AVALIAÇÃO DO AUXÍLIO DO KINESIO TAPING NO TRATAMENTO DE INDIVÍDUOS COM SÍNDROME FÊMORO-PATELAR

Autores:
Carlos Eduardo Alves Cardoso1, Regina C. T. Freire2, Jean R. V. Baptiste3, Aline Souza Lima4

1. Fisioterapeuta, pós-graduado em fisioterapia ortopédica e desportiva (UNICID) e graduando do curso de Medicina pela Universidade Nove de Julho/SP
2. Fisioterapeuta e Mestre, Docente do curso de Fisioterapia, UNIFIEO – Centro Universitário FIEO
3. Fisioterapeuta e Mestre, Docente do curso de Fisioterapia, UNIFIEO – Centro Universitário FIEO
4. Nutricionista, UNIBAN – Universidade Bandeirantes de São Paulo

Correspondência para:
Carlos Eduardo Alves Cardoso
Rua Marcos Marcondes 40, Jardim Audir, CEP: 06433-050
Barueri – SP
E-mail: cadumedicina@uninove.edu.br

Data da última atualização: 15/03/2009
Data do envio: 02/04/2009

RESUMO

Na literatura preconiza-se que antes de qualquer tratamento deve-se amenizar a dor do paciente, pois ela influencia na ação muscular. Na Síndrome Fêmoro-Patelar sabe-se que o desequilíbrio muscular devido à atrofia do VMO causa lateralização da patela gerando dor. O objetivo deste trabalho foi analisar os efeitos do Kinesio Taping em indivíduos com Síndrome Fêmoro-Patelar com relação à dor e ao recrutamento do músculo VMO. Foram selecionados 6 pacientes que realizaram exercícios anisométricos (concêntrico e excêntrico) nos 450 finais da extensão sem e com a Técnica Kinesio Taping. Através da utilização da eletromiografia foi observado o padrão de recrutamento das fibras musculares. Os resultados mostraram uma redução significativa da dor e diminuição do recrutamento das fibras musculares com a Técnica Kinesio Taping tanto no VMO como no VL na contração concêntrica e do VMO e na contração excêntrica.

Palavras-chave: Dor. Síndrome Fêmoro-Patelar. Kinesio Taping

Introdução

A mecânica da Articulação Fêmoro-patelar é influenciada em grande parte pelo músculo quadríceps, pela forma do sulco troclear e da patela, pela contenção devida às partes moles e pela biomecânica do quadril e do pé. O papel da patela consiste em aumentar a distância em relação ao eixo da articulação, e proporcionar uma superfície articular lisa(ao invés do tendão do quadríceps participar da articulação), e em proteger a face anterior do joelho. A função normal da patela consiste em deslizar ritmicamente no sulco troclear, aumentando a força de alavanca do músculo quadríceps. No entanto, para exercer esta função, é preciso que ele seja capaz de resistir às forças tangenciais e de compressão que incidem sobre as faces articulares (DÂNGELO & FATTINI, 2007).
Os desequilíbrios musculares do quadríceps levam a instabilidades da articulação Fêmoro-patelar, sobrecarregando estruturas do joelho, podendo levar a lesões condrais. Mesmo pequenas alterações na articulação do joelho podem afetar, profundamente, o contato Fêmoro-patelar sob carga e levar ao estresse retinacular. (FULKERSON, 1982).

Síndrome Fêmoro-Patelar

A Síndrome Fêmoro-patelar (SFP) é uma enfermidade muito comum, que afeta um em cada quatro indivíduos da população em geral (CORRÊA et al., 1996; FELDER & LEESON, 1997). A SFP resulta de um mau alinhamento da patela, ou dos mecanismos extensores, principalmente pela ineficiência do VMO, levando ao surgimento de dor e irritação na região patelar.
Na SFP, controlar a dor é um dos pontos cruciais e desafiadores, pois não há ainda consenso de suas causas e tratamentos pelos clínicos. Geralmente a dor encontra-se em região retropatelar ou peripatelar aparecendo durante as atividades, principalmente em adolescentes e jovens adultos (KANNUS, 1999; MARK, 1999).
Vários trabalhos demonstram a dificuldade no tratamento de indivíduos com SFP devido à dor persistente e a trajetória do VMO. Os tratamentos fisioterapêuticos segundo Crossley et al. (2001) incluem cinesioterapia para fortalecimento do VMO, alongamentos e uso de órteses para posicionamento com conseqüentemente alinhamento patelar, mas muitas vezes, a dor impossibilita estes tratamentos. Por esse motivo é de extrema importância o estudo de procedimentos que minimizem a dor e possibilite o fortalecimento do VMO.

Kinesio Taping

A técnica chamada de Kinesio Taping tem origem da ciência chamada Kinesiologia, e baseiam-se nas capacidades auto-regenerativas naturais do corpo. Aos músculos, além da atribuição da função de locomoção do corpo, atribuem a circulação venosa, linfática e temperatura corporal (KASE, 1994).
Através da utilização de bandas adesivas Kinesio revelou-se que as funções musculares e de outros tecidos poderiam ser melhoradas com esta ajuda externa. Pelas características apresentadas de 130-140% de elasticidade as bandas adesivas Kinesio, possuem uma filosofia de proporcionar liberdade de movimentos, permitindo a auto-regeneração do sistema muscular e evitando ao mesmo tempo alongamentos excessivos dos músculos afetados (KASE, 1994). Em seu manual Kase (1994) afirma que as Bandas Adesivas Kinesio proporcionam melhoria da contração dos músculos enfraquecidos, redução da fadiga muscular; redução da contração e da extensão excessiva do músculo, diminuição das cãibras e outros possíveis danos musculares, melhoria da circulação sanguínea e linfática, diminuição da inflamação, aumento da amplitude de movimento, normalização do tônus muscular e anomalias da fáscia nas articulações, ativação provável dos sistemas inibidor raquidiano e descendente, resultando na diminuição da sensação de desconforto do músculo e principalmente alívio da dor, levando sucesso no tratamento, no treino e na reabilitação. O princípio básico da aplicação das bandas Kinesio em músculos enfraquecidos é o de aplicar sobre o músculo afetado em posição de alongamento, seguindo a partir da origem até que este se acabe na inserção. No tratamento da dor muscular, a aplicação do Kinesio Taping é ineficaz se não se esticar a pele (KASE, 1994).
Nosaka (1997), em seu estudo realizou 2 sessões experimentais desenvolvendo várias séries de exercícios excêntricos de flexão de antebraço com um único grupo de indivíduos, uma não utilizando a bandagem Kinesio e a outra utilizando. Neste estudo evidenciou-se que a utilização do Kinesio Taping, melhorava significativamente o teste de força muscular e a dor.
O objetivo deste trabalho foi analisar os efeitos do Kinesio Taping em indivíduos com Síndrome Fêmoro-Patelar com relação à dor e ao recrutamento do músculo VMO.

Material e métodos

Estudo experimental da relação estímulo-efeito. Segundo Campana et al (2001) esse tipo de estudo analisa a relação estímulo/efeito de uma determinada técnica. Segundo o autor, neste delineamento, após a constituição do grupo, medem-se os valores das variáveis, aplica-se a técnica e medem-se, novamente, os valores das mesmas variáveis.

Sujeitos

Foi realizada a escolha de 6 indivíduos através da análise da lista de espera de pacientes, da Clínica-Escola de um Centro Universitário do Município de Osasco e alunos do curso de fisioterapia do UNIFIEO com idades entre 18 a 28 anos, que receberam informações sobre o procedimento e o objetivo do trabalho. Para a escolha dos indivíduos foram obedecidos critérios como: ter o diagnóstico de Síndrome Fêmoro-patelar, não apresentar enfermidades associadas como lesão condral e ou fraturas e não realizar tratamentos em outras instituições.

Situação

Os procedimentos para avaliação e experimentação foram realizados em um dos consultórios e ginásio terapêutico da Clínica-Escola de um Centro Universitário do Município de Osasco.

Materiais

Foi utilizado na realização do presente estudo, Termo de Consentimento livre e esclarecido (Anexo1), Ficha Individual de Estudo (Anexo2), um Eletromiógrafo Myotrac 2 com 2 sensores Myoscan, Filtro 0-200 Hz e 6 Eletrodos de superfície com 2 cm de diâmetro da marca Kendall Medi-Trace, um rolo de fita Kinesio Taping da marca PANELAST, contendo 10 centímetros X 4,5 metros, uma tesoura TRAMONTINA, álcool MEGA 92,80, um goniômetro CARCI e caneleiras de 1,2,3,4,5,6 e 7 kg CARCI.

Procedimentos
Inicialmente os 7 voluntários escolhidos foram avaliados com os testes especiais (apreensão e deslocamento da patela, compressão patelar, teste da baioneta, crepitação, Mcmurray, Compressão e tração de Apley), para confirmação da SFP e exclusão de outras patologias, sendo 1 destes descartado pelo diagnóstico de Condromalácia Patelar. Todos os 6 voluntários assinaram o termo de consentimento para a realização da pesquisa e logo após foram orientados de como marcar a dor na Escala Visual Numérica antes e depois da aplicação da técnica Kinesio Taping. Depois de definida a região para colocação dos eletrodos, foi realizada tricotomia da pele para melhor contato entre os eletrodos e a pele. A fim de obter melhor sinal mioelétrico foi realizada assepsia com álcool e, posteriormente, a fixação dos eletrodos.
Os eletrodos foram fixados perpendicularmente à fibra muscular (Figura 1), entre o ponto motor e o tendão distal, de acordo com os músculos a seguir:
• Músculo Vasto Lateral: ponto de fixação –2/3 da linha entre espinha ilíaca ântero-superior e bordo lateral da patela.
• Músculo Vasto Medial Oblíquo: ponto de fixação -80% distância da linha entre espinha ilíaca ântero-superior e o espaço articular à frente da borda anterior do ligamento colateral medial conforme a fig. 1 (OLIVEIRA, 2003).
A fita Kinesio Taping deve ter um comprimento de 30 a 40 cm e ser cortada ao meio, 6 a 7 cm na sua ponta e ser inserida sobre o reto femoral e suas pontas sobre o VMO e VL tendo forma de Y (figura 2), o músculo deve estar em alongamento para a fixação da fita (figura 3).

Foi determinada a carga geradora de dor no exercício denominada carga 2 e mais 2 outros valores: subtraindo 40% e adicionando 40% , denominada carga 3 da carga geradora de dor. O exercício era realizado partindo-se de 450 de extensão do joelho até a extensão completa na fase concêntrica e ao contrário na fase excêntrica, foi medido o pico e a média dos movimentos concêntrico e excêntrico nas 3 cargas através do eletromiógrafo, primeiramente sem e posteriormente com a utilização da técnica Kinesio Taping. Foi respeitado o intervalo mínimo de 2 minutos entre as séries.

Resultados

A análise dos resultados foi realizada confrontando os dados obtidos nas avaliações sem e com a Técnica Kinesio Taping, coletados dos seis sujeitos submetidos ao exercício pré-determinado. Os dados foram analisados considerando cada carga, tipo de contração e Escala Visual Numérica da dor, por análise estatística, empregando o teste student (p<0,05).

Os resultados eletromiográficos referentes à ativação dos músculos VMO e VL na mesa extensora utilizando-se 3 cargas com contração anisométrica concêntrica e excêntrica estão em dois momentos: sem e com a fita Kinesio Taping, e estão representados na tabela 1 e 2.

Os resultados referentes à escala visual numérica da dor antes da aplicação da Técnica Kinesio Taping e após a aplicação da mesma, estão representados na tabela 3.

Discussão

O presente estudo teve por finalidade analisar a dor e a atividade eletromiográfica dos músculos VMO e VL antes e após a aplicação da técnica Kinesio Taping, em indivíduos com Síndrome Fêmoro-Patelar, durante o exercício anisométrico concêntrico e excêntrico na mesa extensora.
Após a análise dos resultados foi possível fazer algumas considerações:
Com relação à dor, observou-se melhora da dor após a aplicação do Kinesio Taping (4,63  2,54) sem a fita e (2,70  1,49) com aplicação da fita. Esses resultados estão concordantes com o estudo de Kase (1994), Nosaka (1997) e Murray (2005) que utilizaram redução da dor. De acordo com o manual de Kase (1994) sobre Kinesio Taping, a dor diminuiu devido à ativação do sistema analgésico endógeno (raquidiano e descendente).
Na análise eletromiográfica não foram observadas diferenças estatísticas significantes quanto ao recrutamento do VL e VMO nas diferentes cargas utilizadas quando não aplicado o Kinesio Taping, tanto concêntricamente, como excentricamente.
Após a aplicação da técnica de Kinesio Taping não foram observadas diferenças estatisticamente significantes, com exceção de alguns dados que serão discutidos.
Após aplicação do Kinesio Taping ocorreu uma diminuição significativa durante a carga 1, tanto no VMO, como no VL, na contração concêntrica e na carga 1, no músculo VMO na carga excêntrica.
Esses resultados sugerem que após a aplicação do Kinesio Taping e com a conseqüente diminuição da dor, foi exigido um menor recrutamento motor, isto é, uma menor quantidade de fibras musculares trabalhando para executar a mesma função. Nas outras cargas também foram observadas diminuições no recrutamento. No entanto não foram estatisticamente significantes.
Alguns autores afirmam que o nível de atividade eletromiográfica com uma dada resposta parece ser mais dependente do grau de esforço do indivíduo, o que pode explicar esses resultados (Andrew apud ALBERT, 2002). Murray (2001) descreve em seu estudo que os pacientes relatavam um aumento da força muscular utilizando a fita Kinesio Taping em comparação ao exercício anterior sem a fita, podendo então realizar uma correlação direta da fita com a capacidade da fibra muscular.
Não há estudos na literatura que nos auxilie a buscar esclarecimentos quanto às respostas obtidas nesse trabalho. Porém, alguns estudos relatados por Fulkerson (2000) afirmam que com o uso de fitas, faixas elásticas e outros tipos de órteses diminuem a dor em indivíduos com Síndrome Fêmoro-Patelar. A explicação para isso seria aspectos psicológicos para aqueles indivíduos que estão envolvidos no tratamento. Além disso, para o autor, qualquer tipo de faixa ou órteses na região pode proporcionar uma melhor percepção no sentido de posição e melhorar a função proprioceptiva em torno da face anterior do joelho. O aumento desta sensação, nesta área, poderia aumentar a inibição reflexa de força muscular atuantes, enquanto aumenta o reflexo e o suporte tensional para a patela. Essa colocação poderia ser a explicação para esses resultados.

Conclusão

A dor após aplicação do Kinesio Taping diminuiu significativamente, sendo um grande recurso analgésico pré-cinesioterapia em pacientes com Síndrome Fêmoro-Patelar, mostrando grande praticidade.
Individualmente, em todos os pacientes, foi constatado a diminuição do recrutamento muscular, sendo significante estatisticamente no VMO e VL na carga 1 concêntricamente e no VMO na carga 1 excentricamente.
Os resultados com o uso da técnica Kinesio Taping sugere que há um aumento da capacidade funcional da fibra muscular. O paciente pode realizar o mesmo exercício com mesma carga, feitos antes da colocação da fita e com um recrutamento muscular menor.
Esses resultados são apenas preliminares e, devido o número pequeno da população, a ausência do grupo controle e poucos estudos existentes na literatura são necessárias mais investigações quanto ao uso do Kinesio Taping.

Referências Bibliográficas

Andrew, P.D. Motor unit activity under low tensions as muscle changes length. American Journal Physical Medicine, 64:8, 1985

Campana, A.O. et al. Investigação científica na área médica. São Paulo, Manole. 2001

Corrêa, J.C.F. et al. Tratamento da instabilidade Fêmoro-patelar por meio da estimulação elétrica neuromuscular associada à cinesioterapia. Revista Brasileira de Fisioterapia, 1:1, pp. 37-43. 1996

Crossley, K. et al. A Systemic Review of Physical Interventions for Patellofemoral Pain Syndrome. Clinical Journal Of Sport Medicine, 11:2, pp. 103-110. 2001

Dangelo, J.G.; Fattini, C. A. Anatomia Humana Sistêmica e Segmentar. São Paulo, Atheneu. 2007

Felder, C.R.; Leeson, M.A. O uso do Biofeedback Eletromiográfico para o treinamento do Vasto Medial Oblíquo em pacientes com dor Patelo-Femural. São Paulo, 1997. Disponível em: http://www.bfe.org/protocol/pro01por.htm. Acesso em: 15 mar 2009

Fulkerson, J. P. Awareness of the retinaculum in evaluating patellofemoral pain. Am J Sports Med, 10, pp. 147-149, 1982

Fulkerson, J.P. Patologia da Articulação Patelofemoral. Rio de Janeiro, Revinter. 2000

Kannus, P. Patellofemoral Pain Syndrome; Outcome Study Reveals Effective Treatment. Health Letter on the CDC, pp. 6. 1999

Kase, K. Manual Ilustrado das Bandas Adesivas Kinesio. Tokyo, Ken’I Kai. 1994

Mark, S.J. Patello femoral pain syndrome: A review and guidelines for treatment. American Family Physician, 60:7, p. 2012, 1999.

Murray, H.M. Effects of Kinesio Taping on Muscle Strength after ACL-Repair. Albuquerque, 2001. Disponível em: http://www.kinesiotaping.com. Acesso em: 15 mar 2009

Nosaka, K. The Effect of Kinesio Taping on Muscular Micro-Damage Following Eccentric Exercises. Yokohama, 1997. Disponível em: http://www.kinesiotaping.com. Acesso em: 15 mar 2009

Oliveira, R.F. et al. Estudo da resposta motora do músculo vasto lateral e dos componentes longo e oblíquo do músculo vasto medial em contração isométrica máxima, durante extensão do joelho. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, 11:3, pp. 63-66. 2003

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3 comentários em “AVALIAÇÃO DO AUXÍLIO DO KINESIO TAPING NO TRATAMENTO DE INDIVÍDUOS COM SÍNDROME FÊMORO-PATELAR”

  1. Renatha Campos Cabreira

    Boa tarde, estou fazendo meu tcc sobre o tema, e gostaria desse artigo. Pode me enviar por gentileza?!, agradeço desde já!

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