paliativos.Rev.

Bras. Anestesiol. Campinas, v. 58, n. 3, p. 267-279, Junho, 2008.

BRUCKI, Sonia M. D. et al . Cannabinoids in neurology – Brazilian Academy of Neurology.Arq. Neuro-Psiquiatr., São Paulo, v. 73, n. 4, p. 371-374, abril, 2015.

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