ASPECTOS DA NEUROBIOLOGIA RELACIONADOS À OBRA DE PAULO FREIRE

Ricardo Fernandes de Paula-fernandesdepaula@bol.com.br
Aluno do Mestrado da Universidade Federal de Santa Catarina
Instituto Granbery de Juiz de Fora – Minas Gerais – Brasil
Programa de Pós-Graduação em Eng. de Produção
Ênfase em Informática aplicada a educação
Disciplina: Teorias contemporâneas de aprendizagem

Resumo

Este artigo tem como objetivo relacionar os novos conceitos do aprendizado e memória feitos a níveis das combinações sinápticas do cérebro com as teorias de aprendizado do professor Paulo Freire.

As teorias de aprendizagem desenvolvidas e divulgadas pelo Professor Paulo Freire enfatizam a relação do sujeito com o ambiente externo, com o meio em que vive e com a tomada de consciência política e social do sujeito com a sua relação cotidiana.

Palavras Chaves: Neurobiologia-Aprendizado-Paulo Freire

Introdução

O aprendizado mantem estreita relação com dois tipos de memória, a memória explícita(aprendizado a pessoas, lugares e coisa) consciente.E a memória implícita que incluem as formas do aprendizado motor e perceptivo, não consciente.

Atualmente a tarefa mais difícil da neurobiologia do aprendizado é a de determinar como as alterações cerebrais estão relacionadas às modificações do comportamento,e a relação dos mecanismos subjacentes às alterações sinápticas associadas à memória e ao aprendizado.

Os fatores ambientais e o aprendizado poderiam exteriorizar capacidades específicas pela modificação da eficiência de vias pré-existentes.

Paulo Freire acreditava na capacidade do aluno organizar sua própria aprendizagem utilizava-se do chamado método global de alfabetização, associando a leitura da palavra à leitura do mundo. Insistia na necessidade, tanto da criança quanto do adulto, de ler o texto entendendo-o. Paulo Freire preocupou-se com a educação das classes populares. Seu método de trabalho incluía a imprensa, o desenho livre, o diálogo e o contato com a realidade do aluno.

Embora Paulo Freire não defenda o princípio da não-diretividade na educação, como faz o psicoterapeuta Carl Rogers (1912-1987), não resta dúvida de que existem muitos pontos comuns nas pedagogias que eles defendem, sobretudo no que diz respeito à liberdade de expressão individual, à crença na possibilidade de os homens resolverem, eles próprios, seus problemas, desde que motivados interiormente para isso.

Caminhos Neurais

Quais são os mecanismos neurais pelos quais essas funções são desempenhadas?
O que o organismo sabe sobre o mundo e como é que consegue sabe-lo?
Como é que o conhecimento é representado no cérebro?

“O microscópio e o telescópio abriram vastos
campos de descobertas científicas
imprevistas.Agora,que os novos métodos de
imagens podem visualizar os sistemas
cerebrais…pode estar disponível oportunidade
semelhante para o cognição humana…”
MICHAEL POSNER

A ultima década presenciou um grande interesse pela biologia dos processos mentais.A previsão e de que este interesse tenderá a aumentar .É provável que a compreensão do cérebro representará para o século XXI,o que o estudo do gene representou para o século XX.

Talvez a ultima fronteira da ciência-seu desafio final- seja a compreensão da base biológica da consciência e dos processos mentais pelos quais percebemos,agimos,aprendemos e lembramos.

Hoje podemos unificar estas questões,comportamento,cérebro,biologia e denominarmos mente ou seja é um grupo de funções desempenhadas pelo cérebro,sejam eles motores(andar ,correr e comer) ou cognitivos(falar,pensar e criar).

Artigos recentes sobre a plasticidade sináptica sugerem que existem três estágios no curso do desenvolvimento sináptico e em sua manutenção subseqüente.

O primeiro, o de formação de sinapses,ocorre primariamente nas etapas precoces do desenvolvimento e está sobre controle dos processos genéticos e do desenvolvimento comumente as interações célula-célula.

O segundo,a afinação fina das sinapses recém-desenvolvidas,ocorre durante os períodos críticos iniciais do desenvolvimento,exigindo um padrão apropriado de atividade neuronal
Que é em geral fornecido pela estimulação ambiental.

O terceiro estágio, a regulação da eficácia sináptica,tanto a transitório como a de longo prazo,ocorre diariamente durante o curso posterior da vida e é também determinado pela experiência.

Uma das implicações dessa hipótese é a de que as potencialidades para todo o comportamento de uma pessoa sejam criadas por mecanismos genéticos e do desenvolvimento atuando sobre o cérebro,Os fatores ambientais e o aprendizado poderiam exteriorizar capacidades específicas pela modificação da eficiência e as conexões anatômicas de vias preexistentes.Desse argumento segue-se que tudo o que ocorre no cérebro,desde os pensamentos mais íntimos até os comandos para os atos motores,são biológicos.

Paulo Freire e seu modo de pensar
As teorias de Paulo Freire cruzaram as fronteiras das disciplinas, das ciências, para além da América Latina. Ao mesmo tempo em que as suas reflexões foram aprofundando o tema que ele perseguiu por toda a vida – a educação como prática da liberdade – suas abordagens transbordaram-se para outros campos do conhecimento, criando raízes nos mais variados solos – desde os mocambos do Recife às comunidades burakunins do Japão – fortalecendo teorias e práticas educacionais, bem como auxiliando reflexões não só de educadores, mas também de médicos, terapeutas, cientistas sociais, filósofos, antropólogos e outros profissionais. Seu pensamento é considerado um modelo de transdisciplinaridade.
Não podemos ver a Freire apenas como um educador de adultos ou como um acadêmico, ou reduzir sua obra a uma técnica ou metodologia. Ela deve ser lida dentro do contexto da “natureza profundamente radical de sua teoria e prática anticolonial e de seu discurso post-colonial”, como no diz Henry Giroux (in Peter Maclaren and Peter Leonard, organizadores, Paulo Freire: a Critical Encounter, Routledge, 1993, p. 177). Isso nos vai mostrar que Freire assumiu o risco de cruzar fronteiras para poder ler melhor o mundo e facilitar novas posições sem sacrificar seus compromissos e princípios.
As barreiras e fronteiras estão sempre à nossa volta. Os intelectuais e educadores que ocupam fronteiras muito estreitas não percebem que elas também têm a capacidade de aprisioná-los. Nesse sentido, é preciso relevar a importância da obra de Paulo Freire em termos mais globais. Seria ingênuo considerar a sua pedagogia como uma pedagogia só aplicável no chamado “Terceiro Mundo”.
As primeiras experiências de Paulo Freire, com a educação de adultos, datam da década de 50, no nordeste brasileiro, aplicando o método que leva o seu nome, passando pelo Chile na década de 60 e auxiliando a reconstrução post-colonial de novos sistemas educacionais em diversos países da África, na década de 70. Voltando ao Brasil, depois de 16 anos de exílio, envolveu-se, na década de 80, na construção democrática da escola pública popular na América Latina. A última grande experimentação prática de suas idéias deu-se no início da década de 90 em São Paulo (Brasil), onde ele foi Secretário de Educação, promovendo a formação crítica do professor, a educação de adultos, a reestruturação curricular e a interdisciplinaridade.
Numa época de educação burocrática, formal e impositiva ele se contrapôs a ela, levando em conta as necessidades e problemas da comunidade e as diferenças étnico-culturais, sociais, de gênero, e os diferentes contextos. Ele procurava empoderar as pessoas mais necessitadas para que elas mesmas pudessem tomar suas próprias decisões, autonomamente. Seu método pedagógico aumentava a participação ativa e consciente.

Não há Docência sem Discência;
• Ensinar Exige …
o Rigorosidade Metódica
o Pesquisa
o Respeito aos Saberes do Educando
o Criticidade
o Estética e Ética
o Corporeificação das Palavras pelo Exemplo
o Risco, Aceitação do Novo e Rejeição a Qualquer Forma de Discriminação.
o Reflexão Crítica Sobre a Prática
o Reconhecimento e Assunção da Identidade Cultural
Ensinar Não é Transmitir Conhecimento;
• Ensinar Exige …
o Consciência do Inacabamento
o Reconhecimento de Ser Condicionado
o Respeito à Autonomia do Ser do Educando
o Bom Senso
o Humildade, Tolerância e Luta em Defesa dos Direitos dos Educadores
o Apreensão da Realidade
o Alegria e Esperança
o Convicção de que a Mudança é Possível
o Curiosidade
Ensinar é uma Especificidade Humana ;
• Ensinar Exige …
o Segurança, Competência Profissional e Generosidade
o Comprometimento
o Compreender que a Educação é uma Forma de Intervenção no Mundo
o Liberdade e Autoridade
o Tomada Consciente de Decisões
o Saber Escutar
o Reconhecer que a Educação é Ideológica
o Disponibilidade para o Diálogo
o Querer bem aos Educandos.
Paulo Freire no contexto do pensamento pedagógico contemporâneo
O pensamento de Paulo Freire pode ser relacionado com o de muitos educadores contemporâneos.
Alguns o comparam a Pichon-Rivière (Ana Quiroga, El proceso educativo segun Paulo Freire y Enrique Pichon-Ribière), psicólogo nascido em Genebra e que se mudou muito cedo para o Chaco argentino, tendo vivenciado, dessa maneira, duas culturas muitos distintas. Essa experiência dotou-o de um pensamento aberto, não-etnocêntrico, não-autoritário; e embora ele e Paulo Freire sigam práticas diferentes, ambos têm um ponto em comum: buscam a transformação através da consciência crítica.
Outros tentam aproximar Freire do educador americano Theodore Brameld, apontando em ambos uma similaridade de enfoque, por exemplo, a ênfase no diálogo entre educador e educando, a relação entre política e educação e a aquisição de conhecimento como fator social.
Há os que estabelecem um paralelo entre a obra de Paulo Freire e a de Enrique Dussel, um dos teóricos da Teologia da Libertação. Segundo José Pedro Boufleuer, professor da Universidade de Ijuí (Pedagogia latino-americana: Freire e Dussel) “com base na situação concreta de opressão, Dussel e Freire realizam, por um lado, a denúncia da alienação desumanizadora e, por outro, o anúncio da liberdade e dignidade do homem. Ambos os autores destacam a importância do papel do próprio oprimido na luta libertadora. Exigem, para isso, que as lideranças revolucionárias e os mestres da educação assumam uma postura confiante e dialógica em relação ao povo e aos educandos. Dessa forma, a relação pedagógica torna-se a dialética da recíproca fecundação entre educador e educandos”.
Outros ainda o aproximan do educador polonês Januz Korczak (1878-1942), que morreu com duzentos alunos numa câmara de gás nazista, tornando-se exemplo lendário de uma pedagogia centrada no amor, na autogestão e no anti-autoritarismo.
Outro grande educador, o socialista polonês Bogdan Suchodolski (1907-1992), confessou que compartilhava as idéias de Freire. Paulo Freire também nutria uma admiração pessoal por ele e o chamava carinhosamente de o “último humanista” do século.
Recebendo da Universidade de Genebra, em 1979, o grau de doutor honoris causa em Ciências da Educação, Paulo Freire foi comparado a Edouard Claparède, fundador, em 1912, do famoso Institut Jean-Jacques Rousseau de Ciências da Educação, e comparado também a Pierre Bovet que, como eles, acreditou no papel político de uma educação para a paz.
Encontramos também grande afinidade entre Paulo Freire e o revolucionário educador francês Célestin Freinet (1896-1966), na medida em que ambos acreditam na capacidade de o aluno organizar sua própria aprendizagem. Freinet deu enorme importância ao que chamou de “texto livre”. Como Paulo Freire, utilizava-se do chamado método global de alfabetização, associando a leitura da palavra à leitura do mundo. Insistia na necessidade, tanto da criança quanto do adulto, de ler o texto entendendo-o. Como Paulo Freire, preocupou-se com a educação das classes populares. Seu método de trabalho incluía a imprensa, o desenho livre, o diálogo e o contato com a realidade do aluno.
Neurobiologia,Estímulos e sua relação ao aprendizado e a teoria Freireana

Como é que a experiência altera o modo como percebemos encontros subseqüentes?
É a complexibilidade das conexões entre os inúmeros elementos que torna possível o processamento das informações complexas.

Estudos sobre a inteligência artificial mostraram que o cérebro humano reconhece os objetos de maneira que nenhum computador atual pode sequer começar a abordar.

O cérebro realiza façanhas computacionais complexas devido aos seus múltiplos componentes de células nervosas,que são ligados de modo preciso.

Igualmente notável é que a precisão dessa fiação não é imutável.
As conexões entre as células podem ser alteradas pela aprendizagem,as conexões podem ser modificadas pelas experiências.

Para Paulo Freire, Desde a tese do concurso para a cadeira de História e Filosofia da Educação da Universidade de Pernambuco, faz referências a John Dewey (1859-1952), citando-lhe a obra Democracia e educação, publicada no Brasil em 1936. Essa referência não podia deixar de existir, pois Paulo Freire era um grande admirador da pedagogia de Anísio Teixeira (1900-1971), de quem se considera discípulo e com o qual concordava na denúncia do excessivo centralismo, ligado ao autoritarismo e ao elitismo da educação brasileira. Foi Anísio Teixeira quem introduziu o pensamento de Dewey no Brasil. Como John Dewey e Anísio Teixeira, Paulo Freire insiste no conhecimento da vida da comunidade local. O que se chama hoje de pesquisa do meio deveria ser feito pelos educandos com a colaboração do professor. Paulo Freire freqüentemente diz que não se pode ensinar matemática, biologia ou ciências naturais sem se pesquisar o meio.

Mas encontramos uma diferença na noção de cultura. Em Dewey, ela é simplificada, pois não envolve a problemática social, racial e étnica, ao passo que, em Paulo Freire, ela adquire uma conotação antropológica, já que a ação educativa é sempre situada na cultura do aluno.

O que a pedagogia de Paulo Freire aproveita do pensamento de John Dewey é a idéia de “aprender fazendo”, o trabalho cooperativo, a relação entre teoria e prática, o método de iniciar o trabalho educativo pela fala (linguagem) dos alunos. Mas, para Paulo Freire, as finalidades da educação são outras: sob uma ótica libertadora, a educação deve ligar-se à mudança estrutural da sociedade opressiva, embora ela não alcance esse objetivo imediatamente e, muito menos, sozinha.

Fazendo uma analogia,Paulo Freire utiliza em sua pedagogia um conjunto de mecanismos que envolve o córtex interagindo este com o ambiente externo,as influências do ambiente em que o sujeito vive, começam a exercer efeitos gradativamente a medida que o comportamento deste se modifica.

CONCLUSÃO

A solução do problema da integração neuronal referente à neurobiologia, nos dará no futuro vislumbres sobre a atenção seletiva e a consciência humana.Mas atualmente o conceito sobre a complexibilidade das conexões entre os elementos neuronais já nos permite tornar possível o conhecimento dos mecanismos dos processamentos das informações complexas,já que as simples são facilmente identificadas no cérebro.
A teoria Freireana no que se refere ao aprendizado vai de encontro a esta busca do problema da integração neuronal, A sua teoria da codificação e da decodificação das palavras e temas geradores (interdisciplinaridade), a investigação temática, pela qual aluno e professor buscam, no universo vocabular do aluno e da sociedade onde ele vive, as palavras e temas centrais de sua biografia,a tematização, pela qual professor e aluno codificam e decodificam esses temas; ambos buscam o seu significado social, tomando assim consciência do mundo vivido. Descobrem-se assim novos temas geradores, relacionados com os que foram inicialmente levantados ,a problematização, na qual eles buscam superar uma primeira visão mágica por uma visão crítica, partindo para a transformação do contexto vivido. Nesta ida e vinda do concreto para o abstrato e do abstrato para o concreto, volta-se ao concreto problematizando-o,provam que no futuro é provável que uma introdução à base biológica da mente terá papel significativo,será uma ponte entre as humanidades e as ciências naturais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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