Aos 85 anos, morador de Pinhais se forma em Fisioterapia.

Aos 85 anos, o militar reformado da Força Aérea Brasileira Joel Joaquim de Almeida tem muito do que se orgulhar. Está entre os idosos que buscaram uma formação universitária e querem uma nova oportunidade no mercado de trabalho, mesmo sem precisar. Ele vai completar neste sábado (7) um ciclo que levou 15 anos para se encerrar. Na última quinta-feira (5), recebeu, com honra, o diplomado curso de Fisioterapia, da Faculdade Dom Bosco. Era o mais velho da turma.

O baile de formatura será realizado neste sábado. O ápice será entrar no salão do Clube de Campo Santa Monica ao som do Hino da Escola de Especialista da Aeronáutica, uma lembrança dos idos de 1964. Os primeiros acordes, afinal, são um resumo de sua trajetória. “Com os pilotos e asas seremos/Um conjunto de todo eficaz/Por mais forte o inimigo não vemos/Que possamos temê-lo jamais.”

A emoção de concluir uma graduação já era conhecida por Almeida. Em 1979, formou-se em Serviço Social, pela Faculdade Espírita.

Para o fluminense de nascimento, paranaense de coração e morador de Pinhais, na RMC, o tempo não importa. “Agora é hora de cumprir minha missão”, determina emocionado, pedindo desculpas pelas lágrimas. Evangélico de berço, define: “nunca quis ser rico. Só quero fazer a vontade de Deus e ajudar as pessoas”. Atualmente, ele atende quatro pacientes.

A história

A vontade de estudar vem de longe. E, em sua história, a busca pelo conhecimento é quase uma odisseia. O tom das lembranças é dado com o leve sotaque carioca e o brilho no olho ao se lembrar uma parte tão especial de sua trajetória. Ao fundo, velhas fotos de família. E a narrativa corre solta. Aos 9 anos, o menino de Nova Iguaçu, Região Metropolitana do Rio de Janeiro sabia o que queria da vida. Se lhe perguntassem, a resposta vinha rápida e certeira: “quero entrar para a escola de aviação.”

Chupando laranja, muitas das horas dos dias eram destinadas a apreciar o voo rasante dos aviões de guerra, em um campinho próximo de sua casa. Era época a da Segunda Guerra Mundial e Joel vivia em um país que apenas treinava homens. A fascinação – é essa é a palavra dita pelo octogenário – era olhar aqueles “monstros” verdes sobrevoando o quintal de sua casa e assustando as galinhas. Nessas horas, o menino carioca atirava flechas ao ar para atingir os rasantes.

Aos 13 anos, criou coragem e passou de observador silencioso a espectador curioso. Durante o pouso mais demorado de um dos aviões, o piloto veio lhe perguntar o que fazia ali. “Quer voar, menino?” O olhar de Almeida brilhou com a expectativa de realizar parte de seu sonho. “Não pode. É perigoso”, foi a resposta – para sua tristeza. A aventura ficou para depois, mas continuou persistente.

O “brigão”

No tempo que via aviões voarem nos céus cariocas, tinha dado um tempo da escola. Não por vontade própria, mas por causa de uma briga entre colegas. “Bati no Rubens”, conta. Na época, indisciplina era cobrada com expulsão e a certeza de que escolas do bairro não aceitariam o “brigão” nos bancos escolares.

Ficou triste, mas não desistiu. Sozinho, afinal era um tempo que ninguém tinha medo de sair às ruas, o pré-adolescente, com corpo de quase adulto, valia-se da Maria Fumaça, que saia da Estação de Nova Iguaçu, e de bondes da Ferrocarril Carioca, que cortavam os bairros do Rio, para ir de escola em escola. Batua na porta e dizia singelamente: “Quero estudar”.

A oportunidade para voltar à escola surgiu, finalmente, certo dia quando foi pedir pouso na casa dos tios, em Santa Tereza, bem pertinho dos Arcos da Lapa. Não queria mais morar tão longe. Recebeu um recado da tia Zena: estudar apenas era impossível, tinha que trabalhar também. Primeiro foi procurar a chance de emprego. Tentou em um comércio de suco de laranja, no Largo Carioca, na Rua Eduardo Toledo Franco. Nada. Seguiu em frente. Desistir não era com ele. Entrou na Rua Carioca – ali pertinho – e encontrou um amigo que buscava o mesmo.

No caminho, passaram em frente a um casarão imponente, antigo. A placa de “Escola Particular” fez Almeida arregalar os olhos. Audácia sempre foi seu forte e, seguido do amigo mais tímido, subiu as escadarias e bateu na porta. “D. Estelita – lembro bem desse nome me recebeu desconfiada. O que quer, menino?”; era a lenga-lenga que mais ouvia diante de sua audácia contumaz.

A resposta simples e irreverente de alguém que, notadamente, não tinha posses para pagar os Cr$ 5 mil mensais – pouco menos de R$ 2 na moeda de hoje – recebeu a proposta de trabalhar como auxiliar de limpeza. A tarefa seria para encerar o chão e raspar a cera com esfregões pesados e desajeitados. Seria a forma de pagar os estudos.

Nem tinha como pensar duas vezes. Aceitou e por um ano aprendeu as letras e as contas. “Sai doutor, porque quem tinha o domínio das quatro operações, sabia ler e escrever, tinha tudo”. Fez até Exame de Admissão e passei para finalizar o que seria o Ensino Fundamental de hoje no Instituto de Educação Vasco da Gama.

A expectativa

Diante de tão envergadura educacional, buscou um caminho – curto e certeiro – para entrar, finalmente, na Escola de Aviação. Era 1945 e a guerra havia acabado. O jeito encontrado foi procurar outra tia, Petronília, babá dos filhos do general Gustavo Cordeiro de Farias. O ilustre, além de militar e amigo pessoal de Getúlio Vargas, também era Diretor de Ensino do Exército, recebeu-o em sua casa depois de lhe perguntar: “O que quer eu faça por você, menino?”. Ouviu as histórias de Almeida em busca de ensino, escreveu uma carta e o recomendou para a Escola de Aviação Militar Campo dos Afonsos, em Marechal Hermes, zona norte do Rio de Janeiro, onde ingressou na Escola de Cadete do Ar dos Afonsos. Seguiu carreira; fez inúmeros cursos, entre eles o mais almejado: na Escola de Especialista da Aeronáutica, em 1964, em Guaratinguetá, no interior de São Paulo. Cumpriu seu sonho.

Mas, Almeida não parou por aí. Em 1970, entrou para a reserva como 2.º Tenente. Tinha passado por São Paulo, voltado para o Rio de Janeiro, e a instabilidade política e social da época fazia-o desejar morar em uma cidade mais calma e com mais oportunidades de ensino para os filhos. Tinha quatro.

Cidade das Araucárias e das oportunidades

Um médico seu amigo lhe indicou Curitiba, capital do Paraná, e disse que a cidade traria boas oportunidades. Novamente, para unir o útil ao agradável – o filho, Joelmir (já falecido) – queria cursar a Escola Militar – optaram para trocar o calor do Rio de Janeiro pelo frio de Curitiba. Não se arrependeu. Mais tarde, mudou-se para Pinhais.

Depois de arrumar casa e inscrever o filho na Escola Militar, Almeida correu atrás do prejuízo. Procurou – por indicação – o Colégio Tuiuti para fazer o que se chamava de Científico, similar ao Ensino Médio atual. Estava com 41 anos. Terminado o curso, o próximo passo foi se inscrever para o vestibular do curso de Serviço Social na Faculdade Espírita.

Passou e, após formado, depois de uma especialização como sanitarista, fez concurso e virou servidor público da Secretaria do Estado de Saúde. Até a década de 1980, viajou pelo estado. Chegou a chefe de seção sanitarista do Hospital Colônia Adauto Botelho, em Pinhais, região metropolitana de Curitiba. Mas, ao chegar aos 70 anos, foi convidado a aproveitar a segunda aposentadoria em casa. “Nem pensar!”, determinou. O pai de sete filhos, 21 netos e 26 bisnetos nunca foi de desistir.

Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/

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